Da política ‘de facto’ à política ‘de jure’

ou de como o sapateiro de Braga falava também de língua



 

sapateiroHouve em tempos um sapateiro filósofo em Braga que se tornou famoso pelas suas expressões, uma de uso comum em Portugal que tem a ver com a ideia de igualdade, a ausência de discriminação ou de favoritismo, diz assim: “ou há moralidade ou comem todos”.

Toda uma declaração de princípios em que se pode incluir neste caso que “a bola está do vosso lado”, do lado de quem não carrega com esse problema, mas tampouco usufrui das vantagens de ver o mundo com óculos lusófonos. Falemos claro, o galego está a ir mal não está? Ok, nós estamos cá pra ajudar (olha que até nunca nos fomos a outro lugar!). E trazemos connosco um pendrive novinho em folha e cheiinho de propostas.

Falamos mais uma vez da proposta binormativa da AGAL, que em síntese procura a aceitação por parte do governo das duas normas gráficas em uso -a atual grafia autonómica e a atual grafia comum (ou portuguesa)-.

Vamos a isso!

Já de início parece conveniente mostrarmo-nos nem que seja por motivos éticos (sejamos ou não da parte discriminada atualmente) em favor de acabar com o atual apartheid que discrimina falantes por causa da grafia que usam para reproduzir a sua língua.

Para além de linguistas, profissionais ou apaixonadas pela língua (ou por ciências referidas a esta), a língua interessa a todas e usa-se, sim, utiliza-se, à margem de isto tudo para o assunto primordial, comunicar e expressar a própria identidade.

Cada um com a sua.

Escreve como queiras pois a língua é tua, como é minha.

É vossa, como é nossa.

Acabou a história dos “donos” privativos da língua.

Dos amos da verdade. Acabou o moralismo, a beatice.

Constantino is dead, Filgueira dead, Fraga also is dead. Acabou o franquismo-galeguismo.

Entendes?

Entedes. Também eu.

Atualmente as pessoas que usamos a grafia comum somos dentro do País um número significativo, muito ativo e culturalmente relevante, mas escrevemos duma maneira que oficialmente “não existe”.

Um grupo diverso mais interessante ainda se analisarmos quem são, por que escolhem fazer parte, e que modelo de língua estão a utilizar muitas das novas falantes.

A AGAL propõe unir forças galeguizadoras desde a aceitação da diversidade atual tornando oficial de jure aquilo que de facto já é uma realidade: que há duas grafias em uso e que isso não gera maiores dificuldades a falantes de um ou outro modelo…

Deixarmos atrás a negação oficial das dissidentes.

Aceitarmos a existência de um número nada desprezível de falantes que usamos a grafia portuguesa será um novo avanço em comum para todas, até (ou sobretudo) para as oficialistas.

Em que é que podemos ajudar?

A modo de exemplo iremos lembrar uma charge do grande Luis Da vila em 2016.

davila280916

Do ponto de vista oficialista os desenhos animados modernos que não saírem na TVG são factores que criam futuras falantes de castelhano.

Ora, perguntem a uma pessoa lusista!

De certeza que têm alguma por perto….. Ela contará-lhes que a Porquinha pepa, o Pocoyo, Ben & Holly os Pijamasks ou a Dora aventureira são “o melhor” de ter Internet em casa, são os “novos heróis” dos seus filhos. Com eles aprendem português, aprendem a falar melhor galego e sentem que a sua língua é “tão boa” como a castelhana.

Os desenhos animados em português são os nossos aliados.

pocoyo

pepa

Escrever podes escrever como queiras, isso é o que nós sempre defendemos, mas quando fores consumir em castelhano (porque não encontraste conteúdos ou produtos em galego…..) antes pergunta a um lusista! Um qualquer desses que tenhas por perto… Nós já temos postos os óculos lusófonos de tempo atrás, podemos ajudar naquilo que precisarem.

Esta proposta de aceitar as duas grafias, de reconhecimento legal dos gays da fala, das lesbianas da língua, poderá chegar a bom porto em qualquer momento, mas precisará da ajuda das pessoas que utilizades o galego autonómico, dos que sodes heteronormativos.

Sim, as nossas convivências são um facto mas não são ainda reconhecidas de jure. O matrimónio português de seres da mesma norma tem de ser também legal no nosso País.

Isto,….peraí, alguém falou em dificuldades legais?

Não encontro quais poderá trazer aceitar mais uma grafia, sobretudo quando olhamos para realidades como a atual edição do DOGA (Diário oficial da Galiza) em “português”, “galego” e ”castelhano” e verificamos que isto não levantou nem levanta qualquer problema para a administração, muito menos para as pessoas.

Voltemos ao início da nossa história.

Deixemos, para todo o sempre, bem fechada a moralidade franquista no baú da história.

É este um clamor sossegado: “Ou comemos todas ou há moralidade”.

igualdade

Luís F. Figueiroa

Luís F. Figueiroa

É licenciado em Filologia Portuguesa (Estudos portugueses), professor e ativista da língua. Atualmente é membro da AGAL.
Luís F. Figueiroa

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  • Venâncio

    Caro Luís,

    Eu bem me esforço por compreender, mas não consigo. Deve haver aqui um mal-entendido de fundo, e concedo desde já que possa ser meu.

    Creio não forçar demasiado a nota se supuser que a sua mensagem é esta: «Poderes da Galiza, é bom que admitais como galego este texto que aqui escrevi. E porquê? Porque eu me limitei a trocar de grafia. Sim, grafia, essa palavra que aqui usei 8 vezes».

    Pois bem, eu creio que é a mensagem errada. Que aquilo que Você tinha em mente não era “grafia”, mas outra coisa, essa que lhe saiu uma vez, uma única vez: “modelo de língua”.

    Bom. E que modelo de língua é este, o do seu texto? Não é um modelo galego de língua, mas uma imitação (boa, muito boa até, sinceros parabéns) do modelo de língua português europeu.

    Mas, sendo assim, temos de perguntar-nos por que falou Você então 8 vezes em “grafia”… Eu lanço uma hipótese.

    Falando repetidamente em “grafia”, Você imaginou poder dourar a pílula. De modo que quem o lê (os amigos, os conhecidos, os apoiantes, os reticentes, os opositores, o Poder) seja levado a pensar: «Oh , isto de Binormativismo é só, só, só uma questão de… grafia».

    Mas não é. Não é uma questão de grafia, mas de modelo de língua. Você próprio o lembra, afinal.

    Deixemo-nos, pois, de lérias. Luís. Eu posso ler um Xavier Alcalá (para citar um insuspeito) em grafia portuguesa e num modelo galego de língua. Isso é jogo aberto. Isso são cartas na mesa. Isso é frontalidade. Nada deste calculismo, nada destas dourações da amargosa pílula, a ver se eles não reparam, a ver se eles engolem.

    E pronto. Agora fico eu à espera de ver o Luís com uma proposta reintegracionista de Binormativismo às claras, como pelos vistos é possível, e talvez mesmo desejável: uma grafia portuguesa num modelo galego de língua.

    Fique bem.

    • luiz

      o meu modelo “galego” de lingua é este.
      Sou galego,
      uso a língua comum,
      escolho livremente qual registo usar.
      Quer goste o sr, quer não,
      quer goste o ILG quer não.
      Pronto.
      Reclamar a liberdade de escrever português na Galiza, seja brasileirizado, lusitanizado, enxebre, urbanizado ou individualizado num determinado tipo de escolhas é reclamar direitos humanos.
      Que é o que não entende da defesa de direitos universais tais como o direito a não ser discriminado por questão de identidad https://uploads.disquscdn.com/images/3234b861a1ccdbc8b8b42ec610248292e29247956bfb23cf37b4b3fdd6545492.jpg e?
      Se tivessemos que continuar à espera de que outras pessoas, quer seja um ilustre Rag-member, quer um ilustre lusitanista qualquer onde é que fica a identidade individual?
      o sr. defende um modelo?
      muito bem, utilize-o, promova-o.

      O sr quer impor um modelo aos outros?
      isso aí é que não!

      Ou isso ou apenas alguns “galegos” puros que usem a “língua galega ortodoxa” poderão ser dignos de tal nome. Já conhecemos esse percurso e aonde leva.

      Jogar a ganhar é aunar todas as forças e sensibilidades, não apenas aquela que coincidir com um determinado posicionamento ideológico e de identidade.

      De todas as maneiras muito obrigado pelo seu comentário

      A foto é de Gramatica Pratica da Lingua galega, Baia edicions

      • luiz

        Pra concluir eu sou unicamente uma pessoa individual sem cargos diretivos ou poder algum, não tenho de “propor” nenhum acordo “binormativista” ou o que for.

        A AGAL lançou esta campanha e pede publicamente opiniões favoráveis.

        Eu apenas fiz (/fixem se gosta mais) este contributo.

        Saudações
        Luís F.

        • luiz

          Gramatica Practica da Lingua Galega, Baia edicions . Feita por pessoas que tomam a sério a língua . Por vez primeira os “desvios” não são “interferências” estrangeiras
          Pequenos passos no rumo certo.

          https://uploads.disquscdn.com/images/9899da63d2298e8ebf0d0f1ce5e2ff04ff03019319b1e0df93852d03882cecda.jpg

          • Venâncio

            Luís,

            Vejo que passou três comentários a defender a sua opção por um modelo de língua “lusitanizado”, quando poderia, diz, ter-se servido dum modelo de língua “brasileirizado” ou “enxebre” ou “urbanizado”.

            Talvez lhe tenha escapado que eu lhe propunha um modelo de língua simplesmente galego, e acredite que, mesmo ele, permite muita feição individual.

            Vc é jovem, escreve aqui para muita gente, teria oportunidade de mostrar que se pode ser inequivocamente galego, independentemente da grafia (da grafia!) adoptada.

            Mas admito que não saiba fazê-lo. Ou que não se sinta, nisso, ainda suficientemente à vontade. Nesse caso, será bom que o aprenda, que o pratique, que o mostre a quem sabe fazê-lo. Enfim, Vc saberá como fazer.

            Mas se quiser imitar-nos a nós, portugueses, óptimo. Eu também saberia exprimir-me como se fosse brasileiro. Mas veja que perda de tempo isso seria. E como nunca eu o faria de modo a ser tomado a sério.

            Sim, a escrita nasce de dentro. Numa liberdade imensa. Mas de dentro. E eu suponho que o seu “dentro” não é, como diz, lusitanizado.

          • luiz

            Caro Venâncio. Vou tentar explicar de uma outra maneira. Criei-me em português, da Turma da mônica ao Tio patinhas, do Homem-aranha ao Surfista prateado. Aprendi a ler em espanhol e português na mesma casa, com as mesmas pessoas, com livros em todo semelhantes. Também em “galego escolar”, é evidente.

            O português comum, que na sua opinião, parece ser privativo de quem nasceu dentro dumas determinadas fronteiras, é parte da minha identidade e da minha infância.
            É mais, tive a sorte de morar em variados ambientes rurais e urbanos da Galiza e conhecer pessoas de todos os âmbitos económicos e culturais. Também morei uns tempos em Lisboa e tive a sorte de poder estudar português na universidade. Isto permite-me tirar certas conclusões sobre a língua.
            Mas qualquer conclusão que eu dizer sobre o que é a língua da Galiza, qual deve ser o modelo de língua ou como criar condições sociais para regenerar a língua e melhorar as condições culturais e materiais dos habitantes é discutível e pode estar errada. É melhorável. Tem hipótese de estar errada ou existir uma outra melhor.

            Mas isso é um assunto diferente da própria identidade. Quando o senhor se permite julgar o meu modo de escrever ou tentar corrigir questões da minha expressão que tem a ver com a minha identidade mais profunda (eu acho que faz isto porque não concorda com a sua ideologia) esta a violentar uma outra pessoa, talvez por desconhecimento ou por incapacidade ou pouca empatia.
            O senhor é que sabe, mas não é um bom método de contacto amigável ir dizer-lhe aos outros como têm que ser, como devem expressar as suas ideias ou que identidade podem ou não podem utilizar.

            Fique à vontade para expressar o que quer que queira, mas permita-me que lhe solicite que não fale de aqui para a frente de como eu escrevo, penso ou falo. Fale, se faz favor, daquilo que o senhor pensa, mas não fale de mim nem da minha expressão.
            Muito obrigado

          • Venâncio

            Luís,

            Se entendeu que eu lhe quis impor um determinado modelo de língua, desculpe, entendeu mal. Eu não falei de como “deveria” escrever: falei de como “poderia” escrever.

            O tema do seu texto é uma defesa do Binormativismo na Galiza. Ele é, de cima a baixo, essa defesa. E eu, se bem entendo a proposta do Binormativismo, julgo que ela implica que, na Galiza, qualquer texto escrito em galego, seja em grafia Rag, seja em grafia Reintegracionista, deve ter os mesmos direitos e as mesmas oportunidades.

            Em Portugal, um texto meu escrito em português brasileiro não tem, e é natural que não tenha, os mesmos direitos e as mesmas oportunidades.

            Ora bem, veja do que Vc fala. Fala insistentemente de “português”, e agora, nesta conversa comigo, fala insistentemente em “identidade”, e que a sua identidade tem vários elementos “portugueses”. Eu penso que exactamente isso tem um efeito desfavorável numa defesa dum Binormativismo Galego, e que deve, sim deve, mostrar que é, e se manterá, Galego.

            Eu acho que, neste contexto, jogar a cartada portuguesa é, como dizeis, jogar a perder.

          • Venâncio

            Luís, Vc fala em “língua comum”. em “português comum”. Isso é um constructo ideológico, que nenhum contacto tem com a realidade do mundo.

            Dou de novo o exemplo. Se, em Portugal, um português envia a um jornal para publicação um crítica dum livro, mas escrita em sintaxe brasileira, em semântica brasileira, em ortografia brasileira, em fraseologia brasileira, o texto não é publicado, e nunca será. Não há léria de “língua comum” que ajude. O mesmo acontece vice-versa no Brasil.

            É natural que uma revista galega negue publicação dum texto dum indivíduo galego, mas escrito em morfologia portuguesa, em léxico português, em fraseologia portuguesa. E seria infantil fazer uma birra por causa disso.

            O Binormativismo na Galiza só terá chances se se mantiver galego.

          • luiz

            Bom, agradeço que as suas palavras passem a falar de estratégias e de propostas concretas que o senhor acha serem as mais convenientes.

            Não são as minhas, porém acho muito respeitáveis.

            O discurso é conhecido, de velho, deste lado da raia.

            Diz mais cousa menos cousa:
            Enquanto não mudarmos as “formas próprias”
            e o nome da língua não se tocar seguirá sendo “galego legítimo”.
            Pois.

            Eu sou doutra linha e acredito noutros percursos e noutras velocidades.

            Sobretudo acredito mais do que nada em que a opção de maior sucesso é dotar a um numero significativo de pessoas as plenas competências em Português “comum” (ou português “habitual” se preferir).

            Elas, não eu, ou ninguém no seu nome, escolherão o quanto se achegar, ou não, ao português PT ou a certas formas do português BR pra configurar uma verdadeira NURC galega no futuro que desejem passar a utilizar.

            A missão da nossa geração é do meu ponto de vista oferecer recursos (todos) e possibilidades (todas) a esses novos galegofalantes com plenas competências num registo culto da língua.

            Posso estar errado?
            Desconheço. Sei que cada pessoa deve contribuir ali onde se achar mais útil e eu tenciono contribuir a mudar , nem que for um bocadinho, as cousas pra melhor.

            Os seus argumentos não são de um único individuo, pois representam na Galiza um grupo de opinião, tal e como os meus.

            Como configurar uma estratégia comum de galeguidade havendo vários posicionamentos?

            Associando-se em coletivos de defesa da língua e participando cada um com o seu contributo.

            Ficam pois aqui ao meu ver explicados claramente alguns dos posicionamentos.

            Permita-me deixar a seguir um texto para a reflexão por se for de interesse:

            Eu num assunto não acabo de entender certos portugueses.
            Não percebo como a fala de um minhoto pode ser português (se quiser “regional”) mas “português” na mesma e pelo contrário a mesma pessoa defender que os galegos temos interdito o uso do mesmo nome para a nossa fala.

            (Pra mim a fala minhota dos velhotes é praticamente galego. A fala dos velhotes do Gerês ou de Chaves é pra mim galego mesmo)

            Porque “português do Brasil” ou ” português dos Açores” é ótimo
            mas “português da Galiza”
            é impossível,
            um erro,
            um disparate
            ou um extremismo?

            Recuperarmos um nome da lingua que também é nosso (afinal o afonso henriques era um gajo galego, não era?)
            não provocará nem a invasão galega do minho nem a intervenção militar portuguesa na Galiza.
            Simplemente é um nome. Poderoso.
            Tão poderoso no mínimo como o de espanhol (ou castelhano?)
            Eu gosto até de como soa

            Português
            da
            Galiza

            Eu por mim fico por aqui, tenho por costume responder a todos os comentários aos meus artigos mas não vejo para onde mais pode ir esta conversa. Se o senhor responder de novo peço-lhe que não fale “para mim” de maneira a ter que responder eu de novo.
            Eu já respondi da melhor maneira que soube, espero ter ajudado a clarificar aquilo pelo que o senhor perguntava.

            Grato sinceramente pelo seus ultimos contributos.
            Cumprimentos
            L.

          • Luis Trigo

            Caro Luís,
            Para um mirandês, Afonso Henriques seria e poderia falar leonês. Porque será um bocado inexacta a terminologia português da Galiza em comparação com o Minho, Açores ou Brasil? Minho e Açores fazem parte da administração portuguesa, as falas do Minho foram tidas em conta na reforma ortográfica de 1911, por exemplo. Em que medida as falas da Galiza foram tidas em conta para o AO90, uma vez que esse é um dos seus critérios técnicos? Depois, a língua do Brasil teve como base o colonizador português.
            Porque pode ser adequada a terminologia galego de Portugal ou do Brasil? Porque a origem da língua é galega, não é lusitana ou moçárabe.
            Mais importante ainda, enquanto os galegos não assumirem auto-estima plena, (ultrapassar o auto-ódio vai para além da diferenciação em relação ao castelhano) terão muita dificuldade em afirmar-se nessa tal lusofonia… o primeiro passo será assumirem o galego, essa língua que legaram a portugueses e brasileiros até à actualidade…
            De resto, todos somos livres de escrever e falar como queremos. Tinha uns vizinhos que falavam um português de França que incluía palavras como “carrotas”. Haverá também um francês de Portugal cuja grande referência era o Mário Soares ou o Espanhol de Portugal com os seus conelhos e as suas piontes.
            Saúde!

          • Venâncio

            PARA RECORTAR E ENCAIXILHAR;

            «Enquanto os galegos não assumirem auto-estima plena, (ultrapassar o auto-ódio vai para além da diferenciação em relação ao castelhano) terão muita dificuldade em afirmar-se nessa tal lusofonia… o primeiro passo será assumirem o galego, essa língua que legaram a portugueses e brasileiros até à actualidade».

            Boa, caro Luís Trigo! A mim nunca me ouviram. Mas que bom que o ouçam doutro também.

          • Luis Trigo

            Meu caro Fernando Venâncio, eu até compreendo como essa aparelhagem reluzente do português que vem nas revistas pode ser sedutora e até redentora. É certo que faz parte do passado e do futuro da língua na Galiza. Não é certo que recorrer a expedientes precários para a aproximação com a galegofonia contribua para essa aproximação. Pelo contrário, pode afastar. Os portugueses já viveram muito tempo com baixa auto-estima… Um sucedâneo será sempre um sucedâneo, e por aí a grande mais-valia do galego e o que lhe dá prestígio é mesmo ser o original. Mas pronto, é apenas mais uma para a minha lista de perplexidades…

          • Venâncio

            Caríssimo Luís Trigo,

            Nos nossos debates aqui com galegos reintegracionistas, convém estarmos conscientes de que não poucos deles são “activistas”. Eles falam do idioma, mas ele é, na perspectiva deles, um mero pretexto. A língua será aquilo que mais adequado se provar (ou prometer ser) para as suas “estratégias”.

            Umas vezes é mais “estratégico” chamá-lo “galego”, outras “português”, outras “português da Galiza”, outras “galego internacional”, e até já o vi chamarem-no “acordo ortográfico”. Num artigo de certo académico da AGLP, pessoa em destaque, contei eu certa vez sete ou oito designações da língua dos galegos.

            Para nós portugueses (e certamente para si e para mim) é fonte de eterna perplexidade constatar como o nome de galego para o idioma é usado com pinças.

          • Ernesto V. Souza

            Mas a questão é: a quem interessa e, francamente, para que interessaria determinar se um texto é português, brasileiro, ou galego?

            Que importância tem? que valor intrínseco faz ganhar ao texto ou à opinião?

            Que importância, que função, que interesse teria marcar ou procurar uma marcação de galeguidade ou de portuguesidade nos textos?

            Orgulho nacional?… bom, mais isso não concede um passaporte… 😉

          • Venâncio

            Ernesto:

            As tuas perguntas não fazem para mim qualquer sentido. Um texto é brasileiro, ou é português europeu. É por sê-lo que ele tem aquela função, ou pode, pelo contrário, falhar a função pretendida.

            Nisto não há nada de “portuguesidade” ou de “brasileiridade”. Nada há aqui de essencialista.

            Mas parece que, quando se trata dum texto galego, surgem problemas metafísicos.

          • Ernesto V. Souza

            Os passaportes são qualquer cousa menos metafísica…

            Com os textos passa como com o vinho. Há uma determinação de origem… mas cada vez os viticultores experimentam mais, procuram matizes e voltas e a gente gosta mais desse se diferenciar e dos vinhos de autor.

            Os tempos mudam, a elaboração dos vinhos galegos também… 😉

          • Venâncio

            Repara no texto seguinte, extraído dum livro publicado:

            «Saí no meio da noite, pelos fundos, como quem vai ao banheiro, enquanto todo mundo dormia. Esperei que todos tivessem se recolhido. Achei muita sorte que não tivessem me visto».

            Num de dois países, o Brasil ou Portugal, este texto tem uma função. Isto é, funciona. No outro país, não.

            As coisas são assim. Nada complicadas. 😉

          • Ernesto V. Souza

            Eu percebo o texto e não sou português, nem brasileiro. Até podia ter escrito… *?

            * Se eu fosse um escritor.

            p.s. Parece Neira Vilas…

          • Venâncio

            Não se trata de ti, Ernesto Vázquez Souza, por interessante pessoa que sejas, e és. Mas a tua reacção é eloquente.

            Na verdade, existe um país, o Brasil ou Portugal, em que este texto FUNCIONA como comunicação. No outro, esse texto é fonte de RUÍDO, de perplexidade. Não serve.

          • Ernesto V. Souza

            já… mas a cousa é que NA GALIZA funcionam todos… nada é RUÍDO… é galego…

            Temos desgraçadas imperfeições mas também as vantagens da plasticidade e da flexibilidade…

          • Luis Trigo

            Caro Ernesto, até pelo mote deste texto é fácil inferir que as vantagens da plasticidade e da flexibilidade na Galiza estão bastante condicionadas. Por favor, pensem melhor antes de responderem face a enunciados mais ríspidos. Não têm de calar. Não basta fugir em frente para chegarem a algum lado. Cada vez que o fazem estão a queimar os vossos próprios argumentos, como os grandes mercados lusófonos e até a existência de um apartheid.

          • Ernesto V. Souza

            Prezado senhor,

            Infelizmente, não compreendo nada do que me querem dizer. E acho que o Luis e os mais dos que cá escrevemos também não.

            Serão as minhas (nossas) limitações. Mas acho que não percebemos – eu quando menos não percebo – nem de que estão a falar nem que é que os preocupa tanto…

            saúde,

            https://youtu.be/Yh9hCLSgEJ8

          • Luis Trigo

            Prezado Ernesto, por isso falamos a mesma língua, para nos desentendermos melhor. Capelinhas e futebois XD

          • Venâncio

            Pergunto-me, sinceramente, se fazeis bem em manter e difundir essa imagem do Reintegracionismo, algo, não se sabe bem o quê, em que tudo serve, em que noções como critério, disciplina, ordem, não fazem qualquer sentido, algo que pessoas exigentes não poderão tomar a sério.

          • Ernesto V. Souza

            hom, Fernando, comprenda… somos galegos… são cousas de Celtas… 😉

          • Venâncio

            Eu conheço galegos para quem critério, disciplina e ordem fazem sentido. E não são poucos. Alguns até são reintegracionistas.

          • Ernesto V. Souza

            Seguro que são galegos-galegos? 😉

            Mire que o refraneiro e a poesia popular advertem à contra dessas sobervas prusianas…

          • Venâncio

            Entre as singelezas do refraneiro e as soberbas prussianas, há todo um mundo de racionalidade e de convivência.

            Arre, que é preciso vir lembrá-lo!

          • Ernesto V. Souza

            Fernando… eu fui desde início crítico e contrário às duas grandes campanhas estratégicas propostas pelo Conselho e afirmadas pela Assembleia AGAL. Tanto a questão da norma vale-tudo quanto o binormativismo… porém na minha condição de observador tenho de dizer que funcionam, que conectaram como nunca antes nenhuma mensagem nem discurso, com a gente nova e com o ativismo.

            E poderíamos dizer de tantas outras propostas rechamantes e aparentemente absurdas do reintegracionistas da última década… funcionar funcionam… O reintegracionismo entrou no discurso, ou o discurso último do reintegracionismo é proa.

            Bem é verdade que poderíamos dizer, como Ulisses… Troia Capta… agora é que começam os trabalhos… 😉

          • Venâncio

            Caro Ernesto,

            Eu não sei o que pode valer uma afirmação como ” O reintegracionismo entrou no discurso”, sabendo nós a enorme indefinição que o reintegracionismo é.

            Mas, isso sei eu bem, é preciso ler-vos como quem lê o discurso de crentes.

          • Ernesto V. Souza

            Fernando, eu sou ateu e céptico… não acredito no que digo, vou acreditar no que digam outros…

            Entrou no discurso e como parte do discurso institucional e para-institucional: Parlamento Galego, Xunta, Consello da cultura galega, RAG, CIG, Mesa… lusofonia por cá, português por lá, galego internacional por acolá, nunca tal se ouvira…

            Qualquer dia o ILG surpreende-nos com uma Gramática… enxebremente galega, continuista, mas e verdadeiramente reintegracionista. Tempo ao tempo… 😉

          • Venâncio

            Deverias ser realmente céptico e assumir que mesmo sem o reintegracionismo essa linguagem entraria em circulação. Mas não, tu QUERES acreditar, como os crentes das seitas que cochicham: “Olha eles já falam em nós. Aleluia!”

          • Ernesto V. Souza

            Posso assumir… de feito posso verificar como realidade e que é algo no que levo apostando e dizendo desde o início, que o Status Quo vai virar reintegracionista… sem os reintegracionistas… e mesmo sem que isto afete ao reintegracionismo …

          • Venâncio

            Ernesto.

            Constróis uma imagem do futuro que, a meu ver, NADA hoje indica que venha a concreiizar-se. Mas possivelmente é a única imagem de futuro que os reintegracionistas podem construir.

            Sempre que vos perguntei sobre qual é o cenário de Galiza em que vos sentiríeis realizados, nunca me destes resposta. Provavelmente não tendes ideia nenhuma a esse respeito.

            Só que a imagem que constróis permite-te duas coisas.

            Primeiro, desde já gastar todo o teu completo desprezo pelo outro lado, que é o sentimento dominante nos reintegracionistas, Odiar o outro lado sabei-lo como ninguém.

            Depois, permite-te não tomar iniciativa nenhuma numa aproximação entre galegos, já que o outro lado vai acabar por ser igual a vós.

            Tudo isto é dum cinismo a toda a prova. Cinismo. Sim, também nisso sois muito, muito bons.

          • Ernesto V. Souza

            E dá-lhe com outro lado. Não há outro lado. Eu estou a lhe repetir de início (há mais de 10 anos) que (como nas vinhetas aquelas de Castelao) o ÚNICO inimigo que eu considerei e considero sempre é o Cacique.

            Ninguém pelo feito de usar um outro dilalecto galego ou outra norma escrita (contemporánea, geográfica, arcaica ou moderna de mais) vai-me resultar antipático, nem alheio. É mais sempre me será de início mais próximo que qualquer outro ser humano.

            Mas, eu não tenho interesse em atrair nos espaços reintegracionistas caciques. Nem tratar com eles, pessoalmente. Eles entram, eu saio… Só é isso, apenas isso. Eu sou ninguém e dedico o meu tempo livre nos meus hobbies.

            O resto… eu limito-me a fazer e a escrever como eu considerei pessoalmente e como cheguei a considerar mais prático e melhor dada a ausência de instituições e tradições coletivas que eu pudesse considerar válidas, escrevo para construir o meu modelo e deixo fazer, nem me importa convencer ninguém de nada… a gente chegará onde e quando considere, possa ou saiba… polemizo muito pouco… e só com amigos ou com gente com quem me mais ou menos entendo.

            E para acabar… por que essa exigência para os neo-falantes serem fieis a modelos que as suas mães, pais e avós desbotaram?

            Por que os que tivemos contato com farrapos parciais e diversos de galego (familiar, oral, escrito) teríamos que escolher como modelo esses restos?

            E por que nesses casos não poderíamos incorporar outros fragmentos orais, escritos de qualquer parte da Lusofonia?

            Há acaso instituições que definam o caminho e os modelos?

          • Venâncio

            “Restos?” Tu chamas ‘restos’ a Ferrín, a Rivas. a Alcalá? Para muitos compatriotas teus, eles são MODELOS: oferecem um caminho, uma forma, uma alternativa.

            Não estamos, claro, a falar de ortografia. Estamos a falar de modelos de língua.

            Eu, se fosse brasileiro, tentava aprender com Rubem Fonseca, com Bernardo Carvalho. Como sou falante de português europeu, aprendo com Mário de Carvalho, com Hélia Correia.

            Mas tu vens logp com histórias de caciques. Parece que viveis só em cenário de conflitos, que outros não conheceis, que outros não quereis até. Nunca se pode falar convosco, que não estejais em pé de guerra. Já cansa. Já chega.

          • Venâncio

            Estou a exagerar. Tanto aqui como no Facebook falo e debato com reintegracionistas mais saudáveis de espírito. Que felizmente os há.

          • Ernesto V. Souza

            bom… eu cansei-me do facebook há bastante… não me compensava tanta gente desagradável…

          • Ernesto V. Souza

            hahahahahaha…. vai ser agora que eu não conheço os nossos autores ou os nossos clássicos… eu… hahahahahahahahahahah

            Por isso mesmo posso dizer. Não conformam um conjunto. São restos diversos e não homogéneos. O mesmo que a oralidade.

            Pode-se, com um esforço de anos ir apanhando e colecionando. Mas isso… é um esforço de anos.

            enfim…

          • Venâncio

            É sempre o que dizeis. Ainda é preciso fazer. Ainda não há nada de aproveitável. No futuro, ah, no futuro… Por enquanto, só há uns restos.

            Mas que grande e motivadora mensagem tem o Reintegracionismo!

          • Ernesto V. Souza

            Pois é a mesminha do hino galego… e a mesminha de Ferrin, Otero, Lugrís, Castelao, Cabanillas, Murguia,…

            A mesminha mensagem que figura como desafio no prólogo dos Cantares Gallegos de Rosalia…

          • Venâncio

            Na realidade, começo a ficar um bocado farto das tuas reacções sempre, sempre centradas na tua magnífica pessoa. Se te apresento duas frases alternativas em português, dizes que as entendes. Se lembro autores clássicos galegos que vos podem servir de modelo, dizes que estou a sugerir que não os conheces. É sempre o casual senhor Vázquez Souza que se sente atingido. Não existe realidade objectiva fora dessa excelsa pessoa. Assim não tem graça, não tem sentido nenhum.

          • Ernesto V. Souza

            Tem razão. Mas tal não pretendo. Apenas trato de o informar. Não quero ser cansativo a falar de mim.

            Há centos de galegos/as com um conhecimento proveitoso da literatura galega atual, contemporânea dos clássicos e dos medievais… e até os há com boa escrita.

            Partes (nem tudo era – nem é – asequível ou encontrável ou conhecido) serviram de modelo a novas gerações, entre elas a minha. E essa procura descoberta construia a língua, aos poucos, com muito tempo; e era boa porque aqueles textos dalgum jeito ligavam-nos com a língua, com a história, com as gerações antepassadas, com o entorno familiar, com os espaços da infância, ou com tempos idealizados da existência de um coletivo.

            Porém para muitos neo-falantes atuais essa via já é apenas a da história. Não os conecta com nenhuma realidade, com nenhuma lembrança familiar, com nenhum hábito ou prática de leitura moderna, com nenhum espaço memorístico que identifiquem com pátrias ou com sonhos.

            Para a mais da gente nova, que quer porém recuperar a identidade nacional pela língua, essa tradição só tem sentido como espaço simbólico, não como modelo formativo, como prática ou elemento de consumo habitual… essa gente tem de procurar outras fontes e outros modelos práticos… e isso é legítimo, tanto como o que fazíamos os velhos.

            A convivência intergeneracional, pensamentos e formas de escrita, estilos, hábitos é que vai desenhando o caldo… longe de purismos. Uma língua não se constrói com soflamas… acontece, vai acontecendo como percurso geológico.

          • Luis Trigo

            Caríssimo Fernando Venâncio,
            A mim não me faz impressão o activismo como princípio, pelo contrário. Também será da sua experiência a modelação académica de verdades convenientes para servir activismos mais oficiais, mais carreiristas. O que me faz impressão é que esse activismo de bases não se prepare contra esses outros activismos de topo, que lhe sigam os mesmos vícios, sem contarem com os mesmos recursos materiais. Tenho visto nos últimos tempos demasiadas verdades alternativas com custos demasiado elevados… Estou convencido de que um activismo informado será mais forte, menos propenso a criar atritos e anti-corpos dentro e fora de casa. Mas deve ser esta minha veia idealista… Até compreendo as necessidades de imprimir matizes, mas negar a própria denominação de origem? Fico sem palavras. E a partir daqui entrar-se-á em jogos argumentativos e imagéticos vácuos… Está tudo bem, não se passa nada…

          • luiz

            Estimado Luís Trigo, para afirmar que o Afonso Henriques era galego baseio-me em três factos que considero são verdadeiros:

            1.-Um facto tem a ver com a própria família do tal independentista:

            O avô “Emperador” Afonso VI e a mãe “Rainha” D. Tareija que recebeu do seu pai o condado para casar com o Henrique da Borgonha eram galegos. O condado de Portucale era parte do Reino da Galiza e Portugal apenas passou a existir como Reino após a rebelião do Infante Afonso Henriques com a mãe por causa de (morto o pai francês) ela ter uns outros acordos com o Fernão Peres de Traba (se quiser, “o padrasto”, também outro galego).

            2.-Se não existia como tal Portugal mas sim o Reino da Galiza os habitantes do minho e Trás-os-montes (não fique assustado) eram “galegos” tal e como os brasileiros eram portugueses até a independência do Brasil.Se isto ofender qualquer nacionalidade atual, eram no mínimo pertencentes ao Reino da Galiza e galegofalantes (Miranda do Douro fica um bocado distante de guimarães).

            3.-As traduções das crónicas árabes são muito claras ao respeito: “Afonso Henriques esse infame cão galego”.

            Tudo parece indicar que leonês é que ele não era…

            A respeito de como ajudar aos galegos para que a língua sobreviva a norte do minho, onde está ameaçada, ajudem naquilo que puderem e coincida com a sua ideologia.

            Aqui ninguém tem (toda) a verdade, e com certeza toda a ajuda de boa fé que não venha impor novos tetos/teitos de cristal aos galegofalantes são bem-vindas

            Obrigado pelo seu comentário

            L.

          • Luis Trigo

            Caro Luís,
            Será isso dos afonsinhos tão importante? Até muito mais tarde os portugueses viveram numa matriz cultural galega antes de se preocuparem em construir a sua narrativa de nacionalidade. Em relação a ajudar a língua para lá do Minho, um português de boa fé apenas vos pode mostrar como funciona esta máquina por dentro. Se quiserdes utilizar os tectos de cristal do imaginário português é por vossa conta e risco. Mas nem sequer foi em relação a isso que produzi o meu comentário. E este último comentário apenas vem reforçar sobre o que pode ser considerado galego e português.
            Discordar em quê então? Um abraço!

          • Venâncio

            Luís,

            Não é que faça mal nenhum, mas dá-me impressão de ser a primeira vez que Vc atenta em mim. Vou-me, pois, apresentar.

            Sou um nascido em Portugal, no Alentejo, tendo passado toda a adolescência em Braga, onde aprendi bem o que há 60 anos era “português do Norte”, e que hoje praticamente desapareceu. Depois formei-me em Linguística pela universidade de Amsterdam, onde vivi 50 anos, sendo factualmente bilingue.

            Desde muito cedo, 1975, interessei-me pelo galego, até hoje, em que estou a escrever uma História dele, inclusive o momento em que em Portugal adoptou um nome adequado ao país. O livro sairá no Outono.

            Desde 2004 estou ininterruptamente em debate com galegos no PGL, e publiquei na Galiza e fora dela vários trabalhos sobre a história do nosso idioma. Sou, profissionalmente, um historiador da língua. Na Galiza fiz várias conferências a convite de reintegracionistas e de autonomistas. Publiquei uma vintena de ensaios sobre o idioma, bastantes deles com uma versão para o PGL, e ouso pensar que alguns tenham interesse actual.

            Fiz há cerca de 10 anos uma proposta pública para o aproveitamento sistemático e racional pelo galego do léxico português, e publiquei em Portugal um ‘dossier’ sobre a Galiza, para que convidei alguns reintegracionistas.

            Frente ao reintegracionismo, sempre escolhi uma postura solidária e crítica. Alguns reintegracionistas apreciam-no, e tenho muitos e bons amigos no sector. Para outros sou um indesejável, que muito desejariam que se calasse duma vez por todas.

            Digo tudo isto porque Vc assinalou ter eu passado a “propostas concretas”. Pois bem ,desde há 15 anos que venho aqui fazendo propostas concretas, para alguns bem-vindas, para outros nem tanto assim.

            A minha perspectiva habitual é histórica. Estudei mais a fundo e publiquei sobre os 3 séculos (1420-1730) em que, em Portugal, o castelhano foi língua de prestígio, alimentando em catadupas o léxico e a fraseologia do português. Se Vc encontrar o meu artigo “O castelhano como vernáculo português” (Cáceres, Universidad de Extremadura), aproveite, pois aí faço a síntese dos meus trabalhos.

            Também estudei os lusismos do espanhol, recentemente para uma publicação da universidade das Canárias. O meu cálculo é que por cada lusismo no espanhol existem 60 (ou mais) castelhanismos no português. E é de caras que uma aproximação galega ao português, feita sem critérios firmes, acarretará uma maior castelhanização do galego culto.

            Tenho a impressão de que a maior parte destas questões lhe diz muito pouco, Luís. Vc vive no plano das estratégias, da mensuração das vantagens de dar à língua da Galiza outro nome, de conseguir que um grande número de galegos aprenda o português. Eu acho óptimo que o aprendam. Mas não me faço a mínima dúvida sobre a pouquíssima valia “estatégica” disso, num contexto de fortíssimo domínio do espanhol.

            Por fim, eu gostaria de que houvesse mais portugueses sintonizados com estes temas, mas vejo que é difícil interessar os estudiosos pela Galiza e pelo galego. Fico feliz por haver finalmente um, o Marco Neves, que enceta uma carreira prometedora. Precisamos de dar-lhe atenção.

            Fique bem.