QUOD NIHIL SCITUR

debates por abrir



Há um debate sem abrir, na Espanha e em países onde se rende culto à nação uma, indivisível, homógenea, uniforme. Em estados onde a cultura é fixa em nome da “Nação” e as línguas estão legisladas como obrigas para os cidadãos nos textos legais.

No caso espanhol, destacadamente e numa clara hierarquia, no artigo 3 da Constituição vigente desde 1978:

Artículo 3

1. El castellano es la lengua española oficial del Estado. Todos los españoles tienen el deber de conocerla y el derecho a usarla.

2. Las demás lenguas españolas serán también oficiales en las respectivas Comunidades Autónomas de acuerdo con sus Estatutos.

3. La riqueza de las distintas modalidades lingüísticas de España es un patrimonio cultural que será objeto de especial respeto y protección.

Mas, constituições, leis e obrigas, a realidade é que a língua de cultura de uma pessoa, na que lê e na que se exprime por escrito, privadamente, ou com os que decide escolher como grupo, pode não ser a mesma que aquela que o Estado exige para lhe reconhecer a cidadania e para a comunicação administrativo-institucional. E, não apenas, a sua língua de cultura pode também não ser na que fala, ou mesmo nenhuma daquelas nas que diariamente se exprime oralmente.

Um dos feitos mais pavorosos da quebra nacional com a língua é que a língua oral dos galegos não se corresponde há centos de anos com a escrita. E com a alfabetização maciça no decurso do século XX houve simplesmente uma consolidação também maciça da substituição. Até fins dos anos 80, em que a escolarização em galego – deficiente – permitiu abrir um espaço à língua culta em galego a dissociação entre língua oral e língua de cultura (escrita, uso público, institucional, académico…) era gritante.

Uma das grande ficções do Estado espanhol, e destacadamente uma muito constante no nacionalismo espanhol (e que daí passou ao galeguismo isolacionista) é a da adequação, facilidade e comodidade da ortografia da Real Academia Espanhola à oralidade e para reproduzir a oralidade. O mito constante de que a língua escrita reflete e deve refletir no possível a língua falada. Como se não existisse uma tradição escrita prévia e umas pautas de alfabetização transmitidas por gerações.

Em tempos de pluriculturalidade e globalização essa “adequação”, ou quando menos a identificação “natural” deveria ser questionada. E para além, é por causa disso, dessa identificação como objetivo, que um dos grandes fracassos – o Mário Herrero diria sucesso propositado – da planificação linguística da “restauração” da Língua Galega na Galiza foi a ausência de campanhas a sério de re-alfabetização. Sem elas é impossível que se produza a identificação entre a língua oral e a de cultura.

Agora, e visto em positivo, o que é um fracasso social do isolacionismo linguístico é porém uma vantagem para a acultaração futura em Português… em havendo vontade e meios. Mas primeiro haveria que desterrar esse errado proceder do nacionalismo linguístico espanhol e galego: esquecer o “dever” social de cidadania e fixar o objetivo de alfabetizar, no “privado”, à gente na Galiza em Português.

Por enquanto – e sem a posta em andamento da Lei Paz-Andrade – é lógico que a mais da gente que lê e escreva, leia na língua de cultura que têm ou na que têm hábito e possibilidades.

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza (Corunha, 1970). Formado como filólogo, especializou-se e publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. Colabora também no Novas da Galiza, é sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa. Trabalha, como bibliotecário na Universidade de Valhadolid (Espanha).


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  • Heitor Rodal

    Com efeito, essa dissociação entre fala e escrita é historicamente mais norma na Galiza que o contrário. Eu diria mesmo que a língua oral dos galegos não se corresponde há milhares de anos com a escrita… como mínimo, desde a chegada dos romanos por estas terras e tirado talvez o excepcional paréntese medieval.

    E, por cima, seica antes dos romanos nem sequer paravam muita atenção para isso de escrever.. so, let’s kill their myths! 😉

    • Ernesto V. Souza

      Pois… XD XD… metam os seus mitos e objetivos no cu… nós temos os nossos e podemos ter outras outras interpretações e outros objetivos e caminhos divergentes…

  • potanonimomain

    O que se conseguiu coa política isolacionista é que a maioria dos galegos pense que o galego, fóra da Galiza, nom vale rem. Uma mágoa que nom se poida olhar ao mundo lusófono, coa normativa oficial.
    E despois, vém Feijoo dizindo que co galego podeste comunicar com 250 milhões de perssoas e nom fai nada pra cumprir com essa iniciativa, mais bem todo o contrário. A norma da RAG é uma cuestiom política, polo tanto, a sobrevivência dessa norma está bastante ligada co goberno que estea a mandar na nossa comunidade autónoma.

    • ranhadoiro

      Muito bem aproveitado o do Feijó, num vídeo da AGAL

  • ranhadoiro

    Como sempre Ernesto, uma achega excelente.
    Primeiro metes o ferro na forja, bem temperado bates nele sobre a bigorna (numa das minhas várias aldeias dizem safra), depois começas a preparar uma boa relha, para semear a leira que é Galiza. Que ótimo mestre ferreiro é o senhor. Cumprem agora lavradores

    Que bom lembrar -que o da naturalidade da escrita do castelhano, “ela tão acaída”, e o fruto da nacionalização feita com a escola-.
    Por exemplo eu, a medida que me insiro mais e mais na cultura da grafia histórica da minha(nossa) língua, sinto a cada passo, como verdadeiramente desajustada aquela escrita -castelhana- para exprimir a nossa alma coletiva de povo, -a língua-, e a sua realidade ortofônica.

    Sempre me espantei com nacionalistas galegos, porem bem balizados no seu -de galegos- (especialidade regional) por Castela/espanha, que ficam assombrados quando todos os lusófonos rejeitam com nojo a escrita -more or less- do seu “sermus regional” à castelhana, quando com ela pretenderem ser recebidos.

    Por isso sei, que quando algo disso, se passa por algures, por exemplo na CPLP com -instituições xunteiras- estamos ante uma mostra clara de que o demo não deixa de dar a sua cauda, e que castela/espanha age, apara garantir que a barreira da raia estatal não for saltada por nenhum espanholito, e que a cosntrução de um mundo na Galiza centrado e por tanto fora da órbita central peninsular, for travado.
    Por isso ferreiros como tu produzem as ferramentes para pularmos por cima dessas barreiras

    • ranhadoiro

      vou repetir uma anedota já alguma outra vez contada

      O melhor de todo foi um dia que tinha uma conversa com uma das nossas figuras literárias e intelectuais de muitos lustres…que me acabou dizendo, “eu não entendo como Portugal não escreve como nós, tal como se fala (sic), além disso a nossa escrita é muito mais racional” (sic) e estava convencido que tudo era decisão livre dos galegos e galegas.

      Que sucesso faz a escola, a propaganda, e como dizia Talcott Parsons -os imperativos categóricos- é dizer o pau bem manejado

      Como dizia o rei Juan carlos -o espanhol, nunca a nadie se le impuso. igual que franco com a monarquia, nunca a nadie se la impuso

    • Ernesto V. Souza

      obrigado

    • potanonimomain

      Hai que fazer coma os cataláms, eles nom seguem o sistema de escrita da Real Academia Española. Uma proba disso é que eles escribem Catalunya, nom Cataluña.

      • ranhadoiro

        No território sob castela/espanha, Isso da RAE como modelo, só é seguido por asturiano e galego xunteiro. Os resultados estão às vistas de todos. (por ex.os dous baniram o j, letra que só pode ser pronunciada como em castelhano…porquee ele segue sendo o rei

        Nas normas do asturiano da ALLA 1981, temos perfeuto direuto, mas nas AMESTEDURES do 83, dizem, para não dificultar dado que o castelhano é rei, todos os …de antes passam a perfectos, directos..etc etc

  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Com efeito, é preciso explicar-nos bem, alfabetizar-nos e um processo constituinte galego que nos coloque na normalidade cultural e democrática que, sem dúvida, merecemos.

    • Ernesto V. Souza

      um processo constituinte galego…normalidade cultural e democrática,,, isso soa muito bem… 😉

  • Maria Dovigo

    Fico com a reflexão inicial, a necessidade de abrir este debate “em países
    onde se rende culto à nação uma, indivisível, homogénea, uniforme.” Essa alfabetização de que falas é também uma alfabetização de conceitos e narrativas fora dos marcos estatais espanhóis e da relação binária Galiza-Espanha. O que a minha
    experiência individual de galega em Portugal me tem mostrado é que afinal isto
    que vamos conversando é mais do que uma questão de língua. A minha necessidade
    de questionar essas conceitualizações de “cultura fixa”, como tu dizes, pensada
    “a bem da nação”, persistem apesar de se expressarem numa língua que
    identifico como sendo também minha. Faz-me pensar que mais do que políticas
    linguísticas aqui debatemos política, sem mais, e não só em cenário estatal espanhol.
    O reintegracionismo tem uma identidade e uma vocação que vai mais além de fazermos opções gráficas.
    Parabéns pelo artigo e obrigada pelo convite a abrirmos debates.

    • Ernesto V. Souza

      pois… é aí onde – acho quero ir – mas nem sei como… nem como dizer, nem debater, nem por onde arriscar o discurso… há sombras na minha cabeça, ideias tomadas de cá e lá que vão construindo fragmentos… mas sim algo diferente disto tudo…

    • Heitor Rodal

      Maria, com efeito. Essa vocação também lha intuo eu. Na minha opinião tem a ver afinal com a dignidade das pessoas, daqui, dalá e dalém.

      Saúde.