D. Afonso Henriques, de José Mattoso (II)

José Mattoso: O quadro de partida do nascimento de Portugal de Afonso Henriques



D.Afonso Henriques, de José Mattoso1. (II)

 

a) A Construção da nação:

Afonso Henriques, personagem carregada tão de sentido”…”Afonso Henriques…Miticamente apresentado como o fundador da nação. O facto de ter sido o criador do estado (não no sentido moderno, mas no sentido de organismo político que permite, a partir de 1143 falar de Portugal como um país independente) imprime-lhe um sentido que transcende a sua personalidade individual”

Como se sabe mesmo nas formulações mais simples, a ideia de nação surge de alguma maneira investida de valor eterno, por tanto sagrado”2.

De facto a memoria colectiva da nação foi-se constituindo muito mais através desses processos (mitos) que através de conhecimento de verdadeiros factos históricos”3.

Temos um facto na sua apresentação, Portugal (nação) é por cima de qualquer cousa, a construção dum homem Afonso Henriques.

O quadro do nascimento do reino de Portugal, é a sociedade Feudal, que Mattoso descreve muito bem, mas que logo na sua paixão de continuo vai esquecer, ao inçar com perspetiva nacional moderna o que naquela altura não o era.

Na Sociedade feudal da altura, o reino, não representa nunca uma nação nem nada parecido, é uma propriedade do rei onde este exerce o seu domínio, e como tal é reconhecido, que pode dividir, partir, emprestar, dar, transmitir, como qualquer outra propriedade.

O tipo de laços que unem os súbditos com o rei, são dos mais diversos, assim como o rei pode estar submetido também a outros poderes que ache por cima. Afonso Henriques já reconhecido como tal na sua plena autonomia pela cúria imperial – a corte de Afonso VII-, ainda que sem usar o nome de rei, mas exercendo como tal, presta vassalagem a Afonso VII imperador em Tui em 1137, é dizer aceita feudalmente a Afonso VII como imperador, sem que isso suponha nenhum desmérito ou minoração da condição de reino de Portugal, e do que ele está construindo.

O reino de Afonso Henriques não tem repartição das finanças (como diz Mattoso) nem cobra impostos, nem impõe normas, em muito baixo grau, como fazem os reinos medievais que na altura há por todo lado na Europa.

Ser rei é muita cousa e a vez e muito pouca cousa, pois muitos senhores podem ter tanto poder como o rei e dispor da sua plena autonomia.

De facto a ideia duma cabeça lugar da corte permanente do reino ainda não existe, pois realmente o lugar central do reino, ele está lá onde o rei andar, seja, nos seus paços e nas suas herdades e com súbditos que lhe dão serviços por serem seus servos. Ou nos paços e herdades de aqueles senhores que feudalmente são seus vassalos.

É a liderança guerreira, e o negócio4 da guerra, o elemento chave para a liderança real. E Afonso Henriques nisso teve sucesso, sucesso que foi acompanhado e abençoado sempre por quem fornecia os reconhecimentos e a aparelhagem ideológica da época, e Igreja, e no caso de Portugal, a sua cabeça, Braga.

O primeiro e mais longo dos capítulos da obra, chama-se “A juventude dum predestinado”

Logo de se passar nos bicos dos pés, sobre a polêmica levantada na derradeira década do século XX sobre o verdadeiro lugar berço de Afonso Henriques, que Mattoso não encerra categoricamente, como sim faz Barroso da Fonte na sua bem documentada e muito apaixonada obra, D. Afonso Henriques 900 anos5, na que afirma a inquestionável realidade de Guimarães como localidade berço do Pai fundador da Pátria.

Afonso Henriques nasce, em 1109, ainda que das fontes se poderia inferir que isso houvesse tido lugar no 1110 ou 1111, Porém isso a Mattoso supõe, e assim o afirma, que Afonso Henriques na batalha chave de São Mamede andasse na casa dos 15 ou 16 anos, demasiado novo para ter liderança de tanta transcendência nessa batalha, que vai estar está na origem do reino.

Afonso Henriques era filho de Henrique de Borgonha e de Teresa, filha bastarda do rei da Galiza6, Leão, Castela e Toledo, Afonso VI7, e originária por parte de mãe e pãe no Berzo8

Henrique de Borgonha estava submetido a Raimundo de Borgonha, quem fora casado com a filha legítima e herdeira de Afonso VI9, e a quem estava destinado o reino da Galiza.

Henrique de Borgonha tinha as responsabilidades da Galiza na sua estrema sul, no que era o antigo condado portucalense, constituído no Porto no 868, e suprimido pelo rei Garcia10 após a batalha do Pedroso em 1070. E nunca mais restabelecido como tal.

Mattoso aceita no seu livro que o Condado não existia em polo menos três citações11. Isso era óbvio, mas como isso põe uma questão historiográfica de altura, pois para a história se diria que Portugal e a consolidação de uma realidade pre-existente, a do condado portucalense transformado por maduração social em reino. O resultado é que para o próprio Mattoso a realidade do Condado está sempre presente em todo o que vai escrevendo. Se Afonso Henriques nem uma só vez na vida usou o título de Conde de Portucale, mão foi por não sê-lo e sim por estimar em muito a sua dignidade e não querer com o título de Conde rebaixá-la.

Tampouco foi conde de Portucale, Henrique de Borgonha o pai do nosso primeiro rei.

Morto Raimundo de Borgonha ( 1107) -da sua mesma nationis- e a quem estava submetido, Henrique de Borgonha não fica tranquilo nos seus (presumidos) domínios, e no seu paço de Guimarães com a sua esposa dona Teresa, se não que se traslada a corte de Afonso VI em Toledo. No ano de 1108 é expulsado da corte pelo rei irado contra ele. Segundo Mattoso é provável que uma vez expulso, se traslade a Borgonha12

Em 1109 morre Afonso VI, e pouco depois aparece por Guimarães e na altura parece que vai enfrentar revoltas na estrema sul do reino. Em Coimbra a volta faz uma donação ao mosteiro de Lorvão13.

Ele desloca-se a corte de Urraca, filha e herdeira legítima de Afonso VI, a quem o seu pai no último momento impõe um matrimónio com o doido rei de Aragão Afonso o Batalhador.

Em 1110 está Henrique de Borgonha em Aragão. Henrique vai estar quase que permanentemente com Afonso de Aragão, e menos ao lado da rainha Urraca, e nos enfrentamentos que vão decolar entre esta e o doido rei da Aragão, seu marido, (não reconhecido pelo Papa), Henrique vai lutar primeiro ao lado do rei de Aragão e depois pela rainha em diversos lugares, incluído o cerco e batalha ao rei de Aragão em Carrion. Isso vai ser pagado pela rinha Urraca fazendo-lhe entrega das vila de Astorga e Samora.

Que sentido teria essa entrega de essas vilas de importância não muito grande, além de ter sido Astorga cabeça de convento na Galiza romana, a quem se supõe, por Mattoso (e muitos outros) que era cabeça/conde do poderoso Condado de Portugal.

Estando em Astorga em maio de 1112 Henrique de Borgonha falece. Deixa viúva a Teresa que ainda não chegou aos trinta anos e um filho que na melhor das hipóteses tinha 3 anos.

O nosso futuro primeiro rei, vai ser educado por um aio (Egas Moniz) e sob o cuidado e supervisão de Paio Mendes bispo de Braga, com quem vai estar sempre, até durante o desterro do bispo.

O papel do bispo, José Mattoso, reconhece-o mas não o eleva, pois isso vai contra a “construção social da nação- pelos poderosos homens de Portugale”, pondo por cima o Aio. Mas aí tem um problema a historiografia e o historiador, Egas Moniz tem poses em muitos lados, mas parece do apuramento dos dados ser ele do norte do Rio Minho, de Toronho, Como isso faz problemas ao seu construto, como veremos passa nos bicos do pés, e a cousa fica em que não está clara a origem do aio.

3.- A Luta Portugal – Galiza

Eis o que diz Mattoso, e que vai ser fonte constante de problemas e contradições com seu esforço sistemático por apurar bem os dados, que partem da seguinte declaração que é para ele tautológica:

Há um enfrentamento entre duas realidades distintas que são Portugal e Galiza: “ Parece claro que se verifica um processo de evolução rápida a partir dum estadio caraterizado por uma certa indefinição inicial, mas que de presa se transforma como consequência da evidente oposição de interesses entre portugueses e galegos14

O conflito Compostela Braga, pela condição de primaz da Galiza, pelo controle das dioceses Lusitanas, conflito bem duro de Gelmirez – Paio Mendes, para Mattoso representa um conflito entre portugueses e galegos. E aí aparece um problema não menor e que em várias ocasiões põe Mattoso de relevo, que é que na documentação da altura o termo galego e conflituoso pois tanto o usam os do norte do Minho como os de Portugal.

Mattoso para resolver o problema recorre a um artifício, “Os galegos vinham do além-Minho15 da Galiza” e aos outros quando necessário de acordo a documentação chama de galaicos, e ao território de Gallaecia, para afirmar assim um contraste, mas nunca de galegos, indivíduos diferentes e com os que era impossível o entendimento.

Mattoso no seu trabalho honrado fornece múltiplos dados do enfrentamento de Braga com Compostela, mas sempre tirando isso do centro do problema, pois Mattoso, assume duas cousas: Portugal constitui-se numas fronteiras que são as que separam galegos e portugueses, o Minho, e essas fronteiras para ele tem um caráter mágico que determinam de forma inapelável a condição dos que estão ao um lado e ao outro desse limes.

Quando Afonso Henriques tenha atividade ao norte do Minho, que teve bastante, e Mattoso fornece os dados, como líder e como Rei, tanto fazendo doações a mosteiros como reclamando o submetimento a ele dos senhores de Toronho e a Límia (e não só) territórios que foram do condado portucalense desde a primeira hora; -porém esse dado não aparece nem se cita, pois supõe discutir fronteiras que para Mattoso estão inscritas em pedra por Deus mesmo-, e todo se volve num conflito feudal, e não no que realmente aparece, e vai ser leit motiv do reino constituído16, para que as suas fronteiras pelo norte sejam as do velho condado de Portucale. Ele nesse tema fala como um Sanchez Albornoz17.

Tampouco aparece nunca 18, que Braga pouco a pouco e além da diocese de Compostela e alguma outra cousa, acabou não sendo só primaz de Portugal, por ser a cabeça da Galiza, se não que continuou sendo a cabeça religiosa da maioria das instituições religiosas da Galiza, do território da Galiza romana incluído Leão, e que isso se manteve assim até que após a batalha de Toro (1476) de Castela frente as tropas portuguesas de Afonso V, a Galiza é submetidas pelos reis chamados católicos a sangue e lume em longa guerra terrorista, ela bem longa desde 1476 ate 1489, e é daquela quando a Braga se lhe retira todo domínio sobre assuntos religiosos na Galiza que não constituiu Portugal, e passa a depender a Galiza de Castela, de onde vão vir os cargos religiosos que exerceram nela os seguintes 450 anos.

Notas

1https://www.wook.pt/livro/d-afonso-henriques-jose-mattoso/196811

Sinopse do livro, que figura na sua contracapa:

Personagem oculta por inúmeras e sucessivas camadas de interpretações ideológicas, quer eruditas quer populares, a figura verídica do nosso primeiro Rei só muito hipoteticamente se pode reconstituir nas suas dimensões históricas. O mito sobrepõe-se, teimosamente, à história. Mas pode-se tentar descobrir como nasceram as narrativas tecidas em torno da sua personalidade, examinar o sentido que tinham quando apareceram e reconstituir os sucessos de que Afonso Henriques foi protagonista principal. Se não é possível traçar-lhe o retrato preciso, pode-se, ao menos, estudar as suas orientações políticas e administrativas, conhecer os seus principais auxiliares e justificar o êxito da sua obra. Apesar de assim desaparecer o herói sobrenatural, toma inegável relevo o seu talento político e militar e, por conseguinte, o seu direito a ser de facto considerado o rei fundador de Portugal.

2Introdução página 19, primeiro parágrafo

3Introdução página 20, primeiro parágrafo

4A guerra foi desde os inícios o principal dos negócios económicos, o jeito mais rápido de acumular capital. E frente a isso, a esse negócio, nasceu a legitimidade da defesa. Os espartanos treinavam aos futuros soldados no roubo, como um jeito de fazer deles bons e habilidosos soldados.

Quem vai convencer aos vencedores de que a gurra não compensa, exprimiu Albert Einstein, -esse é o cerne do problema da paz-

6Para ele ficara o reino de Leão, ao seu irmão Sancho Castela (foi o primeiro rei que houve em Castela), a Garcia Galiza e as suas duas irmãs as praças de Samora e Toro. Mediante assassinatos e a trapaçarias apoderou-se dos reinos dos irmãos.

7Afonso VI foi um rei que não só passou a história por ser o conquistador de Toledo, senão pola sua complicada vida familiar. Afonso tem cinco matrimônios, vários concubinatos estáveis e relações com várias mulheres, do que ao final só vão resultar filhas sobreviventes. Um dos matrimónios de Afonso VI, o segundo e de mais duração (ate o seu falecimento em 1093, foi com Constança de Borgonha (do que sobreviveu a filha Urraca); este matrimónio levara-o a ter certa estabilidade de relações com Borgonha, e que para a corte viessem desde Borgonha vários cavalheiros, tais como os nobres borgonhois Raimundo e Henrique. No ano 1090, o Rei Afonso casou a sua filha e herdeira Urraca, com Raimundo de Borgonha, matrimónio ao que se garante o reino da Galiza à sua morte. Raimundo muito faz por agradar ao Rei, fortalece a cidade estratégica, por estar na fronteira sul, de Ávila, e dirige continuas guerras contra o domínio muçulmano, especialmente no sul da Galiza. Outro nobre borgonhão que veu à corte, vai ser Henrique, e a quem o rei casa no ano 1095 com uma outra filha sua, Teresa, uma mocinha duns 9 ou 10 anos, resultado dumas suas relações com uma moça de nome Ximena Nunes, e de quem não se conhece título nenhum.

Do matrimónio-concubinato com a viúva do rei de Córdova (a muçulmana Zaida –ainda que a historiografia cristianizou-a como Isabel) teve com ela duas filhas e o seu único filho. A relação nasceu sendo ela a esposa do rei de Cordova, viúva ela passou a ser a sua concubina mais estável, e logo viúvo ele, acabaram casando. O filho com ela foi Sancho a quem ele muito amava. Este filho era o seu olho e a quem queria de herdeiro de Castela, e de Toledo, porém morreu na batalha de Uclês (o ano 1108, tinha o filho 17 ou 18 anos) e isso dá-nos para conhecermos na crónica De Rerum Hispaniae do bispo de Toledo (cidade que Afonso conquistara), o pranto do rei pelo seu filho (Ay meu filho! Ay meu filho, alegria do meu coraçom e lume de meus olhos, solaz de mia velhece! Ay meu espelho en que me soía veer e com que tomava grande prazer! Ay meu herdeiro mor. Cavaleiros u me lo leixaste? Dade-me o meu fillo, Condes! – o qual aparece inserido no texto latino na nossa língua portuguesa (ainda que daquela se chamasse galego), o que nos vem a falar de qual era a língua palaciana, a língua dos reis, do poder e da corte.

8Ao Berzo zona da Galiza, Mattoso situa-o em Leão/Castela.

O nome na nossa língua é Berzo, chamado hoje em castelhano de Bierzo, procede dum Bergidum latino, e no baixo latim aparecia como Berzio.

Mattoso na toponímia da Galiza sob Castela, segue as diretrizes madrilenas vigorantes do franquismo.

9Como explica Mattoso, na península e nessa altura era comum chamar a todos os filhos do rei independentemente das suas responsabilidades, de reis, e coloca vários exemplos.

10Garcia esse rei que por querer como centro do reino a Braga, foi vendido por Compostela a Afonso VI de Leão, para realizar com o irmão um crime)

11Barroso da Fonte sobre o seu livro Afonso Henriques 900 anos, falando comigo sobre a sua obra, comentava-me: O que mais me espantou foi descobrir ao pesquisar a documentação da altura que o Condado de Portugal não vai mais existir uma vez foi suprimido, e em realidade o reino não se vai ajustar aos limites históricos do Condado ainda que si houve bem de intentos de recuperar territórios que foram no seu dia do Condado, e que acabaram ficando na atual Galiza e Samora. (Montalegre novembro de 2011)

12Isso faz difícil que o nascimento de Afonso Henriques seja no 1109 e não no 1110 ou 1111 como se discute por outros historiadores, ainda que Mattoso afirma que em Outubro de 1109, já está em Coimbra. Mas como vai coincidir a sua volta e o nascimento..

13Fora fundado no ano 924 e na altura a ata fundacional diz, In finibus Gallaecia (por lá andava a estrema do reino)

14No último parágrafo do apartado “alterações do cenário político”

15Afonso Henriques um predestinado pag.47

16Gostaria de escutar a Mattoso as razões de porque a monarquia Portuguesa vai reclamar como parte legítima do reino à Galiza toda at+e 1476. Afonso V, foi o derr adeiro rei de Portugal a ser proclamado rei da Galiza norte do Minho tão bem.

17http://www.abc.es/cultura/abci-sanchez-albornoz-y-espana-como-enigma-201609180148_noticia.html

https://es.wikipedia.org/wiki/Nicol%C3%A1s_S%C3%A1nchez-Albornoz

18Nele e noutros historiadores portugueses, e como é óbvio também nãi, nos historiados galegos e de Castela/espanha. Porém o bem honrado Mattoso no manuseamento dos dados, lembra-nos como o arcebispo de Braga João Peculiar começa a dar os passos para recuperar o controle religioso no território da Galiza a norte do Minho, e isso com sucesso.

Alexandre Banhos Campo

Alexandre Banhos Campo

Alexandre Banhos Campo (Crunha 1954) é Licenciado em Ciências Políticas e em Sociologia (especialidade de demografia e população) pela Universidade Complutense. Em Madrid foi membro fundador do grupo LOSTREGO.

Post-grau em gerimento de formação e processos formativos pela UNED, e tributários pola USC. Tendo desenvolvido alargadas atividades no campo da formação, em todos os ramos, e também na sua condição de formador.

Tem sido colaborador jornalístico, e publicado inúmeros artigos sobre os temas da sua atividade.

Ligado ao ativismo galeguista na Galiza desde há 40 anos, tendo ocupado diversos postos de responsabilidade em diversas instituições e entidades. Neste momento é do conselho consultivo do MIL, dos Colóquio da Lusofonia e o atualPresidente da Fundação Meendinho.
Alexandre Banhos Campo

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  • Venâncio

    Alexandre,

    Parece haver uma “mensagem” irredentista implícita em tudo aqui que escreves aqui.

    O livro vergonhoso em que colaboraste, “Galiza e Portugal – uma só nação” (Lisboa, Nova Arrancada, 1997), editado e promovido pela Extrema-Direita portuguesa, tinha também essa tese. Sim, e o cúmulo da vergonha foi incluirdes nele um texto de Lapa, já então falecido.

    Se o Reintegracionismo galego continua a difundir estas mensagens irredentistas, seja para que lado for, continuará também a criar anticorpos em Portugal, e dá o sinal de alerta para nos desligarmos de vós.

    • Venâncio

      Na visão de José Mattoso, Portugal manteve longo tempo fortes laços com a Galiza através das suas nobrezas, familiarmente muito próximas.

      Mas o novo Reino foi obra dos ricos-homens do Porto e da Maia, para quem as complicações de Poder galegas eram só um atraso de vida. O desenvolvimento e o futuro do Reino achavam-se a Sul, e foi isso que criou e cimentou Portugal.

      Nada contra os galegos, pois. Mas pura distância das suas infindáveis tricas.

      • abanhos

        Mattiso é um excelente medievalista, e magnifico na pesquisa dos dados, e trazé-los à tona.

    • abanhos

      Eu esse Parece, não o percebo por nenhures.
      Isso de que Portugal sem a Galiza não tem razão de existir….Pra mim e tudo o comtrário.

    • abanhos

      No da Nova Arrecada não houve nenhuma decisão galega, nem sequer de achegar textos, na publicação.

      • Venâncio

        Teve de haver pelo menos um consentimento galego, por passivo que fosse. O número de textos de reintegracionistas, mais a ausência de qualquer distanciamento por parte deles, são claros sinais de colaboração.

        Além disso (e como já tive oportunidade de vincá-lo), o bom entendimento público de reintegracionistas galegos com grupos de tendência direitista portuguesa é, e foi sempre, uma constante.

        Porquê? Porquê? Sabe-lo explicar-mo, Alexandre?

        • Venâncio

          A julgar pelas vossas amizades em Portugal, o Reintegracionismo galego é um movimento de Direita e… segurai-vos bem, claramente hispanófilo. Sim, existe um nítido entendimento, subjectivo e objectivo, entre os entusiastas da Lusofonia e os do Estado Espanhol. Eu começo a acreditar no Demo. 😉

          • Ernesto V. Souza

            E-che o que há Fernando… há que arar com os bois que há… em não havendo outros… e neste caso com cavalos e coxos… mas e sendo cavalos dados… para que lhes mirar o dente…

        • Ernesto V. Souza

          Não penso que haja qualquer complicação ou complexidade.

          O galeguismo (em conjunto) tem um grade defeito, filho da sua brutal debilidade social e política e da sua falta de segurança: alouminha, acarinha, faz caso e convida a jantar a todo aquele estrangeiro que faz um pouco de caso a Galiza, os galegos, a cultura galega e a língua galega.

          É ridículo por vezes ter de ouvir palestras, opiniões dizendo obviedades e tópicos a gente de fora… ou também cousas interessantes, que já foram uma e outra vez antes ditas sem qualquer ouvido que ganham imenso interesse e prestígio por as dizerem alheios.

          E nesse sentido, dado que o reintegracionismo é margem do cantinho dessa minoria ridícula e pretensiosa e bastante desinformada que é o galeguismo… celebra qualquer cousa e qualquer caso que venha de Portugal (e Brasil) como uma grande festa. E aí pode terminar acompanhando qualquer cousa… mesmo algumas que rejeitaria na Espanha…

          • Venâncio

            Dizes muito bem, Ernesto.

            Não, ninguém regateará aos reintegracionistas galegos o entusiasmo e a generosidade. Mas, como bons “activistas” que sois, importa-vos menos serdes críticos, e acabais tremendamente ingénuos.

            Essa ingenuidade pode facilmente conduzir a que outros vos ponham (objectivamente, claro, mas é grave o suficiente) ao serviço de causas que vós veementemente dizeis combater.

          • Venâncio

            Exemplo histórico disso foi o serviço prestado por alguns de vós à confecção e fama do “Acordo Ortográfico de 1990”, rejeitado no Brasil e em Portugal pela grande maioria dos cidadãos críticos, quer pela incompetência linguística de que deu mostra, quer pela ideologia de dominância planetária (insisto, de inspiração espanhola) que conduziu a ele.

            Sim, aquilo que rejeitaríeis em Espanha, abraçai-lo freneticamente fora dela. Para quem vos olha e acompanha, tudo isso é descoroçoante.

          • Ernesto V. Souza

            Mas Fernando… se nós fóssemos um país Lusófono mais, Assim INDEPENDENTE, isso que diz teria lógica.

            Mas lembre, não somos. Simplesmente combatemos em guerrilha e tratamos de sobreviver. Apenas sobreviver.

            A nossa frente principal é ESPANHA, essa Espanha atualmente desbocada, com os seus cavalos que carregam sobre nós para nos esmagar, destruir, aniquilar…

            Portugal, Brasil, as lusofonias… são elementos úteis, como países que nos vendessem armamento (eu sei de segunda, usado, defeituoso, ou até desajeitado para o que precisamos).

            Se um dia somos um Estado Independente (aí o publico leitor está a rir e não pode parar) e passamos a fazer parte do Clube lusofonia, provavelmente atuemos e revisemos o nosso papel e discurso como elemento e mais um centro nessa polissinodia…

          • abanhos

            Fernando, na Galiza governa a estrema direita falangista-franquista e ferrenha firme do supremacismo da Castela e do castelhano, ela é a que tem plano de supressão da nossa identidade, e além disso, com migalhas e alguns ordenados tem sempre presumidos galeguistas a trabalharem de alcoviteiros para o cafetão e seus ganhos e programas.
            Aí já tens alguns amigos…reparas muito nas nossas palhas e não percebes as traves que outros tem.

          • Venâncio

            Alexandre,

            Os meus contactos com a Oficialidade galega são profissionais.

            Como bastantes outros linguistas portugueses, mantenho com ela relações abertas e públicas. Aprecio o magnífico trabalho linguístico que os linguistas oficialistas galegos levam a cabo (coisa que vós nunca reconheceis!) e eles apreciam o meu no terreno do Galego.

            Se eles e nós não fizermos esse trabalho, quem o faria? Não vós, que não tendes, no vosso seio, verdadeiros profissionais de Linguística. Sim, tendes bons lexicólogos e lexicógrafos, mas não vos conheço nenhum contacto linguístico fora do vosso circuito.

            Por isso, pára de falar sempre nos meus “amigos” oficialistas. É um golpe baixo que só revela o nível a que fazes descer o debate.

          • Venâncio

            Que contraste, caro Ernesto, o da tua sensatez com a altissonância sociolinguística reintegracionista, essa que continua operando em realidade paralela.

          • Ernesto V. Souza

            Bom, alguém tinha de fazer o papel de Leal conselheiro… XD

            A questão não é que existam as fantasias, o galeguismo sempre foi muito cousa de poetas e artistas, de discurso historicista, idealista e fantasioso… senão que existam também pessoas que tratem de levar à realidade os discursos e fantasias.

            O problema atual não é esse discurso de realidade paralela ou fantasia, sobra ideal e sonhos… o que nos falta é músculo, falta gente prática, capaz, especializada, e falta gente, nova e madura também, pessoal com energia, com vontade, com tempo.

            Somos poucos, a muita cousa mal feita, sem tempo nem capacidade para nos especializar; e não podemos comprar ou pagar mais operários.

          • Ernesto V. Souza

            É claro… mas somos galegos, pobres, incultos e meio simples… bem que somos engraçados, de coração generoso, e com algumas malícias, tretas e com certas frases do repertório popular aprendido com que imos indo…

  • Venâncio

    Amigos, só para que estejais a par.

    Uma das grandes linhas de acção de CPLP e da OEI (Organização de Estados Iberoamericanos para a Educação, a Ciência e a Cultura) é, e foi sempre, esta:

    «Mais sinergias entre as línguas espanhola e portuguesa, valorizando o potencial de 730 milhões de falantes»

    E vivem os meus amigos reintegracionistas galegos na convicção de que, graças ao contacto com a Lusofonia, escapam à Espanha…

    Ver artigo aqui:

    https://www.publico.pt/2018/04/20/politica/opiniao/iberoamerica-cplp-uniao-europeia-um-triangulo-virtuoso-1810859