Carlos Velasco: “Umha cousa é que amemos a nossa língua antes de mais nada por ser nossa. Outra, que nom aproveitemos as enormes possibilidades que o galego internacional oferece”



carlos-velasco-portugal-outubro-2015-146Carlos Velasco  é historiador, julga que um povo sem consciência de si é um povo irremediavelmente complexado e que os historiadores da Galiza se interessam pouco polas questões relacionadas com a identidade linguístico-cultural supostamente compartilhada.

Aderiu à AGAL polo seu feitio lúdico e Caetano Veloso tivo alguma cousa que ver com o seu alinhamento no lado escuro da norma. Aprecia os avanços da estratégia reintegracionista mas adverte contra a auto-complacência e acha que sem o sustento de umha trama institucional em sintonia com ela, nom adianta. Imagina umha Galiza libertada e mestiça.

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Carlos Velasco é professor de Historia Contemporánea na Universidade da Corunha. Qual os efeitos da tua prática linguística na vida profissional?

No que atinge à receçom discursiva por parte dos meus alunos na aula, suponho que a mor parte deles consideram a minha opçom reintegracionista umha extravagáncia, ou bem a expressom de umha lideira pessoal, sem que isso surta maiores efeitos nas suas consciências fora de um ou outro caso ilhado de estudantes a trazerem esse pendor previamente adquirido. Cousa diferente é a questom da utilizaçom do galego como língua veicular no ámbito académico, a que alunado e professorado se encontram mais do que afeitos por se tratar de umha faculdade de filologia.

Ora, se daí nos deslocarmos para a repercussom da minha prática linguística no terreno da investigaçom e publicaçom de textos científicos, a cousa está brava mesmo. Pois que optar polo reintegracionismo implica, pura e simplesmente, condenar-se à marginalidade, por nom dizer à clandestinidade. Ninguém te vai ler, fora de uns poucos colegas de profissom e militantes reintegratas. Os teus livros nom vam aparecer nas livrarias e bibliotecas públicas, nem farám parte de antologia nenhumha. Cientifica e academicamente quase nom existes, ou fá-lo a duras penas.

A tua especializaçom é a história social da Galiza, sobretudo o século XX. Em que medida pode ajudar o conhecimento do nosso passado para a existência de um presente melhor?

Nom existe presente nem, muito menos, futuro possível sem conhecimento do passado. Se nom soubermos quem somos e de onde é que vimos, dificilmente poderemos construir qualquer cousa de positivo ou de emancipatório na nossa vida presente. Mesmo com conhecimento das nossas raízes é difícil a vida, quanto mais sem ele. Amiúdo a experiência ensina que um povo sem consciência de si é um povo irremediavelmente complexado e, portanto, fanado para projetar um futuro melhor. Os galegos e galegas sabemos bem disso… ou deveríamos saber.

Carlos Velasco foi presidente da Asociación Galega de Historiadores, dissolvida em 2014. No historiador médio galego existe umha tendência para o contacto com a historiografia e os historiadores do mundo de expressom portuguesa?

A meu ver essa tendência é muito limitada, cingindo-se unicamente àqueles âmbitos em que Existe umha certa tradiçom de estudos de história comparada das duas realidades (normalmente a Galiza e Portugal), qual é o caso da história agrária contemporânea e a arqueologia pré-histórica. Ir para além disso é já umha raridade visto que, por regra, os historiadores se interessam pouco polas questões relacionadas com a identidade linguístico-cultural supostamente partilhada e, muito menos ainda, por se a língua galega fai parte ou nom do espaço da “lusofonia” (com todas as aspas que se quiser). “Isso lá é com os filólogos”, como quem diz.

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Depois de muito tempo de prática reintegracionista e de colaboraçom com o conselho de redaçom da Agália, associas-te à AGAL. Que te motivou a dar esse passo?

Como quem nom quer nada, fum adiando o negócio de me associar, visto que na sua fase inicial a AGAL apresentava um feitio muito marcadamente filológico (ou isso me parecia), que nom acaía com o meu perfil profissional e as minhas afeições pessoais. Para além disso nom suportava mais domiciliações bancárias relacionadas com o associativismo, que já tinha de avondo e, como era assinante da Agália, fiquei por aí. Quando dei por mim, os anos tinham corrido e a fasquia da AGAL já nom era a mesma, me parecendo agora muito mais atraente. Julguei estava na hora de dar o passo, e dei-no aliciado, para além da lógica empatia, polo aquele um tanto lúdico da Associaçom (muito de agradecer!) e o meu fastio perante o estancamento em matéria linguística e identitária de que o nosso (im)país nom dá saído.

Lembras como foi o processo que te levou a viver no galego internacional? Por que ser reintegracionista em 2017?

Lembro, sim, perfeitamente. Como som natural das Rias Baixas e nascim a cinquenta quilómetros da raia minhota, descia amiúdo com a minha família a Portugal, desde meninho, para mercar toalhas, lençóis e isso todo, e de passagem viajar e descobrir. Tivem, portanto, contacto direto com a outra variante da nossa língua desde a infância e conhecim Viana e o Porto antes que Ferrol e A Corunha. Depois, na Universidade, logo após o 25 de Abril, chegárom os textos de todo o tipo em português, as músicas (o Zeca Afonso, Fausto, Luís Cilia… em disco e ao vivo; do Brasil o Vinicius, Caetano…), os intercâmbios políticos, os debates atinentes à normalizaçom linguística e normativizaçom com as primeiras formulações reintegracionistas. Logo me identifiquei com esse mundo que sentim como próprio (como ousavam me dizer, por exemplo, que o Caetano cantava numha língua diferente da minha? Era besteira grossa mesmo!). A consciência dessa realidade, e das potencialidades imensas que encerrava para a nossa língua e a nossa cultura, reforçar-se-iam ainda mais tarde por ocasiom das estadias relativamente prolongadas que figem em Portugal e o Brasil. O problema é que cada vez que regresso desses países para a terra e miro o que aqui há entro em depressom…

E por que ser reintegracionista em 2017? Em primeiro lugar porque cumpre reinserir o galego no tronco linguístico e tradiçom escrita que lhe som próprios, quebrando as serventias letais a respeito do castelhano. Em segundo lugar porque assumir o facto de fazermos parte de umha língua tricontinental e prestigiada no mundo (mália ser língua de países pobres) há contribuir, com certeza, à elevaçom da autoestima dos galegos e galegas. E, em terceiro lugar, porque nom temos outro remédio se quisermos que o galego sobreviva. Umha cousa é que amemos a nossa língua antes de mais nada por ser nossa, e nom tanto por ela ser falada por tantos ou quantos milhões de pessoas no mundo. Outra, bem diferente, que nom aproveitemos as enormes possibilidades que o galego internacional oferece, levando em conta a situaçom agónica que o idioma atravessa aqui, no seu solar originário. A nom ser, claro, que queiramos suicidar-nos alegremente como povo.

Depois de várias décadas de estratégia internacional para a língua, qual é o teu balanço?

Talvez nom goste o que vou dizer mas cuido que o reintegracionismo, como audaciosa proposta de normalizaçom linguística e afixaçom de um standard culto na sequência das formulações de Carvalho Calero, Rodrigues Lapa e outros precursores, tem fracassado na Galiza. As razões desse fracasso som conhecidas, nom sendo a menor a campanha de perseguiçom inquisitorial e marginalizaçom empreendida polo oficialismo —numha atitude eticamente desprezível, considerada de qualquer ponto de vista— sem contar com as múltiplas abjurações produzidas ao longo do processo. O caso é que, hoje em dia, o movimento reintegracionista nom passa de ser um ghetto. Imaginativo, divertido e com um potencial criativo transbordante mas, como todos os ghettos, com um grau de incidência social muito limitado. Sem dúvida, corresponde à vossa geraçom o mérito de ter imprimido à Associaçom a viragem de estratégia conducente à situaçom presente, ultrapassando o excesso de filologizaçom de outrora. No entanto os avanços produzidos, bem como as gratas realidades construídas, nom devem fazer-nos cair na auto-complacência, visto o imobilismo a caraterizar a institucionalidade da cultura do país, pouco interessada em (ou incapaz de) imaginar para ela (a cultura nacional) outro horizonte que nom seja o da subalternidade. Por só citarmos um exemplo elucidativo do que estou a dizer, velaí tendes o escasso desenvolvimento da Lei Paz Andrade, aliás previsível desde o início salvo para ingénuos incorrigíveis. Claro que, bem mirado, logo se conclui que, para desenvolver umha estrtatégia reintegrata com mínimas garantias, se precisa de poder político com ideias claras ao respeito, o que estamos longe de possuir. O labor da AGAL pode ser, e é, de grande ajuda no desenho e execuçom dessa estratégia mas nom adianta sem o sustento de umha trama institucional em sintonia com ele. Eis aí um dos mais importantes desafios rumo à conquista do futuro. Outro é conseguirmos no mundo lusófono umha maior recetividade para as nossas propostas, que nom passe necessariamente pola subordinaçom sem mais ao português-padrom, com ou sem acordo ortográfico.

Assim pois, o meu balanço é moderadamente pessimista de umha perspetiva racional. Confiemos em poder superar o atranco por meio do otimismo da vontade, tam gramsciano ele. Mas olha aí: sem poder político firme e consistente —voltamos ao dantes— a transluzir um alto nível de consciência social pouco há para fazer. E polo de agora os tiros nom parecem ir por aí, nom.

 

Qual julgas que deve ser a estratégia do reintegracionismo nos próximos anos?

É-me muito difícil responder a essa questom. O grande problema a ser levantado é como permear umha sociedade com tam baixa estima de si, aliciada ainda para mais nessa atitude por umha institucionalidade badoca a girar arredor de si. A este respeito acho que a estratégia atual da AGAL, antes referida, tem dado grandes passos em frente, graças à sua frescura, flexibilidade e imaginaçom. Ora, bem se vê que convencemos a quem tem tendência de seu a ser convencido; a mais ninguém. E a escassa recetividade às propostas reintegracionistas a ambos os lados do Minho redunda numha praticamente nula interaçom cultural entre as duas realidades, por muito Ponte nas Ondas, Cantos na Maré e Cursos de Portugês no Porto que haja e houver (experiências setoriais de alcance limitado, aliás, por mais que muito plausíveis). Pois bem, com este pano de fundo preocupa-me o que parece ser umha certa proclividade do movimento reintegracionista a priorizar na sua estratégia a difusom do galego internacional, quer dizer, do português puro e duro (mormente em versom lusitana rigidamente padronizada) na Galiza, descuidando a afirmaçom dos nossos traços distintivos dentro do sistema comum. Olho com palavras-de-ordem do tipo “O Português língua da Galiza” que, embora encerrem verdade, podem ser percebidos pola populaçom galega como umha intromissom colonial, o mesmo que o realce dado às atividades da Academia Galega da Língua Portuguesa. Devemos neste aspeto ter juízo e senso prático, reparando sempre em que país estamos.

Para além do mais, e por falar em positivo, tenho para mim que o profundar na estratégia atualmente em curso deveria complementar-se com as medidas seguintes: 1. Intensificar os esforços por impregnar de reintegracionismo a política cultural das organizações nacionalistas e da esquerda radical (das outras nada cabe esperar); 2. Moderar alguns tiques inteletualistas demais nas manifestações de umha parte dos associados; 3. Promover a convergência em torno a umhas linhas de atuaçom estratégica comum, se possível, com a recentemente criada Associaçom de Estudos Galegos, sem desrespeito de cadanseu âmbito de atuaçom; 4. Explorar as possibilidades de um relacionamento mais intenso com o Brasil (e, ocasionalmente outros PALOPs), vista a meirande recetividade que parece alviscar-se ao menos numha parte da institucionalidade cultural do gigante latino-americano (e arestora verdadeiro epicentro da lusofonia, nom o esqueçamos) face às propostas de outros focos nom lusitanos do sistema comum; 5. Redefinir o papel da Agália dentro da estratégia geral da AGAL; 6. Tentar estabelecer com claridade —bem sei que se está nesse processo— se se opta prioritariamente pola potenciaçom e difusom do standard próprio ou pola assunçom do galego internacional moldado no exterior (Se de algo servir esta reflexom com ribetes auto-biográficos com que quero encerrar este ponto, direi que desde há bem tempo convivo mais ou menos esquizofrenicamente com dous registos ou códigos dentro de mim: o dos máximos da AGAL, que emprego no meu trabalho profissional, mesmo em publicações no exterior por razões reivindicativas; e o do galego internacional para me relacionar com os amigos portugueses e brasileiros e na hora de tratar, por motivos diversos, com instâncias oficiais desses dous países. Ele nom será que um dilema semelhante é vivido por umha parte dos associados da AGAL e do movimento reintegracionista em geral? Mais dia menos dia, a AGAL terá de fazer a escolha definitiva e a opçom por um ou por outro implicará estratégias diferentes. Problema pra cacete, que diriam os brasileiros. O futuro fica aberto).

 

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2030?

Gostaria que fosse a de umha terra libertada e dona de si (a fórmula política concreta imo-la deixar para alá, por enquanto), com umha cultura mestiça assente na base de umha etnicidade mais ampla e plural que a dos séculos XIX e XX, enriquecida polas achegas dos imigrantes de toda a cor, e onde o galego servisse de cimento a dar coesom a essa polifonia, sendo ao mesmo tempo o seu veículo de intercomunicaçom e sinal de identidade mais requintado. Teria de ser, é claro, um galego reconstruido e plenamente reinserido no tronco a que por direito pertence. E mesmo nom incompatível com o emprego co-oficial no âmbito do ensino, nomeadamente no seu nível infantil e primeira etapa do primário, de outras línguas próprias dos novos galegos de naçom procedentes da imigraçom.

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Conhecendo Carlos Velasco

Um sítio web: Rebelión, Resumen Latinoamericano, Diário Liberdade, PGL.

Um invento: A agricultura.

Umha música: Stair to heaven, de Led Zeppelin; São Gonça/Zé do Caroço, de Seu Jorge; Te doy una canción, de Silvio Rodríguez; os Adágios, de Albinoni.

Um livro: Tieta do Agreste, de Jorge Amado; El libro de los abrazos, de Eduardo Galeano; Cousas, de Castelao; Nacionalismo e cultura, de Amílcar Cabral.

Um facto histórico: A Revoluçom de Outubro.

Um prato na mesa: Polvo à mugardesa; um acarajé da Bahia.

Um desporto: Atletismo

Um filme: Novecento, de Bernardo Bertolucci; Tempos Modernos, de Charles Chaplin; Fresa y Chocolate, de Tomás Gutiérrez Alea Titón.

Umha maravilha: A natureza em todo o seu esplendor.

Além de galego/a: Aprendiz de comunista, ser humano, universal.

 

 

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim

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  • Ernesto V. Souza

    Merece, acho, se destacar pela lucidez a sua análise:

    “Talvez nom goste o que vou dizer mas cuido que o reintegracionismo,
    como audaciosa proposta de normalizaçom linguística e afixaçom de um standard
    culto na sequência das formulações de Carvalho Calero, Rodrigues Lapa e
    outros precursores, tem fracassado na Galiza. As razões desse fracasso
    som conhecidas, nom sendo a menor a campanha de perseguiçom
    inquisitorial e marginalizaçom empreendida polo oficialismo
    —numha atitude eticamente desprezível, considerada de qualquer ponto de
    vista— sem contar com as múltiplas abjurações produzidas ao longo do
    processo. O caso é que, hoje em dia, o movimento reintegracionista nom
    passa de ser um ghetto. Imaginativo, divertido e com um potencial
    criativo transbordante mas, como todos os ghettos, com um grau de
    incidência social muito limitado. Sem dúvida, corresponde à vossa
    geraçom o mérito de ter imprimido à Associaçom a viragem de estratégia
    conducente à situaçom presente, ultrapassando o excesso de filologizaçom
    de outrora. No entanto os avanços produzidos, bem como as gratas
    realidades construídas, nom devem fazer-nos cair na auto-complacência,
    visto o imobilismo a caraterizar a institucionalidade da cultura do
    país, pouco interessada em (ou incapaz de) imaginar para ela (a cultura
    nacional) outro horizonte que nom seja o da subalternidade. Por só
    citarmos um exemplo elucidativo do que estou a dizer, velaí tendes o
    escasso desenvolvimento da Lei Paz Andrade, aliás previsível desde o
    início salvo para ingénuos incorrigíveis. Claro que, bem mirado, logo se
    conclui que, para desenvolver umha estrtatégia reintegrata com
    mínimas garantias, se precisa de poder político com ideias claras ao
    respeito, o que estamos longe de possuir. O labor da AGAL pode ser, e é,
    de grande ajuda no desenho e execuçom dessa estratégia mas nom adianta
    sem o sustento de umha trama institucional em sintonia com ele. Eis aí
    um dos mais importantes desafios rumo à conquista do futuro. Outro é
    conseguirmos no mundo lusófono umha maior recetividade para as
    nossas propostas, que nom passe necessariamente pola subordinaçom sem
    mais ao português-padrom, com ou sem acordo ortográfico.

    Assim pois, o meu balanço é moderadamente pessimista de umha
    perspetiva racional. Confiemos em poder superar o atranco por meio do
    otimismo da vontade, tam gramsciano ele. Mas olha aí: sem poder político
    firme e consistente —voltamos ao dantes— a transluzir um alto nível de
    consciência social pouco há para fazer. E polo de agora os tiros nom
    parecem ir por aí, nom.”

    • abanhos

      Ernesto bate sempre no prego certo.
      Na entrevista há um pequenissimo apontamento sobre a história “criaçao regional da universidade de castela/espanha”. Não é instituição neutra em nada, e isso esquce-se com tanta facilidade…

  • abanhos

    Mais uma entrevista cheia de muita miga, da que se podem tirar saborosas lições. Se alguem pegar no fio da meada pode dar lugar a muita boa cousa