Como fai o judoca. Aprenda a fazer um nó suevo



Nos finais do século VI da nossa era chegava ao Reino Suevo da Galiza um sacerdote chamado Martinho. A missom que trazia era voltar a atrair os habitantes da nossa terra à ortodoxia católica, abandonada oficialmente por influência do ariano poder visigodo e questionada popularmente pola persistência da heresia priscilianista, e já de passagem conseguir que a monarquia galega se unisse à entente antivisigoda que integravam o Reino Franco e o Império Romano de Oriente.

Martinho cumpriu ambas missons com notável sucesso e mesmo acabou por se converter numha das mais importantes figuras do reino e mesmo de toda a cristandade. Precetor do herdeiro, conselheiro do rei, fundador de mosteiros, reformador de costumes… muitos som os qualificativos que se lhe podem dedicar. Mas o certo é que, fora de círculos reduzidos, a figura de quem passaria ao santoral católico como Sam Martinho de Dume é pouco conhecida.

Curiosamente, noutro país existiu um outro sacerdote cuja história vital é sumamente semelhante à do nosso Martinho. Um predicador que foi quem de estender o cristianismo numha terra adversa, a priori, e que acabou por se converter num referente cultural, no sentido mais amplo do termo, para todo um povo. Mas até aqui chega o paralelismo já que, ao contrário do que acontece no caso de Martinho de Dume, este predicador do século V nom foi esquecido senom que se converteu numha das figuras mais conhecidas da naçom que evangelizou. Estamos a falar, como teredes deduzido, de Sam Patrício da Irlanda.

A pegada de Martinho e Patrício foi nefasta para a conservaçom de muitas práticas culturais e religiosas que ambos sacerdotes perseguírom por considerá-las contrárias ao dogma católico, porém nom podemos esquecer que essa perseguiçom foi um elemento chave na conformaçom de muitos outros elementos ainda hoje presentes nas nossas respetivas culturas nacionais.

Além do notável sucesso na perpetuaçom da memória de Patrício entre o povo irlandês, quijo a história que a celebraçom do Sam Patrício passasse a ter nas últimas décadas umha dimensom internacional. Nom é difícil entender o porquê.

A nutrida colónia de emigrantes procedentes da Irlanda nos USA conseguiu estender o que até há bem pouco tempo, em termos históricos, era umha festa apenas celebrada na velha Eire e conseguir que fosse assumida como umha das celebraçons próprias da cultura norteamericana. Só fijo falta que a hegemonia cultural da potência global fosse mais forte para que por todo o mundo, Galiza também, começasse a se celebrar o Sam Patrício.

Perante este panorama há quem defenda umha resistência rígida. Nom ceder nem um passo às imposiçons culturais do império e fazer umha defesa absoluta das nossas mais enxebres tradiçons.

Esta postura apresenta, a nosso entender, algum problema. O fundamental é o de conceber a tradiçom como algo inamovível, o que em si mesmo é um erro absoluto. As tradiçons som dinámicas e flexíveis, adaptam-se às mudanças que sofrem os povos que as criam. Pretender conservar imutáveis os nossos velhos costumes é umha tarefa absolutamente impossível além de inútil.

Para além disto, nom podemos ser tam inocentes como para ignorarmos o brutal poder da cultura hegemónica e contentar-nos com conservar pequenos núcleos de ativistas conscientes, militantes dumha cultura moribunda e perfeitamente idêntica a si mesma, enquanto a maioria do nosso povo adopta novos usos e costumes.

Entra em jogo aqui umha nova estratégia que a Gentalha do Pichel, junto a outras associaçons e núcleos defensores da cultura galega, temos utilizado nos últimos anos.

Trata-se de aproveitar o facto inegável de os alicerces básicos de muitas das nossas tradiçons serem comuns ao conjunto de culturas do ocidente europeu. Tradiçons e festas associadas que hoje chegam da mao da cultura norteamericana com roupas coma as do Halloween ou do Pai Natal mas que, como temos demonstrado nos últimos anos, podem ser inteligentemente travestidas com os fatos do Samaim ou do Apalpador, uns fatos feitos com as teias tecidas pola nossa história mas com um corte e desenho dos nossos tempos.

Assim, como fai o judoca, aproveitamos o impulso do ataque da nossa adversária, que pretende substituir a nossa memória e tradiçom, para devolvermos o golpe e reforçar os traços singulares da nossa cultura. Umha cultura que continua a beber da nossa história mas que sabe adaptar-se a umha realidade em permanente mutaçom.

É por isso que animamos a aproveitar a proximidade temporal entre as festividades de Sam Patrício e Sam Martinho de Dume, 17 e 20 de março respetivamente, para fazer umha jornada de celebraçom da memória da nossa herança sueva, reforçar os laços que unem aos povos atlánticos da Europa e porque nunca é tarde para continuarmos a criar tradiçons.

 

André Seoane

André Seoane

André Seoane Antelo é licenciado em História, sócio da AGAL e membro da Comissom de História da Gentalha do Pichel.
André Seoane

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  • Diego Bernal

    Gostei do texto, André. Parabéns. Acho a ideia engraçada e ótima para recuperar esta figura histórica. Porém, creio que não devemos deixar de tecer laços com a lusofonia, não só no plano linguístico, senão também no cultural no sentido amplo.

    Quando cheguei a Portugal vi numa Junta de Freguesia uma exposição sobre a festa dos Maios. No meu bairro, em Lisboa, o primeiro cartaz que vi a anunciar uma festa popular foi um “Magusto”. Estas junto com o entruido são as verdadeiras festas identitárias galego-portuguesas.

    Um abraço!

    • Venâncio

      Magusto e Entrudo, «festas identitárias galego-portuguesas», caro Diego Bernal? Donde tirou você isso?

      Depois, tirando o idioma (e mesmo esse, em Portugal, só para você, eu e mais uns poucos freaks), existirá alguma “identidade galego-portuguesa”? Se a há, fico imensamente curioso.

      • Venâncio

        A opinião pública portuguesa está convencida de que a tourada é uma «festa identitária luso-espanhola». Os trajes, a música, os gestos, e sobretudo o vocabulário (que em Portugal é quase todo ele puro espanhol), eis o que poderia demonstrá-lo… Quando falamos em “identidade”, importa saber que ela é coisa fabricável.

        • José María Piñón Cobelo

          Mesmo na França são as touradas uma tradição… Parabéns mestre Venâncio

        • http://miromoman.wordpress.com/ Miro Moman

          Com efeito, as touradas são uma tradição ancestral em todo o sul-oeste da Europa desde o sul da França até o estreito de Gibraltar. Excepto nos territórios galaicos (Galiza, Astúrias, Norte de Portugal, etc). Semelharia que a ausência desta tradição constitui uma “especificidade” nossa… 😉

          De facto, a imensa maioria dos portugueses do Norte, igual que os galegos, estão orgulhos de não partilhar essa tradição com os basco-ibero-lusitanos e gostariam de que as touradas fossem abolidas.

      • Diego Bernal

        Caro Venâncio, talvez negar a identidade galego-portuguesa seja o mais galego-português que há desde a separação dos nossos territórios até hoje 🙂

        Os meus parabéns, o senhor está a demonstrar com os factos que é da nossa estirpe 😉

        Já morei na Irlanda, na Nova Zelândia, na Inglaterra, em Espanha, no Brasil… e nunca vi magustos, nem festas dos maios, nem entrudos. Em Portugal e na Galiza sim (no Brasil, como é lógico, vestígios destas festas sim). Festas galego-portuguesas? Existem na Galiza e em Portugal, mas o senhor pode defini-las, na boa, como sino-russas se quiser. No fundo somos um povo que gosta de ironias e piadas.

        Uma saudação de Alfama, bairro, por acaso, se o senhor mo permitir, bem galego-português, pois aqui venderam a sua força de trabalho milhares de galegos emigrados.

        • Venâncio

          Veja, Diego. Quando você encontrar um português para quem uma “identidade galego-portuguesa” diga alguma coisa, pergunte-lhe o quê exactamente. Eu nunca encontrei nenhum, portanto também nunca pude perguntar.

          Eu vou-lhe dizer o que penso. Alguns galegos têm, actualmente, uma dificuldade imensa em colocarem-se neste mundo. Andam perdidos, à cata de âncoras identitárias.

          Isso acontece, à vez, com todos os povos. Os portugueses (é só um exemplo banal) inventaram no decorrer do século XIX uma porção de elementos identitários. Até então estes não eram necessários, pois a Casa Real era a identidade deste povo.

          Os galegos estão, hoje, no meio do problema. Para uns o celtismo traz um sentido à existência. Para outros, é o atlantismo. Para outros ainda, é a “identidade galego-portuguesa”.

          Pense bem: se a “identidade galego-portuguesa” dever servir-se de, bons céusI!, o Magusto, do Entrudo e coisas do género, que tipo de “identidade” é essa?

          Por fim: mantenha um pouco de nível. Chamar «galego-português» a Alfama, um bairro mouro, só porque nele trabalharam milhares de galegos… Meu caro, em todo o Portugal trabalharam milhares de galegos.

        • Ernesto V. Souza

          Caro, há entrudo por toda a Península, nalguns sítios da Andaluzia, Castela e País Basco são cuspidinhos dos nossos, com totemicos andantes disfarçados e reivindicativos contra os poderes… do mais ancestrais… e com o Magusto, onde ficam castinheiros é mais que provável que topes os mesmos ritos de vinho novo, dia dos mortos, salto purificador de lume e cacharela e castanhas compartilhadas em coletivo… provavelmente são ritos agrícolas associados a fases do caledário agrícola e bem comuns a toda a Europa Atlântica… No Sul da Âvila garanto, há entrudo e magusto tradicionais… não chamam deste jeito claro… mas …

          E já nem que dizer com a exportação do Carnaval e Halloween… por toda a Espanha… até em Valhadolid celebram o São João… sem sardinha, mas com lume e noite mágica…

    • Celso Alvarez Cáccamo

      Concordo, Diego. É extremamente curioso (“curioser and curioser”, I should say) como, se muitas das tradições galegas e portuguesas são também ocidentais em geral (e rurais, e ligadas a um tipo de vida etc., como nos lembra o Ernesto), por serem mais amplas magicamente deixam de serem também galego-portuguesas 🙂 , que é o que tu queres enfatizar. Claro que algumas pessoas prefeririam que estas tradições comuns à área cultural e linguística comum fossem galego-espanholas, ou luso-europeias, ou (provavelmente) luso-espanholas (ah, essa inveja ou nostalgia de Nação Grande!, tão galega, a propósito!). Resulta que dantes as tradições podiam ser traços identitários galego-espanhóis e não se passava nada (os “reis” magos, as “Inocentadas”, o “ratoncito Pérez”, you name it!): eram galegas também (como não iam ser!, se eram espanholas!). Mas quando se quer colocar o hífen identitário num outro composto… Ui, lagarto, lagarto!

      Pois claro que existe a identidade galego-portuguesa! Eu sinto-a, polo menos. Tu também, não é? E muitas pessoas que conheço. Até onde chega ela? Sei lá, vai ti saber. É Imanente, Absoluta, Totalizadora, Absorvente, Exterminadora de outras identidades sociais e pessoais? Não. Mas negar a sua realidade é só um inútil exercício ideológico. Um exercício, a propósito, profundamente espaÑol.

      Saúde!

      • Venâncio

        Sejamos um nadinha sérios. Uma “identidade galego-portuguesa” terá de constar de elementos culturais individualizadores, isto é, comuns e exclusivos, de galegos e portugueses no seu conjunto. A existirem, esses elementos terão de ser publicamente reconhecidos (não estamos a falar de ‘cripto-identidades’…) e publicamente partilhados.

        Não basta um galego declarar «Pois claro que existe a identidade galego-portuguesa! Eu sinto-a, polo menos. Tu também, não é? E muitas pessoas que conheço. Até onde chega ela? Sei lá, vai ti saber». Sobretudo não basta, quando, no meio de tamanho palavreado, não se disse, nem sugeriu sequer, «Onde começa ela?».

        Suponhamos, contudo, que essa identidade existe, declarada, explicitada, em mentes galegas. Seria, já em si, um fenómeno do maior interesse. Mesmo assim, teria de resolver-se um enigma. Este: como é que galegos sentem (porque, parece, é de ‘sentir’ que se trata) como comum e exclusiva sua e dos portugueses uma coisa que os portugueses não sentem? É, repito, um enigma.

        Pego na «Introdução à Cultura Portuguesa. Séculos XIII a XIX», de Miguel Real (2011, 307 págs.), e não encontro a palavra ‘Galiza’.

        Pego em «Arte de Ser Português», de Teixeira de Pascoaes (1915, última ed. 2007), e leio: «Portugal é uma raça constituindo uma Pátria, porque, adquirindo uma Língua própria, uma História, uma Arte, uma Literatura, também adquiriu a sua independência política».

        Pascoaes? Não foi ele o português novecentista que, tirando Lapa, mais contactos e amizades manteve com galegos? Para que tudo seja perfeito, e cómico, há no livro uma nota de rodapé que descreve assim o rio Minho: «A límpida corrente, reflectindo as duas margens, parece casá-las numa lágrima eterna de saudade». Perdoaríamos o ‘kitsch’ desta passagem, se Pascoaes não insistisse, no corpo do livro, no carácter exclusivamente português da “saudade”…

        Que fica, de tudo isto? Aquilo que eu disse acima: o idioma. Mas quantos portugueses, e quanto galegos, reconhecem que nos exprimimos no mesmo idioma? E quantos desses portugueses continuarão a admiti-lo quando eu demonstrar (espero que em breve) que, ainda que Portugal nunca tivesse existido, este idioma existiria?

        Um bocadinho mais de sereidade, por favor. E menos sofismas, sim?

        • Celso Alvarez Cáccamo

          Não falava com você.

          • Venâncio

            Era perfeitamente claro…

        • Ernesto V. Souza

          Bom… Fernando, talvez não exista… e mesmo talvez seja contrária à construção e tudo quanto nos aprenderam os nacionalismos português e espanhol (por outra parte convinha dizer já extremamente seródios, mas, ou por isso, tão intensos)…

          Isso não quita que, com as reservas que acho Celso e eu compartilhamos e certa distância irónica a respeito da história a nação e as identidades, justo nessa possibilidade de construir identidades políticas e nacionais, não se possa fazer legitimamente e mesmo que, da Galiza, onde o iberismo, o pangaleguismo (lusofonia) tem uns ecos muito arraigados e prórpios, não seja rendível, interessante ou reafirmante fazê-lo bem como projeto político ou suporte identitário dele …

        • Joám Lopes Facal

          O professor Venâncio deveria entender que o imaginário português assenta no facto da quase perfeita hogeneidade cultural do país e no mito de Portugal (história, língua) proceder por geraçom espontánea.
          Na Espanha as diferenças culturais e antropológicas entre comunidades som muito profundas e evidentes -heterogeneidade constitutiva – e a formaçom da ideia nacional espanhola precária e instável.
          Em tais circunstáncias, assinalar as semelhanças galaico-portuguesas, frente, por exemplo, às desemelhanças galaico-andaluzas ou galaico-castelanas é um exercício trivial e, além disso, com potencial político, no seu sentido mais amplo.
          O cepticismo irónico é sempre bom conselheiro, sempre que respeitar as razons dos vencidos. Nom sei se Fernando me entende.

          • Ernesto V. Souza

            Caro Joam, ele entende. Perfeitamente, é só que defende Portugal, como nós defendemos a Galiza.

            Acho que o nosso amigo Fernando, nessa extraordinária lucidez que tem, foi das primeiras (e talvez a única na modernidade desde Portugal) intelectualidades em perceber o que pode significar (em toda a sua complexa perigosidade e dentro das relações Espanha Portugal) para um nacionalismo como o Português, a questão galega. 😉

          • Joám Lopes Facal

            É possível, por isso falo da razom dos vencidos

          • Ernesto V. Souza

            Vencidos? quem… os galegos… Nunca, caro Joam… Acho que o maior erro do Nacionalismo contemporâneo foi o vitimismo. Não é rendível…

          • Joám Lopes Facal

            Ernesto, detesto o vitimismo, aludo simplesmente ao aborto no processo de constituiçom nacional dos senhorios galegos que propiciou a emergência do Condado de Portugal primeiro e da monarquia portuguesa depois. Compostela fracasou, Porto emergeu.

          • Ernesto V. Souza

            Isso tudo havia que revê-lo caro. Talvez um dos motivos da separação de Portugal, seja que os senhorios galegos não meteram todos os ovos, nem os filhos, nem os títulos, na mesma cesta… a questão seria saber quando os obrigaram a optar e quando deixaram de ser conscientes a ambos lados da fronteira que eram protagonistas de ambos os processos.

            Acho que foi algo gradual e que nunca se apagou de tudo… por mais que as administrações e os estados apagaram os títulos comuns e as propriedades… e penso que na elite política e cultural reverdesceu e latitava ainda a meados do XIX… quando o iberismo ainda se conceitua como possibilidade.

            Quando digo que ambos, o Nacionalismo espanhol é Português são seródios, ou quando menos na fase e fasquia que hoje tem… digo a sério… falo depois de 1875-80.

          • PopulistadeEsquerda

            O português, como o panónio, vieram combater o “perigo galego”. Do priscilianismo ao reintegracionismo 😉

        • http://miromoman.wordpress.com/ Miro Moman

          “Uma “identidade galego-portuguesa” terá de constar de elementos culturais individualizadores, isto é, comuns e exclusivos, de galegos e portugueses no seu conjunto.”

          De acordo no “comuns”, discrepo no “exclusivos”. A pretensa “exclusividade” é, certo, um dos fetiches dos nacionalistas (particularmente do que se deu em chamar “nacionalismo banal”) e também está muito enraizada na cultura popular. Porém, a pouco que escarabelhemos daremo-nos conta de que não faz qualquer sentido.

          Sendo a cultura um produto colectivo, e, como bem inmaterial, um muito promíscuo, observamos que pouco ou nada é específico duma determinada comunidade humana. E, ainda quando é, sempre existem hipóteses de que tenha sido “importado” em datas mais ou menos recentes ou mais ou menos remotas.

          Por isso, a pergunta relevante, não é o que é específico se não o que é diferente. Que há de diferente entre a cultura popular da a Galiza e do Norte de Portugal? O sotaque. Ponto. Outra cousa é se falamos da cultura moderna, onde a espanholidade e lusitanidade impostas polos projectos nacionalizadores dos respetivos estados sim que criaram referências identitárias divergentes (mas banais).

          • http://miromoman.wordpress.com/ Miro Moman

            Lembro uma vez que levamos uns colegas holandeses a comer lacão com grelos a um taverna do rural compostelano. Nós, muito orgulhosos das nossas tradições, não pudemos evitar ficar um bocadinho desiludidos quando um deles comentou “Ah, mas isto é um cozido polaco”.

            Então, o que se passa, somos menos galegos ou a identidade galega faz menos sentido por não termos sido os únicos no mundo que tiveram a ideia de cozer carne de porco, patacas e verdura?

            Essa mesma decepção era visível na face dos alsacianos quando, ante uma delícia culinária que eles achavam exclusiva, eu comentava “ah, nós também fazemos isso”. Ou quando lhes dizias que a famosa “sauerkraut”, cuja invenção disputam com os alemães, na realidade veio da China… Que se passa então, não existem a Alsácia ou a cultura alsaciana?

            Os eslovacos também acham que no seu país existem poucas especialidades culinárias típicas. Por que? Porque poucas são “exclusivas”. Claro, o goulash supõe-se que é húngaro e a strudel austríaca, mas, em que lugar do império nasceram? Quem inventou a “tortilha” de patacas? É a sidra asturiana?

            Todas estas “especificidades” existem unicamente no universo imaginário do nacionalismo banal (que é o nacionalismo de estado).

          • Joám Lopes Facal

            Que bom, Momám. Lembra aquilo dos protestantes recém chegados ao céu aos quae Sam Pedro demandou silêncio absoluto para nom perturbarem os católicos residentes convictoss de serem os únicos habitantes do empíreo.

          • Venâncio

            A identidade tem a ver com a ‘imagem’ que um povo faz de si mesmo. Tem a ver com as suas internas cumplicidades, históricas e sociais. Tem a ver com as suas obviedades, e sobretudo com as suas ‘referências’ conceptuais.

            Isto não quer dizer que essas referências são todas objectivamente válidas. Sabemos que não são. Mas elas superam o nível (de facto, irrelevante) da culinária e do sotaque.

            Em síntese: uma identidade é constituída pelo imaginário que põe em movimento uma determinada comunidade. Eu pergunto ao Miro que concreto imaginário põe hoje em comum movimento as comunidades galega e portuguesa.

          • Joám Lopes Facal

            Património cultural (antropológico) comum, divergência por superestrato da banalidade nacional(ista) dominante.Concordo plenamente.

      • Ernesto V. Souza

        Pois, Celso. Aí há uma questão. Importante acho e complexa, porque percorre o discurso identitário do nacionalismo galego, do galeguismo desde a origem e antes mesmo, e atinge e condiciona durante todas as suas fases históricas tanto o regionalismo, o iberismo, o federalismo como o separatismo e as ideias de união/relacionamento com Portugal e com Espanha.

        Talvez não exista em Portugal já este debate, ou condicionado pela história contemporânea fosse descartado no processo de fixação do nacionalismo português ou da identidade nacional de Portugal no século XX.
        E talvez seja do ponto que é um debate e opção identitária galega, temos cá, mais um dos debates e desencontros mais interessantes, uma das cartas mais extraordinárias (ou mesmo sacar um outro baralho) que a Galiza pode jogar nesta estranha partida das identidades nacionais de Espanha e Portugal.

  • Ernesto V. Souza

    Parabéns André, devias escrever mais, acho que há uma veta muito produtiva nesta linha pos colonial de efemérides subversivo conservadoras… e como diz o dito, o que não mata engorda… 😉

  • ranhadoiro

    Eu ando bem perdido, lera este artigo noutro saite, e gostara dele, achei-o aqui no PGL vim que tinha comentários e dixem-me vou começar por eles.
    Depois de debruçar-me neles dixem-me: Estava confundido este deve ser outro artigo que fala do entrudo, esse que no Brasil as elites (na época do império) já conseguiram que fosse substituído pelo carnaval ….que bem explica Leila Moritz, essa mestra da história da cultura na sua obra As Barbas do Imperador.
    Voltei ao texto ….e olha, era o mesmo que eu já lera.
    Há que ver que novelos se fam com estes fios

  • Venâncio

    Caros Ernesto e Joám,

    O nacionalismo português é, decerto, serôdio e tem uma base tremendamente frágil
    (também Eduardo Lourenço insiste nisso), assentando num conceito de
    “geração espontânea” (magnífica síntese, Joám). Portugal sempre foi
    perfeito, e só o Destino às vezes se lhe opôs…

    A alusão a Lourenço não é fútil. Ele é, desde há muito,
    celebrado como o grande mentor da consciência portuguesa, mas, por mais que ele
    aponte as nossas fragilidades conceptuais, nós interiorizamo-las, choramos a
    nossa lagrimazinha masoquista, e lá prosseguimos miticamente portugueses como
    se nada fosse.

    Se lembro isto, é para sublinhar que nenhum programa de
    reforma conceptual portuguesa (como o Ernesto parece propor) terá qualquer
    chance se for encetado de forma directa. É malhar em ferro frio.

    Pois bem: a Galiza tem, talvez, a única possibilidade de produzir
    algum desequilíbrio, algum movimento até, nessa fortaleza conceptual. Mas só o
    conseguirá se partir dum exacto conhecimento dela, duma abordagem inteligente e
    compreensiva, não se limitando ao virtuoso entusiasmo de melhorar o Mundo,
    menos ainda fazendo finca-pé nas suas “razões da História”, mesmo quando mais defensáveis que as portuguesas.

    • Ernesto V. Souza

      Pois é Fernando… em Portugal, como na Galiza os debates devem se ir aprochegando sempre, com cautela e calma… é mester convertê-los em necessidade, ou curiosidade, para as partes, antes de os encetar.

      E mesmo eu também, será de ler o Lourenço ou a você, ou ainda detectar essa reserva nos galeguistas do passado… não estou completamente convencido de que debates desses conduçam a nenhum cenário possível…

      Talvez a Galiza, os galegos nacionalistas, deveriam de uma vez reconhecer e enfatizar a Independência a Portugal e pensar seriamente em lha conceder a Castela. Parece piada, mas acho que não é.

    • Ernesto V. Souza

      É mais… não sei até que ponto é possível, nem necesário, nem interessante movimentar ou pretender uma mudança de reforma conceptual do nacionalismo Português.

      É dizer, existia certamente na tradição galeguista, no apelo constante a Portugal, reclamar dalgum jeito de Portugal um reconhecimento da sua identidade galega, como “direito” e como reforço da Causa galega.

      Mas, curiosamente, penso eu, na actualidade, esta tradição é mais forte e justifica a essência de discursos isolacionistas, enquanto em boa parte do reintegracionismo atual está-se apagando.

      Acho que uma das cousas mais fascinantes de boa parte do Reitegracionismo no presente é ter entrado – como neste artigo – num espaço de discurso pós-colonial e antinacional (anti-essencialista).

      Acho muito mais saudável e simples a construção de um discurso em positivo e centrado em pragmáticas construtiva e socializadoras de uso do português galego, e em paralelo a uma construção da identidade múltipla e não exclusivista em chaves de género, ecologistas, decrescentistas…

      • Venâncio

        Compreendo, Ernesto, a tua busca dum galeguismo novo: pragmático, ‘múltiplo’, não ideológico, não essencialista, e portanto não nacionalista.

        Mas penso que será necessário (humanos paradoxos!) estruturá-lo, dotá-lo de princípios, de referências, de linhas de acção. Afinal, até os movimentos de base procuram, às vezes com sucesso…, uma configuração política.

        • Ernesto V. Souza

          Sim é muito paradóxico… mas se alhures pode se fazer tal cousa com algum sucesso é na Galiza. 😉

    • ranhadoiro

      o problema da Galiza Fernando é que essa Galiza infelizmente não existe. Existem muitas Galizas, por exemplo a castelhana que odeia Portugal e a sua língua, a quem tem por inferiores racisticamente.
      Existe outra Galiza de seu, que pensa que teve muito a ver com Portugal, tanto que só Portugal faria sentido se se fazerem uns galegos como nós (espanhois em definitiva), e reconhecerem que o castrapo do DOG é o pai e a mai do português.
      Poderia seguir pondo mais capelas incluídas as reintegrantes. O Problema da Galiza é que é um processo em construção (um construto “nacional”) e por enquanto com poderosas retroescavadoras a desface-lo

      Somos um povo bem dividido só nos entendemos por tribos. como federação de tribos mas ninguém anda a enxergar nisso.

      Mais uma cousa vou-te dizer Fernando: Portugal foi a melhor das cousas que lhe podiam ter passado à Galiza, é isso é indistinto de se ser apreçado pelos galegos ou portugueses (do sim ou não) ou do que nos deparar o futuro. Além disso fazem bem os portugueses em não fazer muito caso dos galegos (quais) pois até sob a coroça do melhor apetrechado para aguentar a saraiva castelhana. bule quasse sempre um agente da espanha a pesar de ele mesmo. (as excepções são para confirmar)

      • Venâncio

        Ranhadoiro,

        Um amigo de Lisboa, que sabe que ando metido em ‘galeguices’, pergunta-me por vezes: «Então como vão as liortas?» Lembro-me disto ao ler-te que sois uma «confederação de tribos».

        A sério. Na imagem que, do exterior, se faz da Galiza, existe esse elemento recorrente: o da ausência dum grande entendimento, que dinamizasse o vosso presente e preparasse um futuro, fosse ele qual fosse.

        Dizes que «Portugal foi a melhor das cousas que lhe podiam ter passado à Galiza». É uma frase valente. Mas deixa-me dizer-te: a verdadeira utilidade de Portugal poderia ser mostrar (ou sugerir) que só uma Galiza independente tem sentido como visão de futuro.

        Eu sei: um projecto dessa envergadura exige muito empenho e muito discernimento, muito sentido prático e uma grande persistência. E, em primeiro lugar, decidir por onde começar bem.

        • Ernesto V. Souza

          Mas que podemos dizer/escrever os galegos que interesse em Portugal?

          Assusta-me, sinceramente, a resposta…

          • Venâncio

            Não te assustes, Ernesto.

            Existe, nos portugueses, um interesse básico pela Galiza. Por ‘básico’ quero dizer que ele é real, espontâneo, mas informe, pouquíssimo estruturado, e sobretudo muito pouco informado. E, quando falo em ‘portugueses’, refiro-me a uma opinião pública, e concretamente a de gente com formação e acesso habitual à informação (jonalistas, ensinantes, funcionários).

            O problema maior é que, em termos culturais (em sentido lato, incluindo a História), a Galiza não é em Portugal uma «referência». Isto é, algo socialmente reconhecido, a que se associa factos, gostos, ou que se evoca num ensaio político, cultural, internacional etc. Eu possuo uma pilha de artigos que, no decurso de anos, são dedicados à Galiza. A questão não é essa. É, antes, o facto de nunca a Galiza ser ‘naturalmente’, ‘obviamente’, associada a alguma coisa de interesse comum, diário, habitual.

            Já no passado dei exemplos gritantes, quase escandalosos, dessa ausência da Galiza no ‘imaginário’ português. Não vou repeti-los aqui.

            Também já propus que, por iniciativa galega, se produzisse algum material (um livro, por exemplo) que informasse a sociedade portuguesa dos motivos que há para que a Galiza se tornasse essa ‘referência’ cultural em mentes portuguesas. Essa minha sugestão vai, creio bem, fazendo o seu caminho.

            Deve, sim, partir-se dum exame muito factual da realidade portuguesa, dum desejo de ‘conquistar’ o interesse português pela Galiza, e não duma atitude de doutrinação ou aliciamento ideológico, que, de resto, não funcionariam…

          • Joám Lopes Facal

            O problema, Venâncio, é que a Galiza é o “ponto cego” da olhada portuguesa, concentrada inveteradamente em Paris e Londres, sem perder de vista Madrid. Galiza é umha simples província de um pais pouco de fiar e além do mais pouco relevante para o universalismo português.
            Quanto à Galiza, o habitual é a ignoráncia e o preconceito para Portugal, de raiz inequivocamente espanhola (as ideias dominantes som as das elites dominantes).
            O interesse por Portugal, mesmo apaixonado, refugia-se no(s) nacionalismo(s) galego(s) -há vários- e este(s) nom é interlocutor válido para a opiniom pública de Portugal.
            Só personalidades atentas e informados, como o nosso respeitado professor, som cientes do problema e do compromisso que comporta.

          • Venâncio

            Caro Joám: até hoje, sempre Portugal se ‘entendeu’ a si mesmo sem a Galiza. Esta concepção não vai mudar num futuro previsível, e são baldados esforços para consegui-lo. Tudo o que pode fazer-se (e isso, sim, tem sentido!) é convencê-lo de que, com a Galiza, pode entender-se melhor.

          • Joám Lopes Facal

            Difícil caminho para um pequeno país, prezado Fernando. Sem qualquer esforço de aproximaçom Espanha leva as de ganhar, exemplo: Saramago.
            Conformaria-me com poder suscitar cumplicidades intelectuais além da raia como Portugal tem aquém no reintegracionismo. Um portal digital de redacçom e frequentaçom comum também nom faria mal.
            Talvez alguns portugueses (Portugal é metáfora excessiva)
            podam chegar a compreender que a Galiza, além de raiz, é a interface certa e inevitável desse estranho continente que chamamos Espanha.

  • Ricard Gil

    Bem antes do mais dizer que gosto imenso de tudo o que aprendo eu lendo nestes “foros” senhores como o Bernal , o Venâncio o V. Souza , o Facal o Cáccamo…( hoje faltam sabores mais femininos de certo como a Isabel ou a Concha ) tem um grande saber que tento aproveitar , agora “desluze” um pouco que às vezes falemos como que ofendendo ( eu adoro a ironia a retranca ) ou palavras nom tam amigavéis porque opinamos e nos enganamos e aprendemos , Doutra lanço a minha questom : no livro : Imagem social recíproca de espanhóis e portugueses da fronteira fundaçom Rei Afonso Henriques ( fev 2000) e AS migracións en Galiza e Portugal contributos desde as ciencias socias candeia editora ( 2006 ) espelha umha imagem que diferencia as populaçons arrianas/ rurais / camponesas dumha e outra beira do Minho por exemplo em cousas tan futis como o uso majoritatio da rádio no lado espanhol e galego a respeito do português . Mas a final partilhar lendas é o que define umha identidade ?? Nom teram menos a ver qualquer lavrego de Samora com um da Galiza do que um adolescente da Corunha com um de Cádiz ?? Há um mundo partilhado e assimilado ( mesma língua teito e mesmo estado , mesmos refentes equipas de futebol , partidos políticos programas de televisom , formas de vestir , marcas de prestígio , lugares de lazer Mc donals , cinema , seriados , filmes , ) Qualquer criança seja dos USA ou do Japom ou da Espanha come no Mc donals ou Burger King , bebe Coca-Cola conhece as lendas e mitos como Som Goku , Star Wars baila o som de Lady Gaga ou Gamga Style e veste Adidas ou Nike e nem por isso , digo nem por isso Os Usa diram que partilhando isso há umha cultura que une o mundo que eles dominam e que os diferencia , porque afinal nom som todos constructos fantasiosos da realidade ??? Obrigado por me ler e paciència em responder

  • Venâncio

    [resposta a Miro Momám]

    A identidade tem a ver com a ‘imagem’ que uma comunidade faz de si mesma. Tem a ver com as suas internas cumplicidades, históricas e sociais. Tem a ver com as suas obviedades, e sobretudo com as suas ‘referências’ conceptuais.

    Isto não quer dizer que essas referências são todas objectivamente válidas. Sabemos que não são. Mas elas superam o nível (de facto, irrelevante) da culinária e do sotaque.

    Em síntese: uma identidade é constituída pelo imaginário colectivo, que põe em movimento uma determinada comunidade. Eu pergunto ao Miro que concreto imaginário põe, hoje, em comum movimento as comunidades galega e portuguesa.

    Só nesse exacto âmbito poderá falar-se duma “identidade galego-portuguesa”. Não no dos nossos particulares sonhos ou individuais desejos.

    Reformulo a pergunta: que imaginário colectivo, ou que cumplicidades colectivas, compartilham, hoje, as comunidades galega e portuguesa?

    • Joám Lopes Facal

      Fernando, atreveríame a propor a seguinte tipologia: o “imaginário colectivo” pertenceria ao ámbito do nacionalismo banal (Michael Billig), espanhol ou lusitano; a “identidade galego-portuguesa” ao substrato histórico e antropológico (pensemos, por exemplo nas feiras populares). O primeiro é manifesto, o segundo exige boa vista e ouvido dos quais nunca careceram os movimentos de resssistência cultural

      • Venâncio

        Joám, não adiantaremos nada com classificar como ‘banal’ o nacionalismo, português ou outro. Se assim fosse, o simples bom-senso burguês (mais ou menos iluminado) já teria resolvido a questão. Que é bem mais complexa que isso.

        Do mesmo modo, não adianta vir com ‘cripto-identidades’, que só se desvendariam a um olhar atento e informado. Isso prestou-se em todo o mundo, como sabes, a muita demagogia.

        Eu pergunto por elementos culturais colectivos, e colectivamente reconhecidos pelas duas comunidades.

        • Galician

          Eu acho que há poucos ou nenhum “elementos culturais colectivos, (EXPLICITAMENTE, agrego) e colectivamente reconhecidos pelas duas comunidades.”

          Comunidades entendo que é o conjunto da população. São duas realidades paralelas, quase desconhecidas entre si.

          Que seja assim agora não significa que não possa mudar no futuro, claro. O visionado das TVs e Rádios portuguesas na Galiza, seria um bom começo para ajudar a mudar isso da parte galega…

          A introdução de conteúdos de língua, cultura, história e geografia de Portugal no ensino da Galiza, ajudaria também…

          Nada disso foi feito até o momento…

          • Joám Lopes Facal

            Amigo galiciano, insisto na conveniência de ler atentamente o Billing. Acho que a sua argumentaçom dissolve posiçons acriticamante favoráveis às identidades “banais” consagrados polo sucesso histórico que ocultam factos elementares como o das feiras de Vila Nova da Cerveira serem tam semelhantes às minhas de Cee ou Maçaricos.

          • Venâncio

            Joám, não se confunda uma porosidade transfronteiriça com elementos culturais definidores de duas comunidades.

            Como linguista, distingo a flagrante continuidade linguística na fronteira galega e portuguesa duma não menos flagrante partilha de estruturas das ‘normas’ galega e portuguesa, que atravessou incólume os séculos.

            A um nível ‘micro’, existem continuidades fronteiriças do Minho ao Algarve. Mas elas só estruturam comunidades locais e não têm ‘peso’ nacional. Veja-se o mirandês, de raiz asturo-leonesa, ou os “touros de morte” de Barrancos.

            Se houver uma “identidade galego-portuguesa”, ela terá de estar a níveis bem mais relevantes. E, sobretudo, deverá ser reconhecível, e socialmente reconhecida.

            O resto é etnografia. Ou demagogia.

          • Venâncio

            Explicitarei o seguinte.

            Eu considero a língua da Corunha e a língua de Faro a mesma. Não estou sozinho nisso, eu sei, mas socialmente isso pouco adianta. As duas comunidades não se reconhecem como partilhando o mesmo património linguístico hoje. E portanto o nosso idioma (que tem dois nomes) não define uma “identidade” galego-portuguesa.

            Pela trecentésima vez, lembro que uma importantíssima chave para atingir esse reconhecimento está nas mãos do Reintegracionismo galego. Ele, e só ele, pode declarar com eficácia que qualquer norma de galego e qualquer norma de português pertencem legitimamente ao nosso idioma.

            Essa declaração teria imediatas consequências sociais e ‘identitárias’ em Portugal, na Galiza e nos países de língua oficial portuguesa. Mas, para realizar-se, exigirá muita generosidade, e uma recusa do higienismo linguístico entre vós hoje dominante.

          • Galician

            Acho inteligente essa proposta discursiva: “qualquer norma de galego e qualquer norma de português pertencem legitimamente ao nosso idioma.”

    • http://miromoman.wordpress.com/ Miro Moman

      E é uma boa pergunta. As identidades têm-se construído em base ao nada ou à pura invenção, que é mais do que o nada. Por que não poderiam elas construir-se sobre os alicerces de algo que existe, sejam esses elementos conspícuos ou ignotos?

      https://www.youtube.com/watch?v=zvjSHuBPtfQ

      Ou é que a união da península itálica aconteceu da noite para a manhã. Não, ela foi construída ao longo de décadas com materiais muito mais frágeis que os que unem a Galiza e Portugal.

      • Venâncio

        Por favor, por favor! O cantor Paulo Bragança é um angolano, que se prestou a cantar isto. Foi um pouco conhecido há 20 anos. Hoje só é recordado (e mal ele o saberá) por galegos com falta de argumentos.

        • Ernesto V. Souza

          Mas Fernando… Estes mesmos debates sao apenas de matiz ou possicao, mas sao possiveis e inteligiveis… Porque acontecem dentro e desde dentro de uma comum identidade…um galego ou um portugues qualquer poderiam entrar neles e achar sentido… E paixoes…. Outros nao…

          • Venâncio

            Observação muito arguta, Ernesto. Infelizmente, nem tu nem eu somos ‘respresentativos’ das nossas comunidades… Mesmo quando galegos e portugueses debatem (e eu já testemunhei várias ‘gerações’ de debates), nunca o vi fazerem “desde dentro de uma comum identidade”, e sim por uma comum confiança e um mútuo interesse. A ‘identidade’ seria outra coisa. E sobretudo seria explícita, socialmente reconhecida.

        • http://miromoman.wordpress.com/ Miro Moman

          E este outro gajo que vícios vem tendo?

          https://www.youtube.com/watch?v=e7cuD0Jftm8

          XD

          • Venâncio

            Tenha dó, Miro. Essa cantilena não tem a mínima relevância em contexto português. Não desmereça, por favor, do discernimento que tanto patenteiam outros reintegracionistas.

          • http://miromoman.wordpress.com/ Miro Moman

            Pois não tenho dó nenhum e acho que vou continuar a desmerecer porque, tal como o Prisciliano, sou-lhe um bocadinho heterodoxo XD

  • Celso Alvarez Cáccamo

    A “identidade” é o processo e destilado da construção da (auto)-identificação com um dado imaginário coletivo por meio de práticas sociais, isto é, não apenas atos, mas condutas estruturadas e estruturantes. Portanto, as identidades múltiplas (galega, galego-portuguesa, portuguesa, ibérica, europeia, feminina, masculina, transgênero, de classe, jovem, adulta, rural, urbana) não são mutuamente excludentes; antes, co-articulam-se, intersectam, nutrem-se e renutrem-se inerentemente. Qualquer tentativa de totalização dA Identidade não é só falida em termos da sua adequação à realidade social, mas, sobretudo, é suspeita de índice dum outro programa social, tipicamente de dominação. Os nazis foram perfeitos para isto. Hoje os nacionalismos estatalistas do capital reproduzem a pulsão nazista mas logicamente sem o adereço transparentemente brutal, que já não vende (tanto; mas ver Guantánamo ou Soto del Real). Numa mensagem, o Joám refere-se a esta dupla linha de significação que parece estar na base das divergências deste diálogo: por uma banda, há uma construção super-estrutural, de elite, nacionalitária (estatalista) da identidade totalizadora, cuja expressão na democracia liberal é exatamente o “nacionalismo banal” de que fala Billig: a “não-identidade”, isto é, a identidade totalitária (nazista; não o diria Bilig, acho, mas eu sim ;- ) ) naturalizada. Por outra, as práticas identitárias sociais, ecossociais, historicamente enraizadas, “de base”, também construídas, sem dúvida, mas em função doutras lógicas, e, na medida em que são “populares”, essencialmente em confronto com a pulsão nazista dos estados. É certo que em “Portugal” (isto é, para a cidadania banalmente nacionalista) a Galiza inexiste. Mas também inexiste, por exemplo, Trás-os-Montes: o único que existe é a metonímia imaginada (ver aqui Benedict Anderson, sem dúvida) da nação. Paralelamente, não é só que na Espanha inexista também a Galiza: é que na própria Galiza inexiste aquela Galiza que não seja a “Galicia” que é a que (nos) imagina a España!

    Ora bem, evidentemente, se na crítica das identidades vamos focar-no no discurso das elites nacionais, nessa narrativa irreal já para os objetivos do reintegracionismo palheiro, se vamos reparar se o composto “galego-português” ou “luso-galaico” está presente ou não em discursos que são apenas complexas expressões (ou não) de formas de (auto)-identificação, pouco adiantaremos. A identidade “nota-se” ou “vive-se” na medida em que no exercício das práticas estruturantes (o “fazer-ser” uma cousa ou outra, que diria a etnometodologia) se invocam, de maneiras subtis e situadas, esses referentes e imaginários, chamem-se como se chamarem. O construto “galego-português” pode-se “sentir”, por exemplo, precisamente na diferença, não na igualdade: pode-se ser “galego” em oposição a “português” dentro desse construto e imaginário, não em oposição a sevilhano ou turco. Por exemplo: na Galiza, mesmo para as pessoas não galeguistas, é frequente fazer piada do caráter “estrangeiro” de Portugal: nominalmente (legalmente) ir a Portugal é ir ao “estrangeiro”, mas na Galiza sabemos que isso é uma ficção engraçada. O estrangeiro é, como o mínimo, a França, e, para as consciências nacionalistas galegas, pode sê-lo (pode ser sentido como estrangeiro) ir à Andaluzia ou a Catalunha.

    • Venâncio

      Interessante.

      E se tentássemos exprimir-nos numa norma linguística menos… nazi?

      • Celso Alvarez Cáccamo

        «5. A constituição do campo da língua

        Nomeadamente, o processo de apropriação do galego começou nos finais dos 1970 – começos dos 1980 com a erradicação do que podemos chamar os marcadores linguísticos sociais de etnoclasse da fala pública. As formas do galego oral associadas às classes tradicionais marinheiras ou labregas foram sistematicamente eliminadas na construção simbólica dum “padrão” que significasse a domesticação não só da diversidade de práticas de fala mas da identidade, em congruência com a pulsão padronizadora do Estado, isto é, dum dos Estados do capital ocidental. Na escrita, a forma escolhida polas instituições galegas, declaradamente vulgarizadora, aparenta mimetizar a expressão do “popular”, numa pirueta ideológica difícil de suster a mínimo que examinemos a função classificadora de qualquer padrão, mas que tem produzido socialmente uma certa ilusão da “representatividade” das instituições que propõem esse padrão. Observemos um exemplo recente deste discurso autolegitimador em Regueira (2012): “[H]oxe en día o galego ten unha lingua estándar bastante establecida, unha “lingua lexítima”, e consecuentemente, como di Domínguez-Seco (2003: 209), “this own language now has some ‘incorrect’ (vulgar or impure) and some ‘non-shared’ varieties (dialects)”. E na medida en que esa “lingua lexítima” [do galego normativo da RAG] se separa da lingua das clases populares (da fala popular que está na base da lingua estándar), por medio de trazos tomados da lingua das clases privilexiadas das linguas veciñas (cultismos léxicos, fonolóxicos e sintácticos), aprendidos a través da educación regulada, os falantes das variedades populares (“non compartidas”) resultan estigmatizados” (p. 193; itálicos acrescentados).

        A tentativa de aproximação do autor ao modelo bourdieuiano ignora dous pontos de partida que são fundamentais para não oferecer uma simples mimese —consideravelmente plana— de análise: (1) “língua legítima” ou “língua autorizada” não é, em Bourdieu, uma simples etiqueta descritiva neutral, sinónima de “padrão”, mas remete, por definição, para a lógica da distinção e da dominação. A “língua legítima” é produto das operações dos campo da língua, da cultura e da política, como objeto específico (como veremos mais adiante), e, portanto, surge à partida como recurso “separado” das falas populares. E (2) portanto, logicamente, não é a “fala popular” que está “na base” da língua padrão, nem no modelo atual nem em qualquer outro que se conheça onde funcionam os mecanismos do mercado linguístico, nem, consequentemente, uma (língua legítima) se pode “separar” ainda mais da outra (“fala popular”). É, singelamente, a posição de classe intelectual a que impede ver que qualquer grao de distância estrutural entre a língua legítima e a “fala popular” representa o abismo (discreto, não gradual) entre “ter língua” ou não ter, isto é, entre ter e produzir língua e discurso, por uma parte, e ter fala e consumir língua e discurso produzida por outrem, por outra. Na sociedade do disciplinamento, nunca, por exemplo, será capaz de compreender a pessoa não alfabetizada, sem acesso à alta cultura literária, que a pretensa mínima distância entre a sua fala e essa escrita representa um abismo de classe marcado pelo prejuízo. Tony Crowley (1987), numa revisão da descrição de Voloshinov (1973) da tarefa filológica como um labor quase-sacerdotal (“The first philologists and the first linguists were always and everywhere priests”, Voloshinov 1973, p. 74; citação em p. 283), refere-se à necessidade estrutural da constituição dos grupos doutrinais que controlam a distribuição e apropriação da língua e do discurso:

        “Porém, a noção da língua padrão como a língua dum grupo superior dentro da ‘nossa’ nação tem o cometido de destacar que só algum tipo de língua é ‘bom’, só alguma língua pode ser considerada ‘correta’, ‘apropriada’ e ‘inglês padrão’. Outros usos, embora reconhecíveis ainda como inglês, iriam ser etiquetados de inglês sub-padrão. Isto é, as duas noções tinham o cometido de impor [simultaneamente] a unidade e a divisão cultura: o de formar um “nós” nacional mas assegurando que muitas pessoas que pertenciam a esse “nós” eram conscientes do seu estatuto inferior” (p. 287; tradução própria; itálicos acrescentados).1

        A minha única objeção à transparente descrição de Crowley, onde é suficiente substituir “inglês” por “galego” para ver-nos no espelho, e esse postulado grau de consciência da inferioridade linguística: antes, é o caso de que essas muitas pessoas do outro lado da divisão social dentro da “unidade cultural” são inconscientes da sua inferioridade, e, mais especificamente, são inconscientes das bases e dos mecanismos sociolinguísticos da sua inferioridade. Esta conivência, imposta por saturação, oferece a escusa ideológica ideal para o des-reconhecimento da divisão de classe a meio do padrão: se o próprio corpo social abraça a ideologia da “representatividade” da língua padrão a meio da sua docilidade, por que, então, o académico ou intelectual de extração labrega que é produtor desse padrão (um “intelectual de primeira geração”, como diria Bourdieu) iria nunca reconhecer que essa distância de classe é constitutiva da lógica do capital que mantém a sua posição, e que qualquer grau de distância formal entre a “fala popular” e a Língua, no regime de regularização que nos domina, é a fonte desse abismo de classe? Qualquer marxista chamaria isto “alienação”, e “dominação cultural”, se não for que, ao mesmo tempo, esta pessoa marxista tipicamente faz parte também (lado a lado com liberais) das instituições “nacionais” de elite intelectual, apoiadas com subsídios públicos, cuja captivante operação bloqueia o reconhecimento coerente da própria posição de elite. A fantasmagoria ideológica está servida, na mais clara manifestação da dependência estrutural do campo intelectual no capitalismo do saber.»

        Alvarez Cáccamo, Celso. 2011. “Contra o capitalismo linguístico: perante a crise da língua na Galiza”. Agália. Revista de Estudos na Cultura 104, pp. 11-28. Citação das pp. 16-19.

        • Venâncio

          Os galegos teriam ‒ e, se quiserem, têm ainda ‒ uma oportunidade de ouro de escaparem a um condicionamento
          elitista da linguagem. Basta-lhes (mas, exactamente, dá um
          trabalho danado) não se submeterem a modelos elaborados, ou inspirados, por Estados, e promoverem um que garanta visibilidade, e reconhecimento, à expressão popular autêntica.

          Dito isto, concedo que o próprio definir duma “expressão popular autêntica” é porta escancarada à manipulação, ou, em versão benigna, ao entusiasmo tresloucado. Mas não é uma maldição, e certamente não o é a priori.

          Facto é que, mesmo em contextos estatais abafantes, é viável um escape de cunho popular. No modelo de língua em que me exprimo ‒ pacientemente desbastado, ao longo de séculos, das antigas “fezes galizianas” (A. Neves Pereira, 1793) ‒ conhecem-se, hoje ainda, no Brasil, em África, até em Portugal, desempenhos tanto jornalísticos como literários que exploram, com sucesso, e com genérico aplauso, o acervo expressivo popular. São desempenhos habitualmente denominados “criativos”, uma forma subtil de recuperação ideológica pelo sistema.

          Também na Galiza não falta quem, na actualidade, se valha do acervo popular como fonte sistemática de expressão. Tais desempenhos mereceriam reconhecimento, simples atenção, ou o mais singelo respeito. Sim, quando se vocifera sobre a “nazificação” linguística estatal, conviria não esquecer (mesmo só de passagem) que existe quem a ela consegue esquivar-se.

          Mas não é tudo. Ao promover-se, na Galiza, a importação dum modelo de fabrico “nazi” estrangeiro, está-se a sonegar a uma comunidade particularmente vulnerável um dos poucos meios de afirmação que inda lhe restam.

          • Celso Alvarez Cáccamo

            Não percebeu nada. E manipula, como sempre (“importação … estrangeiro”). Fale com o popular Regueira e ponham-se de acordo. Há um posto de Assesor Estrangeiro Popularizante no ILG.

          • Venâncio

            Mas o Joám percebeu. E das duas uma: ou ele é um génio (o que não está fora de hipótese), ou a demagogia tem pés de barro. E pernas curtas.

          • Celso Alvarez Cáccamo

            O Joám sim, claro. Não é preciso ser um génio, só inteligente.

          • Venâncio

            Deixe-se de histórias. Como modelo para a Galiza, o português pronto-a-vestir (Joám dixit) é um fantasma gargalhando. Com a agravante de só poucos escaparem a vesti-lo à espanhola.

            A sério: quanto mais “intelectual” o discurso for, mais se pensa em espanhol (o único modelo interiorizado). O Celso é uma das excepções neste panorama? É. E por isso conhece a tremenda e contínua vigilância individual que tal exige.

            O lusismo nunca explicou como espera conseguir que o português funcione, e sobreviva, num ambiente espanhol até à medula.

          • Celso Alvarez Cáccamo

            O dito: não compreende o que digo. Leia Regueira, seguro que o entende.

          • Venâncio

            O Regueira (quem quer que seja) não é meu interlocutor. São-no, sim, objectivamente, os que planeiam instalar na Galiza o modelo de língua que o meu Estado elaborou ao longo de séculos.

            Uma coisa eles próprios demonstraram até hoje: esse modelo de língua não funciona, e nunca funcionará, numa Galiza espanhola.

            Um espanhol não imagina (nem pode, tecnicamente, imaginar) a imensidade de espanhol que embebe aquilo que os lusistas fazem passar por “português”. Eu já o mostrei, detalhadamente, noutros sítios. Trata-se, frequentemente, de frases inteiras que em português não fazem o menor sentido, mas entre os lusistas sim, pois eles as percebem como… espanhol.

            Claro, isto sucede todos os dias em (más) traduções portuguesas de textos espanhóis. Saramago fê-lo crescentemente nos seus últimos romances: também ele, a certa altura, passou a formular o pensamento na língua circundante. Mas o produto é um português impenetrável para o consumidor português ‘cândido’, isto é, desconhecedor da língua vizinha.

            Um apontamento biográfico: aprendi espanhol na adolescência. Mais tarde, nos estudos de filosofia, tive vários professores espanhóis. Sei exactamente o que é um espanhol a exprimir-se em português.

            Como fenómeno linguístico, o “português” dos lusistas é, pois, um produto normal. É, mesmo, interessantíssimo… e tenho de reconhecer que já me obrigou a conhecer melhor espanhol. Mas, como espectáculo, o português-submetido-ao-espanhol é deplorável.

            Há excepções? Há, de certeza. Eu sou o primeiro a reconhecê-lo e a valorizá-lo. Mas as coisas complicam-se quando mesmo estes indivíduos motivados, empenhados, aliviam a vigilância.

            O autêntico, o insuperável problema põe-se, contudo, ao nível social. Tudo indica que jamais uma sociedade poderá funcionar em português num contexto de dominância espanhola. Dito doutra maneira: uma sociedade bilingue em português e espanhol, num contexto de espanhol dominante, é impossível.

            Os lusistas, eles próprios, andam a demonstrá-lo já hoje. E é trágico haver gente a investir energias e anos de vida num futuro linguístico irrealizável.

            P.S.
            Não falei do galego? Exactamente: o galego não é o problema.

          • Joám Lopes Facal

            Quanto à necessidade de promover um espaço estilístico próprio para um galego restaurado, afastado dos efeitos da corrupçom provocada pola secular domináncia do castelhano mas também de fórmulas “artificiosas”, (prontas a vestir) do português, concordo plenamente.
            A vocaçom restauradora do reintegracionismo tem a obriga moral de incorporar a tradiçom da linguagem viva e nom ceder-lho desdenhosamente às instituiçons embalsamadoras do acervo linguístico popular que estabelecem o que é autêntico galego. Devemo-nos aos maravilhosos modelos literários portugueses mas também a Cunqueiro, a Dieste, a Otero, ao vizinho do bairro ou da aldeia.

          • Ricard Gil

            -Alerto dumha cousa as suas palavras caro professor “:esse modelo de língua não funciona, e certamente nunca funcionará, numa Galiza espanhola” SOM infelizmente as acaidas também para o modelo autonomista porque repare a gente do comum nom fala em ” verbo de” ou “encol de ” ou ” co gallo de ” ou “en troques de” ou nom fala de ” engádegas” “beirarrúas” ” orzamentos” “xuros” “pano de aceiro” “engalar o avión” , a vantagem precisamente de ter o modelo português em mente é que a gente pode ir a livros , filmes , seriados , documentais , romances , gramáticas, diccionários , escolas de idiomas , páginas webs para aprender a SUA língua e nom depende do capricho arbitrário duns codificadores que ora escrevem ” espellismo” ora “miraxe” antes escrebem “ventá” agora “xanela ” e enchem de fraseologia CASTELHANA e léxico castelhano textos obviando formas GALEGUÍSSIMAS que tenhem ” o pecado”?? de coindizer com formas portuguesas

            2 . Nom sei se conhece a norma proposta pola Academia de la Llingua Asturiana para grafar o que eles denominam como galego-asturiano ou também ” fala” e as declaraçons do seu presidente : .
            Según Vares, en Galicia la palabra azules es «azuis», mientras que en torno al
            Eo pasa a ser «azules». Y zanja: «Que no pretendan decir que por fenómenos
            lingüísticos esto es gallego. Creo que si Galicia llegara hasta Navia no
            tendríamos que renunciar a las diferencias, pero no es así y por eso aquí no
            hay voluntad de renunciar a estas características propias”.

            – Bem nessa proposta o nome da letra ” q” sabe como é ?? pois “cu” sim o mesmo problema que tínhamos nos, e a mesma soluçom castelanizante

            – Sabe que dizem para justificar o uso hiperabundante da letra “x” ? El fonema /x/ nun é propio del noso sistema llingüístico. Hai que
            tentar d’evitar el sou uso en
            empréstamos d’outras llinguas sustituíndolo
            por outra palabra autóctona que nun teña ese fonema. Os cultismos
            procedentes del llatín ou del grego hai qu’adaptallos con x ([ʃ]):

            E sabe que palavras ponhem como exemplo ?

            -antropoloxía, neoloxismo, exemplo, dixital,
            relixón

            Pois agora digo eu , estam a confundir fonema com grafia :

            Clarísima
            vissom ESPANHOLA ,
            vejamos as anteriores palavras noutras línguas

            Inglês : anthropology , neologism , example ,
            digital , religion

            Italiano:
            antropologia , neologismo , esempio , religione digitale

            Português:
            antropologia, neologismo , exemplo, religião ,digital

            Francês
            : anthropologie, néologisme ,exemple , religion, numérique

            Catalão:
            antropologia , neologisme , exemple , religió , digital

            Comparemos…..
            em qual dos exemplos das 5 línguas anteriores tem o fonema /x/ ???

            PS:Acho que muitas das hesitações em léxico e fraseologia que os utentes galegos temos estamos a melhora-las com um melhor conhecimento das outras variedades e com o trabalho de pessoas como o Venâncio o V. Corredoira a Elisabete Ramos.. e cedo veremos

          • Venâncio

            Caro Ricardo: vendo a citação, penso que te dirigias a mim. Em todo o caso permites-me clarificar algumas coisas.

            1. O que eu considerei, e considero, irrealizável é a criação dum território bilingue de espanhol e português no Estado Espanhol. [Repara: supõe-se que é isto que os lusistas visam. Eles nunca o disseram, e nunca o desdisseram]. Não digo que não possa tentar-se. Mas o resultado é, já hoje, visível na escrita publicada dalguns conhecidos lusistas: um “português” impregnado de espanhol. Extrapolado para o plano social, o resultado será simplesmente catastrófico.

            2. Tens razão quando dizes que a ameaça vale também para o galego. É verdade, e é preocupante. Só que o galego desenvolveu (no desempenho dos falantes mais conscientes) vários “mecanismos de convivência” com o espanhol. Os dois mais importantes são: o diferencialismo (com efeitos limitadores, eu sei) e a fuga aos conflitos semânticos (mais limitadora ainda). É muito triste que o galego tenha de acomodar-se aos apertos do espanhol. Mas imagina os abismos de acomodação a que o português teria de submeter-se para tentar sobreviver num ambiente linguístico para que não criou nenhum mecanismo de defesa.

            3. O português é duma imensa utilidade para o galego. Conhecerás o meu artigo «Uma proposta portuguesa para o léxico galego», em Grial 186, 2010. O português conservou em uso corrente importantes materiais que, na Galiza, não foram ainda padronizados. Esse aproveitamento exige, sim, uma ponderada programação. Entretanto, todos os contactos com o português são imediatamente úteis e vantajosos.

          • Ricard Gil

            Compartilho inteiramente os pontos 1 e 3.
            Eu também considero que terá muito difícil aceitaçom esse português-espanhol como língua social , que imitando por estratégia o padrom português renega das formas galegas por isso ponho o meu foco no português-galego , mas realmente também o tem a normaRAG ou a AGAL , logo sobre gostos nom há disputas .

            -O tema que do meu ponto de vista dá que falar é o 2º porque infelizmente primeiro esse galego como o senhor bem apontou é dos falantes mais conscientes e depois converte a língua mais bem num criptolecto como o baralhete e mesmo dificulta a compresom com o resto no nosso sistema ( estou a pensar em palavras como ” en troca/troques” que todos usam com o significado do ” en cambio” espanhol ( para o que nos temos a expressom ” em contrapartida) e nom com o significado certo de ” a cambio ” ou “molheira” que muitos escrevem com o significado de mollera tendo nos mioleira e enganam um português porque pensara numha “salsera” espanhola e tenho umha listagem bem frequente de exemplos destos que primeiro fam-nos depender do espanhol e segundo afastam-nos do sistema . E pense que isto é dos “falantes” ou “leitores” preparados , porque a gente do comúm converge para o castelam . Hoje na minha casa a minha mai dixome sabes porque lhe chamam Rio de Janeiro ? pois porque os portugueses descubriram-no em Enero!! eu dixem e logo como se Di Enero em galego?? .

            Fará bem vir a falar e dar estrategias que espero muita gente recolha a cousa é que muito pouca gente se importa com o galego e para os meninhos de Compostela a língua falada por esse professor português sera tam estrangeira como a falada polos parceiros galegos , porque na mesma o galego actua na sua mente como um sistema operativo obsoleto e ultrapassado 🙁

          • Venâncio

            Ricardo: a qualidade do galego ‘social’ é, de facto, muito preocupante. Num relato de futebol na TVG, há uma morfologia (pronomes, desinências verbais, etc.) galega, mas o resto é tudo espanhol. Por isso, podes dar dez exemplos, ou cinquenta, ou mil, e sempre haverá outros. Existe realmente uma falha estrutural, e falta saber se ela será recuperável socialmente.

            Ao mesmo tempo, observa-se, ao longo de todo o século XX, a emergência dum galego escrito de crescente qualidade (o que demonstrarei alhures), mais fiel a si mesmo e, por isso, mais convergente com o português, Existe, pois, um claro potencial de regeneração.

            Fixar-se, pois, no descalabro é uma forma de auto-engano, quer individual quer colectivo. Isso não ajuda ninguém, sobretudo quando só se tem alternativas prontas-a-vestir. Os idiomas são seres complexíssimos, que não podem ser deixados a amadoristas.

          • Venâncio

            Os idiomas são sistemas estruturados. Só quando se conhece as estruturas do galego-português (e, se possível, o processo que conduziu a elas) se pode promovê-las eficientemente. O galego está a precisar de que essas nossas comuns estruturas sejam identificadas, e depois eficazmente estimuladas. Ricardo: o galego tem forças suficientes para promover-se a si próprio.

  • Celso Alvarez Cáccamo

    Não sei o que diz, é mui longo. Aprenda a ler: o Regueira é o que escreve que o galgo-RAG está baseado nas “falas populares” vamos, o que você quer. Pida-lhe audiência para lições.

    • Venâncio

      Pois não leia. Outros lerão, e terão uma ideia do SEU futuro. E esqueça essa porra do Regueira. Eu sei que você é monocórdico, mas não exagere.

    • Ricard Gil

      Alguém de vos pode-me dizer que raio é isso de “falas populares” ou “falas cultas” terei de graduar a vista ( como se diz em portugalego por sinal) ? é que eu nom vejo “falas” nenhures , eu vejo som “falantes” de diferentes níveis socioeconómicos , com diferentes graus de instruçom e de contato com outros falantes que partilham ou nom o seu mesmo código , com o que o falante dumha variante menos prestigiada adapta o seu para o doutro ( queixa e carvalhinho pasam para queija e carballino) , ou diretamente caso nom tenha umha palavra para designar a realidade toma-a directamente do outro ( piso piloto , aeropuerto , desarrollo sostenible , telón de acero mas tambem wifi parking tupper snowboarding) . A minha pergunta é quem tem o direito a decidir que isso é ou nom pode ser “padrom”?? – do caralho é pior e do caraças é melhor – menino vs meninho – abraias vs espantar ……….. é que afinal sobre gostos nom há disputas. Querem ajudar para que os falantes de galego saibamos utilizar o código ? pois pensem em gramaticas, léxicos , programas , seriados adaptados para “espanhol-pensantes” e modelos de pronúncia para “espanhol-falantes” . Sois brilhantes caramba!! pessoas brilhantes com cultura , ajudai-nos porra e criar que precisamos muito!! eu pessoalmente acho que há cabimento para o que vos chamades de “formas populares” e acho que há material para conjugar ambas as formas , quanto mais saibamos melhor para todos