ALDEIAS DE ORDES

De caçadores caçados e ursos regicidas



Mapa de Bermui, em Bascói, Messia

Mapa de Bermui, em Bascói, Messia

Apenas há rasto toponímico do urso na Terra de Ordes, nom sendo, quiçá, umha Pena da Usa –elevaçom de 482 m. entre a freguesia de Vila de Abade e o concelho do Val do Dubra[1]– e, de maneira indireta, no lugar de Bermui, em Bascói. E é que este último topónimo deve proceder dumha (villa) ou (hereditas) Veremudi, quer dizer, propriedade dum tal Veremudus ou Bermudo[2]. É este um antropónimo germánico que inclui na sua composiçom o elemento baíra ‘urso’, podendo-se traduzir como a ‘Coragem do Urso’. Que este era um animal temido polos povos germánicos que engendrárom esta onomástica deduze-se da própria palabra baíra pois, literalmente, o que significa é ‘o castanho’, metáfora eufemística para referir-se ao grande depredador de forma elíptica, como quando na Galiza lhe chamamos ao demo com outros nomes[3]. Esta palabra gótica baíra só está documentada no nome composto baíra-bagnus ‘amoreira’, literalmente “árvore do urso”[4]. Atualmente nom há muitos homens que se chamem Bermudo, mas sim bastantes que se apelidam com o patronímico Bermúdez/Bermudes/Vermúdez, “filho ou filha de Bermudo”. À família Bermúdez Castro concederam-lhe em 1626 o título de Marqueses de Montaos, e o cavaleiro Pero Vermúdez doou no seu testamento ao Mosteiro de Sam Martinho Pinário todos os casares e herdades que lhe correspondiam no Combel de Baixo e em todo Xavestre, com cárrego dumha misa rezada à Nossa Senhora cada ano e perpetuamente[5].

Aldeia de Bermui, em Bascói, Messia

Aldeia de Bermui, em Bascói, Messia

Seguramente com menos rigor que J.M.Piel, o historiador Casimiro Torres[6] preferia ver em Bermudo –nome de vários reis da Galiza- nom a ‘Coragem do Urso’, senom a ‘Proteçom do Urso’, supondo que o segundo elemento do nome seria mund ‘proteçom’ )elemento assaz presente na nossa toponímia, nos nomes de lugar rematados em –monde); nome bem apropriado para um rei, havida conta da convulsa história das relaçons entre monarcas e plantígrados, da que parece que se livrárom os Bermudos. Eis o rei Fáfila, finado no segundo ano do seu reinado, em 739, por açom regicida e em legítima defesa dum urso. Segundo se narra –nom sem retranca- na Primera Crónica General mandada escrever por Afonso X o Sábio, os acontecimentos produziram-se assim:

“Este Rey Fafila fue omne liviano de seso, et amava mucho la caça mas que non devie: et corriendo un día mont, ffallose con un osso et defendió a todos los suyos que ge lo desassen; et ell atreviendosse en su fuerça fue lidiar con ell un por otro, et fue assi por su mala ventura qual mato el osso”.

Mapa Fafian

Fáfila ou Fávila é também um nome germánico –formado com o diminutivo agarimoso –ila– cuja frequência nos nomes antigos e na toponímia opina J. M. Piel que talvez seja devida a que fora usado por este rei da primeira dinastia asturiana[7]. Umha *(villa) ou *(villare) (de) Faffilanem encontra-se na freguesia de Tras-Monte, com o nome atual de Fafiám[8], na Idade Média formava o Couto de Fafiám, pertencente ao mosteiro santiguês de Sam Paio de Antealtares[9].

Outro rei que correu sorte parelha à de Fáfila foi o infante Sancho Fernández, numha caçada lá por terras se Sevilha, conforme contam os Anales Toledanos:

“Vino Sancho Fernández, fillo del rey D. Fernando, fillo del Emperador, a Toledo, e dixo que iba al Rey de Marruecos, quel avie dar grandes averes, e creyeronle muchos Christianos, e muchos judíos más de XL. Mil: e puso con ellos que fuesen con el a Sevilla, é, que los pagarían y, é fueron con el por ir a Sevilla, mas el descaminó, e fue a Canamero, e a Christianos, é fue un día martes a muent, é vino un Oso, é mató a Sancho Fernández…”.

Talvez posto em antecedentes, talvez por ser homem “liviano de seso”, o emérito Juan Carlos I dizque participou numha caçada na Rússia –cantam-nos os Falperrys num tema do seu último disco- onde o urso fora previamente emborrachado para que o monarca o desse matado bem e a façanha bourbónica nom corresse nengum risco. Mais lhe valera ter-se chamado Bermudo…

Notas:

[1] Folha 69-IV da cartografia do IGN.

[2] Francisco Cabeza Quiles, Toponimia de Galicia, Vigo, Xerais, 2008, p. 108.

[3] Joseph-Maria Piel, Estudos de lingüística histórica galego-portuguesa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1989, p. 139.

[4] Ibidem, p. 147, n.21.

[5] Carlos Sixirei Paredes, San Cristobo de Xavestre, Sada, Ediciós do Castro, 1982, pp. 40-41.

[6] Casimiro Torres, Galicia sueva, Corunha, Fundación Barrié de la Maza, 1977, p. 289.

[7] J.M.Piel, op. cit., p. 171, n. 42.

[8] Francisco Cabeza Quiles, op. cit., p. 629.

[9] Manuel Lucas Álvarez, Manuel, San Paio de Antealtares, Soandres y Toques: Tres monasterios medievales gallegos, Sada Ediciós do Castro, 2001, p. 82.

 

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
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  • Joám Lopes Facal

    Bermúdez era o primeiro apelido da minha avoa paterna, Carme Bermúdez Seoane. Perto de Cee está a aldeia de Bermum, agora mascarada com umha estúpida denominaçom moderna.