Carvalho contra Chronos



Meu pasado imperfeito, meu futuro
condicional! Mais o presente, u-lo?
R.C.C. “Excalibur” in Futuro Condicional, 1982, p.13

Tal como apontávamos, a questão da fixação da língua, na Galiza, passa pelo consenso, pela construção da ilusão coletiva (tal como o Mário Herrero destaca) em positivo. Na narrativa comum de uma ficção inventada (galego possível impossível), assumida, consagrada, ritualizada, mantida e cultivada por um conjunto amplo da sociedade. Sem ele, sem sociedade… Enfim. Acontece com a língua que declina na sociedade como com a política e a necessidade de um movimento nacional sempre frustrado? (ou é esta fraqueza o que no fundo descobre a da língua?).

A ilusão normativa com apoio institucional e político, fracassou duplamente. Primeiro por não ter conseguido o sucesso como um modelo socialmente válido (o galego desaparece, o que seguindo as teses dos promotores significaria que falhou “a vontade popular” ou que “o povo” está a renunciar a sua língua); segundo por não se ter constituído como um modelo central e referencial de convergência (o espaço institucional rejeitou, expulsou e perseguiu numerosos ativos, grupos, propostas e até linhas e elementos constitutivos da língua sob a marca de lusismo-lusista).

Para além, essa discriminação ao reintegracionismo e apartheid aos reintegracionistas provocou na modelização do reintegracionismo uma deriva inesperada, por fora do seu possível papel crítico e corretor do modelo central, e ocasionou um maior afastamento de qualquer ideia de convergência ou de correção do modelo institucional, e foi-no convertendo, de mais em mais, num projeto de construto independente, que potenciou (que está a potenciar) Internet a interação e o consumo de produtos em língua portuguesa como nunca antes.

Intelectualmente vai ficando claro que o futuro da língua galega passa pelo reintegracionismo como espaço central, e que o resultado virá definido não por modelos pre-estabelecidos, senão a contrário por modelos pos-coordenados. Não por modelos puros e consequentes, antes bem por modelos mestiços e multi-capa.

Para mim, o prioritário nestes momentos não passa por defender um ou outro modelo linguístico e menos ortográfico. Para mim o fundamental é entendermos o que está a acontecer no reintegracionismo como movimento. Entender e explicar essa deriva que foi definindo o movimento desde os anos 80 do século passado, a respeito da sua origem (técnica e associativa mas em crítica, e sendo parte, com o modelo institucional) e a respeito de uma realidade que hoje, cada vez mais, caminha em paralelo a do conjunto do movimento restaurador da língua galega, nomeadamente do institucionalizado.

Essa distância que a cada dia que passa é mais evidente, (a imagem do começo da Jangada de Pedra com o salto do cão, é boa) entre o reintegracionismo atual, e o não reintegracionismo. Entre medias um reintegracionismo clássico que vai perdendo força e um institucionalismo crítico que se periferiza no espaço institucional sem terminar de conetar com o reintegracionismo. E, claro, com questões generacionais, tópicos e imagens e fantasmas dos natais passados tomados por atuais e futuros, por toda a parte evidentes.

Cumpre analisar como se passou em 20 anos da expulsão, do apartheid, da perseguição, do refúgio em espaços distantes a habitar as margens, a concentração, a construir esquemas, espaços comunicacionais, sociais, educativos, editoriais, populacionais nessas margens e periferias, que continuam a crescer, por fora do movimento de construção política, linguística e cultural que transita pelos espaços institucionais.

E onde nos leva isto?

Ponho por caso o símbolo Ricardo Carvalho Calero. A figura emblemática do reintegracionismo intelectual e académico. Não preciso apresentar. Até há uma magnífica estátua, bronze de autor e granito basal, em Compostela, impulsada pela Meendinho, proeza de Alexandre Banhos e paga basicamente com dinheiros do reintegracionismo.

estc3a1tua-carvalho-calero-compostela

Porém, a reivindicação atual com as letras galegas de fundo, a reivindicação do mestre, da obra, da coerência, da figura, do legado, não está tanto no reintegracioninismo mais ativo. Senão na periferia crítica do sistema (a que o reintegracionismo adere). Por que?

Primeiro, porque o reintegracionismo já não espera, nem joga nesses campos dos que foi expulso e aos que não é chamado. E segundo – e talvez mais importante – porque boa parte do reintegracionismo avançou sobre as teses e legado de Carvalho, por sobre a sua estética, obra literária e modelo de língua.

Dentro do sistema, o grupo que faz ruído interno inteligentemente procura apropriar-se do Carvalho/Carballo, varrendo para casa, porém o reintegracionismo atual não precisa nem de se posicionar. Já defendeu, reivindicou, celebrou Carvalho constantemente, durante várias décadas contra o ostracismo, em vida do mestre e após a sua morte como referente. Porém, também há décadas, a base de ler, lembrar e debater e em paralelo ao proceso de construção de um discurso moderno e coerente, começamos, no reintegracionismo, a analisar, estudar, perfilar matizes.

Agora, o reintegracionismo, está na fase de criticar o seu machismo, o seu conservadorismo estético-social, a sua participação tão fundamental e ativa na construção do cânone e cultura de modelo piñeirista e galáxio. E com a crítica, está a caminho para superar o esquema ainda vigente da cronologia, narrativa e cânone estabelecido na sua História da literatura e escritos académicos sobre a língua. Por outra banda, o tempo passa, a temática erótica e existencial da sua poesia vai perdendo gás e conexão, e até a sua prosa, língua e técnica narrativa não seduz muito as novas gerações, de lábio afeito a outras prosas.

Que pode acontecer, neste sentido, e num futuro talvez não tão distante? Que quando o institucionalismo por fim considere celebrar e homenagear Carvalho, o reintegracionismo já o vai ter assumido, sintetizado, aproveitado, antologizado e canonizado, em tal medida que lhe resulte absurdo, exótico, obsoleto o jeito do reconhecimento, o modelo de celebração e as regras do debate que se pretenda abrir.

E pior quantos mais anos passem. Um Carvalho “em comum” joga contra o tempo. Como ele próprio deixou escrito: ainda não é senão futuro e condicional na agenda do institucionalismo e já está deixando de ser presente para se converter em passado imperfeito no Reintegracionismo. E com ele, também o projeto de língua em comum que ele defendia para a gente e para as Instituições. É tarde? Chronos devora tudo. Últimas passagens, antes da partida, que o barco já vai de saída.

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza (Corunha, 1970). Formado como filólogo, publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. É sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa; atualmente é o Diretor do Portal Galego da Língua.
Ernesto V. Souza

Latest posts by Ernesto V. Souza (see all)


PUBLICIDADE

  • Maria Dovigo

    “Intelectualmente vai ficando claro que o futuro da língua galega passa pelo reintegracionismo como espaço central, e que o resultado virá definido não por modelos pre-estabelecidos, senão a contrário por modelos pos-coordenados. Não por modelos puros e consequentes, antes bem por modelos mestiços e multi-capa.” Sinto-me muito identificada com este parágrafo. Penso que o reintegracionismo foi crescendo como experiência da pluralidade de modos de ser galegas. Se sendo mestiças não deixamos de ser galegas, isso é que é ultrapassar os limites do isolacionismo.

  • Ângelo Cristóvão

    Muito acertado, Ernesto. O futuro está aberto, e ao mesmo tempo já se pode ver alguns traços, algumas linhas no horizonte.