Celso Álvarez Cáccamo: “Nós somos perfeitamente auto-suficientes como para fazermos o que temos que fazer sem aguardar por ninguém”



celsoalvarezcaccamo2Entrevistamos Celso Álvarez Cáccamo (Vigo, 1958), professor na UdC, linguista de formação, presença constante no espaço reintegracionista e colaborador do PGL. Vem de publicar na Através editora ‘Os passos da procura’, um poemário de raiz, memória e reflexão sobre o presente arredor, que motivou esta longa conversa.

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A obra, como se indica na publicidade é um livro bem assentado e tranquilo, idoso, por mor dos muitos anos desde a sua conceição até a sua publicação, um tempo que a própria obra semelhou exigir”. São vinte anos de poesia (1997-2017), mas são vinte? ou tardou vinte? Por que demorou tanto tempo? Causas pessoais? Labor limae? Falta de editora? Contexto? Um pouco de tudo?

Sim, um pouco de tudo. Houve várias razões para a demora. O livro esteve vários anos numa editora que não dava razão dele. Eram os anos dos amplos subsídios oficiais a qualquer cousa que estivesse na norma RAG. A última vez que perguntei na editora, a resposta indireta foi basicamente que não se podia permitir publicá-lo (porque, sem dizê-lo assim, não seria subsidiado e o compraria pouca gente, ao estar em português). Bom, poderiam ter-mo dito anos antes, ou não aceitá-lo. Enfim. Depois, uma versão (mais reduzida) do livro esteve também prestes a sair no ano 2008 noutra editora — até se fizeram as primeiras provas — mas no último minuto deixei-no passar eu próprio. São várias também as razões para isto: desencorajamento, outras tarefas (estava a trabalhar noutras questões com motivo do ano das Letras dedicadas a meu pai, Xosé Mª Álvarez Blázquez)… O caso é que a partir daí o livro dormiu e foi acordado intermitentemente por mim próprio, quase sempre com grande ceticismo.

Por fim, qualquer dia, comentei ao camarada Roberto Samartim que tinha isto, saíu numa conversa. Pediu-mo. Enviei-lho em PDF e ao dia seguinte me ameaçou com levá-lo a Através, de maneira que a culpa fundamental da sua publicação é do Roberto, e da gente de Através que amavelmente ou suicidamente o aceitou para edição. São cousas que acontecem.

Ora bem, não sei se são exatamente 20 anos de poesias ou 21 ou 22, mas 20 é uma cifra mais redonda, não é? Digamos que é uma grande parte do pouco que escrevi todo esse tempo, porque eu não sou poeta: às vezes escrevo em linhas quebradas com ritmo, e chamam-no de “poesia”.

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Os passos da procura (Através, 2018)

Como se dizia no primeiro poema n’Os distantes, que os versos podiam ficar anos onde nasceram… Mas algo quebrou de novo a vontade de calar?

Pois efetivamente, tens toda a razão, é igual que com o primeiro livrinho, este ficou anos e poderia ter ficado muitos mais. O que deveu quebrar foi essa desídia, sim, e por enquanto venceu a indesídia.

É formosa a capa, a aquarela em cores defumadas sobre um fundo cinzento, o livro tem muito, por momentos de onirismo, de lembranças, persistentes, as gavetas do pai, os quartos da mãe, o mar, as marés, as tardes dos verãos em Coruxo. Muitos dos poemas parecem imagens, velhas fotografias, papéis soltos encontrados?

Sim, a capa e contracapa é um bonito debuxo da minha irmã Berta Cáccamo que me dera, e pedi para escanear. Ela dera-me outras ideias gráficas (e eu tinha outras piores), mas durante uns dias estivemos a ver como fazíamos, e afinal ficou nisto. Tens razão, o esvaecimento da imagem reflete toda essa matéria oniricamente esvaecida que está na memória, talvez a palavra mais teimosamente repetida de todo o livro. Eu escrevo poemas como imagens, ou como uma muito breve sequência de fotogramas de memória. Penso que os humanos arquivamos os episódios da memória não em fotografias mas em pequenas sequências (uns segundos) de vivências, como esse procedimento que têm agora alguns telemóveis que tiras uma foto e guarda também o segundo imediatamente anterior em vídeo. Então estas sequências condensam os elementos mais relevantes do portento da memória: o tempo e espaço, alguns rostos, algumas palavras, alguns atos, e sobretudo (para a matéria poética) uma emoção central, inexprimível por outros canais dos atos diários, e a partir da qual o poema como instrumento tenta reconstruir o que realmente aconteceu dentro de um, onde acontece tudo. O poema para mim (bom, muitos deles) é então o trâmite catártico de reconstruir esse momento a meio do discurso, e isso dura pouco, é um estado intenso que não se pode manter muito tempo, e se ao final desse tempo não tens o poema, não o vais ter nunca. E se o poema foi falido, dificilmente se vai poder corrigir. A poesia é como a aguarela, enquanto a narrativa é como o óleo. Na aguarela, um traço mal feito é quase incorrigível: a cor escorre, só pode dissimular-se (a capa do livro é precisamente uma aguarela). Mas o óleo é como um preparado mágico, cobre e recobre tudo, até pode cobrir capas e capas de discurso. O óleo corrige e oculta os erros; a aguarela revela o seu próprio processo. Eu escrevo aguarela, também nos relatos. Seria incapaz de escrever o óleo dum romance.

Os poemas de verso longo, especialmente os da primeira parte e os do final, são solenes, quase religiosos, diria. Têm um algo com certa poesia, literatura, memória dos judeus, especialmente com aqueles emigrados, exilados nos USA e no Reino Unido cuja origem, ou rotura, são os Pogrom*? Repararas, procuraras?

Pois não, nunca reparara nisso (não conheço o género em si de que falas, essa poesia que surgira dos pogroms). Sim que devo ter ascendência judia por parte da minha avó materna austríaca Helena Frieben Zimmermann, e talvez por parte da minha bisavó paterna Amalia Limeses Ballester (polo Ballester, catalão ou balear). Mas não creio que o judaismo, nem cultural nem religiosamente, tenha jogado qualquer papel na minha família direta, polo menos que saiba. Sim que pode ficar sempre um rasto da ideia ou da experiência do éxodo, que é aquilo em que consiste a vida, não é?, uma sucessão de expulsões dos berços, das casas, de todo o tipo de côncavas nações pequenas, sempre à procura de sei lá o que. E se não é fisicamente é por dentro, no processo de ir deixando peles ou cadáveres de nós próprios no interior de nós.

Há poemas, mais líricos e doentes no teu caso, mais explícitos e épicos na poesia do teu irmão Xosé Maria, que conectam vivamente com essa ideia do roubado, do saqueado, do perdido, não apenas como denuncia da brutalidade, senão como algo mais que não sei dizer?

Sim, esse é outro motivo relacionado, claro: a perda, a perda indesejada dos espaços primigénios (físicos, sociais), pola vesânia doutrem. O fascismo, tanto o real quanto a sua mimese quotidiana. O que infelizmente bem conhecemos no país: pseudomodernidade, maltrato, feísmo… crueldade…

Os espaços vivos das casas passadas, a mãe, o pai, alguns espaços e momentos. São presenças definidas. Pimentel naquele poema terrível das Cunetas, diz que são precisos centos de anos para se construir uma pessoa…

Os milleiros de horas, de séculos

que fixeron falla

para faguer un home!

Há um peso, disto tudo, uma responsabilidade e uma parte herdada. É marcante ser um Álvarez- Blázquez-Cáccamo- etc.?

Realmente não faço ideia, porque não posso não ser o acaso pessoal e familiar que sou: uma dada configuração da matéria, inserida numa dada ilusão temporal. Depois, é verdade que tenho esses sobrenomes (e muitos mais, que adoro explorar, no meu fascínio pola genealogia). Mas eu já não posso aprender a não ser, sobretudo, “Celso”, esse nome pouco comum de que não gostava de miúdo e agora me resume. Depois, “Álvarez Cáccamo” e outra curiosa etiqueta, e é certo que imprime cousas sobre (ou contra) “Celso”. Marcantes? Impossível saber. Suponho que qualquer combinação de etiquetas é marcante. “Vasquez” por si só significa outra cousa que com “Souza”. E olha para o amigo “Mário”, “J.”, “Herrero” e “Valeiro”, quantas pessoas há nessa cábala combinatória.

Nesse sentido, imaginas como seria a Galiza se houvesse centos de famílias como a tua? Haverá algum dia?

Sim, imagino: horroroso. Espero que nunca. Cada família é um entranhável erro diferente da história. Os Álvarez etc. seremos gente interessante e útil nalguns sentidos, mas noutros a palavra que nos define (como a todo o mundo) é intranscendência. Há um par de anos houve um episódio do programa da TVG Familia de Oficio, realizado por Xosé Luís Ledo, filho de Margarita Ledo, onde saíu a família Álvarez (os meus irmãos, irmãs, uns primos; eu, na verdade, não tive vontade e declinei o convite) como amostra do “ofício” literário ou cultural em geral. Está bem, a cousa é curiosa, isso de que haja famílias que perpetuam certos ofícios, práticas, atividades: cantares, canteiria, pescas, letras… Suponho que ter uma dada tradição e ré-conhecê-la como “tua” te enraíza duma maneira particular a essa árvore antiga dos teus sobrenomes. Mas isto não deixa de ser pouco relevante para a construção da história coletiva, que é o nosso verdadeiro combate político, ético: como sermos, como fazermos parte solidária deste assombroso território que nos nutre e nos une, solidária com ele e entre nós, soberanamente humanas e humanos.

Tanto neste como anterior (e continuando com a aquele coletivo dos irmãos Poemas ao Pai, Espiral maior, 2008) há vários poemas que se dirigem ao pai, uma presença intensa com quem se fala, a quem se interroga ou ante quem se protesta. Que procuram, diálogo, resposta, reconhecimento para ele?

Suponho que procuram esse exorcismo da emoção de que falava. Diálogo, calculo que também: às vezes compreendes ou lembras que pouco falaste com a pessoa que morreu, quantas cousas ficaram por dizer e quantos saberes por aprender, mesmo os que já sabias. Quando és criança está bem aceitar esse papel de magistério das figuras paterna e materna, mesmo quando não acreditas que as mestras e mestres façam mais do que ajudar a descobrir e montar como esses tangram chineses o saber miúdo que já se tem. Depois ficam também por contar à pessoa morta cousas acontecidas: amores, desamores… Tive a sorte de que meu pai sim que chegou a conhecer minha companheira, peça angular da minha vida, de maneira que chegou a conhecer-me “como sou”. Mas sempre fica um diálogo pendente, embora seja mesmo um diálogo de silêncios partilhados num espaço intimamente comum. Então, para isso, inventas o poema, entras nele, procuras situar nele uma réplica desse ser fugado sem que lhe incomode muito ser acordado e transfigurado, e fazes combinações de presenças, itinerários de passos que apenas roçam a madeira comesta ou as areias das dunas, como uma dança de tempos que se encontram. E afinal termina o poema, tornas a existir, e é duro.

Os mais dos poemas são impressionantes. Pessoais e coletivos. Como espaços conhecidos, ecos, sensações. Trespassa essa ideia da casa, do tempo, da vida, da morte, do corpo, dos corpos, das mãos, os muros, dos papeis e lembranças fragmentares… le temps s’en va... tudo se vai? da Galiza, como coletivo, que se esfuma?

És generoso com as tuas palavras, Ernesto. Mas, sim, aí está o que dizes: corpos, casas ou papéis como formas circunstanciais da mesma matéria, atravessada polo tempo histórico desque somos isto. E essas matérias são metáforas do país, por que não? Que temos como povo senão pedra, mãos, papéis, memória? Não sei se outros países são iguais, nem discutiria com quem afirmasse que “o seu” é idêntico a este. Mas a Galiza somos sobretudo uma longa multidão neolítica acima duma imensa pedra, fazendo furados simbólicos numa laje enquanto contemplamos o sol afogar-se ciclicamente no horizonte (ter um mar no ocidente é um privilégio), pegando nesse mesmo granito para construir casas duras e cinzentas, fazendo crescer magicamente cousas elementares alimentadas de sargaços, batendo moluscos contra as rochas, vamos, uma espécie de performance perene de sobreviventes. O que se esvai, o que se está a perder? Pois tudo isso. Ou, polo menos, tememo-lo.

O poema “Tudo me destroçou…” aí pelo centro do livro, como alguns outros, deixa o leitor sem mais esperança por nenhuma parte. Os naufrágios, as derrotas, a falta de voz, a perca, a ausência de interlocutor. O mundo dos poemas é denso. Canseira, tristura e naufrágios? A dor pessoal, própria é coletiva? É à vez um lamento social? Pela ausência gorada de uma parte da sociedade que não é, que não foi, que não existe, que não está?

A origem foi mais um (outro dos muitos) Pacto de Silêncio Perpétuo pessoal, quando pactuas contigo mesmo que não vais dizer (escrever, opinar, apresentar, falar) mais nada porque não faz qualquer sentido. Vais clausurar um blogue, ou vais deixar de escrever poemas, ou vais deixar de emitir opiniões contrárias perante xs companheirxs de trabalho, porque não conduzem a nenhures. Váis compreender intimamente (in-corporar) a futilidade da voz, sobretudo a que inevitavelmente projeta uma imagem mais ampla daquela que por ventura te acompanha enquanto, por exemplo, cozinhas ricas lentilhas numa manhã de domingo acompanhado por pessoas queridas, nesse cálido eu intranscendente, trivial como os próprios legumes (só que um pouco mais original de forma). Há uma oposição essencial, até perversa, entre essa Voz mais ampla (a que pode projetar, precisamente, um livro) e a que tens na casa com as pessoas próximas, nos atos quotidianos. Essa contradição é verdadeiramente maçadora. E quando vence o silêncio, às vezes é uma libertação, como nesse poema, suponho.

Praia da Calçoa, Colmeiro 1950

‘Praia da Calçoa’, [Casa de Coruxo], Colmeiro, 1950

Falemos do tempo na poesia. Destes 20 anos na poesia galega. Cronologicamente (1997-2017) abrangeria desde a poesia de meados dos 90, Letras de Cal, Espiral maior, Batalhom literário da costa da morte… até hoje; mas vitalmente prolonga as suas raízes às gerações dos 80 na Crunha, e a poesia da geração anterior. Mas e obviamente por questões pessoais e familiares ecoa muito antes. Que relação tem com Os distantes, Espiral Maior, 1995 e com os deste que se recolhem em Escolma de familia. Xerais, 2000), com a obra solta?

Na verdade não sei muito sobre o que mencionas. Já não leio muito como para ligar tantas dinastias que citas (ou Casas, vamos), às que se unem outras recentes, entre elas Através. Existe, sim, essa continuidade com Os distantes. Mais, já não sei.

Com tudo, pessoalmente, não acho um livro serôdio, idoso, final. A contrário, é isso passos de procura. Tentativas de aproximação e distância de umas mesmas coordenadas?

Não sei se final, nunca se pode dizer. Concordo em que não me parece um livro ancião, mas sim talvez fruto duma certa superação (por maduração ou por incapacidade poética, sei lá) dum algo de manierismo efetista que carateriza mas invade a poesia temperã, “jovem”, com a sua necessidade de épater formalmente, lexicalmente, a procurar imagens poéticas irreais (não tudo se pode metaforizar), que podem causar impressão mas também distância, isto é, incumplicidade, o pior fracasso que pode experimentar um poema: a ausência de cumplicidade. Neste sentido, reconheço o difícil de manter um equilíbrio entre a convocação estética e a eficiência, algo a meio caminho entre o modernismo e Le Corbusier, por exemplo.

De feito, é uma escolha, uma escolma, talvez a produção salvável ou apenas os restos do naufrágio. Mas a distância poética com Os Distantes é mínima, até parece, que ambas são agrupações, de circunstância de um mesmo corpus, de um volume maior… anda por arquivos, gavetas, recantos da casa? Haverá mais poemários?

Não tenho muita mais poesia nas gavetas não. Relatos sim, bastantes, que talvez apareçam. Considero-me mais contista que poeta, géneros complementares mas opostos por definição ao romance longo. Talvez a minha poesia seja um chisco narrativa, e a minha prosa narrativa bastante poética.

Em 2008 a RAG dedicou o dia das Letras a X. Mª Álvarez Blázquez. Foi um ano denso. Quando o dia das Letras era algo popular e celebrado, antes das posteriores escolhas que conseguiram afastá- lo da gente. Teve cousas boas e más. Acho que algo se filtra nos poemas. Há um diálogo – digamos – entre esse Mr. Álvarez que é parte da elite cultural galega e o Dr. Cáccamo, linguista, ativista e poeta reintegrata?

Foi, foi um ano intenso. Teve, teve cousas boas e más. Homem, suponho que esses dous senhores que mencionas algo falarão, se vivem no mesmo corpo junto a Celso (e a alguma pessoa mais, é uma espécie de Cabine dos Irmãos Marx). Mas, olha, esse ativismo também não deixa de ser “elite”, no sentido de ‘grupo social de pouca gente que faz sistematicamente cousas que outras não fazem, e com mais impato, proclive a gerar valor simbólico e até exercer violência simbólica’. Nesse sentido, talvez esses dous senhores sejam o mesmo: trabalham com língua nas suas diversas expressões metamórficas (escrevem-na, pensam-na, propõem-na, analisam-na em artigos, mesmo ensinam o seu coração, que é a linguagem…). Fazemos língua e Língua, e é nisso que somos elites da língua, não da arte ou do dinheiro.

Embarcas na Através. Como e por quê? Qual é a tua visão da editora reintegrata no contexto cultural da Galiza e qual a desta tentativa de literatura em galego internacional?

Não sei muito de editoras (tu deverias escrever um texto sobre isto), mas Através é um espaço natural para a edição de alguém que escreve como o fazemos nós, não é? Só publica em padrão português ou galego reintegrado, é levada por gente normal, imediata, não é uma empresa estratosférica nem procura sê-lo… É imperfeita, como a vida mesma… Tem muitos elementos para ser uma peça importante na construção desse espaço de expressão cultural, identificação, no qual nos sintamos polo menos cômodos, sem referências e ligações mesmo forçadas a um campo “cultural” “mais amplo” (sim, a essas figuras realmente “consagradas” por todo tipo de fulgores) mas mais penetrado por outras identidades de campo e interesses. Numa altura em que se reclama o desaparecimento de (para mim metafóricos) “apartheids”, eu não estou a falar da tendência contrária de aceitarmos este espaço mais pequeno e limitado como o único possível; mas quisera previr contra a tentação de cairmos nas lógicas nocivas que caraterizam a fação dominante do campo cultural galego. Por exemplo: eu não reclamaria o “direito” de que as editoras privadas e os prémios literários particulares tivessem que aceitar a nossa extravagância linguística, de que nos aceitassem, como quando ias a casa dum amigo dominante a ver se essa tarde queria brincar contigo ou se, polo contrário, esse dia tinha outros amiguinhos de melhor estirpe (sic). Não. Nós somos perfeitamente auto-suficientes como para fazermos o que temos que fazer sem aguardar por ninguém, como insiste repetidamente o tranquilo ideólogo e motor da língua Ângelo Cristóvão. E estamos a procurar fazê-lo. Dempeus!, proclama nestes meses a assediada vanguarda independentista em Catalunha, não é?

E uma vez publicado. Que contas da receção? Há gente que leu, comentou, resenhou, há interesse?

Não faço ideia de como poderá ser a sua receção. Agradeço muitíssimo a tua generosidade com esta entrevista, e isso satisfaz-me mais do que qualquer diagnose. Suponho que terei curiosidade por saber se o livro vai circulando, sim. Gostarei que leiam o livro as pessoas queridas, família, amigas e amigos… Gostaria que nunca entrasse em qualquer listagem competitiva, nem por “mau” nem, sobretudo, por “bom”. Talvez prefira o silente pudor de simplesmente imaginar que, bom, alguma gente que o tenha lido não o tenha considerado uma perda de tempo ou de energia estética, que há pouca.

Os Passos da Procura 
Os Passos da Procura
Celso Álvarez Cáccamo
ATRAVÉS EDITORA (Santiago, 2018)
ISBN 10: 8416545154
ISBN 13: 9788416545155

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza (Corunha, 1970). Formado como filólogo, publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. É sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa; atualmente é o Diretor do Portal Galego da Língua.
Ernesto V. Souza

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