Binormativismo: tentativa de resposta a um problema que nom se colocou



Som da opiniom de que todo isto do chamado “conflito normativo” que arrastamos há décadas manifesta umha impotência: a de avançarmos, como formaçom social, na adoçom e normalizaçom do galego como língua nacional.

Nom sendo isso possível até hoje, pola estrita correlaçom de forças esmagadoramente desfavorável a um galego em posiçom relegada, e tendo em conta a posiçom maioritariamente “abstencionista” do nosso povo, os setores favoráveis dedicamo-nos a discussons, teóricas e práticas, do que “deveria ser”, além de desenvolver algumhas meritórias iniciativas sociais que nom iremos negar, porque estám aí.

Se a isso acrescentarmos a moda pós-moderna e liberal de fragmentar ao máximo a intervençom social, surgem nom só as duas visons impotentes (a isolacionista e a reintegracionista), como as subdivisons correspondentes a cada umha, segundo a conveniência do momento ou da atividade social em causa. Se quigermos vender livros, acolhamo-nos aos subsídios oficiais adotando a norma isolacionista, ou vaiamos para o português de Portugal (chamemo-lo “galego internacional”), para vender nesse mercado e, talvez, no micromercado dos estudantes das Escolas Oficiais de Idiomas.

Se tivermos umha visom identitária-privativa da língua, consagremos a rutura lingüística entre galego e português, reivindicando o galego como diferente; claro que, se formos nacionalistas-essencialistas com aspiraçons eleitorais, usemos um galego oficial mais “avançado”, com traços menos “autonomistas”, mas sem cairmos em “ideologismos” ortográficos.

No meio, mas nom sei se mais virtuoso, fica quem reivindica, com critério explicitamente político, um padrom nacional livre de dependências do espanhol, reintegrado no espaço lusófono, mas com traços próprios de todo o tipo, como fam os outros países lusófonos. O seu “mercado” é reduzido, como podem calcular, numha sociedade em que o mercado é todo, ou quase todo.

Já na visom utilitarista-pragmática que assume a posiçom dependente do galego, surge a ideia genial: que tal darmos carta de natureza a duas normas extremas? De umha parte, a “oficial” ou autonómica (isolacionista); e doutro, mas em simultáneo, o “galego internacional” (referindo-se, insistimos, ao português de Portugal, embora nom falte quem reivindique que, ainda melhor, o brasileiro). É aí que se situa, se nom me engano, a proposta “binormativista”.

Repare-se que ela apela a outras situaçons internacionais: a “via norueguesa”, o suíço-alemám e até o moldavo. Permitamos o convívio!, proponhem.

Ora, para quem chegou até aqui apesar da complexa relaçom de propostas sem sólida base política que as sustente, deixem-me apresentar as minhas próprias e breves cinco conclusons:

1ª Os contextos internacionais a que se apela, nomeadamente o norueguês, caracterizam-se por estarem a implementar ou já terem implementado políticas normalizadoras de carácter territorial, visadas para o uso normalizado e generalizado da língua em questom, o que nom acontece na Galiza. Onde nom é assi, o tal “binormativismo” carece de efeito prático, como acontece na Alsácia, com perda imparável de falantes da variedade alemá.

2ª A proposta binormativista nom estabelece qual o papel do espanhol em todo isto. Parece tratar-se só de que nos deixem escrever como queiramos e que mesmo se subsidiem iniciativas em qualquer das duas normas propostas, para que “a sociedade escolha”. Ou seja, liberalismo lingüístico que, longe de promover a igualdade, garante a desigualdade em favor da língua A. No nosso caso, já sabem qual é.

3ª Se concordarmos com que nom existe umha planificaçom real de recuperaçom e normalizaçom social do galego como língua da Galiza, pouco relevo poderá ter o modo como o escrevamos, com que ortografia ou quantas normas se oficializem para a língua relegada.

4ª Se a correlaçom de forças sociais fosse outra e existissem instituiçons públicas e sociedade civil empenhadas em recuperar e normalizar o galego a sério, a ortografia nom seria um obstáculo. Simplesmente, seria feita umha avaliaçom das vantagens e inconvenientes das opçons em causa (isolacionista e reintegracionista), aplicando-se o modelo, puro ou misto, mais conveniente para o objetivo marcado, com as revisons periódicas e retificaçons pertinentes. Que isso incluísse mono-, bi- ou plurinormativismo é hoje pura especulaçom, porque essa correlaçom de forças nom existe e o objetivo é outro: normalizar o castelhano-espanhol.

5ª Em funçom de todo o dito, cá para mim, acho que convém nom perder muito tempo em debates estéreis e si aproveitar esse tempo precioso para tentar mudar a tal correlaçom de forças, cada qual a partir da sua posiçom normativa e sem colocar isso como escusa para iniciativas conjuntas entre os diversos setores.

É só isso que queria comentar sobre o enésimo debate estéril no seio do nosso movimento normalizador.

 

Maurício Castro Lopes

Maurício Castro Lopes

(Ferrol, Galiza, 1970), é docente de Português na Escola Oficial de Idiomas de Ferrol, autor ou co-autor de obras divulgativas como a História da Galiza em Banda Desenhada (1995), Manual de Iniciaçom à Língua Galega (1998), Manual Galego de Língua e Estilo (2007) ou Galiza Vencerá! (2009). Participante no grupo promotor do primeiro Centro Social reintegracionista em defesa do galego, aberto pola Fundaçom Artábria em Ferrol no ano 98 e em 2010 co-fundador do portal informativo Diário Liberdade. Desde 2017, membro da Comissom Lingüística da AEG (Associaçom de Estudos Galegos).
Maurício Castro Lopes

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  • Ernesto Vazquez Souza

    A equação é lógica: se houvesse um movimento nacionalista forte o galego institucionalizado teria sido mais reintegracionista (de facto já era justo antes da constituição do primeiro Parlamento: é ver a imprensa, propostas e os manuais) e portanto teria sido – e seria hoje – tanto mais reintegracionista quanto maior fosse a força social e sucesso político desse nacionalismo.

    Mas a realidade foi como foi, e o presente é filho desse processo e história, como é o galego institucionalizado, espelho dessa debilidade ou falta de força (o informe de uma frustração).

    Ante esta realidade apenas colhe o refúgio em ismos, grupos, estéticas, posições, margens, castros nos que desenvolvermos as nossas teimas, projetos, espaços nos que falar e debater… Mas fruto dessa amargura e frustração, penso eu, é que vivemos esta socialização imperfeita de modo conflituoso, em permanente estado de reticência, suspicácia, agressividade indefinida…

    Enfim…

    • fromgaliza

      O que explicas nos dous primeiros parágrafos é o que eu tentei refletir no meu texto, nom sei se com tanta efetividade. Só esclareço que tento deixar fora qualquer subjetivismo. Por princípio, respeito o trabalho de quem tenta fazer avançar a língua, tanto no campo reintegracionista como no isolacionista. Nom referim entidades nem pessoas concretas, porque a crítica é para todo movimento de que uns e outros fazemos parte. Seja como for, continuaremos a tentar as vias possíveis, mas o determinante será a tal correlaçom de forças sociais e mudar esse abstencionismo maioritário do nosso povo quanto à língua, que já sabemos quem favorece.

      • Eduardo Maragoto

        Nom penso que o Maurício esteja enganado em nada do que diz aqui. É simplesmente um ponto de vista mais cético. Nom obstante, à margem do predomínio do espanhol, que obviamente continuará com ou sem binormativismo, penso sinceramente que este caminho acabará por ser andado e ajudará a encarar com maior solidez as dificuldades que ainda vai enfrentar o galego. O binormativismo nom é só umha forma de resolver a existência de duas variedades de umha língua histórica (à margem de que sejam consideradas ou nom a mesma língua por diferentes agentes dessa sociedade), senom de aproveitá-las em favor dela. O binormativismo levado à lei, em diferentes graus, aplica-se por exemplo na Noruega ou no Luxemburgo. Casos como o da Suíça e da Alsácia, embora sejam também exemplos da coexistência de diferentes variedades a concorrer numha mesma sociedade, resolvem-se simplesmente a favor de uma delas (a forte). Som interessantes de conhecer, mas para a Galiza penso que devemos espelhar-nos em casos onde as duas normas têm o mesmo estatuto legal. No futuro, umha sociedade madura capaz de gerar convívio entre as diferentes formas de ver a cultura, há de decidir se lhe interessa mais o modelo luxemburguês (que daria por resultado um trilinguismo opcional galego-português-espanhol) ou o modelo norueguês (que daria por resultado um binormativismo puro galego divergente-galego convergente, ao lado do espanhol). Em qualquer caso, som questões técnicas a resolver em gabinetes e parlamentos, por toda a sociedade, nom apenas polo movimento normalizador. O que nos interessa agora é saber se a nossa sociedade deseja usar todas as ferramentas normativas que fomos construindo em prol do galego e dela própria.

  • Ernesto V. Souza

    Curioso, mirade isto…

    https://www.sermosgaliza.gal/articulo/lingua/tanto-ten-galinha-galina-importante-pona-ovos/20180503184909068495.html

    Eu diria que o debate está a ter eco no espaço político que correspondia
    antigamente aos “mínimos” e/ou atualmente ao “reintegracionismo
    utópico”…