Carlos Quiroga: “Tem sentido chamar as raízes de Pessoa de galego-portuguesas, pois na ascendência familiar hai sangue galego. Algo que por outra parte acontece com outros escritores portugueses”



Em mais um fevereiro, numa sala hiper lotada de público, no hotel Axis-Vermar da Póvoa de Varzim, espaço que junto com o Teatro Almeida Garrett, constitui o epicentro das reunions e das apresentaçons de livros do encontro anual de escritores de expressom ibérica, as Correntes d’escritas, Carlos Quiroga conversou com Sabela Fernández e Daniel Amarelo com motivo do lançamento do seu novo livro de ensaio, publicado em Através Editora: Raízes de Pessoa na Galiza. O Pessoa Galego.

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O título posto parece sugerir que o tronco da imensa árvore pessoana finca as suas raízes na Galiza… Casualidade? Ou entom, o Fernando Pessoa era galego-português?

Pessoa é e será, quase enjoativamente, do mundo. Quanto às raízes, sim, se entendidas em primeira instância genealógicas, tem sentido chamar de galego-portuguesas, pois na ascendência familiar hai sangue galego. Algo que por outra parte acontece com outros escritores portugueses. O título da publicaçom que isso documenta, como se poderá suspeitar, nom tem nada de casual. O autor teria preferido dar à luz em Portugal, dada a natureza do assunto, e aí para evitar suscetibilidades chauvinistas, inerentes a este tipo de abordagens, o título e a capa seriam mais cautos. Mas acabando por sair antes na Galiza, e sendo essa leitura inevitável, nom tenho pudor e assumir o chauvinismo pareceu-me o coerente.

Todos sabemos que o Fernando Pessoa nom gostava nada de viajar e deixava apenas em raras ocasións a sua Lisboa natal; contudo, o teu livro sobre ele faz-nos viajar trepidantemente no tempo e espaço por causa das tuas pesquisas sobre as origens e a vida do Pessoa e lembra-nos, se calhar, que, subterraneamente, neste ensaio se esconde uma interessante matéria prima para um romance histórico-policial com figura de detetive e caso para desentranhar…

As intençons romanescas motivaram esta aproximaçom, confesso. Depois achei tam fantástica a peripécia do Caetano antepassado galego do Pessoa que tentei fazer um artigo, porque num relato os tugas nom iam acreditar na veracidade e estava interessado em recordar-lhes (porque os dados gerais já tiveram diante durante anos, o próprio Pessoa tinha dito) como a Galiza está na foto. No livro em que isto deu havia maiores marcas desse olhar que apontas, estava em primeira pessoa e contavam-se mais historietas de trabalheiras da pesquisa, em tom de investigaçom realmente policial. O José António Souto, quando me ajudou nas transcriçons paleográficas e viu o texto, advertiu-me que nunca tinha visto isso num livro sério. Entom passei à primeira pessoa do plural e apaguei boa parte das ditas marcas. Nom sei se foi o melhor, mas já está feito e desde logo que ganhou certa gravidade o livro –espero que nom de tijolo…!

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Além da procura genealógica das raízes familiares do Fernando Pessoa na Galiza, o livro é um valiosíssimo documento sobre a intrahistória dos heterônimos do Fernando Pessoa: o Álvaro de Campos e o Alberto Caeiro…

Pois tamém acho. Nom é que todo o relativo a essa parte seja absolutamente novo, mas apontar um Caeiro galego como referente real é novo e ousado –um Caeiro cónego da catedral publicamente bem conhecido, especialmente pelas vésperas e posteriores faustos do ano Santo Compostelano, e até parodiado por outros artistas como Asorey em escultura. Tamém é novo e ousado, ainda que mais relativamente porque já fora insinuado, defender que Pessoa publicou na Galiza um texto da campanha do Orpheu, traduzido por Enrique Dieste. Quanto ao resto, como a galeguidade, tanto de Caeiro como de Álvaro de Campos em origem, os dados estavam à vista, mas atenuados quando nom encostados. Reconstruir as relaçons com Guisado e acompanhar o processo de intermediaçom deste talvez resulta algo cansativo na leitura, mas era necessário para pôr em valor e fundamentar bem essa intrahistória galega.

Um local mítico de Lisboa que agora nom existe mas que foi emblemático na vida cultural do Pessoa e o grupo Orpheu, o restaurante Irmãos Unidos gerido por galegos e no qual esteve exposto durante muito tempo o famoso quadro do Almada Negreiros onde se mostra ao Pessoa à mesa com um exemplar do número dois de Orpheu, tem também muito a ver no que diz respeito ao conteúdo do teu livro…

Tem. O Irmãos Unidos, restaurante dos pais do Guisado, era o ponto de encontro central do Grupo Orpheu em Lisboa, e aí nasceu a revista. O Guisado assim o confirma em fontes escritas e até assim se entende na entrevista televisiva de 1973 transcrita no livro. Quando o conflito com o jornal A Capital, os indignados correligionários do chefe do Partido Democrático, ofendidos pola carta de Campos-Pessoa, alusiva ao caso de Afonso Costa e o elétrico, foi o local para onde se encaminharam com intençom de linchamento.3-livropessoa

Raízes de Pessoa na Galiza. O Pessoa galego nom deixa de se entroncar também com o teu anterior ensaio, A imagem de Portugal na Galiza

Certamente. O papel de Guisado e a precoz mençom de Pessoa e do Grupo Orpheu em 1914 em Vida Gallega, antes que se editasse a revista, já aparece nesse livro. Os dados já os tinha, o Pessoa galego nom é mais do que a amplificaçom extrema de detalhes aludidos no livro anterior, polo menos na segunda parte. Aquele era mais divulgativo, breve e condensador de séculos de relacionamento galego-português. Este é umha levitaçom budista à volta de umha fava chamada Fernando Pessoa, e já se sabe que os budistas som capazes de ver paisagens inteiras numha fava…!

Até que ponto estamos perante um certo projeto de escrita onde textos, temas e até personagens transitam intertextualmente como acontece também por exemplo com o Peixe Babel, o teu último romance do 2016 onde ressuscitavas ao narrador de Inxalá, o teu romance do 2003 e Prémio Carvalho Calero de narrativa no 2003?

Ahh ressurreiçom nada. Os livros demoram a sair e os seus tempos de gestaçom ficam só aparentemente distanciados. Peixe Babel é quase por completo produzido originalmente na mesma altura de Inxalá, e ainda está na gaveta outro romance que encerra o mesmo projeto. O Pessoa galego está num caso parecido, tem anos de trabalho por trás. Afinal é como indicas, um certo projeto de escrita cria-se de modo complexo e em casos como o meu os temas e textos e personagens passam aos olhos públicos quando e como podem, nom obedecem a necessidades carreirísticas de manter a atençom de um público que agora nom tenho. Nesse sentido as dificuldades de publicaçom ou visibilidade tornam-se certa forma de liberdade.4-correntes

Levas participando mais de dez anos nas Correntes d’Escritas, um importante espaço de intersecçom e inflexom todos estes anos na escrita da cena ibérica. Como definirias a experiência? Achas que estes lugares som mais que necessários para a literatura galega inserida na Lusofonia?

Imprescindíveis, diria. Devia ser um imperativo sistémico para a literatura galega estar aqui. Ora nom é querer estar, é poder estar e ser convidado a estar que condiciona a presença. Publicar livros em Portugal abriu-me a mim essa porta a partir de 2003, e sinto certa obrigaçom em continuar acatando os convites, apesar do desgaste e até de certo cansaço, porque eu nem podo nem quero arcar com tal representatividade. Espero que a literatura galega se mova no sentido de possibilitar a presença numerosa e mais continuada doutras e doutros representantes. Eu nom som ninguém na Galiza e abruma-me estar jogando em primeira divisom nas Correntes, participar nos júris do seu prémio, até por três vezes, moderar ou participar em mesas, ir às escolas portuguesas, quando deste lado do Minho nada disso tivem nem terei nunca. Nesse sentido é umha experiência estimulante, mas paradoxal a e desconcertante, porque eu som mais retraído do que estes eventos me obrigam a ser. Estar nisto, como os da Através teredes fugaz oportunidade de catar, só pode causar certo deslumbramento lógico, superior em alguém que recebe aqui o afeto e normalidade no campo literário que a sua terra nom dá.

Nesse sentido, qual está sendo o feed-back da tua apresentaçom do Raízes de Pessoa na Galiza. O Pessoa Galego durante esta semana intensa e efervescente de cultura das Correntes d’escrita?

Só se fala noutra cousa nas Correntes…! Essa a frase de um amigo músico brasileiro. Em sério, será prematuro dizer. Digerir tanta novidade de vários continentes demora e este livro ainda nom se leu ou avaliou com calma. A amizade e a cumplicidade dá primeiros retornos de brincadeira e obviamente positivos, mas é evidente que nom contam. Receio do natural chauvinismo que talvez coloque algumas reservas em Portugal, mas de princípio a curiosidade de intelectuais e da mídia nom se inibiu, ao contrário, mostraram interesse e simpatia.

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A palestra que moderaste este ano no teatro Almeida Garrett da Póvoa para as Correntes d’Escritas contava com a participaçom do Miguel Real, Abraão Vicente, Alberto S. Santos, Hugo Mezena e Isabel Rio Novo e levava como título “Escrever é um acaso de circunstâncias”. Ali exercias como mestre de cerimônias e ouvimos os outros falarem das suas circunstâncias de escrita… Quais som propriamente as tuas, Carlos?

O círculo próximo, do que a Através e quem vai ler isto fai parte, mais ou menos sabe ou intui. Dá-me de comer um trabalho com a literatura do lado professoral, que apesar de mudanças bolonhesas e escasso pessoal com talento interessado me continua a moderadamente encantar. E ao mesmo tempo sinto desde sempre que a tarefa universitária tem um lado esterilizante, de maneira que por fora disso tenho umha causa, que tem a ver com língua e país, e acompanhando tudo e desde que me lembro escrevo. Por necessidade, por inadaptaçom, por vontade mais bem íntima de entendimento e partilha. Algo que tem pouco que ver com o mercado e a Literatura tal e como hoje é, ultrapassados romantismos acerca de como ela funciona e que eu conheço perfeitamente. Que acabe por ser editado e lido por outros por fora do círculo íntimo é diferente, e tem bastante a ver com tal causa, e cada vez menos (na madurez em que me acho) com a remota necessidade adolescente de um carente se afirmar. Já escrevo menos, já me desescrevo mais. Ainda que algo carente sempre me vou sentir.

Desde o teu primeiro poemário, G.O.N.G. – mais de vinte poemas globais e um prefácio esperançado, publicado pola AGAL no ano 1999, qual dirias que é, agora mesmo, o posfácio esperançado do Carlos Quiroga após quase vinte anos de escrita global lusófona?

O ‘posfácio esperançado’ do G.O.N.G. (por certo, em Artábria) tinha algo de frikada futurista, afinal algo lúcida em prever que determinado partido político atingiria poder e fracassaria em determinado propósito, parábola da falência geral em mudar o mundo. Um prefácio atual seria igual de esperançado… na ironia: os poderes de sempre acabam hoje de reconhecer a doença, sobre o uso da nossa língua neste espaço já nom cabe outra opiniom que a apocalíptica. Mas em contrapartida a proposta histórica das Irmandades da Fala que recolhe o reintegracionismo nunca tiveram saúde nem vigor maior. Vamos ficar só nós, o mar (tempestuoso), o barco (a naufragar), e nós (a marinhar e apontar o único porto de abrigo). Estruturas legais como a Lei Paz Andrade seriam potentes e imprevistos instrumento de navegaçom vinte anos atrás, mas andam aí ainda demasiados grumetes a querer esconder a sua ambiçom de lucro e capitaneio preferindo que o barco naufrague e abafe os seus erros e pecados. Vós distribuídes livros em Portugal, a troca e a vida cultural conjunta nunca foi maior e melhor, nada devemos a essa gente para quem a história irá atribuir os versos duros de Pondal. Aquilo de ignorantes, férridos e duros, imbecis e escuros. Ao contrário, temos sido bons e generosos e ainda queremos que se salvem no mesmo barco. Mas, por favor, fora as suas sujas maos do leme. O posfácio esperançado (e irónico) é que nós continuamos a ter razom, é um grito, mas as vias de água som enormes e essa tropa filibusteira ainda se pode redimir, pode deixar de assediar e estorvar, mas até pode tamém ajudar.


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  • Ernesto V. Souza

    Pois a cousa é que esse pontinho de romance de detetives é o mais atrativo… pensei ao começo que era teima minha, mas comentei com outra gente e todo o mundo adorou… agora leio na entrevista…

    Sinceramente acho que o José António Souto devia ser expedientado e enviado a contar morfemas e fonemas a uma torre afastada do ILGA. XD XD

  • Venâncio

    Estou interessadíssimo em conhecer o ensaio do Carlos.

    Sabe-se que o cidadão Fernando António Nogueira Pessoa teve uma relação complicada com a Galiza, e nunca propriamente simpática. Primeiro ligou-a territorialmente a Portugal, depois repudiou-a. Estudei isso num artigo.

    Há uma primeira fase, de 1918 (texto meu): «A Galiza, no discurso pessoano, é tão-só um espaço a anexar para Portugal ser inteiro. Em momento nenhum ela é sujeito, e ainda menos sujeito pensante».

    E uma segunda fase, de 1931 (texto de Pessoa): ««Ninguém, que seja verdadeiramente português, quer a Galiza para nada. Não queremos a Galiza parte de Portugal, ou a Galiza e Portugal um só país».

    O artigo («Pessoa e a Galiza: Anexar o vazio») saiu na revista Ler, nº 122, 2013.

    • Venâncio

      P.S.

      Informa-me o Carlos Quiroga de que o meu artigo é tido em conta no seu livro. Fico feliz.

    • Diego Bernal

      Antes de mais, parabéns ao Carlos polo livro que lerei assi que puder. Esse amor-ódio de Pessoa em realçom à Galiza, a que se refere o professor Venâncio, foi também estudado no livro Parecia Não Pisar o Chão do amigo Carlos Taibo, também editado pola Através. Leitura muito recomendada. Grande aperta!

      • Venâncio

        Obrigado, Diego. Fica já na minha lista de desejos.

  • Pedro Lopes

    Há que dar o seu a seu dono, quem de facto deu primeiramente ao mundo a conhecer Fernando Pessoa foi o Brasil, só depois em Portugal se deram conta que tínhamos um diamante entre mãos por delapidar, aliás Fernando Pessoa morreu na miséria e sobrevivia de expedientes diversos, um dos quais e muito pouco conhecido é a sua faceta publicista, em 1929 a Coca-Cola contrata a empresa de publicidade lisboeta “Hora” onde Fernando Pessoa trabalhava, para inventarem uma frase publicitária para a expansão da marca em Portugal.
    O slogan inventado por Fernando Pessoa foi “primeiro estranha-se e depois entranha-se”, o que de facto corresponde exactamente à realidade do primeiro efeito desta bebida quando se bebe pela primeira vez, e esta frase deveria até estar exposta em qualquer departamento mundial dessa marca mencionando “frase inventada pelo grande poeta Fernando Pessoa”, só por curiosidade essa frase foi censurado por Ricardo Jorge, director de saúde de Lisboa porque apelava ao consumo de uma bebida que continha um elemento tóxico a coca e como tal foi proibida a sua comercialização em Portugal continental ou chamada metrópole.
    Só muito mais tarde essa bebida foi autorizada a comercializar em Portugal, em 1977, ironicamente durante esse período de proibição da marca em Portugal, nas colónias como Angola e Moçambique qualquer português podia beber a sua cola à vontade e onde essa marca estava em forte expansão, coisas do antigo regime.:)
    Este aparte para dizer que tal como Luís Vaz de Camões, Fernando Pessoa morreu pobre e sem glória, foram precisos passar séculos após a sua morte, no caso de Camões e dezenas de anos no caso de Fernando Pessoa para que efectivamente Portugal os reconhecesse com génios da cultura que sempre foram, hoje temos uns génios da bola que ainda nem acabaram as suas carreiras e já dão nome a aeroportos, enfim.:)

    • Venâncio

      Pedro Lopes,

      Importa não alimentar mitologias, mesmo as negativas. Sendo certo que tanto Camões como Pessoa morreram sem o reconhecimento merecido, é verdade também que ele não demorou após a morte deles.

      A importante edição da Lírica” (ou “Rimas”) de Camões deu-se em 1595, quinze anos após a sua morte, e já antes os “Lusíadas” tinham tido reedições, e mais três traduções para castelhano.

      Repare que os dois volumes de Camões (os Lusíadas e a Lírica) foram os primeiros de poesia a ser impressos em Portugal após 1516. Isto é, depois dum intervalo de mais de meio século. Se isto não é reconhecimento…

      No caso de Pessoa, toda a malta da Presença o conservou como referência, e já em 1950, quinze anos depois da morte, aparecia a monumental biografia “Vida e Obra de Fernando Pessoa”, de Gaspar Simões, que definitivamente o consagrou.

      Quanto à Coca-Cola… que bom que o consumo dessa mixórdia tenha sido travado entre nós durante décadas.

      • Pedro Lopes

        A publicação de um livro em círculos restritos ou herméticos não faz do autor um ícone cultural, e um país também se faz de ícones sejam eles no domínio da cultura e das artes, política, militar ou outros e no caso de Camões e Pessoa esse patamar cultural demorou de facto muito tempo e no caso de Pessoa foi efectivamente o Brasil quem lhe deu primeiramente a projecção internacional devida, começou a ser estudado em universidades brasileiras e com ensaios de vários investigadores brasileiros, enquanto que em Portugal estudava-se Pessoa hermeticamente e só em determinados círculos.
        Cientificamente não está provado que a Coca-Cola faça mal, creio que isso sim é um mito, e é como tudo desde que seja tomada regradamente está tudo bem, é como tomar um copo de vinho todos os dias à refeição, não faz mal pelo contrário, as pessoas esquecem que o corpo humano tem a capacidade suficiente desde que a mesma não seja esgotada obviamente, de expelir e rejeitar tudo o que está a mais, o melhor médico de nós próprios somos mesmo nós próprios.:)

        • Venâncio

          Pedro Lopes,

          As publicações de, e sobre, Camões ou Pessoa que acima aduzi não foram feitas “em círculos restritos e herméticos”. Pelo contrário, tiveram vasta divulgação, e, no caso de Pessoa, originaram debate público.

          Quanto à projecção internacional de Pessoa, ela deve-se ao tradutor francês ARMAND GUIBERT, que já a partir de 1944 (!) publicou vários volumes na ed. Gallimard.

          Só bastante depois foi feita a (de resto, excelente) publicação da “Obra poética” no Brasil.

          E eu gostaria de que especificasse a sua afirmação seguinte:

          «[Pessoa] começou a ser estudado em universidades brasileiras e com ensaios de vários investigadores brasileiros, enquanto que em Portugal estudava-se Pessoa hermeticamente e só em determinados círculos».

          Que círculos, que hermetismo? Temo que haja aí alguma mitografia.

          • Pedro

            Não podemos extrapolar singularidades para a generalidade, pode-me dizer qual foi o impacto dessa tradução em França? A generalidade do estudo e divulgação de Fernando Pessoa, há que dar o mérito primeiramente aos brasileiros.
            À resposta ao seu último parágrafo, certamente que Fernando Pessoa não foi um auto didata em conhecimentos cabalísticos que tiveram por base os seus escritos na “Mensagem”

          • Venâncio

            O impacto das traduções de Guibert em França foi grande, e despertou a atenção sobre Pessoa noutros países: Itália, Espanha, Inglaterra.

            O Pedro continua a referir os brasileiros como primeiros divulgadores de Pessoa. Eu pedi-lhe dados concretos. Pedi-lhe também dados do estudo de Pessoa em Portugal “só em determinados círculos”. Como continua a não dá-los, Infiro que não os tem.

          • Pedro

            Que não queira dar o crédito devido aos brasileiros demonstra ressabiamento, acordos ortográficos aparte.
            Creio que a minha resposta foi esclarecedora, mas se vamos abortar o hermético em Pessoa saímos claramente fora do âmbito desta discussão. O meu aporte foi apenas para continuar a reforçar a ideia que os génios da cultura em Portugal são muito tardiamente reconhecidos e quem perde é sempre a geração contemporânea do autor

          • Venâncio

            Ó meu caro senhor,

            “Ressabiamento” pelo Brasil é coisa que não achará em quem publica em revistas brasileiras e colabora em livros lá editados.

            Já vi que o Sr. simplesmente não dispõe de informação adequada sobre aquilo que afirma. Nem poderia tê-la, pois o cenário que descreve não bate certo com a realidade.

            Esse estribilho de que “os génios da cultura em Portugal são muito tardiamente reconhecidos” é deveras tocante, mas pertence à choraminguice nacional.

            Dou-lhe um conselho amigo: mantenha-se informado, e fale, com essa ousadia, só de coisas que verdadeiramente domina. Leia, leia muito. Melhor não há.

          • Pedro

            Caríssimo, a sua erudição não é abrangente o suficiente para entender o hermetismo em Fernando Pessoa, fica-se pelos seus heterónimos e menciona traduções que se ficaram por alguns círculos literários europeus, ora um escritor ou poeta só se torna um ícone literário, quando começa a ser estudado e leccionado em instiuiçōes de ensino nacionais e internacionais e já verifique quantos países tem ensaistas em Fernando Pessoa e o seu número, é também já agora que tem os livros à mão desde quando é que Fernando Pessoa começou a ser estudado primeiramente nas respectivas faculdade de letras e quais as universidades.

          • Venâncio

            Senhor Pedro,

            Eu fico emocionado com o Sr. diz conhecer a meu respeito. Está errado, mas que se há-de fazer?

            Quanto ao resto: eu não estou aqui para colmatar as suas falhas de informação sobre um assunto que o Sr. introduziu e sobre o qual perorou. Outros temas prementes me tomam o tempo disponível. Fique bem.

          • Pedro Lopes

            Afinal os seus livros não são tão numerosos assim, porque se fossem saberia ter-me respondido, mas no seu caso tem a agravante dado que diz que publica em revistas brasileiras, e nem deveria precisar de ler os livros para constatar que o Brasil foi e é de facto o pólo mais dinamizador de estudos pessoanos, e foi de facto o primeiro país mesmo antes de Portugal a incluir Fernando Pessoa como objecto de estudo a nível universitário perfeitamente implantado.
            Em Portugal sim claro havia estudiosos mas só depois do impulso brasileiro internacional é que de facto Fernando Pessoa começou a ser verdadeiramente leccionado nas faculdades de letras estatais.
            E já agora que me apresentou a França como o primeiro país a traduzir Fernando Pessoa, quantos especialistas pessoanos franceses existem, actualmente existem mais nos EUA por vias do Brasil.
            Para finalizar não é “choraminguice” nacional, a projecção internacional de Fernando Pessoa e mesmo o seu conhecimento como tal em Portugal, deve-o ao Brasil e estou perfeitamente à vontade para o dizer até porque sou contra o acordo ortográfico, não no seu conteúdo mas na sua forma, o acordo deve existir até porque há cerca de 250 milhões em todo o mundo que falam a língua de Pessoa, e portanto a língua deve ser escrita da mesma forma em qualquer país de língua oficial portuguesa e nos países onde se aprende o português, e como Fernando Pessoa disse “a minha pátria é a língua portuguesa”, pois que se faça jus a esse desejo, mas discordo completamente que tenha havido uma cedência escandalosa por parte de Portugal ao Brasil, pois prevaleceu na maior parte a ortografia brasileira, eu pessoalmente não aplico o acordo, portanto caro amigo estou à vontade para dizer o que penso acerca da importância primordial do Brasil na projecção desse grande poeta da língua portuguesa que não é só nosso, é de todos os que se expressam em português e porque não já agora também dos galegos.

          • Venâncio

            Como sempre: nem um só nome, nem um só título, nem uma só data, nem um só local, Para conversa de café, chega, caro senhor.

          • Pedro Lopes

            A sua reincidência reflecte alguma quadratura o que diga-se também será difícil que faça a quadratura do círculo, introduzi Fernando Pessoa primeiramente pelo lado mais desconhecido pelo menos no que aos galegos diz respeito, pela sua vertente de publicitário, senão gosta de Coca-Cola o problema é seu, depois referi que foi o Brasil o principal dinamizador de Fernando Pessoa internacionalmente, pedi-lhe que fosse confirmar dados, primeiros estudos pessoanos e faculdades de letras onde Pessoa foi estudado e continua a ser estudado antes até de Portugal, e depois obviamente verifico que é ignorante na vertente iniciática e hermética de Fernando Pessoa, além de evitar que os nossos amigos galegos tenham que ler um assunto que provavelmente não interessará para este tipo de portal da língua, mas como disse você é que tem os livros, e olhe agora estou a olhar para a minha secretária atulhada de livros e papéis e a olhar para as estantes a abarrotar de livros e a pensar que tenho poucos, passe bem.

          • Venâncio

            🙂

          • Pedro Lopes

            Agora depois do café me esperam outras responsabilidades, foi um prazer debater consigo, sem ressentimentos.:)

  • Ernesto V. Souza

    Adorei a entrevista. Toda ela. Obrigado aos entrevistadores.

    Destaco o último parágrafo. Muito gosto destas as nossas metáforas comuns náuticas e navegantes. É mágoa a prosa, e a voz própria do Carlos não se achegue mais por estes espaços:

    “Um prefácio atual seria igual de esperançado… na ironia: os poderes de
    sempre acabam hoje de reconhecer a doença, sobre o uso da nossa língua
    neste espaço já nom cabe outra opiniom que a apocalíptica. Mas em
    contrapartida a proposta histórica das Irmandades da Fala que recolhe o
    reintegracionismo nunca tiveram saúde nem vigor maior. Vamos ficar só
    nós, o mar (tempestuoso), o barco (a naufragar), e nós (a marinhar e
    apontar o único porto de abrigo). Estruturas legais como a Lei Paz
    Andrade seriam potentes e imprevistos instrumento de navegaçom vinte
    anos atrás, mas andam aí ainda demasiados grumetes a querer esconder a
    sua ambiçom de lucro e capitaneio preferindo que o barco naufrague e
    abafe os seus erros e pecados. Vós distribuídes livros em Portugal, a
    troca e a vida cultural conjunta nunca foi maior e melhor, nada devemos a
    essa gente para quem a história irá atribuir os versos duros de Pondal.
    Aquilo de ignorantes, férridos e duros, imbecis e
    escuros. Ao contrário, temos sido bons e generosos e ainda queremos que
    se salvem no mesmo barco. Mas, por favor, fora as suas sujas maos do
    leme. O posfácio esperançado (e irónico) é que nós continuamos a ter
    razom, é um grito, mas as vias de água som enormes e essa tropa
    filibusteira ainda se pode redimir, pode deixar de assediar e estorvar,
    mas até pode tamém ajudar.”

  • Pedro Lopes

    Não deixa de ser coincidência ou talvez não, que após o cada vez mais interesse pela língua portuguesa, escritores e poetas portugueses ou do mundo da lusofonia na Galiza, a maquinaria castelhana usando meios de comunicação claramente alinhados ao espectro direito político e à casa real espanhola, venha agora tentar difundir a preferência pela escrita em castelhano por autores galegos.
    ww.abc.es/espana/galicia/abci-primera-antologia-poetas-gallegos-escriben-espanol-nace-sevilla-201803072246_noticia.html
    Isto para mim é um claro sinal que já tocam alarmes em Madrid que os galegos estão a começar a ganhar asas, tentam descortinar se são ventos perigosos de liberdade que sopram a sul do Minho, ou se é por livre iniciativa da sociedade cultural galega, pois creio que nalgumas universidades de Madrid onde se estuda ciência política já se denota algum nervosismo, porque se para travar os ventos perigosos a sul do Minho bastaria um apertar de vigilância em determinados sectores da sociedade galega para os demover da influência de tais ventos “nefastos e perigosos” para a manutenção do castelhanismo na Galiza, já quanto ao livre arbítrio das gentes da cultura galega em querer abarcar de facto outras culturas e outras línguas poderá se converter a médio prazo em mais um problema do poder da periferia contraponto ao poder central de Madrid e passarem a ter uma espécie de Catalunha no noroeste peninsular.
    Vão se avizinhar tempos difíceis para a cultura galega mas no final prevalecerão porque as sementes estão germinando em várias hortas e ao mesmo tempo e será impossível à máquina castelhana conseguir secar essa germinação simultânea, força galegos!

    • Galego da área mindoniense

      Eu nom vejo tanto otimismo. Os sonhos som ũa cousa e a realidade é outra. É bem máis complexa e, na maioria dos casos, com situações menos favoráveis ca nos sonhos.