AS AULAS NO CINEMA

BEATRICE ENSOR, DIVULGADORA DA ESCOLA NOVA NO MUNDO

Pequenos documentários sobre a Teosofia



Os pedagogos que mais se preocuparam com difundir o modelo pedagógico do movimento das Escolas Novas, surgido em finais do século XIX, foram Adolphe Ferrière e Beatrice Ensor. Ferrière fê-lo mais nos países latinos e Beatrice nos de fala inglesa. Sendo como foi tão importante esta pedagoga, torna-se difícil compreender como é que existem tão poucos estudos sobre o seu pensamento e obra. E mesmo não encontramos nem documentários, pelo que temos que apoiar-nos naqueles relacionados com a Teosofia, movimento a que ela pertencia, e de que teve muita influência para a sua ação social e educativa. Com este depoimento sobre ela completamos o número 37 da série que estamos a dedicar aos grandes vultos da humanidade, que convém que conheçam os escolares, e que iniciamos com Sócrates.

beatrice-ensor-foto-0    Beatrice Ensor foi uma pedagoga e teóloga de origem francesa, que nasceu em Marselha a 11 de agosto de 1885. O seu nome completo era Beatrice Nina Frederica de Normann. Era a filha mais velha de Albert Edward de Normann e de Irene Matilda Wood. O seu pai trabalhava no negócio dos envios e faturações na cidade francesa e também em Génova, pelo que passou a sua primeira infância morando nas duas cidades, o que lhe facilitou empregar com fluidez os idiomas francês e italiano. Esteve muito influenciada por um livro teosófico que tinha deixado um visitante na sua casa, e que a levou em 1908 a incorporar-se à Sociedade Teosófica, a qual chegou a jogar um papel enormemente importante na sua vida e atuação social. Teve dous irmãos, Eric de Normann e Albert Wilfred Noel de Normann, de nome familiar «Bill».

Foi à Inglaterra para formar-se como professora de economia doméstica e por um curto tempo lecionou a disciplina do mesmo nome na Universidade de Sheffield. O qual ajudou a que fosse nomeada no ano 1914, nos primeiros meses da 1ª Guerra Mundial, inspetora da mulher e da educação das meninas pelo conselho e junta de educação do Condado de Glamorgan, no sudoeste do Reino Unido, com sede em Bath. Num primeiro momento desiludiu-se com o ensino regulamentado e passivo que observou, mas quando inspecionou uma escola Montessori em Cheltenham, interessou-se muito pelas ideias pedagógicas de Maria Montessori, a quem conheceu e com que manteve correspondência, fazendo-se uma grande adepta da pedagoga italiana. Em 1914 assistiu em Oriente Runton a uma conferência organizada pelo grupo «New Ideals in Education», sob o tema «O método Montessori na educação», que ajudou ainda mais a admirar este modelo educativo para a escola infantil.

 

Beatrice Ensor com C. G. Jung

Beatrice Ensor com C. G. Jung

No seu momento encontrou o trabalho do serviço civil desagradável e, tendo jogado um papel importante na fundação da Fraternidade Teosófica da Educação, foi convidada em 1915 a converter-se em Secretária e Organizadora do «Fideicomisso» da Educação Teosófica. Desenvolvendo este trabalho, uma das suas principais tarefas foi a consolidação do labor educativo da sociedade em Letchworth Garden City na St. Christopher School, que foi coeducacional e dirigida por Isabel King. Um dos professores desta escola foi V. K. Krishna Menon. Durante um tempo Beatrice trabalhou estreitamente com George Arundale, quem se converteu depois em presidente da Sociedade Teosófica de Adyar (Índia).

Em 1917 casou com Robert Weld Ensor, descendente de irlandeses do norte, que tinha servido na polícia montada do noroeste canadiano, e depois foi capitão do exército canadiano, chegando a Inglaterra, luitando na França e depois indo numa expedição para Murmansk. A Teosofia foi a que os uniu e juntou. Tiveram um filho nascido em 1919, chamado Michael. Annie Besant, Jinarajadasa e Harold Baillie-Weaver foram seus padrinhos.

Partidária da Teosofia, como estamos a comentar, foi cofundadora também da «Liga Internacional para a educação Nova» (Ligue Internationale pour l´Education Nouvelle), junto com Ferrière, Bovet, Claparède, Decroly e Paul Geheeb, entre outros grandes pedagogos.

 

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UMA IMPORTANTE DINAMIZADORA DA NOVA EDUCAÇÃO:

Em 1922, através dos auspícios da «Save the Children Foundation», ajudou a levar crianças húngaras desnutridas para o Reino Unido, com o fim de recuperar a sua saúde. Com este motivo deslocou-se a Budapeste. A Cruz Vermelha húngara outorgou-lhe pela sua ação humanitária uma medalha de honra. Um dado muito importante sobre o seu papel teosófico foi a produção com A. S. Neill, por um tempo como editor em conjunto, da revista Educação para a Nova Era (Education for New Era), versão inglesa da revista Pour l´ère Nouvelle, que se continua publicando 90 anos depois. As revistas cooperativas em francês e alemão seguiram editando-se sob a direção de Ferrière e de Elisabeth Rotten, respetivamente. Em 1921, junto com Iwan Hawliczek, tinha organizado na cidade gala de Calais uma conferência sob o tema de «Autoexpressão criativa da criança» , que teve grande sucesso em assistência de educadores a ela. A organização da mesma, inspirada por teósofos ansiosos por evitar outra guerra mundial, decidiram criar a famosa «The New Education Fellowship» («Comunidade de Amigos da Nova Educação»). Que chegou a estender-se por muitos países do mundo. Tratava-se dum foro totalmente não político e não sectário para desenvolver e divulgar as novas ideias sobre educação. Não era para defender um método educativo em particular, mas para «procurar o fio da verdade em todos os métodos». Ainda existem hoje seções ativas desta espécie de sociedade educativa em 20 países do planeta. Beatrice Ensor, junto com os editores das revistas francesa e germana, e a sua própria, formaram o comité organizador inicial da «TheNEF», germolo do que ia ser posteriormente a UNESCO, sendo Beatrice quem levou o maior peso na sua criação, e depois divulgando os seus princípios pela América do Norte, África, Ásia e Oceânia. Esta importante organização internacional, a intervalos de 2 anos, presididos por distinguidos educadores e pedagogos, celebrou vários Congressos e Conferências, sendo o primeiro o de Calais (1921). Mais tarde tiveram lugar, sempre com a presença de Beatriz Ensor, entre outros grandes pedagogos do movimento, os congressos de Montreux-Suiça (1923), Heidelberg (1925), Locarno (1927), Helsingor (ou Elsinor)-Dinamarca (1929), Niza (1932) e Cheltenham (1936).

Aula de uma Escola Nova

Aula de uma Escola Nova

Em 1925, depois de alguns pequenos problemas nos trabalhos desempenhados por ela e seu esposo, junto com Isabel King, estabeleceu em Frensham Heights uma escola mista, no bairro de Surrey, com aulas desde a escola infantil montessoriana, até as turmas do nível de entrada na universidade. Ambas tiveram a sorte de contar para a sua criação com a ajuda económica de Edith Douglas-Hamilton. Alguns empregados e estudantes da escola de St. Christopher mudaram-se para a de Frensham para formar grupo. Porém, dous anos mais tarde, inesperadamente, faleceu a mecenas que ajudava, sem ter antes estabelecido a independência financeira da escola que tanto queria. A mudança dramática produz uma situação em que as duas educadoras não podiam continuar como docentes, mas sim continuaram durante vários anos dentro da junta de governo da escola.

BEATRICE ENSOR Foto de Annie Besant

BEATRICE ENSOR Foto de Annie Besant

Em 1926 e 1928 viajou à América do Norte, para dar conferências sobre os novos movimentos na educação. Também visitou a Polónia e a África do Sul em 1927 e 1929. O seu esposo comprara uma quinta no país sul-africano e faleceu ali em 1933, pelo que Beatrice teve que deslocar-se àquele país africano e fazer-se cargo da granja, onde criou uma escola para crianças de raça mista. Quando ficou claro que o seu filho ia seguir uma carreira no serviço social, tal como o tinham feito antes os seus irmãos, e não queria fazer-se cargo da granja, vendeu-a e mudou-se para uma casa na costa de Keurboomstrand, perto de Plettenberg Bay. Porém, quando a sua família se estabeleceu no Reino Unido, deslocou-se ao país britânico para viver com os seus netos, morando primeiro em Blackheath, e depois em Londres em Dolphin Square, onde faleceu em 1974.

Em 1937 tinha obtido o doutorado «Honoris Causa» pela Universidade de Western Austrália, da cidade de Perth. Sendo representante do Comité Assessor de Educação do Partido Laborista durante um tempo, pelas suas ideias educativas inovadoras, consideradas utópicas por alguns, terminou por renunciar ao posto, ao chocarem os seus postulados com os do membro do partido R. H. Tawney.

 

PEQUENOS DOCUMENTÁRIOS SOBRE A TEOSOFIA:

  1. O que é a Sociedade Teosófica? Duração: 11 minutos.

Ricardo Lindemann explica de forma geral o que é a Sociedade Teosófica.

  1. Adyar: Fogar da Sociedade Teosófica. Duração: 59 minutos.

  1. Helena Blavatsky: A clave da teosofia. Duração: 10 minutos.

  1. Qué é a Teosofia? Duração: 8 minutos.

 

  1. Madame Blavatsky. A verdade teosófica. Duração: 21 minutos.

Entrevista de Mª Teresa Román a Jesús Callejo no programa da UNED da 2 de TVE, sobre a enigmática figura de Helena Petrovna Blavatsky.

  1. Tim Boyd: O futuro da Sociedade Teosófica. Duração: 34 min.

Conferência do atual presidente da Sociedade Teosófica no encerramento do Seminário Luso-hispânico, celebrado em 2016 em S. Rafael.

 

A TEOSOFIA COMO BASE DA SUA AÇÃO:

Beatrice Ensor pertenceu à Sociedade Teosófica e, tal como já comentámos, os postulados teosóficos tiveram grande influência na sua vida e na sua ação sociopedagógica, assim como na sua visão internacionalista e no desenvolvimento da fraternidade entre todos os seres do planeta.

A 7 de setembro de 1875 teve lugar na cidade de Nova Iorque uma juntança de amigos com pensamentos similares, da qual ia sair a criação da Sociedade Teosófica. Os assistentes à mesma lavraram a respetiva ata no dia seguinte, tendo como principais fundadores Helena Petrvna Blavatsky, Henry Olcott, que foi o primeiro presidente da sociedade, e William Judge, o primeiro secretário, num total de 16 membros fundadores. O discurso inaugural foi pronunciado por Olcott a 17 de novembro do mesmo ano, data que é considerada oficial da fundação da sociedade. O objetivo fundamental da mesma ficou explicitado assinalando que a Sociedade era fundada para promover os ensinamentos antigos da Teosofia, a sabedoria relacionada com o divino, que era a base de outros movimentos do passado, como o neoplatonismo, o gnosticismo, e as Escolas de Mistérios do mundo clássico.

A partir de um sentido mais prático, os objetivos da Sociedade Teosófica, mesmo até hoje, são:

  1. Formar um núcleo de Fraternidade universal da Humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor.
  2. Encorajar o estudo da religião comparada, da Filosofia e da Ciência.
  3. Investigar as leis não explicadas da Natureza e os poderes latentes no homem.

A Sociedade não impõe nenhuma crença sobre seus membros, que se unem espontaneamente pelo objetivo comum de procurar a Verdade e o desejo de aprender o significado e o propósito da existência, dedicando-se ao estudo, reflexão, pureza de vida e serviço voluntário. Não há pré-requisitos nem limitações para qualquer um associar-se, porém o candidato deve declarar identificar-se com ao menos um dos objetivos anteriormente citados da Sociedade. A mesma enfatiza a liberdade de pensamento, de pesquisa e de debate.

O lema da Sociedade foi inspirado no do «Marajá» de Benarés (Índia) «Não há religião, dever, lei, doutrina, direito, justiça ou virtude superior à Verdade» (em sânscrito: «Satyât nâsti paro Dharma»). Por isso, a Sociedade Teosófica, além de ser uma escola de filosofia e promotora do trabalho humanitário, tem um lado religioso, na procura de disseminar doutrinas sobre mundos transcendentes tomadas como verdadeiras por muitas religiões do passado e do presente.

Em 1878, três anos depois de ter-se criado a Sociedade, Olcott e Helena Blavatsky partiram para a Índia. Em 3 de abril de 1905, foi estabelecida legalmente a sede internacional da sociedade no lugar de Adyar da cidade de Madrás (hoje de nome Chennai). Nos seus anos de glória, a Sociedade Teosófica foi uma organização gigantesca, que recebia respeito, admiração e apoio de pessoas do mundo inteiro. As notícias da mesma, e sobre os seus membros, figuravam frequentemente nas páginas dos mais importantes jornais, como o The New York Times.

Existindo oficialmente como instituição há uns 153 anos, esta sociedade conta com membros e sedes em perto de 100 países dos cinco continentes. O seu centro principal ainda é hoje o fundado por Blavatsky em Adyar (Índia). No entanto, além de ser um memorial perene dos fundadores, tornou-se um moderno centro de estudos filosóficos e de assistência social. Dispõe de uma excelente biblioteca, um centro de pesquisas, uma editora, uma agência de notícias e divulgação, apoia ou mantém diversas escolas gratuitas, cursos e centros vocacionais, escuteiros e artísticos, e é o coração das inúmeras lojas abertas em todo o mundo que, dentro do alcance de cada uma, se propõem concretizar os objetivos da Sociedade.

Não se pode negar a importância desta sociedade na história recente da humanidade, apesar de ter tido oposição externa e dissensões internas. O debate público iniciado por Blavatsky, e continuado pelos seus sucessores e seguidores, através da vasta literatura e marcante presença na sociedade como um todo, contribuiu para uma renovação na metodologia e nos conceitos de diversas disciplinas científicas, como a arqueologia, a psicologia e a história, e forçou uma apreciação mais objetiva de diversas instituições, dogmas e sistemas religiosos. Annie Besant, a sua segunda presidenta, foi uma força ativa no processo de independência da Índia. A mesma Blavatsky foi uma das primeiras mulheres a contribuir e influenciar positivamente, com os seus escritos, a agenda intelectual e filosófica do mundo moderno. A doutrina que esta Sociedade disseminou e o exemplo de vida altruísta dos seus fundadores e sócios-as mais eminentes foram uma inspiração para líderes como Gandhi e educadores como Tagore e Mª Montessori, cientistas como Einstein e artistas e escritores como Modrian, Scriabin e mesmo Fernando Pessoa.

Foram membros destacados da Sociedade: Edison, Yeats (o poeta irlandês), Leadbeater, George Mead, Krishnamurti, Burnier, Beatrice Ensor e Pessoa. Sucessivamente exerceram de presidentes-as: Olcott, A. Besant, Arundale, Jinarajadasa, Sri Ram, Coats, Burnier e Tim Boyd.

 

A COMUNIDADE E FRATERNIDADE DA NOVA EDUCAÇÃO:

    Com a criação em 1921, no congresso celebrado em Calais, da «The New Education Fellowship» (Comunidade e Fraternidade da Nova Educação), mais tarde «World Education Fellowship», da qual a máxima responsável foi Beatrice Ensor, nasce um foro mundial, não político nem sectário, para as novas ideias em educação. Sem propor um método educativo em particular, senão para procurar em todos os métodos didáticos o fio da verdade. Ainda hoje existe este foro comunitário em uns 20 países do mundo. O comité organizador inicial desta comunidade educativa mundial e fraterna estava formado por Beatrice Ensor, Adolphe Ferrière e Elisabeth Rotten. A intervalos de dous anos organizavam-se congressos ou conferências em diversas cidades, presididos por pedagogos e educadores destacados. No congresso de Montreux (Suiça), de 1923, Beatrice conheceu o psicólogo Carlos Gustavo Jung, a quem convidou para falar numa juntança em Londres, onde lhe apresentou H. G. Wells, Emile Jacques-Dalcroze, Alfred Adler e o professor Franz Cizek. No de Elsinor (Dinamarca), celebrado em 1929 no castelo de Kronborg, entre os relatores e os delegados, participaram Mª Montessori, Robindronath Tagore, Jean Piaget, Kurt Lewin, Adolphe Ferrière, Ovide Decroly, Helen Parkhurst, Pierre Bovet, A. S. Neill, Elisabeth Rotten, Franz Cizek, o Dr. Harold Rugg, Paul Geheeb e o professor T. P. Nunn.

 

BEATRICE ENSOR e os fundadores da «World Education Fellowship» (1921)

BEATRICE ENSOR e os FUNDADORES da WORLD EDUCATION FELLOWSHIP 1921

A própria Beatrice chegou a pronunciar no seu momento as seguintes palavras, que de forma meridiana deixam claro o objeto principal da Sociedade educativa criada em 1921: «A Irmandade da Nova Educação se absteve propositadamente de formular qualquer dogma no campo da educação. Nem sequer instou a conveniência de qualquer forma particular de procedimento nas salas de aula, reconhecendo que a nova educação é principalmente uma coisa de espírito, cujos frutos são novas relações entre criança e professor e entre criança e criança, novas atitudes em relação à aprendizagem, para a autoridade, e também pode-se dizer entre a própria vida».

Ademais dos congressos e conferências de Calais, Montreux, Heidelberg, Locarno, Elsinor, Niza e Cheltenham, a comunidade, graças às gestões de Beatrice Ensor, celebrou conferências na África do Sul, Nova Zelanda e Austrália. Também ela se deslocou aos EUA, em 1926 e 1928, para pronunciar palestras sobre a nova educação e esta comunidade, em Boston, Nova Iorque, Detroit e Chicago; e em 1927 e 1929, em Polónia e África do Sul. País este em que apoiou muito a seção da comunidade, mesmo com financiamento, para poder desenvolver as suas atividades. E onde chegou a criar na quinta que tinha comprado o seu esposo uma escola nova para crianças de raça mista, que não estavam escolarizadas naquela área.

Em 1936 houve um seminário da The New Education Fellowship, na Santiniketon de Tagore, com a participação do próprio Robindronath. Quem noutra conferência celebrada em Calcutá (hoje de nome oficial Kolkata), organizada por esta comunidade, pronunciou uma interessante palestra sobre educação. E mesmo escreveu algum depoimento sobre esta comunidade, editando também dous ou três números dum boletim, com o nome desta comunidade educativa internacional.

Assim como a Teosofia teve grande e profunda influência no nascimento da TheNEF, esta comunidade fraterna internacional teve grande influência na criação da Unesco. Que Kobayashi descreveu como a parteira do nascimento da mesma, e foi também uma sua ONG desde 1966. Ano em que mudou de nome pelo de World Education Fellowship.

 

AS IDEIAS PEDAGÓGICAS BÁSICAS DE BEATRICE ENSOR:

O modelo pedagógico que mais apreciava Beatrice era aquele que tinha como aspetos básicos os seguintes: grande papel do aluno, pois todos os poderes e aptitudes existem na criança desde que nasce, e, por conseguinte, toda a educação deve ser autoeducação; a criança é a artesã do seu próprio desenvolvimento, pelo que é muito importante que os escolares tenham autonomia para serem livres de tomar decisões; o mestre ou mestra têm a última palavra e só deve intervir quando os alunos não possam resolver alguma dificuldade; aprender é, ademais de adquirir conhecimentos, desenvolver a consciência moral e social e na prática educativa é necessário dar autonomia aos estudantes, para que se iniciem na tomada de decisões e se façam cargo da sua vida no futuro.

A todo o anterior há que acrescentar que Beatrice era seguidora dos princípios da Escola Nova. E que a sua pedagogia se fundamentava essencialmente nas ideias de Montessori, Ferrière, Cousinet e outros grandes pedagogos do movimento pedagógico da Escola Nova, nascido na Europa. Que tinha as seguintes cinco grandes ideias aglutinadoras:

  1. A Escola Nova (em diante, EN) é um laboratório de pedagogia prática, que procura servir de referência para o sistema público de ensino, funcionando preferentemente em regime de internato e situada numa zona rural, procurando criar um ambiente saudável e de proximidade com a natureza (excursões, acampamentos, cuidado de animais e plantas, ginástica natural, etc.).
  2. A EN pratica o sistema de coeducação de sexos, estimulando as relações sociais e a cooperação entre rapazes e raparigas.
  3. A EN concede uma particular atenção aos trabalhos manuais, encarando não apenas numa dimensão técnica, mas sobretudo como um poderoso meio de educação intelectual, pelo que todo o ensino deve organizar-se a partir de métodos ativos que estimulem o gosto pelo trabalho e a criatividade.
  4. A EN procura desenvolver o espírito crítico, através da aplicação do método científico, baseando o ensino em factos e experiências, na atividade pessoal da criança e nos seus interesses espontâneos, pelo que é desejável uma conjugação entre atividades de trabalho individual e momentos de trabalho coletivo ou grupal.
  5. O quotidiano da EN alicerça no princípio da autonomia dos educandos, isto é, numa educação moral e intelectual que não se exerce autoritariamente de fora para dentro, mas antes de dentro para fora, graças à experiência e ao desenvolvimento gradual do sentido crítico e da liberdade, pelo que o sistema disciplinar, bem como a educação da consciência moral e da razão prática, devem fazer-se no quadro desta perspetiva.

 

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

    Vemos os pequenos documentários citados antes e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar os seus conteúdos e as propostas da Teosofia para o desenvolvimento de uma educação fraterna no mundo.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Beatrice Ensor, o seu pensamento, as suas ideias educativas, a sua vida, a sua obra e a sua ação. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Depois de informar-nos bem por todo o tipo de meios bibliográficos e pela internet, podemos elaborar uma monografia sobre «A Escola Nova no mundo». A qual deve incluir, para além dos 30 princípios educativos das Escolas Novas, uma pequena história introdutória, os congressos celebrados, depoimentos biográficos sobre os seus grandes pedagogos e, especialmente, uma listagem das Escolas Novas criadas desde 1876, com a ILE, assinalando o ano de criação, os criadores e o lugar e país onde estavam ou estão localizadas. Tendo presente que houve escolas novas em todos os continentes e, fundamentalmente na Europa.

 

 

 

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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