Censuras, egos, poesia, óbitos

(Texto não lido na entrega do X Prémio de Poesia Erótica Ilhas Sissargas)



À memória de Gilles Deleuze,
aos 20 anos do seu suicídio.

Como bom burguês que sou, nestes atos opto sempre polo formalismo clássico e preparo um texto, para não esquecer nada do que quero dizer. No fundo, é também uma posição niilista, por motivos que poderemos debater noutro momento. Devo dizer primeiro que entre as minhas numerosas qualidades não se encontra a de ser simpático, fora de ser, acho, um bom companheiro para beber uns vinhos. Hoje vou dizer, brevemente, o que penso que devo dizer.

Na medida em que se pode dialogar através do Facebook, nas últimas semanas estive a falar com algumas pessoas sobre a censura normativa nos prémios literários na Galiza. Há mais de vinte e cinco que falo deste tema, menos nos longos anos de desaparição pública, da qual provavelmente nunca deveria ter saído. Desta vez, o diálogo foi com Igor Lugris, Teresa Moure, Ernesto Vázquez Souza, Alfredo Ferreiro, Manuel Miragaia, Ramiro Vidal Alvarinho… E com certeza também com outros participantes mais ou menos ocultos. Sinceramente, penso que o país já não dá para mais, neste âmbito e noutros. É uma satisfação enorme constatar que há gente, cada vez mais, que está a reagir e a abrir caminho. Gente que não é reintegracionista. Pessoas que, de uma forma ou outra, também estão nas margens da literatura galega, mesmo nas margens da literatura como constructo político e cultural. Pequenas editoras, associações culturais como a vossa. Iniciativas pessoais dignas de reconhecimento público. Eu sou um privilegiado nesse sentido. De pouco me posso queixar. Num longínquo 1998, obtive o VII Prémio de Poesia Espiral Maior. E em 2015, a minha presença aqui é bom exemplo desse privilégio. Seja como for, os prémios não asseguram uma saída do silêncio e do silenciamento. Não asseguram um passaporte para sair da Ostrácia. Mas oferecem a oportunidade de fazer ouvir a voz, outra voz. Na realidade, devo reconhecer que nunca saberei se realmente quero sair ou não da nossa particular Ostrácia, não sei se vale a pena.

Com certeza, o muro continua a erguer-se no âmbito institucional – com louváveis exceções –, incluídas obviamente as grandes e declinantes editoras. Isto é, o muro continua a estar na “literatura galega oficial”. Evidentemente, o importante é que haja espaços já libertados da censura. O importante é que se construa nas margens, lá onde ainda podemos sonhar em fazer escritas livres. E, sobretudo, o importante é que haja pessoas que quebrem a censura do outro lado dos muros. Esperemos que cada dia haja mais e mais e mais pessoas sem medo. Na poesia, na prosa, na investigação. Espero que cada dia os muros sejam mais e mais fracos. Abrir os muros, derrubá-los, como nas velhas músicas. Quem deve ser parabenizado hoje sois vós, não eu. Eu sou uma simples contingência. Vós criais liberdade. Vós criais um projeto de país livre de censuras.

A verdade é que penso que na situação atual também não há outra saída, para uns e para outros. As cousas não estão para perpetuar uma situação doentia: somos antipatriarcais, antirracistas, socialmente hipercríticos, puristas da esquerda mítica, e ao mesmo tempo enviamos uma parte da cultura galega para as margens das margens, para o espaço do estrangeiro, para o lugar do traidor. Desculpai, mas essa é a minha vivência pessoal, pura e dura.

E o pior é a consciência, a minha consciência, de que já chegamos tarde para tudo. Para tudo o que não seja a patética satisfação dos nossos egos pessoais. Do meu próprio ego, aqui e agora. Infinitamente agradecido por topar na vida pessoas sem medo. Mas também infinitamente triste porque nem sequer nos estertores do país somos capazes de conseguir que exista um espaço literário galego, um espaço cultural galego, minimamente livre. Ou polo menos, não exijamos mais, um campo literário galego plenamente livre no que diz respeito à escolha de norma para escrever a nossa língua. Os prémios que censuram por causa da norma escrita são um magnífico exemplo da nossa derrota na construção de uma cultura independente, mesmo que inserida no autoritário capitalismo hegemónico. Os prémios que censuram por causa de norma escrita são um excecional exemplo da nossa dependência cultural e política. Ou é que talvez os prémios nacionais – da única nação verdadeira – servem para ocultar o fedor, cada vez mais insuportável, do cadáver? Ou é que talvez o medo a perder a cadeira serve para ocultar o ruído terrível dos estertores antes da morte? Ou é que ninguém vê que a cadeira tem apenas já dous pés e que um deles está a ponto de se quebrar? Quem manterá o equilíbrio sobre uma cadeira com um único pé? Ou é que ninguém vê que, além disso, a madeira da cadeira está cheia de traça?

Infinitamente agradecido. Infinitamente triste. Mas com muita vontade de continuar nesta batalha. Por vós e por todas aquelas que não têm medo. Por sonhar que hoje somos um bocadinho livres. Por imaginar que existe cultura, que existe país, que o futuro tem algum sentido. Infinitamente agradecido. Quero poder apresentar-me a prémios literários para ter a opção de perdê-los. É tão simples como isso. Quero, necessito continuar a imaginar que o que faço tem algum sentido. Contra a fé dos conversos, a razão dos perversos. Saúde e obrigado.


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  • Ernesto V. Souza

    Saúde caro e obrigado. Mas não esqueças que quanta mais gente, mais vida e movimentação há nas margens que nos centros é quando acontecem as independências.

    • Mário J. Herrero Valeiro

      Claro, meu, mas a questão é estar nas margens… voluntariamente, e não por imposição… Saúde.

      • Ernesto V. Souza

        Bom… para poder estar voluntariamente nas margens antes há que ter um centro normal… acho… é interessante o contraste é… gentes coma nós que realmente queremos um “chaletito” nas margens ou uma cabana numa montanha longe, onde não venha ninguém a nos amolar, empenhados em ajudar a construir a centralidade e o sistema, o espaço académico que odiamos… tem piada, tem… parecemos das CUP… XD

        • Mário J. Herrero Valeiro

          Que bom! Que bom! Tens razão, sim.

  • Heitor Rodal

    Acho que neste país, habituado em excesso à autocomplacência e à desculpa, a crítica e a autocrítica descarnadas do Mário Herrero são das melhores cousas que nos podiam acontecer.

    Obrigados.

    • Mário J. Herrero Valeiro

      Obrigado! Somos vivos só na autocrítica.

  • ranhadoiro

    Excelente texto reflexivo. Muitos parabéns Mário

    • Mário J. Herrero Valeiro

      Obrigado!