O FUTURO POSSÍVEL

Cumprir a Lei Paz-Andrade



Em 11 de março de 2014 aprovou-se no parlamento galego e por unanimidade a Lei Paz-Andrade para o aproveitamento da língua portuguesa e vínculos com a lusofonia. Desde aquela até agora não temos visto grandes avanços no estudo e difusão da língua portuguesa na Galiza. E não se prevê que em breve venha a cumprir-se a lei mais que de maneira simbólica e sem grande proveito para o conjunto das pessoas.

Sabemos que as instituições da Espanha não estão afeitas a este tipo de relações. De facto, não se levam demasiado bem com os outros países que falam castelhano-espanhol e partilham vínculos históricos diretos, como são a Venezuela, a Argentina, o Equador, a Bolívia, e tantos outros. Porém, na sua política linguística fica muito claro que falam todos a mesma língua e a sua escrita está normalizada, mesmo incluindo variantes léxicas locais, culturas e pronúncias diversas. Há poucas dúvidas quanto a que um paraguaio possa entender-se com um cântabro, apesar das diferenças geográficas.

Se bem admitimos a unidade do castelhano-espanhol, a Lei Paz-Andrade abre o caminho para admitirmos a unidade do galego-português. Uma língua que é objetivo estratégico para a Galiza, que é intercompreensível com o galego e que nasce na própria Gallaecia, premissas todas que assume a lei, não pode ser estrangeira. Contudo, os parlamentares adscreveram a responsabilidade do seu desenvolvimento ao quadro das línguas estrangeiras, como se @s [email protected] não soubéssemos que identificando o português com o galego aprendemos melhor e atingimos rapidamente os mais altos níveis de domínio da língua.

Nessa linha da língua estrangeira, o atual -mas não permanente- governo galego realizou algumas atividades que, sem ultrapassar o plano simbólico, tampouco chegaram aos mínimos exigidos pela urgência da situação do país. O atual governo designou um representante do galego-RAG para tratar dos assuntos da língua portuguesa, facto que contradiz a sua ideia de língua estrangeira. Se galego não é português, por que vai ir um Secretário do galego tratar do português com os Ministros na CPLP?

Dentro das atividades simbólicas o atual governo participou em dous eventos internacionais durante o 2014: O do IILP em junho, em Lisboa, e o da CPLP em outubro, em Braga. As televisões TVG e RTP realizaram um programa conjunto que foi emitido no mês de setembro e voltaram a colaborar em dezembro, na noite de fim de ano, celebrando as entradas do ano novo pela hora portuguesa.

Naturalmente, com isso não se promove o ensino da língua portuguesa na Galiza. E talvez por encher esse buraco preto foi que em fevereiro de 2015 o presidente autonómico Feijó e o presidente da república portuguesa Cavaco assinaram um memorando que, asseguram, potenciará a língua portuguesa na Galiza. Porém, na tónica dos velhos partidos de corte setenteiro, nem no ato de assinatura nem na altura de redigir este artigo se deu a conhecer o texto desse memorando. Mais uma falta de transparência, pois assim lhe chamam agora aos negócios que os que se autonomeiam representantes fazem desde o poder sem a participação da gente.

O estancamento na promoção da língua portuguesa não ajuda à urgente normalização do galego. A falta de unidade do galego-português é indicativa de que o interesse está na normalização do castelhano-espanhol. A potência cultural e económica da Galiza está em mãos de obscuros negociantes. Parece claro que precisamos duma mudança política, que outros atores intervenham e recuperem as instituições para a gente, para @s [email protected] construirmos uma política linguística a sério que nos aproxime do nosso contexto internacional e dos países irmãos em cultura e língua.

Opinião publicada originalmente no n.º 146 do Novas da Galiza, na seção Língua Nacional.

 

Isabel Rei Samartim

Isabel Rei Samartim

Mulher, música guitarrista, galega. Pensa que a amizade é uma das cousas mais importantes da vida. Aprendeu a sobreviver sem o imprescindível. Aguarda, sem muita esperança, o retorno do amor. Entanto isso não acontece, toca e escrevinha sob a chuva compostelana.
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  • Ernesto V. Souza

    Uma lei que vale um mundo, ou o mundo… queiram ou não queiram ver… 😉