D. Afonso Henriques, de José Mattoso (I)

Um espelho da historiografia portuguesa medieval e uma amostra do enquadramento ideológico historiográfico do autor



Texto no 29 Colóquio da Lusofonia em Belmonte, Março, 2018 1. (I)

 

José Mattoso é historiador de grande rigor científico, no manuseamento dos dados, e no jeito de levá-los à tona. É provavelmente o mais competente e rigoroso dos historiadores medievalistas portugueses, e os seus trabalhos e analises quando entram no pormenor dos feitos, são de qualidade mais que sobranceira, uma referência.

Portugal é um estado, um povo, pode-se dizer inexistente antes de que cingira sua coroa D. Afonso Henriques, o beato Afonso Henriques, já que como tal foi proclamado pela Igreja de Roma, dir-se-á ainda mais, Portugal para não poucos dos seus historiadores nasce na pequena batalha de São Mamede de 24 de julho de 1128, numa espécie de facto milagroso, que “libertou o país”. – disse José Mattoso-; todavia que logo apresenta o nascimento do reino como um processo acumulativo de factos e acasos, mas ele não é imune ao fascínio de São Mamede.

 

Um problema que tem a historiografia portuguesa

Tem há um problema muito particular.

Pode-se dizer que até o nascimento milagroso de Portugal reino, a partir do ato seminal gerador da batalha de São Mamede, até daquela eram os seus habitantes galegos, só galegos, a definição de português não era incompatível com a pertença geral a condição de galegos, igualzinho que um da beira ou tasmontano, não deixa de ser português sendo o seu particular.

Como galegos conquistam Lisboa – Como exprime Saramago no seu romance O Cerco de Lisboa, como se exprime em muita documentação antiga do reino de Portugal até a entrada do século XV. E que era a nossa língua, pois o galego.

E qual foi o ato seminal, que gerou o nascimento do reino de Portugal?.

Um conflito entre galegos, um conflito por quem era a cabeça da Galiza; quem o fora de sempre, Braga2; ou a recém-chegada Compostela e a sua praga do Compostelanismo3 e as suas concepções.

Mas os galegos da Galiza (sob Castela/espanha), os que continuaram a usufruírem o nome, não são Portugal4, nem nunca o foram, a excepção da sua faixa mais inferior, que sim formou parte do Condado Portucalense durante toda a sua existência5.

Como essa Faixa é um problema para a historiografia portuguesa, der facto Mattoso não o lembra… E responde-se aoproblema com um construto ideológico, e esse construto rebota contra os dados e resulta um verdadeiro espanto, quando o historiador achega os dados bem honradamente, como no presente caso.

José Mattoso na obra D. Afonso Henriques, examina toda a documentação existente com rigor e de jeito bem honrado, o que vai fazer ressaltar as contradições que se querem descobrir, e que leva a dizer mais duma vez que ele não entende, não tem os dados explicativos, de que se produzirem certas coisas…, Pois os dados não se vão corresponder nunca a um conflito entre os portugueses e a sua identidade contra os galegos e uma diferente identidade6. Um preconceito ideológico, que forma parte da concepção do que é a identidade nacional portuguesa desde a sua raiz e origem.

1.- A historiografia castelhanista, ou espanholista, paira sobre a obra de Mattoso.

A poderosa historiografia castelhana e castelhanista, mais que de Castela, determinou a centralidade de Castela, transmutada em España (Castela/espanha), e essa realidade perde para os historiadores a sua condição de categoria histórica, pois projeta-se Castela como realidade que cai mais alá do tempo histórico, já que como espanha converte-se, em realidade permanente e ahistórica nessa ideologia historiográfica. E logicamente essa historiografia marca os outros reinos ibéricos, em função de qual é o projeto historiográfico nacional Castelhano.

José Mattoso, constrói um Portugal, reino nascente, que na sua interação, no quadro peninsular, se insere no quadro ideológico da historiografia Castelhanista. E insere-se

porque Castela7 que em realidade não existia como tal reino, já que até 11578 não aparece esse reino com continuidade histórica, e isso é, após nascer o reino de Portugal; mas no texto de Matosso, Castela, está sempre presente como realidade determinante peninsular, e está porque a sua Castela é a que é projetada pela historiografia castelhanista.

Só a título de exemplo, ainda que a referência é constante, e paira por cima do que ele redige. “Nasce Afonso Henriques 1109, num momento muito agitado dos poderes em presença Leão e Castela”.

Sempre isso vai ser assim, os poderes são Leão e Castela. Imos ter muitas referências à Galiza. Porém a sua Galiza não são poderes, e um contraste, não poucas vezes, de ruindades.

Mattoso, chega a designar Toledo, o reino de Toledo que como tal foi incorporado por Afonso VI9 seu conquistador -como a estremadura de Castela– o qual é toda uma declaração de princípios. Para ele Afonso VI, de ser algo, é castelhano.

Quando Gelmirez vai coroar rei da Galiza a Afonso VII (Reimundes) em 1111 com seis anos, esquece Mattoso que também foi coroado no mesmo momento rei de Toledo, o qual amossa bem às claras qual era a visão peninsular do Compostelanismo10 no seu projeto de ser o primaz, e o ridículo de essa estremadura, projetando no centro peninsular um arremedo da realidade galaico-leonesa11.

Pode que haja portugueses, e lusófonos em geral, que percebam em mim galego, como um tentar vingar-me de algo que nalguma medida pode ter-me ofendido, ante isso e mais uma vez reitero: Como galego sustenho que a cousa mais maravilhosa, que nos podia ter passado aos galegos e galegas, foi o nascimento de Portugal, é quem na Galiza não for orgulhoso de Portugal e a sua história não é merescente de consideração, e quem não sente Portugal como a pátria livre que não temos, poder-se-á afirmar todo o galego que se quiser, mas não chegará além dum español (castelhano/espanhol) bocado heterodoxo12.

O primeiro problema que os galegos achamos com Portugal e os portugueses, é o facto dos portugueses, muito parecerem-se connosco.

E nós galegos, afeitos a sermos submetidos pelos castelhanos, nesse grande povo que é Portugal, aguardávamos, que viríamos achar uma outra variante do castelhano modo, e vão dar no bom e no mau com uns bem semelhantes e apurados, dos seus melhores, e nalgum raro caso, piores extremos13.

Também os galegos somos um problema para os portugueses. Não respondemos ao modelo que dos espanhois se tem em Portugal, parecemo-nos demais a eles mas sendo muito menos polidos…Brutos galegos, burros galegos; como poderia se exprimir um Zé português qualquer, e além disso falamos bem mal a nossa língua portuguesa, atrapalhada pela miscigenação de estarmos submetidos à imposição castelhana, que nos erode e nos mata num banimento implacável como povo.

Como poderia dizer o Abade de Jazente, Paulino António Cabral, no seu soneto intitulado Felicidade Geral:

Portugal, que era rústico algum dia (galego)

Incívil trapalhão, mal amanhado.

Está (graças a França) tão mudado,

que o mesmo já não é que ser soía14

Mas os galegos seguimos a ser os trapalhões mal amanhados, e não por acaso, galego segue a ser alcume que se jogam sobre sim os portugueses -uns sobre os outros- quando não apresentam a polidez estendida desde a Corte por todo lado.

 

Notas:

1 https://www.wook.pt/livro/d-afonso-henriques-jose-mattoso/196811

Sinopse do livro, que figura na sua contracapa:

Personagem oculta por inúmeras e sucessivas camadas de interpretações ideológicas, quer eruditas quer populares, a figura verídica do nosso primeiro Rei só muito hipoteticamente se pode reconstituir nas suas dimensões históricas. O mito sobrepõe-se, teimosamente, à história. Mas pode-se tentar descobrir como nasceram as narrativas tecidas em torno da sua personalidade, examinar o sentido que tinham quando apareceram e reconstituir os sucessos de que Afonso Henriques foi protagonista principal. Se não é possível traçar-lhe o retrato preciso, pode-se, ao menos, estudar as suas orientações políticas e administrativas, conhecer os seus principais auxiliares e justificar o êxito da sua obra. Apesar de assim desaparecer o herói sobrenatural, toma inegável relevo o seu talento político e militar e, por conseguinte, o seu direito a ser de facto considerado o rei fundador de Portugal.

2E por isso segue sendo a Sé primaz de Portugal

3Vontade política (e além) de desde a Galiza marcar a ação política na Hespanha, e conceber a Galiza como ator político principal no palco españa,.
A Igreja de Compostela funcionou sempre nessa linha, a começar pela sua figura marcante Diogo Gelmirez. (Tiago ser padroeiro da espanha -castela/espanha-). O Santo que deveríamos ter como padroeiro portugueses e galegos é São Martinho de Dume, cuja festa é o 17 de março)

Para o Compostelanismo Portugal não é espanha. E por tanto pouco ou nada lhe diz

Não pouco nacionalismo galego, é neo-compostelanista, é ex. disso a historiografia nacionalista dum Anselmo López Carrera

O invento do sártego de São Tiago foi determinante para devir no arredamento da Galiza da Faixa-Atlântica, e para que o reino de Portugal viera a nascer. Itália não se unificou no renascimento por terem ROMA lá, e nós arredamo-nos do resto do espaço da faixa ocidental por termos Compostela cá.

Eu acho que a capital da Comunidade Autónoma da Galiza tinha que estar em Lugo, para afastá-la de essa má influência telúrica compostelã, equilibrar o território, e por ser Lugo a cabeça histórica da Galiza ártabra, o seu convento norte.

4E hoje em realidade -a Galiza sob Castela/espanha-, é/somos periferia de Castela, com tudo o que isso significa, e é bem mau para Portugal. (Acho que a Galiza sob Castela pode ser mais uma alavanca para Castela acabar deglutindo Portugal…por isso não me parecem mal as prevenções portuguesas frente aos galegos que continuaram usufruindo o nome mas que não agem no certo como tais).

Isso é o nosso comportamento colectivo, que corresponde de facto a essa condição de periferia de Castela, o chamado nacionalismo galego, e na sua mais grande parte um jeito heterodoxo (Salvador Mourelo) de se ser espanhol (da Castela/espanha), que parece grande cousa, porque Castela nem heterodoxias suporta.

5Mattoso isso esquece, pois para ele a fronteira no Minho e como um mandato do céu.

6Os avanços na genética, os mapas genómicos, a analise de modificações genéticas produzidas em populações a respeito de outras, por exemplo a variante do cancro de mama comum etc., todo isto vem-nos descobrir que a faixa ocidental peninsular até o Tejo, geneticamente é uma unidade contrastiva com o resto da península e do mundo.,

7 Uma pequena olhada na origem do termo Castela na península.

A primeira vez que em documentos peninsulares aparece o termo Castela, ele vai-se referir a realidades do ocidente peninsular, pois vai aparecer na Chronica de Idácio o bispo de Chaves (Aqua Flaviae) (388-470), e figura chave para sabermos do nascimento do Regnum da Gallaecia ou dos Suevos, com cabeça em Braga. Na Chronica ao falar da resistência a invasão germana se aponta: “Spani per civitates e Castella residui a plagis barbarorum per provincias dominatium se subiciunt servituti” (os hispanos das cidades e castella que sobreviveram aos desastres se submeteram a servudume dos bárbaros que dominavam as províncias). Há que entender Castella, não tanto como castelos, que não havia tais, se não como lugares fortificados ou de jeito natural acastelados, e dizer antigos castros.

A resistência aos muçulmanos e sua dominação na parte leste do reino da Galiza/leão, nas atuais províncias de Biscaia, Alava, Rioja, fazia-se igual que na crônica Idaciana desde as Castellas, nesse território abundantes. Posteriormente essa abundância de Castellas mais naturais que verdadeiros Castelos, deu lugar ao nome do território, que curiosamente esse território originário do termo Castela hoje não o possui nem o usa.. O dialeto Castelhano, supõe uma ruptura nas falas peninsulares, pois rompe o continuum que iba do galaico ao aragonês.

O Dialeto castelhano foi o resultado do romance passado pelos falares dos vascos e o limitado do seu repertório vocálico. Nas primeiras referências a termos castelhanos aparecidos em textos de mosteiros, não é raro aparecerem lá ao lado as traduções ao euscara o que nos fala do bilinguismo dos seus autores, só sob o domínio do vasco o “e” de Castella passou a i.

http://www.cervantes.es/imagenes/file/biblioteca/situacion_espanol/lengua_%20vasca_vs_espanola.pdf

8No ano 867 (sob Afonso III),Nasce o Condado de Castela, no espaço Biscainho, Alavês. Esse condado frente ao modelo do condado de Portugal durante a sua existência, não mantem a continuidade histórica.

No ano de 1065 aparece proprimeira vez o reino de Castela. Primeiro rei Sancho I (1065-1072) a historiografia castelhanista designa-o como Sancho II, Pois Fernando I o Magno da Galiza/leão, a sua morte reparte o reino entre os seus filhos, Garcia (Galiza) Afonso (Leão (VI), Sancho (Castela). Em menos de dous anos Afonso, acabou com a vida de Sancho, de aí a limitação temporal da existência de essa primeira vez como reino.

No ano 1057 a morte de Afonso VII, volve se repartir o reino, e Sancho II recebe Castela (1057-1058) A historigrafia castelhanista chama-lhe Sancho III.

No ano 1058, temos Afonso I (1158-1214),a historiografia castelhanista designa-o como Afonso VIII.

No ano 1217 Fernando I, a historiografia castelhanista designa-o como Fernando III. Em 1232 (a intervenção de Compostela perante o papado faz que não serva o testamento de Afonso VIII da Galiza/Leão (IX na historiografia castelhanista); e os seus reinos passem a estar sob Castela.

9Afonso VI nascera em Caldas de Reis, (perto de Ponte Vedra, onde fora criado, a sua língua foi sempre a nossa, que era a da corte na altura. Em crónica do bispo de Toledo, pouco depois, fala-se da dor pela morte do seu único filho (nascido da sua relação com a muçulmana que fora mulher do rei de Córdova): Ay meu filho! Alegria do meu coração et lume dos meus olhos, solaz da minha velheçe! Ay espelho em que me soya veer, et comque tomava muy grand prazer! Ay meu herdeyro mor! Cavaleyros, hu me loleixastes? Dade-me meu filho Condes!

10Rex e Regina, Urraca, Afonso Reimundez e a Monarquia Galega. Xosé António López Teixeira. Editorial Toxos-Soutos

11Uma vez tiremos os óculos que a historiografia castelhana dominante colocou no olhar sobre a península, e em cujo quadro se insere a historiografia portuguesa, ela autónoma e suficiente, mas sem questionar o quadro peninsular, percebermos imos, bem desseguida, o construto artificial criado para explicar o nascimento de Portugal, que nesse contexto acaba por ser percebido como milagre. (Milagre é algo que não poder ser explicado por sim próprio)

12Sei que isso é um bocado esquisito para um português qualquer, como não se farta de nós dizer Fenando Venâncio nos fóruns internéticos da Galiza, pois sente como o seu Portugal a nação europeia mais velha e mais estabelmente formada, fosse questionada e se andasse a lhe tirar a terra de sob os pés, mas a cousa não é assim, se não tudo o contrário.

13Nas classes altas e abastadas portuguesas, há vigorante um fascínio por españa, por castela/espanha, que agacha, neste momento a falta de um projeto nacional de futuro para o país, e que infelizmente não me faz feliz. Como diz a minha nora, catalã de nação, a morar no Porto. É incrível o felizes que se sentem os portugueses de se exprimirem em castelhano, até quando tu afirmas que queres falar português, parece cousa de doidos, e diz-me ela, eu passo-me ao inglês.

Alexandre Banhos Campo

Alexandre Banhos Campo

Alexandre Banhos Campo (Crunha 1954) é Licenciado em Ciências Políticas e em Sociologia (especialidade de demografia e população) pela Universidade Complutense. Em Madrid foi membro fundador do grupo LOSTREGO.

Post-grau em gerimento de formação e processos formativos pela UNED, e tributários pola USC. Tendo desenvolvido alargadas atividades no campo da formação, em todos os ramos, e também na sua condição de formador.

Tem sido colaborador jornalístico, e publicado inúmeros artigos sobre os temas da sua atividade.

Ligado ao ativismo galeguista na Galiza desde há 40 anos, tendo ocupado diversos postos de responsabilidade em diversas instituições e entidades. Neste momento é do conselho consultivo do MIL, dos Colóquio da Lusofonia e o atualPresidente da Fundação Meendinho.
Alexandre Banhos Campo

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  • Pedro Lopes

    Querer explicar a existência de Portugal (que para alguns castelhanistas puros foi pura obra do acaso e sorte) apenas e só partindo da Batalha de São Mamede é um redundância algo equivocada.
    Ao contrário do actual território espanhol exceptuando a Galiza, que foi povoado antes das invasões romanas, por povos autóctones como os Iberos por exemplo, o actual território português e o galego foi povoado por povos forasteiros à realidade peninsular, de cariz Celta, os Lusitano eram um tribo Celta que assentou primeiramente no actual território português desde o rio Douro até ao Algarve, e os Galaécios também uma tribo Celta que assentaram desde o Douro até à Finisterra galega.
    A capital da Galaécia sempre foi Braga, mais tarde os próprios romanos mantiveram essa capital como uma das províncias de Roma por alguma razão.
    Mais tarde com as invasões das tribos germânicas após a queda do Império Romano, Lugo toma forma como um contraponto do poder da igreja a Braga que sempre foi a igreja primaz de toda a Galécia, aqui se trava o primeiro conflito entre a nobreza a norte do Minho e a sul do Minho e que derivará na separação total com a tal Batalha de São Mamede.
    Na prática não foram os galegos do Sul que se quiseram separar dos do Norte como se diz na Galiza, mas sim foram os do Norte que quiseram deturpar a tradição instituída e querer mudar a capital de Braga para Lugo, essa rebeldia dos do norte implicou que o actual território galego ficasse numa espécie de enclave e num beco sem saída, sendo a única possível a chamada fuga para a frente, a alta nobreza galega simbolizada pelos Trava, orgulhosamente para não dar o braço a torcer preferiu ficar subjugada ao reino de Leão e Castela, um preço demasiado elevado e do qual o povo galego não foi visto nem achado.

    • abanhos

      Leia o livro de José Mattoso

      • Pedro Lopes

        José Mattoso debate-se na explicação de Portugal, apenas no período medieval, demasiado curto partindo apenas da Batalha de São Mamede, como que por artes mágicas já não houvesse antes portucalenses os chamados “galegos do sul” e uma identidade própria diferente das leonesa e castelhana.
        Há um pormenor geralmente esquecido na historiografia quer portuguesa e quer espanhola, esse pormenor define porque razão Portugal teria de existir como nação, estado e país, e a lógica dessa existência assenta territorialmente desde as costas do Algarve até a Finisterra na Galiza, o artifício criado e que não bate efectivamente certo não é a criação do reino de Portugal mas sim a separação territorial e política da Galiza a norte do Minho, esse pormenor tem a ver com o conceito do fim do mundo conhecido que acabava na latitude que passa por Gibraltar, Gibraltar representava as portas do desconhecido, é por essa razão que os povos autóctones peninsulares sendo os mais representativos os Iberos não se aventuraram a povoar a península para lá dessa linha que representa por assim dizer a parte atlântica peninsular.
        Quando as tais tribos forasteiras celtas entre os quais os Galaécios e Lusitanos atravessam os Pirenéus, foram justamente assentar-se em território desocupado, mais tarde pela expansão das tribos lusitanas para Leste houve sim miscigenação com os Iberos, nascendo as tais tribos celtiberas na Meseta peninsular.
        Os romanos entenderam perfeitamente bem a realidade peninsular e por isso não estabeleceram um identidade política administrativa única e unificada, estabeleceram várias assentes justamente nas áreas de “jurisdição” dessas tribos.
        Ao contrário as tribos germânicas nomeadamente os Visigodos, não entenderam essa realidade ou não quiseram entender por vias da igreja católica que era o seu braço de escrita, leitura e poder que outorgava à nobreza germânica o poder de substituir Roma caída no seu império.
        Os Suevos outra tribo germânica que se instalou na península aos contrário dos Visigodos entenderam a realidade dos povos que encontraram, porque apenas foram substituir os antigos senhores das terras, a elite romana que administrava a península.
        Portugal representa exactamente esse legado atlântico peninsular, deixado primeiro pelas tribos celtas, depois pelos Suevos.
        Portugal tem alma atlântica, embora tenha cultura mediterrânica pelo seu legado romano também, é precisamente essa dicotomia que nunca nos pode pôr no mesmo saco com a cultura castelhana, herdeira das tribos autóctones peninsulares e visigótica que representa o lado peninsular continental.
        Aquilo que define uma nação é a alma, língua em cultura, em suma a sua identidade, aquilo que define um estado é o seu regime político e administrativo, aquilo que define um país é a sua soberania e independência, ora Portugal congrega em si mesmo, a nação, o estado e o país, a Galiza representa uma parte dessa nação que se desagregou artificialmente.
        A historiografia castelhana tenta explicar a Galiza pela “artificialidade” da existência de Portugal, mas de facto o que é artificial é parte da nação portuguesa, a nação galega estar sob um reino “unido” sob a égide do legado castelhano, porque essa escolha nunca foi decidida de facto pelo povo galego mas sim por uma elite nobre e eclesiástica.