AS AULAS NO CINEMA

CLOTILDE GUILLÉN, PROMOTORA DA ESCOLA ATIVA NA ARGENTINA

(Alguns documentários)



O dia 24 de outubro comemora-se o Dia Mundial do Desenvolvimento Infantil, e, para celebrá-lo, nada melhor que lembrar a grande pedagoga argentina Clotilde Guillén de Rezzano (1880-1951), que dedicou toda a sua vida e seus escritos à educação das crianças, pois, com grande acerto, acreditava que o desenvolvimento infantil só é possível com uma educação de qualidade e adequada, usando métodos didáticos positivos e recursos pedagógicos idóneos. Ademais de dar preferência à formação pedagógica dos docentes, para o exercício do seu ofício. Com este depoimento a ela dedicado completo o número 71 da série dedicada a grandes vultos da humanidade que devem conhecer todos os escolares, e que iniciei com Sócrates.

clotilde-guillen-foto    Clotilde Guillén tinha nascido a 18 de junho de 1880 na capital da Argentina Buenos Aires, falecendo na mesma cidade, a pouco de cumprir 71 anos de idade, em 7 de junho de 1951. O seu pai Domingo Guillén, era um imigrante de origem espanhola e profissão cabeleireiro, e a sua mãe Natália era francesa, residentes na capital argentina e pais de quatro filhos, incluída Clotilde. Quando contava com 19 anos conseguiu o título de mestra de ensino primário na Escola Normal nº 1 da capital argentina, dedicando-se à docência como mestra de 1900 a 1905, dando a sua primeira aula na data de 12 de março de 1900. Inconforme com a formação recebida como normalista, decidiu ingressar na Faculdade de Filosofia e Letras para ampliar estudos, especialmente de pedagogia e psicologia, onde terminou o curso no ano 1906. Paralelamente dedicava o seu labor à escola, cultivava a sua inteligência, como se pressentisse a nobre influência que ia ter no futuro no movimento educativo argentino, ao impulsionar a tendência pedagógica reformadora da Escola Nova ou Ativa. Reconhecendo o talento e a sua preparação, o Conselho Nacional de Educação envia-a à Europa em missão especial para estudar a organização das escolas primárias, embora, antes de esse cometido e designação lhe foi conferido o cargo de Inspetora de Escolas Primárias, cargo que exerceu até o ano 1909.

De Europa trouxe uma grande quantidade de ideias novas que procurou divulgar e aplicar no seu país, Argentina, e quando no ano de 1909 foi nomeada para dirigir e organizar a Escola Normal nº 5 da cidade e capital argentina encontrou um horizonte aberto para realizações e para dar impulso a partir dela à renovação pedagógica. Nesta escola, ademais de diretora da mesma, desempenhou a cadeira de Pedagogia, Didática e Psicologia, disciplinas de cujo domínio depende em grande parte uma realização educativa eficiente, já que a Escola Nova, importante movimento nascido na Europa, tem um fundamento psicológico e biológico que não pode deixar-se de lado ao abordar todos os seus aspetos. Na Escola Normal nº 5, que tinha dous graus distintos: a escola primária de aplicação, com os seus seis graus, para o ensino de estudantes de 6 a 12 anos, e o grau profissional (Escola Normal de Mestras), com alunas de 14 a 18 anos, foi possível pôr em prática o Plano Dalton e o método dos Centros de Interesse criado pelo belga Ovídio Decroly. Método este último com o qual Clotilde Guillén fez grandes inovações, construindo para isso um material especial, seguindo as linhas gerais do material montessoriano e do material decrolyano, embora mais singelo e menos custoso que estes, o que facilitou a sua construção pelos mesmos mestres na sua própria escola.

Pela sua alta formação pedagógica e didática, chegou também a ser diretora do Seminário de Pedagogia da Faculdade de Filosofia e Letras bonaerense. A sua passagem pela Normal nº 5 sementou de inquedanças os futuros docentes, e graças ao seus esforços esta instituição docente pôde converter-se em guia do movimento pedagógico renovador do seu país argentino. Esta Normal, pela influência da sua diretora Clotilde Guillén, realizou a obra que em realidade correspondia a uma verdadeira Escola Normal, a de orientar o pensamento pedagógico e a de influir definitivamente na adaptação dos novos métodos pedagógicos e didáticos. A sua prolífica obra teve grande repercussão não só no seu país, senão que graças à divulgação das suas ideias educativas em livros e em revistas de prestígio continental, como a Obra, órgão da Seção Argentina da Liga Internacional da Nova Educação, difundiu-se pela América inteira e hoje é apreçada no seu verdadeiro significado e valor.

Aposentada da docência ativa desde o ano 1933, ao reformar-se como professora com data de 31 de outubro de 1932, continuou a escrever e publicar interessantes livros sobre educação, pedagogia e didática, dirigindo entre os anos 1946 e 1950 a interessantíssima coleção de livros educativos da editorial argentina Kapelusz “Biblioteca de Cultura Pedagógica”. E redigindo os prólogos e limiares de mais de 27 livros desta coleção, e um da editorial El Ateneo.

O seu apreço pelo movimento pedagógico da Escola Nova ou Ativa, foi devido, ademais de pela sua estadia na Europa, enviada pelo Conselho Nacional de Educação argentino, para conhecer o funcionamento e organização escolar das escolas primárias europeias, porque o seu esposo foi Juan Rezzano (1877-1960), que era o representante na Argentina da Liga Internacional da Nova Educação. E que, junto com Juan Cassani, e a sua esposa Clotilde, eram os três a importante trilogia de inspetores do sistema escolar argentino naquela época.

FICHAS TÉCNICAS DOS DOCUMENTÁRIOS:

  1. Os jogos dos recreios da escola “Clotilde Guillén”.

     Duração: 5 minutos. Ano de 2013 (Biblioteca Clotilde Guillén de Rezzano).

  1. A noite dos lápis.

Duração: 6 minutos. Editado por Manuel Heredia (da Escola “Clotilde Guillén”).

  1. A noite dos museus.

Duração: 3 minutos. Ano 2013 (Biblioteca Clotilde Guillén de Rezzano).

  1. A Escola Nova e as revistas de educação e pedagogia na Colômbia, no Chile e

      Na Argentina (1928-1934).

Duração: 46 minutos. Edita: Instituto Colombiano de Antropologia e História.

Fala: Paula Lorena Mogollón Buitrago.

  1. Escola Nova ou Ativa.

Duração: 7 minutos. Realiza: Daniel Ávila (2011).

Produtora: Universidade Pedagógica Nacional.

  1. Antecedentes do movimento Escola Nova.

Duração: 14 minutos. Realiza: Jonathan Morales (2016).

  1. História da Escola Nova.

Duração: 12 minutos. Realiza: Hugo Lopresti (2012).

  1. A “Escuela Serena” de Olga Cossettini. Fragmento para um estudo pedagógico.

Duração: 6 minutos. Realiza: Eusébio Nájera Martínez (2008).

 

O SEU LABOR PEDAGÓGICO:

    Para Clotilde Guillén, pensar outro modo de ensino também envolveu repensar as conceções que se tinham até o momento sobre a infância, e não se trata de pensá-lo como um adulto pequeno mas como um sujeito com caraterísticas específicas. A celebração de Congressos Internacionais permitiu construir um discurso comum sobre a infância. Nalguns participou ela.

Em reconhecimento do seu talento educativo, o Conselho Nacional de Educação argentino, conferiu-lhe o cargo de Inspetora de Economia Doméstica, que exerceu até 1909, e, como já comentámos, foi enviada à Europa para conhecer diretamente as ideias e experiências da Escola Nova. Da sua viagem traz um quadro de Ralph Hedley “The Old School” (A Antiga Escola), que representa a escola tradicional, numa imagem em que os alunos estão com medo diante do mestre que lhes pergunta a lição. Na mesma aparecem os castigos físicos e os móveis estruturados de forma rígida. Coloca este quadro na sua aula da Normal nº 5 para que seus alunos olhem como não deve ser o novo ensino, e o que não deve fazer o novo mestre. Construindo a Nova Escola de outra maneira, vendo o positivo, partindo do negativo do quadro, onde as crianças com temor à ameaça do docente repetem a lição. Fazendo que os alunos sejam ativos, partícipes da sua educação, em movimento, com as suas mãos na areia construindo, brincando… É provável que ela jogasse com as mãos na areia, promovendo que as crianças construíssem uma realidade diferente, uma educação diferente no areeiro gigante, que percorria todo o tempo indo de uma sala de aula para outra, assessorando, ordenando, ensinando…

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No seu cargo de Inspetora de Economia Doméstica reformou os programas de estudo entre 1907 e 1908, dando ideias para o seu desenvolvimento nos seus artigos publicados em 1906 e 1908 na Revista “El Monitor de la Educación Común”, sobre como devem funcionar as aulas de cozinha, sobre o ensino da costura nas escolas elementares francesas, sobre como instalar uma cozinha escolar e como se deve ensinar a cozinhar nas escolas primárias.

Em 16 de fevereiro de 1909 funda-se a Escola Normal de Mestras de Barracas ao Norte, a partir de um diploma do então presidente argentino José Figueroa Alcorta e de seu ministro de instrução pública Rómulo Sebastián Naón. A escola começa a funcionar efetivamente em 9 de abril desse mesmo ano. O diploma designa Clotilde Guillén como diretora e um destacado grupo de profissionais como docentes. É ela que vai organizar e escolher o pessoal da primeira planta funcional da escola. Nesta escola normal vai pôr em prática uma série de experiências com os Centros de Interesse, fazendo importantes contributos e reformas aos criados no seu dia por Decroly, dentro da Escola Nova. Além de exercer o seu cargo e o seu ensino nas cadeiras de Psicologia, Pedagogia e Francês às alunas futuras mestras, vai participar em congressos e conferências. Em 1910 participa no 17º Congresso Internacional Americanista, que se desenvolve em paralelo entre México e Buenos Aires. Este congresso tinha nascido na França, impulsionado pela “Sociedade Americanista”, que em 25 de agosto de 1874 difunde a sua convocatória à primeira juntança.

ADAPTAÇÃO DOS CENTROS DE INTERESSE:

    Tal como resenhamos, Clotilde Guillén gostava muito do método dos Centros de Interesse criado pelo belga Ovídio Decroly, e o que fez, ao aplicá-los nas suas aulas argentinas, foi reformá-los, ampliá-los e enriquecê-los. A sua proposta pedagógica organiza-se ao redor dos “Centros de Interesse”, os que ela define como “uma série de ocupações escolares que, ao manterem a criança em constante atividade, proporcionam-lhe a oportunidade de adquirir os conhecimentos e as técnicas da leitura, a escrita, o desenho, a redação, a ortografia, o jogo, etc. E tudo concordando com a sua psicologia e as suas capacidades”. O que acrescenta assinalando que “podem desenvolver-se em qualquer escola, por muito pobre que seja a sua dotação, desde que o mestre ou mestra seja rico em inventiva, atividade, amor às crianças e à sua profissão. Caso contrário, recomendamos que não se aborde a tarefa”. Das suas experiências práticas usando este método nas suas escolas nasceu o seu formoso livro Os Centros de Interesse na Escola Primária, que alcançou quatro edições sucessivas, e que todos os mestres preocupados, que seguiram as publicações da Revista de Pedagogia de Madrid, leram com devoção e aplicaram com frutos ao labor escolar renovador.clotilde-guillen-capa-livro-centros-interes-0

Para desenvolver o método utilizava como recurso didático o que denominava “Mesa de Areia”. As crianças tinham que pôr-se em contato com as cousas mesmas, através de exercícios de observação, experimentação e construção. Quando o objeto de estudo está afastado no tempo e no espaço, as leituras, os ditados e a mesa de areia apresentam-lhe a possibilidade de aproximação. Assim, por exemplo, ao descrever o Centro de Interesse “A Quinta” diz: “As escolas novas estabelecidas no campo desenvolvem este centro de interesse de forma natural. Porém, nas escolas do estado situadas em centros urbanos, o estudo mesmo da “quinta” é uma utopia. Por isso, a mesa de areia, que não deve faltar em nenhuma sala de aula infantil, é o cenário apropriado em que, por meio da cooperação de alunos e mestres, vai aparecer pouco a pouco como uma “quinta” em miniatura”. No seu livro sobre os Centros de Interesse abundam este tipo de exemplos, como são a construção de uma toca, um cenário montanhoso, um rio ou o mar.

Num artigo do educador Corbellini este afirma: “Em 1927 levou-se a cabo o ensaio de ensino ativo do método Decroly, de 1º e 3º grau, que ao contrário do que vinha realizando na Normal nº 5 a diretora Clotilde Guillén (ex-aluna da nº 1), o planearam as mestras e o aplicaram supervisionadas pelo inspetor Juan Cassani”.

AS SUAS IMPORTANTES OBRAS PEDAGÓGICAS:

    Desde que se reformou em 1933, continuou a escrever interessantes livros pedagógicos, entre os que destaca Rumo à Escola Ativa, obra escrita com base em conferências pronunciadas na Universidade de “La Plata”, e noutras instituições culturais, e a Didática Geral e Especial, que consta de dous volumes, e na qual condensa experiências e leituras com um senso novo deste ramo da educação. Fino espírito de mulher, Clotilde Guillén como educadora conseguiu pôr o acento no aspeto humano da Educação Nova. Nas suas obras palpitam uma honrada realidade: a criança, a sua “Majestade a Criança”, para quem a escola não deve ser uma sala de tortura, mas um estádio amável para a criação e o exercício livre das suas faculdades, para viver a vida plena e harmoniosa.

Dado que a sua produção bibliográfica é muito ampla, realizamos uma escolha dos seus livros mais importantes, publicados a maioria pela editora argentina Kapelusz. Indicamos o ano de edição, e quando a editora é outra citamo-lo se for o caso.

-Conselhos às futuras mestras (1921). Edita: Editora Coni.

-A Nova Educação e a Escola Ativa (1928). Edita: Editora Coni.

-Os Centros de Interesse na Escola (1929). Edita: Revista de Pedagogia de Madrid.

-O principal e o acessório na metodologia renovada (1930). Edita: Faculdade de Humanidades e CC. Educação de La Plata.

-Didática geral e especial para 2º ano das Escolas Normais (1936).

-Didática especial para 3º ano das Escolas Normais (1938).

-Os Jardins de Infância: a sua origem, desenvolvimento e difusão (1940).

-Mamita: método natural global para aprender a ler (1943). Edita: Angel Estrada.

-Manual de Pedagogia (1958).

Clotilde Guillén escreveu o prólogo de mais de 30 livros pedagógicos, a maioria publicados pela Kapelusz. Dirigiu a edição do livro de Charles Hendrix sobre Cómo ensinar à ler pelo método global, publicado em 1955 pela Kapelusz, e traduziu o Novo tratado de Psicologia, da autoria de Georges Dumas, e publicado também pela Kapelusz em 1956.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

clotilde-guillen-escola-com-seu-nome  Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar a forma (linguagem fílmica) e o fundo (conteúdos e mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Clotilde Guillén de Rezzano, a sua vida, a sua obra, as suas ideias, o seu pensamento e os seus importantes escritos didáticos e pedagógicos, ademais de dirigir durante um tempo a excelente coleção “Biblioteca de Cultura Pedagógica” da editorial argentina Kapelusz. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias. A citada amostra terá de incluir também uma secção especial dedicada ao desenvolvimento da escola nova ou ativa na Argentina e na América Latina, da qual ela foi uma grande promotora.

Desenvolveremos um Livro-fórum em que participem todos os escolares e docentes. De comum acordo pode escolher-se um dentre os títulos seguintes (entre parêntese figura o ano da 1ª edição): Conselhos às futuras mestras (1921), A Nova Educação e a Escola Ativa (1928), Os Centros de Interesse na Escola (1929), Rumo à Escola Ativa (1934), Didática Geral (1936), Didática Especial (1938), Manual de Pedagogia (1958) ou Os Jardins de infância: origem, desenvolvimento, difusão, organização e métodos (1940).

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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