CARTAS MEXICAS

Criando Pontes para uma Nova Era



Duvida da luz dos astros,
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia em meu amor
(William Shakespeare)

No domínio de Poder Sacerdotal, Sociedades Teocráticas, o ser humano foi servo, para construir o Templo. Servo, para servir aos senhores do Templo: os falsos Sacerdotes.

No Período de dominação Senhorial, o ser humano foi utilizado para construir o Castelo, na Idade Média; o Palácio, na Idade Moderna. Servo, para servir aos senhores do Castelo, do Palácio: os falsos Reis.

No Período de controlo mercantil, ainda hoje predominante, baixo o influxo das Finanças – sejam de Poder Privado, como no Ocidente; ou de Poder Estatal como no Oriente… O ser humano serviu e serve ao Poder Financeiro. Servo do Artificial Deus Mercado: os falsos mercadores.

O Deus das Finanças sempre como centro das nossas vidas, dele depende a afluência ou contracção da riqueza, desde o cimo ate a base. Vivendo, a maior parte da sociedade, num estado, maior ou menor de escravidão. Em todos estes períodos o ser humano viveu corrompido, corrompendo-se e corruptor; submetido ao poder dos corruptos sacerdotes, dos corruptos senhores ou dos corruptos mercadores ou financeiros. Corrompidos, nós também, na nossa relação entre cidadãos, entre vizinhos, amigos e parentes.

Como bem explica o cientista brasileiro Norberto Keppe, no seu livro “A Libertação pelo Conhecimento” é preciso tirar à sociedade da psique da corrupção: raiz de todas as doenças e de todos os males individuais e colectivos. Libertar à sociedade das emoções e racionalismos viçados na psique da corrupção, que é a grande causadora de todo tipo de dificuldades (guerras, pobreza, doenças), para finalmente encaminhar essa mesma sociedade na Verdadeira Idade da Razão. Como bem advertiu, Juddi Krishnamurti, o ser humano evoluiu muito cientifica e tecnologicamente, sendo que agora chegou o momento da sua inadiável evolução psíquica. Essa evolução da Psique tem a ver, com a virada do foco central exterior no ter, ao foco central interior de ser, como também explicou Erich Fromm, no seu famoso livro do mesmo nome: “Ter ou Ser”.

Já Roger Bacon, no século XIII, afirmava: “O verdadeiro conhecimento não tem origem na autoridade de outrem, nem numa obediência cega a dogmas antiquados“. Acreditando o mesmo Roger Bacon, o conhecimento ser “uma experiência altamente pessoal, uma luz que somente é comunicada ao mais íntimo dos indivíduos, através dos canais imparciais do pensamento“. Como podemos observar, na neutralidade, de aquele caminho do meio, do que nos falou Buda. Somente realizável através daquele Nobre Caminho Óctuplo, que conduz ao fim do sofrimento e, consiste em: Compreensão Correta (Samyag-drsti); Pensamento Correto (Samyak-samkalpa); Fala Correta (Samyag-vac); Ação Correta (Samyak-karmanta); Meio de Vida Correto (Samyag-ajiva); Esforço Correto (Samyak-vyayama);Atenção Correta (Samyak-smrti);e Concentração Correta (Samyak-samadhi). Dai que os seres mais evoluídos, devam oferecer como gratidão dos seus dons, aos seus irmãos menos instruídos, seus conhecimentos, seguindo aquela dávida da entrega, da que tão bem nos deu exemplo são Francisco, a inícios também do século XIII. Dávida, como bem define o dicionário: “ato ou efeito de dar espontaneamente algo de valor, material ou não, a alguém”

No novo Período Cívico, ainda por chegar. Período de libertação dos seres humanos de toda servidão (seja do Templo, do Palácio ou do Mercado), os novos valores adquiridos, da nova Psique focada no Ser, serão postos ao serviço do indivíduo e toda a comunidade.

O cidadão e cidadã tornar-se-á o verdadeiro Servo; como bem reflete nosso bom amigo Helder Ramos: Ser-vo (voo), o Ser que Voa, o Ser que pode voar, que pode finalmente pode ser livre. Simbolizado no Falcão egípcio de Hórus; o Cisne, a ave de hamsa dos indianos; a Pomba do espírito santo dos cristãos. Aquele ser mercurial – Lugh – conhecedor dos segredos universais. Possuidor do conhecimento suficiente para viver acorde as Leis Naturais, que são resumo na Terra, das Leis Universais, que governam o cosmos.

Sendo que através da Tripla Libertação: Libertação do sentidos, Libertação dos condicionantes sociais limitadores e libertação do medo – guerra entre os povos… Os seres humanos encaminhar-se-hão a uma completa paz. Tripla Pacificação: Pacificação do Indivíduo, Pacificação da sociedade com a natureza, Pacificação entre os povos. Pudendo finalmente a humanidade, dentro da aliança dos povos unidos com a natureza, levar adiante seu verdadeiro destino: ser o cuidador, guardião e mantenedor do equilibro natural no Planeta. Ativando a fase do Ecologismo Ativo.

Vivendo dentro do entorno natural e colaborando com ele, por meio da inter-colaboração entre os mesmos humanos, na estela daquela “Ajuda Mútua” estudada pelo teórico russo Piotr Kropotkin, no livro do mesmo nome. Aceitando e adaptando as sociedades as Leis Naturais, para permitir os precisos ciclos de regeneração, necessários para criar a exuberância da vida. Ultrapassando a guerra entre opostos, pela colaboração entre completares, ativando a união da polaridade masculino – feminino, geradora da mesma vida.

Estamos agora nessa encruzilhada: o declínio dum ciclo velho – mercantil e a chegada futura, dum novo ciclo, ainda por concretizar, do Poder Cívico ou Poder da Cidadania. Para que este novo ciclo poda efetivar-se é mais do que nada preciso, uma evolução na compreensão e no conhecimento da humanidade. Precisamos duma humanidade melhor formada. Precisamos que o conhecimento que fica sempre no Topo, baixe ate a base e se enraíze em toda a sociedade.

Precisamos pois políticas de abertura, em todos os âmbitos, do conhecimento humano à base social. E o velho centro Ocidental, já não tem fôlegos, para realizar essa viragem. Desde que a Europa, quebrou o Velho Estado Providencia ou do Bem-Estar, com a aplicação do Neoliberalismo Económico, da Ex-Primeira Ministra do Reino Unido Margaret Thacher (em aliança as políticas pró-financeiras de Ronald Reagan); a ideia de elevar o nível económico das massas e, o papel regulador das desigualdades criadas pelo livre mercado, do Estado Social (vital para achegar conhecimento, formação e educação na base) ficou marginalizado a um plano de “não importância”. Virando toda à atenção para o Todo Poderoso Mercado. Consolidado ai, a falsa ideia, de entrega do património estatal à empresa privada, como liberdade. Chegando esta ótica distorcida a ver como negocio a mesma a saúde e a educação. Motivo pelo qual Ocidente deixou de ter interesse como Centro Geográfico Hegemónico, que pudera auxiliar a evolução da humanidade. Essa viragem neoliberal da Europa, levou o Centro Europeu Ocidental, a virar também de Evoluído a Involuído. Deixando à humanidade órfã, de esperanças, no caminho.

Um novo centro tem de ser ativado. Um novo centro criador dum novo direito universal assente na ideia do Templo, o Palácio e o Mercado estar ao serviço da formação duma humanidade com mais conhecimento de si mesma e do seu entorno.

Restituição do Estado de Direito, dentro da lei natural. Justiça social e ambiental. Nova humanidade virada já na irmandade com a natureza, pois não pode haver lei nenhuma, que muito tempo perdure, sem ficar bem apoiada, bem assente, nas leis da natureza. Pois quando não se caminha a favor de lei, caminha-se a favor da dor, do rigor extremo ou autodestruição.

Esse centro hegemónico já não poderá ser ativado no hemisfério norte, pela simples ração, de que desde Ásia, a Norte América, passando pela Europa, todas as regiões do Hemisfério Norte, já tiveram seu rol, na evolução humana. Agora, pois é o turno, a virada do Centro Hegemónico irradiador económico, cientifico e cultural, vai transitar do Hemisfério Norte ao Sul.

Precisamos temperança, é a temperança é aquela mão, que derrama auga sobre o copo, sem derramar nenhuma gota, logo rever-te a auga ao jarro, sem derramar nem mesmo uma gota de auga, nesta segunda ação . Temperança permite equilíbrio, caminho do meio. Os extremos, removem e deitam a auga sobre o chão. Derramando a fonte da vitalidade. A falta de temperança é sinónimo de conflito interno ou externo; provocando stresse, precipitação, pouco margem para a razão.

Saint-Yves d’Alveydre, no século XIX, falou-nos do princípio ético, realizável, de uma sociedade Perfeita governada por Sábios , como contraposição a sociedade atual, dominada pela corrupção, tanto no governo, como em todas as camadas sociais. Definiu este conceito baixo o nome de “Sinarquia”. Derivado dos vocábulos gregos “Sun” – união, acordo, concomitância; e “Arke” – princípio, fundamento. Observando-se pois a Sinarquia como acordo, união, entorno a um principio fundamental ou fundacional. Governo, do acordo, ordenado pelo conjunto da sociedade.

Já Platão tinha imaginado uma sociedade regida por Sábios, incorruptíveis e éticos, e para isso fundou sua Academia, rodeada dum bosque sagrado de oliveiras, dedicado a Atena, a deusa da sabedoria. Seres formados nos princípios do conhecimento, que enriquece tanto, que não precisa de valores materiais. Sobrados da riqueza espiritual do conhecimento, estes humanos seres, podem compartilhar sua dávida (iniciada no “conhece-te a ti mesmo, do templo de Delfos), pois o conhecimento precisa de fluência. Influenciando assim à sociedade e encaminhando às massas a favor do Bem na dávida do dar, da Bondade na Justiça (equidade e autoridade imparcial) e da Beleza na harmonização com a natureza.

Mas para chegar a este tipo de sociedade e, preciso criar uma ponte, entre o modelo atual político económico, baseado na corrupção, como impulsora de alianças e realizações ; por um novo modelo, mais adequado aos nossos tempos, baseado na confiança e na ajuda mútua.

O modelo atual, que aposte pela anarquia do mercado, como centro da vida – Liberalismo, sabemos já, por diversas experiências, em todo o globo, não funciona. Um modelo enforcado no Poder Absoluto do Estado, pelas mesmas rações, tanto empíricas como indutivas, também não. Experiência e evidência, assim o demonstraram reiteradamente, a pesar, de que os seres humanos sigamos a tropeçar na mesma pedra.

O novo modelo económico tem de estar baseado na Economia do Bem Comum, defendida pelo austríaco Christian Felber e, na Economia Circular, com suas noções de permacultura económica, de economia verde e alternativa à economia linear, depredadora dos recursos do planeta. Pois o recursos planetários fazem-se limitados, quando não permitimos a regeneração dos ciclos da vida. De manter uma economia circular sustentável, o planeta pode regenerar, mantendo viva sua exuberância. Sendo a exuberância a característica natural da vida na Terra, e, sendo a escassez, o sinónimo da mala utilização dos seus recursos, dentro duma economia virada a concorrência, guerra pelos mercados. A escassez neste marco de concorrência, por lógica biológica se impõe. Estamos, pois no momento idóneo para mudança de conceitos, pois a economia linear, a produção linear, os monocultivos, atingiram seu fim real. Sua espiral esta em contracção e se não mudarmos de visão, abrindo uma nova espiral expansiva de novo modelo económico, com novos conceitos, ficaremos ao limite da autodestruição.

Este tipo de modelos económicos sustentáveis, estão baseados naquela velha máxima de Cícero que diz que: “O bem do povo deve ser lei suprema”. A mudança de paradigma económico, inverte aquele afã de lucro, custar o que custar, pela cooperação, ajuda mútua e desejo de bem-estar compartilhado. O Lucro imediato, Economia e Mercado, desligado das outras ciências e centrado na ganância permanente – cria expansão permanente do poder dos mais ricos (encarados como mais fortes, dentro duma desfocada visão darwiniana de selecção dos mais fortes, num mundo em guerra – Concorrência) – enquanto fomenta escassez permanente entre os mais pobres, contraindo suas oportunidades e apagando seus direitos.

Este novo tipo de economia circular e do bem comum, terá de ser adaptada a realidade do novo centro geográfico, para dai irradiar a toda à humanidade. E somente existe um modelo político, na atulidade, que pode servir de ponte, para levar à frente este novo paradigma global, evitando cair na velha dinâmica da luta entre os extremos. Esse é o velho Estado Providencia, único modelo, já provado, capaz de complementar os extremos. Pois, também sabemos a extrema-direita – ativa a extrema-esquerda; feminismo extremo, ativa o movimento pelos direitos do homem; o ecologismo extremo, ativa o anti-ecologismo. E todo esse tipo de fanatismos, diluem o caminho do meio – ponte para transitar a uma futura sociedade de confraternização – onde todos e todas tenhamos cabida.

E eis que o velho Modelo do Estado do Bem-Estar, ativado na Europa, numa situação geopolítica em que capital e trabalho estavam em igualdade, na sua luta pela hegemónica política, deu decénios de relativa concórdia entre classes. Avivou a formação da população, criando um capital humano como nunca se tinha visto na Europa e, colocou aos países nórdicos no exemplo a seguir no mundo. Derrubado, trás o fim da guerra fria, pode de novo ser ativa no Hemisfério Sul, adaptando-se a essa nova realidade – para permitir uma melhor coesão, entre a necessidade individual, do ser humano de inovar e empreender a nível empresarial; e a realidade coletiva de precisar todos e todas, ter as mesmas oportunidades.

Sabemos que a América do Sul, é a região melhor situada para a transação do centro geográfico, desde o decadente Poder Ocidental, atual, no Hemisfério Norte. Mas também sabemos ela ainda não esta preparada para tal desafio. Sabemos que o Brasil é o país destinado a comandar essa transação, mas também sabemos, que ele esta muito longe, de atingir os condicionantes precisos, para iniciar tal tarefa. Sabemos que em estes tempos de confusão, e retrocesso, com maior ativação do neoliberalismo – que fomenta a anarquia do mercado, com lobbies e carteis privados, que utilizam esse mesmo mercado, em seu beneficio duns poucos (socializando as perdas e privatizando as ganâncias), parece difícil mudar. Enquanto por outro lado os modelos de controlo excessivo estatal, não permitem, iniciativa empresarial, adequada, axfisiando a economia. A vez, que o Poder Estatal financeiro, nomeadamente da China, não abre a mão duma sociedade mais democrática. Em este contexto tudo o exposto, pode assemelhar utópico. Mas a mudanças iniciam suas espirais de expansão, e estas se tornam, com o tempo imparáveis.

Gandhi, trás ler a Leão Tolstoi, ativou o Pacifismo como modelo de desobediência civil, viável. Martin Luther King, continuou sua estela. Mandela ativou a Confraternização, como única forma de reconciliação social. Anteriormente na América do Sul, Bolívar, San Martin, e outros iniciaram a espiral de independência política, que se tornaria imparável, ainda que o continente passou a depender economicamente da Grã Bretanha, mais tarde dos EEUU. Em inícios do século XXI, Brasil iniciou a espiral de Independência económica, imparável. Poderá haver retrocesso, para ajustar, mesmo esses processos, mas já não têm marcha atrás.

Aqueles movimentos políticos, independente da sua ideologia (direita, esquerda, centro) que trabalhem em contra da independência económica no sul do continente americano, no final estão destinados ao fracasso. Os povos da América do sul, finalmente, com maior ou menor sofrimento, tiraram de riba sua as cadeias que os estrangulam economicamente e as alianças, que permitem, explorar seus recursos, destruir suas florestas e encadear suas sociedades à vassalagem forâneo.

As rotas marítimas abertas, pelo Indico à África do Sul; pelo Atlântico do sul da África ao Sul da América, farão, com o tempo, que o pacifismo de Ghandi, a confraternização de Mandela, e a Independência económica dos povos da América do Sul, fiquem unidos, para mudar à humanidade.

Será um trabalho imenso, duro, doloroso. Cheio de entraves, de avanços e retrocessos, mas não pode ser travada à vontade da humanidade por seguir evoluindo e sobreviver.

Os povos da América do Sul, já conhecem a rota, apesar de desconhecer, qual é o melhor sendeiro.

Escolherão um caminho, se resultar errado, terão de mudar – mas somente irão escolher aquelas trilhas que avançam rumo à Independência Económica. Aquela Independência que permitir-lhes-á tomar conta do seu presente e futuro.

Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso Novelhe

Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.
Artur Alonso Novelhe

Latest posts by Artur Alonso Novelhe (see all)


PUBLICIDADE