O campo de forças do sistema cultural galego, umha leitura (I)

Resenha



 

Para qualquer um versado em física, campo de forças pode ser a melhor metáfora para designar um espaço de interacçom e confronto. Constelaçom poderia valer também mas, sistema merece ser a metáfora ganhadora caso despi-la da inerente atemporalidade que a tolhe. Afinal foi esta a eleita por Newton para denominar o seu modelo cosmológico: Sistema do mundo. capa_conflito_linguistico-488x710

Esta foi também a eleiçom de Torres Feijó e Roberto Samartim para o livro da sua autoria que agora comentamos[1]. A obra trata do Sistema Cultural Galego, SCG, como conjunto de agentes sociais comprometidos com a cultura galega e o idioma que a singulariza.

Há quem poda questionar a necessidade de esgrimir um quadro conceitual interpretativo, como é um sistema, para analisar a dimensom cultural de Galiza e a problemática do seu idioma, mas, a conveniência de contar com umha boa teoria para bordar a análise de um sujeito social complexo é evidente, a pouco que reflitamos. Sempre que o objectivo seja formular conclusons sólidas com economia descriptiva e argumentaçom consistente, o recurso a um quadro conceptual e o seu correspondente repertório terminológico é umha opçom inevitável.

A taxonomia do sistema proposta polos autores, de tempero manifestamente estruturalista, remete explicitamente para o modelo de análise cultural e identitário nacional formulado polo investigador israelita, Itamar Even-Zohar (Tel Aviv, 1939). Cumpre insistir na conveniência de dinamizar o esquema conceitual para dotá-lo de historicidade como dimensom indispensável de qualquer análise social.

Sobre conflito linguístico constitui, junto com Guerra de grafias, conflito de elites de Mário Herrero Valeiro, (Através Editora, 2011), é um contributo de referência na tarefa de esclarecer as tensons e linhas de fractura que atravessam o SCG e a resistência oposta à proposta reintegracionista como vector idóneo de reconstruçom e projecçom internacional do idioma. O recurso ao arsenal teórico de Even-Zohar é fulcral na analítica de Torres Feijó e Samartim tal como é o de Pierre Bourdieu no labor crítico de Herrero Valeiro e Celso Álvarez Cáccamo, sem faltarem as referências ao sociólogo francês em Torres e Samartim.

O leitor saberá desculpar o preámbulo que apenas pretende dirigi-lo para o imprescindível apêndice terminológico que cerra o livro, indispensável em todo o caso para umha leitura proveitosa do livro, e em particular de algumha passagem e interpolaçom textual de especial densidade.

Sistema, protossistema, subsistema e intersistema fam parte da rede conceitual tendida por Elias Torres para interpretar o campo cultural galego polarizado polo idioma e tensionado por forças divergentes que afinal cabe reduzir a duas em óptica reintegracionista: as que propugnam abaixar o SCG a simples subsistema do espanhol, por descaracterizaçom e assimilaçom, e as que pretendem promovê-lo ao incipiente intersistema cultural GZ-PT-BR.

A obra que comentamos é umha colectánea de dez trabalhos previamente publicados, datados entre o ano 2000 e o 2013. A sua leitura conjunta, com as correspondentes notas e apêndice terminológico final, proporcionam umha sólida perspectiva para visualizar essa guerra de posiçons (Gramnsci) em que se debate o programa reintegracionista.

O livro, recém-saído da Através Editora, está amistosamente dedicado ao professor José Luís Rodríguez em reconhecimento à sua qualidade humana e intelectual.

Elias Torres é o fundador e principal animador do grupo de investigaçom GALABRA[2] da USC, dedicado a promover análises do intersistema cultural dos países de língua oficial portuguesa, incluída a Galiza, esta a título de espaço cultural associado — por vontade unilateral de escasso reconhecimento — tanto por motivaçom histórica como por imperativo de futuro irrenunciável.

As fronteiras internas e externas do SCG som terreno batido polas forças contendentes na direcçom e apropriaçom do acervo cultural em disputa e o capital simbólico que comporta, em inspiradora metáfora de Pierre Bourdieu.

Os actores da trama implicada vam do constantinismo de estirpe espanhola e residência académica, ao pinheirismo, de alojamento editorial (Galáxia, 1950: Vigo) e magistério legitimador auto proclamado (como legatário da memória do nacionalismo republicano, coproprietário da RAG e porta-voz por auto investidura da ontologia do ser galego), e dai à esquerda marxista, nacionalista e comunista, empenhada na forja do vínculo [intelectuais orgánicos → massa] à espera da hipotética revoluçom nacional – popular que nunca chegou e, finalmente, o movimento reintegracionista em permanente estado constituinte e antagonismo com as posiçons popularescas defendidas polos restante agentes. Do ponto de vista linguístico, o conflito dirime-se entre galego conexo ao seu tronco linguístico internacional e isolacionismo, de índole irremissivelmente regionalista por devida lealdade aos limites políticos e simbólicos do Estado espanhol.

O diagrama de forças que conecta os agentes da trama e modela os respectivos discursos, repertórios simbólicos e programas, vai mutando a teor das circunstáncias no anfiteatro sociocultural galego. Dous totens o presidem: Daniel Rodrigues Castelao (1886 – 1950), fonte de legitimaçom simbólica e devoçom, e Manuel Rodrigues Lapa (1897 – 1989), arauto da portugalidade. Dous árbitros também para temperar a competiçom pola codificaçom do galego: Ricardo Carvalho Calero e Ramón Piñeiro, este desde o seu baluarte editorial e epistolar, aquele desde o seu magistério singular e solitário. A descripçom é da responsabilidade exclusiva deste comentarista como é fácil apreciar.

Em 1950 morre Castelao e nasce Galáxia, sede fiel do pinheirismo cultural. Edicións Xerais nasceu logo após como oportuno contraponto em 1979 sem agenda política conhecida. Ambas as duas editoriais monopolizarám o livro galego — literatura e docência — sempre em formato ortográfico consagrado por sançom legal. O sistema literário galego corre por essa dupla canle até o dia de hoje. Gratidom polos serviços prestados e censura sem reservas polo bloqueio normativo irredutível.

O resto da produçom escrita ficará expulsado à intempérie literária e condenado a excentricidade suspeitosa. Através Editora, por exemplo, ou o livro que agora comentamos, condenados como consequência a circular num restrito espaço iniciático quando mereceriam ampla difusom social. Ganhariam as letras galegas, agora que parece ecoar a enigmática reabilitaçom de Carvalho Calero, e ganharia em complexidade e projecçom externa a totalidade do sistema literário galego.

 

Notas:

[1] Elias Torres Feijó, Roberto Samartim (2018): Sobre conflito linguístico e planificação cultural na Galiza contemporânea. Dez contributos, Através Editora, 2018, AGAL, Santiago.

[2] http://imaisd.usc.es/grupoficha.asp?idpersoatipogrupo=77159&i=es&s=-2-26-148

 

Joám Lopes Facal

Joám Lopes Facal

Nascim e vivim na aldeia até os quinze anos, Toba, ao pé da ria de Corcubiom, frente ao Pindo. Figem-me economista despois de engenheiro e aí desenvolvim a minha atividade profissional até o momento de me reformar. A economia é ademais um vício particular: ler atentamente e tentar compreender a informaçom económica cotidiana, ter sempre sobre a mesa um livro de economia.
Joám Lopes Facal

PUBLICIDADE