CARTAS MEXICAS

O Brasil na Encruzilhada Global



Existem mundos sem sóis, cobertos pela escuridão. Para esses mundos vão depois da morte os ignorantes,assassinos do Eu” (Upanishads)

Na atual conjuntura geopolítica, Brasil fica imerso, na luta global entre o Império Ocidental e a aliança Oriental Russo-Chinesa, numa nova ordem, que já não responde explicitamente a planificação realizada pelos banqueiros globalistas e seu antigo centro geográfico de Washington . Ocidente, defendendo ainda um poder financeiro privado (mesmo com a presidência do “Estado Forte” dentro do nacionalismo de Trump) – Oriente, atrelado num poder financeiro estatal. Pelo meio, a América do Sul ainda vibrando no nível psicológico, dentro dum confronto irresoluto, arrastado da guerra fria, enquanto na luta social reclama sua precisa e apreciada económica independência: aquela que permita uma real independência política.. Estamos ante um cenário nada próprio para qualquer tipo de emancipação: com a China a avançar pela rota da seda, desde Ásia ate África, concretizando projetos, que se bem por um lado aceleram a multi-polaridade, mudando o mundo, por outro obrigam América do Norte, a não permitir deslocar sua influencia no mundo, iniciado a travagem a partir do continente Sul Americano. Rússia, por seu lado, a cumprir a sua labor, em favor de criar um centro na Euroásia, tirando da sua força militar.

Dalgum modo a velha Rússia, ocupou de novo o seu lugar no globo. O poder totalitário russo, herdado da visão apocalíptica bizantina da Terceira e última Roma. Assim como do pensamento único (herdado de Teodósio I) tem atuado ao longo da historia, como força da mesma natureza em contrario – capaz de travar o avanço de domínios virados ao totalitarismo, que se tornam ou têm tornado em muito perigosos para humanidade. Assim fez com a França napoleónica (quando o Imperador virou na ego-latria, e a revolução francesa mudou de evolutiva a involutiva). Assim fez também com o Kaiser Guilherme II, da Alemanha, quando seu militarismo imperial, ousou desafiar a ordem britânica e incendiar o mundo. Do mesmo jeito fez com Adolf Hitler, quando a negra noite se abateu sobre a Europa. E de algum modo fez o mesmo Catarina A Grande, quebrando as tentativas otomanas de expansão e sobrevivência. E de novo Rússia intervindo na Síria, tem quebrado a espiral negra jihadista expansiva (imprudentemente alimentada por Ocidente), e a doutrina Rumsfeld – Cendrosky de criação dum Meio Oriente Alargado, aderida à mesma.

Vladimir Putin, evitou a quebra da Rússia (sua desmembração e o controlo Ocidental dos seus recursos). Para lograr a paz social, inadiável, teve de formar um poder forte, unindo aos contrários. Foi assim que atou a historia soviética a visão de poder nacional-imperial atual. Criando uma nova realidade muito conectada ao pensamento de Aleksandr Dugin. Para legalizar esse poder, Putin fez-se herdeiro improvisado da historia soviética; ao tempo que elevava a Igreja Ortodosa, ao pedestal , da qual fora tira em 1917. Deste modo evitou um confronto entre comunistas e tradicionalistas. Dugin deu-lhe a força intelectual ao criar a aliança pardo – vermelha. Isso explica, por outra parte, os apoios russos tão dispares, no panorama geopolítico, que vão desde a Republica Bolivariana da Venezuela; ate Le-Pen, na França ou o Presidente Viktor Orban na Hungria.

Rússia, tem encontrado de novo seu rumo e fixado seu destino. Assim fazem os grandes poderes que valorizam por cima de tudo sua independência. Ainda sendo poderes errados no sentido de viver imersos na luta global pela hegemonia. China como já sabemos, tem sabido adaptar-se as novas realidades, desde que Deng Xaio-Ping, pronunciara a famosa frase: “da igual a cor do gato, o caso é que cace ratos”. China, não permitiu Ocidente, a utiliza-se como fabrica global e grande mercado para introdução das grandes multinacionais europeias e norte-americanas. Visto desse modo é difícil contar-lhe contos aqueles chineses, cuja tradição remonta a 5 mil anos. Agora o país está mesmo em condições de disputar o 2º tabuleiro geopolitico – o económico – ao Poder Ocidente.

Dai a necessidade de controlar Rússia, somente é preciso olhar para um mapa mundial – ver as bases americanas rodeando o mar da China, e resolver, por lógica, que posicionando Rússia na esfera Ocidental, a China não tem outro remédio que claudicar, ajoelhar-se.

Com a chegada de Trump ao poder, o perigo de guerra no oriente, tornar-se conflito bélico global, tem diminuído, ao aparentar o novo Presidente dos EEUU, ter abandonado a doutrina Rumfeld- Cendrosvky e o sonho dum Oriente Alargado, favorável aos interesses regionais Israelenses e Sauditas (Trunfo dos sunitas sobre os xiitas, derrubo dos velhos regimes pró-soviéticos, herdados da guerra fria, e aquele arabismo anti-sionista). Os norte-americanos aparentam conformar-se, hoje, com perder a guerra na Síria e tentar ganhar a paz, forçando um acordo final favorável a seus interesses, com o sem o presidente Al-Ashad.

Mas por outro lado a chegada de Trump tem criado um confronto dentro do mesmo Império Ocidental – entre partidários do mercado aberto e detratores. No entanto, o pensamento inicial, dalgum grupo de analise e muito conservador, de Trump ter empreendido uma guerra contra o poder financeiro privado globalista, é um erro de grandes proporções. Certamente o Presidente Norte-americano pode ser visionado como a cabeça imperial, mas o poder financeiro é o pescoço, que pode mover a cabeça a seu bom entender. Isso não significa que Trump, não tenha retirado certo poder aos partidários do mercado aberto. Mas estas manobras tem sido efetuadas, com o apoio da elite americana, que entende que somente poderá ser possível derrotar China, com medidas protecionistas. Alem da elite nacional conservadora, que gosta dum liberalismo mais comercial que financeiro, sem abandonar o poder de atrelo e vassalagem que dão as finanças.

Por isso mesmo a eleição do presidente Donald Trump, trouxe o ressurgir dum conservadorismo de direita, que ativou de novo visões negativas, que acreditávamos, já ultrapassadas pela historia. Incitando a conseguinte batalha pelo domínio dentro do 3º Tabuleiro (o cultural social – cientifico – tecnológico, e seu paradigma correspondente). Esta guerra tem posto, mesmo em causa, a continuidade do Papa Francisco, visionado pelos prelados Norte-americanos mais conservadores, como uma ameaça maior, da que no seu dia representou João XXIII e o Concilio Vaticano II.

Por todo o mundo ressurgem os velhos caudilhos conservadores, como Pais da Nação, garantes dos valores tradicionais, que se confrontam contra os supostos destruidores das suas culturas seculares ou milenares, segundo o caso. Uma lógica reação a tentativa de imposição, da elite globalista, dum modelo uniforme de sociedades onde a aculturação predomina, ancorada as dinâmicas de único e todo poderoso mercado (uma outra forma de totalitarismo).

Dentro destas dinâmicas mundiais, o Brasil, chega ao desponte da sua futura autonomia, como um adolescente, incapaz de tomar as rédeas do seu destino. Seu povo ainda não preparado para assumir o futuro que lhe coube, seus dirigentes incapazes de realizar o projeto que lhes coube, para encaminhar esse povo à procura desse brilhante destino. Sendo que não pode nascer dirigente corrupto dum povo não corrompido, nem pode haver dirigente honesto, com um povo permissivo com a desonestidade. Lembrando aqui o velho axioma hermético de Acima como Abaixo, e Abaixo como Acima – Interior, exterior, sobrealimentar-se, com altitude e profundidade.

O confronto esquerda direita polarizado, dentro do país, é fácil garantir um desequilíbrio interno. Desequilíbrio vital para que potencias estrangeiras possam seguir explorando, a seu prazer, a imensa riqueza de subsolo, a seu capital humano, político e sua mesma riqueza imaterial, cultural coletiva e individual… Permitindo parasitar o país, por médio da atrelagem ao excesso de dívidas internas e externas; que somente beneficiam uns poucos.

Sem confraternização direita – esquerda – centro, não pode existir um novo Brasil. O Brasil poderia realizar o sonho da 3º Via, tão precioso para ele, como preciso para humanidade… Essa terceira via, significa um novo projeto civilizacional na América do Sul e no Hemisfério Sul, que sirva de contrabalanço ao confronto Ocidente – Oriente (EEU/China- Rússia).

Para isso teria o gigante sul-americano que revitalizar o velho modelo europeu (hoje derrubado) do Estado Providencia ou do Bem Estar – algo impossível de realizar sem um consenso de Estado. Dialogo aberto e permanente que envolva todos os sectores sociais, partidos, sociedade civil, militar, organismos e organizações culturais, sindicais; universidades e academias… Mobilizando a cidadania em favor da sua independência e dum modelo mais humano, democrático e colaborativo: baseado no mútuo apoio. Voltando a renovar os mercados sul – sul, em preferência daquelas alianças com o Sul da África e a Índia.

Mas indelevelmente o confronto cristalizou na América do Sul, projetando-se a sua vez no Brasil, e refletindo estas dinâmicas regionais, de maneira dramática. Esta particular polaridade e divisão social, permite a transferência continuada de recursos desde as classes meias e baixas, aos sectores bancários internacionais e nacionais. Ajudando, estas políticas a sua vez, a inflamar a bolha das dívidas (que já se fez insustentável, pondo em risco a continuidade do sistema no nível nacional, regional e mundial). Permite, esta briga política polarizada, os reajustes fiscais precisos para debilitar a base dos programas sociais: reduzindo verbas em sanidade publica, educação e serviços. Retirando riqueza do sector publico, para pago de dívidas, em favor de pequenas elites– enquanto por abaixo a base peleja entre si e vive refém das suas próprias controversas.

Obtendo-se finalmente a imposição das velhas políticas dependentes, que por meio de privatizações, entregam património nacional estatal, a grupos de inversão estrangeiros (cujo centro de poder reside em Wall Street, a City Londrina, Tokio ou Shangai).

Livrar-se dessas amarras é impossível sem criar um centro material dinâmico, no sul hemisfério sul, que facilite a criação dum novo paradigma global, que possa irradiar sua frescura, em meio dum mundo, que vivencia absorto e canso, a manutenção irreal do velho paradigma materialista de guerra e confronto, mesmo a risco duma autodestruição planetária. Preciso é instaurar um paradigma novo de colaboração e paz. Brasil pode rumar em este sentido. Mas precisa criar seu centro de poder, radicado no seu território, dentro dessa terceira via, de interposição – voltando de novo a diplomacia da paz. Permitindo achegas exteriores, mas não entregado ao exterior a sua riqueza e património. Colaborando na pratica da ajuda mútua e o beneficio mútuo. Mudando a corrupção com prevenção, perseguição, inclusão e educação.

Pode realizar esse sonho somente com um grande pacto de estado entre todas as forças. Mesmo assim chegar a seu encontro, será muito longo, de décadas, devido a tantos fatores combinados, internos e externos: grandes disparidades sociais, falta de oportunidades – que somente pode ser resolvida, com um incremento nos gastos sociais e programas bem encaminhados na reforma da educação básica e universitária. Abordando seus desajustes estruturais, e abrindo-se a colaboração regional, e gestão ambiental adequada, para um crescimento sustentável.

Básico também será educar a suas elites no dar. Dado ser um dos países do mundo, onde menos tributam as grandes fortunas. Os países muito desenvolvidos, já há decénios entenderam, que a contribuição das grandes rendas, em favor das mais baixas, permite redistribuição mais proporcional da riqueza e uma melhor formação académica e humana. Sendo esta uma das melhores formas de sair da espiral da violência, muito associada à miséria e marginalidade.

Será um caminho longo, muito longo, mas pode ser um caminho a nunca percorrer, de apostar na involução: levar a pratica política pensamentos que acham violência combate violência, muros contem a insegurança e enriquecimento cada vez maior duma elite, com empobrecimento cada vez maior da classes meia e operaria, formam parte da seleção natural do mais forte.

Já Martin Luther King, nos adverteu: Uma das coisas importantes da não violência é que não busca destruir a pessoa, mas transformá-la” E essa transformação no Brasil, somente pode ser feita, pelas pessoas de nobre coração, de todos os credos, de todas as tendências políticas, do mundo cultural, académico, desportivo – que unidas no amor e na fraternidade, comecem a criar foros, associações, instituições, organizações, organismos conjuntos, que juntos possam criar a necessária pressão, para que as elites que detêm se vejam obrigadas a mudar de rumo.

Alice A. Bailey, advertiu, que os trabalhadores e trabalhadoras por um novo mundo, se encontram disseminados em todas as organizações politicas, religiosas, culturais, sociais, criando consciência de ser possível a união no amor, para ajudar a humanidade a ultrapassar a “longa noite de pedra” (tal como a intitulou o grande poeta galego Celso Emílio Ferreiro). Se Brasil, iniciar esse caminho, muitos outros povos, muitas outras gentes, que estão a lutar por essa mudança, se uniram, para juntos iniciar esse nova fraterna marcha: em favor da vida, em contra do ódio.

Fazendo possível aquele ditado africano que diz: “muitas pequenas pessoas, em muitos pequenos lugares, fazendo muitas pequenas cousas, mudarão a face da Terra”. Façamos votos pelo amor, não votemos em favor do ressentimento e a morte.

Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso Novelhe

Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.
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