Contributo galego a vocabulários e dicionários da Lusofonia



 

No recente Encontro de Lexicografia, que se realizou no dia 21 de julho na Casa da Língua Comum, em Santiago de Compostela, a Dra. Ana Salgado, da Academia das Ciências de Lisboa, apresentou o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa on-line, que recolhe o contributo galego enviado pela Academia Galega da Língua Portuguesa.

contributo

 

Trata-se da mais recente colaboração entre a AGLP (facilitada pela sua Comissão de Lexicologia e Lexicografia) e entidades académicas ou empresas informáticas do mundo lusófono, continuando o seu trabalho de elaborar e fixar a norma galega do português.

Pode-se dizer que essa colaboração começou nos anos 90 do século derradeiro, quando se incluíram em dicionários lusófonos alguns vocábulos galegos de uso corrente na língua oral ou na escrita literária, que figuravam no texto do Acordo Ortográfico de 1990, em cujas negociações participara a Galiza por meio de organizações não governamentais.

Anos depois, já fundada a AGLP, o seu presidente, José-Martinho Montero Santalha, apresentou na sessão solene interacadémica (ABL-ACL-AGLP) realizada em 14 de abril de 2009 no Salão Nobre da Academia das Ciências de Lisboa, o Léxico da Galiza para ser integrado no Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa. Participaram também os académicos da AGLP Luís Gonçales Blasco, Fernando Corredoira, Isabel Rei, Concha Rousia e Ângelo Cristóvão.

A elaboração do Léxico da Galiza fora feita pela Comissão de Lexicologia e Lexicografia da AGLP a pedido da ACL.

O dia 27 de abril de 2009, a AGLP e a Priberam Informática, s.a. assinaram um Protocolo de Cooperação em virtude do qual foram incorporadas 1092 palavras de uso corrente na Galiza, disponibilizadas na internet, e consultáveis desde então nos seus corretores de textos, como os FLiP 7/8/9, onde se indica que “A base lexical do português europeu contém também informação lexical do português da Galiza, a partir do Léxico da Galiza para ser integrado no Vocabulário Ortográfico Comum, da Academia Galega da Língua Portuguesa (Santiago de Compostela/Lisboa, 2009)”.

Em 5 de outubro de 2009, a AGLP realizou em Santiago de Compostela o I Seminário de Lexicologia. Foi neste evento que o professor Jõao Malaca Casteleiro apresentou o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Porto Editora, que integra o contributo lexical galego, com mais de 800 palavras comuns na Galiza. Nessa altura, o professor Evanildo Bechara anunciou a inclusão, na próxima edição do Vocabulário da ABL, do contributo lexical da Galiza. Por sua vez, o académico Artur Anselmo, Presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Academia das Ciências de Lisboa, comunicou que a terceira edição do Vocabulário da ACL incluiria também o léxico galego.

No prólogo do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Porto Editora, 2009, o seu organizador, J. Malaca Casteleiro, diz: “Vão também registadas mais de 800 palavras de uso geral e corrente na norma galega do português e que foram dadas a público pela Academia Galega da Língua Portuguesa, justamente na perspetiva da sua integração no vocabulário ortográfico comum, mencionado no texto legal do novo Acordo. É de salientar que tal registo de galeguismos ocorre pela primeira vez numa obra lexicográfica do português, indo assim ao encontro de uma vontade consensual há muito manifestada, nomeadamente através da participação de uma delegação galega

nos trabalhos e reuniões oficiais que conduziram à aprovação do Acordo Ortográfico de 1990” [p. 8]”.

E ele declarou ainda: “Hoje temos que entender o português europeu como tendo duas normas, a norma portuguesa e a norma galega” (citado em “II Seminário de Lexicologia”, Ângelo Cristóvão, Boletim da AGLP, no 4, Santiago, 2011, p. 254, também em entrevista disponibilizada no site AGLP. ).

O Léxico da Galiza está também incluído no Vocabulário Ortográfico do Português Europeu do ILTEC (), e as definições podem-se consultar no Dicionário Estraviz do Português da Galiza.

A AGLP, que iniciou o caminho de reconhecimento do português galego, português da Galiza, ou norma galega do português, elaborando-a e fazendo reconhecer na Lusofonia a sua especificidade, e respeitando as formas que, sendo específicas do nosso português, não foram reconhecidas ou usuais noutras formas da língua, continua a facilitar aos seus parceiros os frutos do trabalho da sua Comissão de Lexicologia e Lexicografia como, entre outros, o Vocabulário Ortográfico da Galiza publicado em 2015.

(Outras ligações e contactos:

Léxico da Galiza

Comissão de Lexicologia e Lexicografia da AGLP: [email protected]

Coordenador: [email protected]

Dicionário Estraviz http://www.estraviz.org/

Carlos Durão

Carlos Durão é membro numerário da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP). Estudou en Vigo (bacharelato), Santiago (começo de estudos universitários) e Madrid (licenciatura de Filosofia e Letras, ramo de germânicas), donde partiu para Londres, em regime de intercâmbio universitário por dous anos, e em situação de exílio até à morte do general Franco. Foi professor de idiomas em colégios ingleses, redator radiofónico no Serviço Espanhol e Português da BBC, e tradutor técnico em organismos britânicos e do sistema da ONU.

PUBLICIDADE

  • Venâncio

    Caro Carlos Durão,

    Por vezes, preciso de beliscar-me para comprovar que estou desperto quando leio esse rol de façanhas internacionais da AGLP.

    Escreves: «O Léxico da Galiza está também incluído no Vocabulário Ortográfico do Português Europeu do ILTEC».

    Não é verdade. Encontramos aí alguns vocábulos do “Léxico da Galiza” que sempre figuraram em dicionários de Português, e na sua categoria morfológica portuguesa. São os casos de “abeiro, abofé, agás (subst,!), aginha (ou asinha), andaina, aperta (forma verbal!), arreio (subst.!), avondo, azo”.

    Mas não existe rasto dos advérbios “acarão, acô, adoito, alá, alô (como adv.), antano, arestora, assemade / assomade, daquela (como adv.), mentres, passeninho, ulo, velaí (como adv.)”.

    Isto é, o “Lexico da Galiza” não está no Vocabulário do ILTEC, o único oficial em Portugal. Esteve no Vocabulário do Casteleiro, que não conseguiu qualquer estatuto reconhecido, e estará (mais promessas…) em futura edição da Academia das Ciências de Lisboa, que também não tem estatuto oficial.

    Sim, uma parte do “Léxico da Galiza” está no corrector ortográfico da Priberam. Só que não tem tratamento morfológico útil, como seriam as conjugações verbais.

    Mas mesmo que o “Léxico da Galiza” estivesse algures! A AGLP é a primeira a não usá-lo, ou a fazer dele um uso só ritual, folclórico.

    Na realidade, esse “Léxico” da AGLP é aquele que usam, que verdadeiramente usam, os que chamais “isolacionistas”. O que vos vale é que a malta portuguesa não sabe isso. Mas hás-de reconhecer que há, em tudo isso, algum cinismo.

    Um abraço.

    • Joám Lopes Facal

      A demanda de aquiescência a instáncias alheias é o tributo devido á heteronomia ortográfica adoptada

      • Venâncio

        Caro Joám,

        Julgo que é como dizes.

        Por mim, vi o referido “Vocabulário Ortográfico da Galiza”, mas não tive oportunidade de examinar. Ficou-me a impressão duma edição luxuosa e caríssima, decerto financiada por algum mecenas.

        Hoje, gostaria de saber como resolveram a questão das divergências entre a Norma ortográfica brasileira e a portuguesa. Isto é, saber se adoptaram (é um exemplo minúsculo) recepção, recepcionar, recepcionista, receptáculo, receptar, receptividade, receptivo, receptor, como continua a fazer o Brasil, ou receção, rececionar, rececionista, recetáculo, recetar, recetividade, recetivo, recetor, como está a ser imposto em Portugal.

        Saberás que os únicos livros jamais impressos segundo o Acordo Ortográfico de 1986, rejeitado unanimemente por brasileiros e portugueses, foram publicados por galegos… Continuais servidores, continuais servis.

        • Joám Lopes Facal

          Enfim, preferências do “português-da-Galiza”, seja o sintagma o que quer que for.
          A troca de grupos consonánticos através do Atlántico é um caso espectacular de divergência por causa de convergência.
          Quero aproveitar a ocasiom para saudar cordialmente ao meu caro amigo de longa data Carlos Durão.

          • Venâncio

            Sim, na bizantina terminologia da AGLP, o idioma dos galegos, o primeiro idioma de todos nós, deixou de ter nome.

            Chama-lhe o Carlos aqui “português galego”, “português da Galiza”, “norma galega do português”, “o nosso português”, e num artigo do Boletim da referida agremiação contei até oito designações diferentes.

            Quando uma língua tem tantos nomes, deixa de ter algum. E quando não tem nenhum, deixa de poder ser nomeada. Assim funcionam os tabus. E para a AGLP, o Galego deixou de existir.

            Como português, como herdeiro do idioma que a Galiza criou, sinto-me pessoalmente ofendido. Já perdi qualquer respeito por esse clube, e só lamento haver lá dentro gente que admiro e estimo.

            E tens razão. Esse AO90, que ninguém pediu senão umas luminárias tresloucadas, reaccionárias e filo-espanholas, que nenhum proveito teve, pois existem agora, na documentação “lusófona”, 3 ortografias (a europeia, a brasileira e a africana, esta porque os maiores países africanos conservam a grafia anterior), esse AO90 mal concebido e mal engendrado é uma chaga aberta que promete ficar-nos doendo por muito tempo ainda.

            Temos difíceis, tempos chatos estes, amigo.

          • Joám Lopes Facal

            Confio em que o salto, de índole inequivocamente fideísta, da identidade galega que nos constitui à portuguesa-da-galiza sonhada que pode ser qualificada rigorosamente de alienaçom seja transitória e reversível. A AGAL, a quem lhe cabe a glória intransferível de ter criado o sólido e funcional padrom do galego reintegrado nom pode refugiar-se no delírio de exercer de consulado geral da cultura portuguesa em Galiza, dignamente representado polo Instituto Camões. Quero crer que o excurso luso é um devaneio juvenil da sólida prática agálica, contraponto dialéctico necessário do galego demótico que a Junta e a RAG se empenham em acaparar.

          • Venâncio

            Não, meu caro Joám. A AGLP não é, infelizmente, tão “transitória e reversível” como poderia desejar-se. Ela surgiu para dominar e, agora que cheirou o poder, mesmo esse poder tão fútil como é ser guru do Reintegracionismo, não vai largar tão cedo.

            A razão é simples. Ninguém lhes vai fazer frente. O Reintegracionismo galego comporta-se, aqui, como um manso cordeirinho. E eu até compreendo isso. Só um linguista, um verdadeiro linguista, alguém que sabe como a gramática do idioma funciona, e o seu léxico, e a sua semântica, e a sua história, poderia soprar o castelo de cartas que a AGLP, esse clube de activistas, anda construindo. Só que vós não o tendes, a esse linguista. Eu até diria: tendes um, ou dois, só que não estão interessados.

            Ninguém, pois, lhe fará frente, enquanto ela, a AGLP, irá impondo o seu programa para o idioma, que é, na realidade, o duma sua visão espanhola dele. Com muito queridas e toleradas particularidades aqui e ali, mas uma só Norma linguística universal e indiscutível.

            E assim, enquanto o português brasileiro, e o africano, e o europeu avançam para uma pacífica divergência na sua gramática, no seu léxico, na sua pragmática, uma divergência essa sim irreversível, o Reintegracionismo Galego vai-se transformando num covil de reaccionarismo que se reivindica dum português centralista, uniforme e… inexistente.

            Quem diria, Joám, que o bravo e valente Reintegracionismo galego iria ser levado como um cordeirinho à degola.

          • Marcos Celeiro

            Adoro estas divagações dos babalhões de acô e de acolá. Que tipo de drogas utilizais?

          • Venâncio

            Eu também adorei sempre as divagações de certo fulano que se dizia feliz se cada galego tivesse como norma linguística as particularidades do seu tugúrio. Infelizmente, tenho-o visto muito calado. Divertia-me à brava. Era a minha droga, e ando há anos em ressaca.

          • Marcos Celeiro

            Agora não perde o tempo debatendo com analfabetos funcionais e parrulinhos que querem uniformizar as falas em «normas nacionais».

          • Venâncio

            Que bom, que bom! Voltaste a fazer-me rir. Continuas portanto igualzinho. Conserva-te assim. Espanholinho e tudo: contra as “normas nacionais”. Quem diria, alguém que se dizia reintegracionista!

          • Joám Lopes Facal

            Deixemos o cam ladrar ao palheiro, o seu próprio eco é a única resposta

          • Venâncio

            A sério: sem o saberem, bastantes reintegracionistas galegos projectam sobre a realidade da língua portuguesa aquilo que aprenderam acerca do espaço do espanhol.

            Não sabem que o português se desenvolveu como idioma pluricêntrico. Ignoram que a atitude histórica centralista do espanhol nunca foi o cenário da expansão do português.

            Enfim, e como ando dizendo aqui há muitos anos, mas sempre em vão, o Reintegracionismo galego, no seu voluntarismo e na sua pouca informação linguística, desconhece a realidade do português.

            Mas receio que assim há-de continuar. Receio, até, que a AGLP irá acentuando a visão espanhola do idioma. Ela própria nasceu duma concepção espanhola das “academias de lengua”.