belos cadáveres



Ecoa, de Oscar Wilde a Sid Vicious, passando por James Dean, a quem a cultura popular terminou por atribuir, o dito de roda queimada e no future: Viva rápido, morra jovem e deixe um belo cadáver.

Francamente se tivesse de fazer hoje, e após tão poucos e agitados anos, uma descrição simples do momento atual dos novos partidos políticos espanhóis, de esquerda e direita, da Nova política, da renovação cidadã, da quebra com a Transição, e etc. escolheria isto dos belos cadáveres.

A recuperação dos partidos alternantes é uma realidade. Uma vez o PP termine a sua purga e uma vez o PSOE recupere a sua estrutura hierárquica, o sistema de maiorias da monarquia tem todas as possibilidades para se recuperar e permanecer. Imperfeito, corrupto, incompleto mas e quem sabe para quanto.

De nada terão servido, a esquerda e direita, as novas propostas e os discursos renovadores destes anos. A tentativa pela esquerda era de um único impulso com base na surpresa e na velocidade do assalto. Perdido o momento, fracassado por um nada, uma falta de cálculo na direção, o assalto, a esquerda política foi-se desgastando no uso e na erosão dos média (em mãos dos partidos rotativistas). Já nem resulta nova, esperançadora nem ilusionante, e os seus principais líderes protagonistas resultam já muito vistos e repetitivos nos seus truques retóricos e shows ante as câmaras. Nada novo a dizer.

Pela direita também. As figuras de laboratório de publicidade criadas para as campanhas esmorecem. As modas passam e estão a passar a grande velocidade as palavras, os discursos, as imagens e sorrisos forçados. E total para imagem de anúncio de colônia, de camisa branca desabotoada, é mais guapo o líder atual do PSOE.

E fracassado o punch, convertido numa guerra de posições, as novidades desgastam-se com rapidez inaudita. Afinal numa guerra que vai para longo é o aparato, a estrutura do partido, a militância ativa por todo o território, o controlo de instituições e cargos o que vai decidir o futuro político da Espanha.

E perdidos nestas histórias, com um fundo catalão também repetido e paralisado, e com um nacionalismo espanhol vociferante mas sem projeto real, os grandes Partidos fecham-se num esquema liberal, neocon, de Aves, especulações, judicialização, e velhas estratégias, na única obsessão do controlo político de todas as instituições e da administração, do local ao Estado central, passando pelas fundações ou as Universidades.

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Francisco Padilla – Doña Juana «la Loca» (Museo del Prado, 1877)

Sem qualquer capacidade para reativar a economia, Espanha perde-se num caminho cara nenhures. Debatendo e debatendo passados, ideologias, temas que deveriam ter sido resolvidos e superados, mas sem qualquer projeto de futuro civilizado.

Passou também o verão. Espanha parece viajar de volta a qualquer passado imperfeito. Como num poema de Antonio Machado. Por enquanto, quase fantasmal, esmorecente, perdida em saudades qualquer família galega arredor de uma empada e uma ração de polvo ou compartilhando uma tortilla e uns pimentos de padrão numa festa de verão continua a ser mais nação que Espanha inteira com todas as suas instituições.

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza (Corunha, 1970). Formado como filólogo, publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. É sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa; atualmente é o Diretor do Portal Galego da Língua.
Ernesto V. Souza

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  • José Luís Pico Orjais

    O problema é que já não existe a esquerda. Estou convencido de que Verstrynge e mais eu somos os últimos comunistas da Hespanha.

    • abanhos

      A esquerda foi substuida pelo ser bonzinhos e corretos….e o seu espaço, ante a inexistência de respostas aos problemad, vai sendo ocupado pelo neofascismo; ele muito distinto nas versões europeias, latino-americanas e asiáticas pois tenhem posturas radicalmente contrárias

  • abanhos

    O problema é que está nascendo um mundo novo e as categorias do velho não mais servem.
    O capitalismo esta finando…e após ele imos ter um neofeudalismo…
    O comunismo vai ficar para a história como diversos pesadelos, e esse absolutismo centralizador e ilustrado da China, que muito bem se vai adaptar ao neofeudalismo, na sua modalidade do faroleste e poderio.
    Castela/espanha… Eis o que exprime um experto
    https://www.elnacional.cat/enblau/es/casa-real/jaime-penafiel-crisis-monarquia_304914_102.html

    • José Luís Pico Orjais

      Caro Alexandre: um rústico pastor coma mim apenas compreende a política doméstica para poder reflexionar sobre a planetária mas o trunfo do capitalismo, ao meu ver, reside precisamente em que nos queiram confundir com o que na realidade é a esquerda ou a direita. A esquerda foi e será sempre o mesmo e a direita, igual. A contradição consiste em quem veste uma ou outra camisola, muitas vezes grosseiros transformistas.

      • Ernesto V. Souza

        Eu também não penso que a esquerda esteja morta, apenas superada e desagrupada, pela direita e pela sua grande maquinaria de propaganda. Vivemos num ciclo de reação virulenta contra o anti-colonialismo, o anti-capitalismo, o progressismo, o esquerdismo, porque a direita, o capitalismo, o imperialismo mais reacionário apanhou verdadeiro medo nos 60-70.