AS AULAS NO CINEMA

BUDA, OU O AMOR PELA VIDA E A PAZ

Documentário: A vida de Buda



A 30 de julho celebra-se o Dia Internacional da Amizade. Considero que entre os grandes vultos que deu a humanidade, Gautama Buda é um dos que mais importância deu à amizade, o amor pela vida e o amor pela paz. Embora não o único. O presente depoimento é o quarto dedicado a pessoas importantes da cultura, a educação, o pensamento e a filosofia mundiais. Que todos os escolares devem conhecer, analisar e refletir sobre as suas ideias.

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Sidarta Gautama (563-483 antes de J. C.) nasceu há cerca de 2.500 anos, filho único do grande rei Sudodana, de Kapilavastu, no norte da Índia. Sua mãe era a bela rainha Maya. Ele foi um menino como outro qualquer, cheio de ambição e energia. Por ser o príncipe herdeiro, recebeu a melhor educação possível na época. Era o melhor dentre os cavaleiros, excelente luitador e arqueiro, bem como um génio mental. Ao crescer, interessou-se em descobrir a causa de todos os sofrimentos da vida. Tornou-se contemplativo, perdeu o interesse pelos desportos e pela política e, apesar do pedido do pai para que assumisse o trono, abandonou o belo palácio paterno e tornou-se um buscador da verdade. Tinha então 29 anos. Nos seis anos seguintes, percorreu todo o país procurando mestres e ensinamentos através dos quais pudesse resolver os muitos problemas da vida. Primeiro, foi aos brâmanes e tentou, com sua filosofia, resolver os problemas humanos. Depois estudou com um grupo de ascetas, adotando sua vida severa e contemplativa. E assim ele prosseguiu, durante seis anos, estudando todas as escolas de religião e filosofia; inutilmente, no entanto. Nenhuma daquelas escolas lhe oferecia uma resposta satisfatória. Certo dia, depois de banhar-se nas águas do Nairanlhana, sentou-se sob uma figueira e meditou, e ali, após aqueles anos de observação e experiência, finalmente descobriu a verdade, alcançou a iluminação e chamou a si mesmo de Buda . Tinha então 35 anos. Até aquele momento, o príncipe Sidarta não era Buda.

Buda” é um termo sânscrito que significa “O Iluminado”. Buda não foi uma divindade, nem qualquer espécie de deus, nem um profeta como há em muitas outras religiões. Buda foi um homem que encontrou a verdade e viveu a verdade. Buda viveu até os 80 anos e, assim, durante quarenta e cinco anos, ensinou o caminho de vida que ele próprio encontrara. Foi um filósofo, psicólogo, educador e líder espiritual prático e realista. Foi o primeiro a negar o sistema de castas, dizendo que um homem deve ser julgado por suas qualidades e não por seu nascimento. Portanto, contra o forte conformismo de sua época, foi corajoso o bastante para denunciar o rígido sistema de castas da Índia. Foi contra os complexos rituais religiosos daqueles dias; aboliu os conceitos antropomórficos e não acreditava na ideia dualística de um eu ou alma independente, enquanto entidade separada. Explicou que todas as cousas estão relacionadas umas às outras pela Lei de Causa e Efeito. Buda, após sua iluminação, deu seu primeiro ensinamento no Parque do Cervo, nos arredores da cidade de Benarés. O teor daquele primeiro sermão foram as célebres Quatro Nobres Verdades e a Senda Óctupla, que constituem o alicerce dos ensinamentos budistas. O ensinamento de Buda não é teologia nem metafísica. Buda não especulava sobre o incognoscível, tal como um insondável começo ou fim. Não há começo nem fim na eternidade. Ele não conceituou a eternidade. A eternidade é o agora. O momento presente inclui o passado eterno e o eterno futuro. Este é o eterno-presente. Buda estava interessado no presente. Existem muitos problemas urgentes e prementes exatamente aqui e agora na nossa vida. Resolver os problemas presentes é também resolver os problemas passados e futuros.

Em Buda encontramos um dos vultos santos mais destacado. Foi não só um homem de profundo senso espiritual pouco comum, e também um filósofo e um educador dotado de grande profundidade e penetração. Como membro da nobreza recebeu uma excelente educação. Poucas vezes se pode encontrar um homem tão privilegiado desde o nascimento; teve praticamente tudo o que seu coração podia desejar. Foi feliz no seu matrimónio, adorava seu filho e nunca careceu de comodidade material. No entanto, vivia atormentado pelo mal que olhava ao seu redor. O mal aparecia-lhe sob três formas: a velhice, a enfermidade e a morte. Porém, com toda a riqueza e a glória do mundo, não poderia vencer a morte, nem poderia encontrar o seu ser essencial. Esta crise da sua vida determinou nele uma decisão suprema: resolveu abandonar a sua esposa e seu filho recém-nascido e fez-se eremita. Durante seis anos, mortificou seu corpo, comeu muito pouco, descuidou seu aspeto e mesmo chegou a dormir entre cadáveres. Para acostumar-se a este tipo de vida, vestia um cilício, esperando encontrar assim a salvação, embora a iluminação que esperava não se chegasse a dar. Desiludido das austeridades, compreendeu que o termo médio era a melhor solução. Nem o ascetismo, nem a indulgência consigo mesmo trariam a verdadeira paz de espírito. E então formulou as suas famosas “Quatro nobres verdades”. Ademais de filmes com atores, como o realizado por Bertolucci, que analisei no seu dia (ver em: https://www.diarioliberdade.org/mundo/lingua-educacom/45881-dar-a-conhecer-nas-aulas-a-filosofia-pacifista-do-budismo-com-o-filme-o-pequeno-buda.html), existe um formoso documentário realizado na França em 2003 pelo diretor Martin Meissonnier, que aproveito para apoiar este meu depoimento da série “As Aulas no Cinema”.buda-documentario-a-vida-de-buda-cartaz-frances

FICHA TÉCNICA DO FILME-DOCUMENTÁRIO:

Título Original: La vie de Bouddah (A vida de Buda).

Diretor: Martin Meissonnier (França, 2003, 92 min., cor).

Produtoras: Arte France-Buddhist Broadcasting Foundation, general pattern e In Fine Filmes. A edição do DVD no Estado Espanhol, por Divisa, tem as versões em português, castelhano e francês.

Argumento: O presente documentário leva-nos sobre as pegadas de Siddharta Gautama (ou Buda Sakyamuni), aos mesmos locais em que decorreu a sua vida. Confrontando as lendas transmitidas por tradição oral desde há milénios, as recentes descobertas arqueológicas e as fontes históricas. No documentário, ademais de relatar a sua trajetória vital, tenta explicar de um modo acessível a todos o seu pensamento.buda-documentario-a-vida-de-buda-capa-dvd

AS QUATRO NOBRES VERDADES:

Para Buda a chave de tudo está no que denominou 4 nobres verdades:

A. A vida é o sofrimento e está cheia de dor: Os grandes momentos da vida, o nascimento, a doença, a velhice e a morte, são igualmente dolorosos.

B. A dor é causada pelo desejo: Que se manifesta no prazer que encontramos nesta vida; nos nossos anseios de paixão e de existir, e mesmo nos de não existir.

C. A dor que vemos não é definitiva e pode ser eliminada: No lugar de desejar, devemos procurar desligar-nos de tudo. Para Buda, a vida é um inferno virtual, embora existe uma porta de escape que podemos encontrar por meios naturais, e não por exercícios metafísicos.

D. O meio de escapar ao sofrimento é seguir o caminho das oito etapas:

1. A Visão perfeita, que implica a compreensão da natureza do eu e da natureza do universo. Aqueles que acreditam que o eu é eterno estão completamente equivocados, porque o eu está num perpétuo estado de fluxo.

2. Ter aspirações perfeitas. Temos que prescindir da vida de prazer e cultivar os recursos do nosso espírito íntimo. Não devemos guardar rancor a nenhuma criatura, animada ou inanimada.

3. A Palavra perfeita exige que nos apartemos de toda a mentira. Não devemos falar dos demais com demasiada severidade, nem tomar parte em conversas triviais.

4. A Conduta perfeita obriga, especialmente, a manter a regra do pacifismo. Sob nenhuma circunstância devemos tirar, nunca, a vida a outro. Tampouco devemos apropriar-nos dos bens alheios.

5. O perfeito meio de vida refere-se às ocupações a que podemos dedicar-nos. Na eleição de uma profissão devemos guiar-nos pelos ditados da moral. Por exemplo, devemos evitar o comércio de escravos e não devemos participar na venda de drogas nocivas e perigosas.

6. O esforço perfeito requer que cultivemos o tipo correto de motivos. Devemos guardar-nos da indiferença e o letargo espiritual e procurar a verdade afanosamente. É muito importante a boa vontade, pois se os nossos pensamentos são puros, deles resultará a felicidade e alcançaremos a verdadeira paz do espírito.

7. A memória perfeita exige autodisciplina. O homem grande não é o que vence os demais, mas o que se vence a si mesmo. O corpo não é autónomo, senão que deve ser guiado pela mente.

8. A meditação perfeita é a última das oito etapas. Estamos agora emancipados de todos os prazeres transitórios e da vida dos sentidos. A mente está em estado de êxtase e concentra-se no “Nirvana”.

O Budismo tem cinco regras básicas de tipo moral:

a. Não matar nenhum ser vivo.

b. Não desejar nem tomar a propriedade alheia.

c. Não incorrer em falsidade.

d. Não tomar bebidas alcoólicas.

e. Não fazer nada contrário à castidade.

A meta final de Buda era alcançar o “Nirvana”, entendido das possíveis seguintes maneiras:

– Como uma libertação do ciclo da reencarnação.

– Como o triunfo absoluto sobre a individualidade e a consciência.

– Como a extinção do ser pessoal.

– Como a fusão do indivíduo com os princípios da realidade.

– Como um estado de bem-aventurança que o ser humano experimenta depois da morte.

Dentro do Budismo existem três escolas, correntes ou interpretações: o Budismo “Hinalhana”, o “Mahalhana” e o “Zen”. Os seguidores da primeira defendem prioritariamente a austeridade na vida e o ascetismo. Os da segunda a santidade, que se pode alcançar com a educação, a que dão grande importância. Os da terceira o desapego, deixando de lado os desejos egoístas e o amor por possuir, especialmente bens materiais. Também os “zen” defendem o retorno à natureza, escapar das cidades e viver nas montanhas em mosteiros, porque a natureza é a verdadeira mestra. O conceito “zen” da educação lembra muito a educação progressiva, em que se valoriza muito o mestre, se considera como criativa a natureza e o interesse deve guiar o desenvolvimento intelectual.

IDEAIS PEDAGÓGICOS BUDISTAS:

Os alunos budistas não se escolhem de acordo com a sua casta, senão que, pelo contrário, se mantém um ideal de igualdade. A criança budista começa os seus estudos à idade de seis anos e os termina ao redor dos vinte. Depois inicia os seus estudos superiores, que compreendem literatura, filosofia, metafísica, ciência e outras matérias. Se quiser ingressar na Universidade, deve superar umas provas rigorosas. Entre as universidades budistas mais famosas está a de Nalanda, que nasceu ao redor do ano 425 depois de J. C.. Chegou a contar com dez mil estudantes e mil quinhentos professores. Os estudantes não tinham que pagar nem pelo alojamento nem pelo ensino. Tinha várias portas pelas que tinham que entrar os candidatos aos quais o Decano de Ingressos submetia a uma prova muito difícil. Mais de 70 % eram reprovados no exame. Esta universidade atraia não só os estudantes, como também eruditos que vinham debater ideias ou procurar um local tranquilo onde estudar. Cultivavam-se ali as ciências e a filosofia e o direito recebia só uma atenção secundária. Esta Universidade de Nalanda ainda funciona hoje e está situada no estado indiano de Bihar a norte da grande república indiana. Muito perto também existe a formosa cidade de Bodhgaia, a cidade budista indiana, que merece muito a pena visitá-la. O budismo criou também muitos mosteiros em que floresceu a cultura. Estes mosteiros estavam e estão abertos por igual àqueles que queiram levar uma vida de ascetismo e aos estudantes que queiram aprofundar os seus conhecimentos. O objetivo da educação budista era produzir um individuo compassivo, que se emancipe do egocentrismo. O sábio deve ser um exemplo de virtude, de bondade e de amor. O seu principal interesse deve estar concentrado na moral, antes do que na metafísica.

AS PALAVRAS DE BUDA:

Há mais de 2 500 anos que o Buda Sakyamuni desapareceu deste mundo alcançando o “Grande Nirvana”. Hoje, metade do planeta está influenciado pelo pensamento de quem foi o primeiro e o maior revolucionário. Na realidade o homem que se conheceu como Buda, termo que provém do sânscrito e significa “iluminado”, foi Siddharta Gautama, filho do rei Suddodan nascido aproximadamente no ano 566 antes de J. C. numa aldeia ao pé do Himalaia. A família do futuro Buda pertencia à tribo dos Sakya, daí o apelativo de Sakyamuni. No vale de Katmandu, no Nepal, encontra-se ainda a tribo budista Sakya, que desde há milhares de anos transmitem oralmente a história de Siddharta. O qual, entre outras, nos deixou as seguintes formosas palavras, que mais abaixo recolhemos.

1. Buda lembra-nos sem descanso que devemos evitar o mal:

O homem deve correr para o bem e manter o seu pensamento afastado do mal; se um homem faz o bem sem ânimo, a sua mente deleita-se no mal. Se um homem comete um pecado, que não o volte a cometer; que não se deleite no pecado: a acumulação do mal é dolorosa. Se um homem faz o bem, que o volte a fazer; que se deleite nele: acumular o bem é delicioso”.

2. Segundo Buda o homem sábio não é o nascido de uma família nobre ou favorecida pela riqueza:

O homem que veste roupas sujas, que está enfraquecido e amostra as suas veias, que medita a sós no bosque, esse é o que eu chamo um verdadeiro “Brâmane”. Chamo verdadeiro “Brâmane” aquele que, depois de cortar todas as suas correntes, não treme nunca, está livre de grilhetas e ataduras. Chamo verdadeiro “Brâmane” aquele que, ainda aqui, vê o fim do seu próprio sofrimento, que abandonou a sua carga e se libertou. Chamo verdadeiro “Brâmane” aquele cujo saber é profundo, aquele que possui a sabedoria, que conhece o bem e o mal e alcançou o mais alto fim”.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma e o fundo do filme-documentário antes resenhado, realizado por Martin Meissonnier.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Buda e os seus métodos e ideias. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, murais, aforismos budistas, fotos de Nalanda, Bodhgaia e mosteiros budistas, textos, lendas, livros e monografias.

Com a ajuda dos docentes correspondentes, podemos realizar um jogo dramático ou uma dramatização, em que as personagens representadas sejam Buda e os seus discípulos, vestidos com os típicos trajos budistas. O cenário teria que ser a cópia dum mosteiro budista, por exemplo do Nepal, do Tibete ou da Índia. Antes teríamos que redigir um roteiro com palavras budistas para desenvolver as suas técnicas de meditação. Mesmo se temos câmara podemos filmar a representação dramática que realizemos. Também, se existe algum budista perto da localidade da nossa escola, podemos convidá-lo para que venha pronunciar nas aulas alguma palestra sobre o budismo e as suas experiências.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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