Crónicas da Catalunha (IV): Línguas «útiles» e «inútiles». Viagem ao coração do «Procès»

Quarta crónica da minha viagem à Catalunha. Uma visita mais demorada a Sant Cugat del Vallès



Concentração em Sant Cugat del Vallès polos presos independentistas

Concentração em Sant Cugat del Vallès polos presos independentistas

Referia-me na segunda crónica à vila de Sant Cugat del Vallès como «coração do Procès». É uma localidade formosa que me lembrou muito, mutatis mutandis, a Bertamiráns, a capital do Concelho de Ames. Em ambos os dous casos são vilas que crescêrom muito nos últimos anos, com uma baixa média de idade, altas taxas de natalidade, situadas em vales, vizinhas de duas capitais nacionais —Compostela e Barcelona— e com um meio urbano muito humanizado, cada vez mais pensado para o trânsito de peões e multidão de zonas verdes.

Até aí as semelhanças, eu acho. Porque se Bertamiráns cresceu sobretudo graças à gente expulsa polos preços proibitivos das habitações em Compostela, Sant Cugat cresceu apesar de expulsar população para os concelhos limítrofes —até mesmo Barcelona—. O tamanho tampouco admite muita comparança, pois a capital amesã tem quase 8500 habitantes, bastantes menos que os quase 60.000 da vallesà.

Além disso, se Bertamiráns é uma localidade que mormente vota partidos políticos situados à esquerda, em Sant Cugat levam 31 anos com governos da direita, embora seja direita nacionalista catalã. Concretamente, desde que Joan Aymerich rematou em 1987 com o domínio do PSC, que governara a localidade os oito anos anteriores.

O independentismo conseguiu 72% dos assentos

A regedora municipal de Sant Cugat é Mercè Conesa, no cargo há oito anos, e podemos afirmar que é uma das mulheres com mais peso na política catalã. Desde 2015 preside a Deputação Provincial de Barcelona e, desde 2016, preside o Conselho Nacional do Partido Demócrata Europeu Catalão (PDeCAT), isto é, o partido o presidente exilado Puigdemont ou do presidente efetivo Joaquim Torra.

Nas últimas eleições autárquicas, os partidos defensores da independência da Catalunha conseguírom 18 dos 25 assentos (72%). Com estas credenciais, muitas pessoas consideram Sant Cugat o coração do Procès catalão.

Precisamente, na minha primeira visita a Sant Cugat o primeiro que encontrei —como já relatei aqui— foi uma multidão frente à estação dos comboios a reivindicar a liberdade dos presos independentistas. Por toda a parte há fitas e laços amarelos lembrando essa mensagem.

Crónicas da Catalunha (I): «O Estado converteu-nos em inimigos do resto de espanhóis»

Crónicas da Catalunha (II): Da arte gótica ao coração do ‘Procès’

Crónicas da Catalunha (III): «Defendendo a Espanha já bem cedo»

Da segunda vez é que pudem visitar com mais vagar alguns lugares de Sant Cugat. Comecei polo mosteiro beneditino, fundado no século IX. Um belo edifício com uma grande bandeira catalã para receber os visitantes. Alguns dos forasteiros são peregrinos, pois pola localidade passa um dos caminhos que confluem no Caminho de Santiago —aqui chamado Sant Jaume—, o que une Sant Cugat com Barcelona, atravessando a serra de Collserola.

Durante a Idade Média, o mosteiro abrangeu um amplo domínio territorial e jurisdicional dentro do Condado de Barcelona. Em 1835, após quase mil anos de vida monástica, os monges abandonárom o mosteiro após a lei de desamortização. Parcialmente em ruínas, o prédio foi restaurado duas décadas depois. Atualmente tem usos principais de igreja e de museu, e secundários como lugar de lazer graças à grande praça situada bem em frente.

Línguas «útiles»… e «inútiles»?

De tarde visito a biblioteca nova, mas antes detenho-me diante do Concelho, presidido por uma grande faixa que pede a liberdade dos presos políticos. Toda a zona, com amplos espaços livres, zonas verdes e parques, está pensada para os peões.

Entrada à ESADE, na Rambla de la Innovació

Entrada à ESADE, na Rambla de la Innovació

Muito perto está a sede da escola de negócios ESADE, situada na Rambla de la Innovació —eis a maior parte da presença do catalão na instituição—. Para quem não souber, é um centro vinculado à Universidade Ramon Llull, por sua vez fundada por pessoas próximas da ordem dos jesuítas. A ESADE é conhecida por ser um lobbie neoliberal e lugar de formação de elites económicas de todo o mundo. Também não é lugar para todo o mundo estudar, pois quatro anos de um grau académico custam de entre 60.000 e 70.000 euros, segundo as especialidades.

Anedota: poderia-se dizer que aqui, na ESADE, o castelhano está perseguido? A língua de uso maioritário é o inglês. Não me constam protestos por esse facto, não há manifestações pola liberdade linguística nem em defesa do castelhano às portas da escola. No final de contas, o inglês é uma língua útil, não é?


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  • Heitor Rodal

    Caro Gerardo, muito obrigado pola crónica.

    Gostaria de completar algumas informações que são difíceis de enxergar numa visita breve: se bem é certo que o nacionalismo catalão é maioritário em Sant Cugat, também é certo que há igualmente uma notável resistência a ele. Resistência que vai dos grafites na rua até a despendurar um cartaz em prol dos políticos independentistas da Casa da Vila não há muito.

    No que diz respeito a Esade, acho que têm programas ministrados em inglês e outros ministrados em castelhano. Não estou certo de terem em catalão, embora o uso dele nas comunicações quotidianas entre alunos e professores autóctones não será com certeza lá muito diferente do que no resto da sociedade catalã.

    Saúde.

    • Ernesto V. Souza

      Que alegria para o PGL ter recuperado o UZ com estes textos e que alegria saber de ti depois de tanto tempo… apertas 🙂

      • Heitor Rodal

        Apertas, Ernesto e Uz.

        • http://www.madeiradeuz.org madeiradeuz

          Apertas mútuas!

          PS: obrigado polos apontamentos, Heitor! Modifiquei ligeiramente a redação da parte relativa ao uso das línguas na ESADE. Não muda o senso, mas tem alguma variação de matiz. Com efeito, há aulas em castelhano, mas a maioria são em inglês.