Todos os artigos de Maria Dovigo

Nasci na Crunha em 1972 e vivo desde 2000 em Portugal. A minha formação é a Filologia, exerço a docência e sou poeta por vocação. No labor criativo ligo a minha vontade de intervenção cívica com a convicção de que a criação é a verdadeira natureza do ser humano. Colaboro com diferentes associações do espaço lusófono, tecendo redes de afetos e projetos à volta da vivência da língua portuguesa. Sou académica de número da Academia Galega da Língua Portuguesa.
  • História dos peixes

      O Atlântico da minha infância era o espaço dos peixes. A minha cartografia chegava aonde os pescadores chegavam, mais além da Marola, ao Grand Sole, à Terra Nova. Havia ainda histórias como ficções, as dos nomes escritos na fachada da escola de Náutica da Crunha, Magalhães, Elcano, que na altura me pareciam de alguma […]

  • Quem pensa a escola?

    Não se pode exercer a docência sem amor, aos alunos, à infância, à humanidade, ao saber, à disciplina que ensinamos, ao profissionalismo, ao ofício, ao trabalho bem feito, à sociedade, à nação, a qualquer imagem de comunidade… o que for, mas tem que haver algo longe, invisível, um princípio transcendente que nos endireite e nos […]

  • Contra o fim do mundo

    Robert Louis Stevenson fez na sua juventude uma viagem a pé pela região montanhosa das Cevenas, no sul da França, com a única companhia de uma burra de nome Modestine. Pouco tempo depois relatou a sua experiência em um livro, o seu segundo publicado,  ao que deu por título Os prazeres dos lugares inóspitos. Declara […]

  • Crónica do II Encontro de mulheres da lusofonia

    No seu poema “Tempo e violência” a irlandesa Eavan Boland imagina uma sereia que quer ser humana para poder criar, envelhecer e morrer. “Isto é o que a linguagem nos fez”, languidescer numa gramática de suspiros, diz a sereia do Mar do Norte do poema de Boland. Uma experiência semelhante, verificar o que a linguagem […]

  • Memória da escravatura e debate público em Portugal

      O projeto de criação de um memorial às vítimas da escravatura na cidade de Lisboa foi proclamado no passado dia 27 de novembro como um dos vencedores do orçamento participativo da câmara municipal. A proposta partiu da Djass-Associação de Afrodescendentes que visa assim “colocar Lisboa no mapa da história da escravatura”. A proposta do […]

  • Pondal, 2017

      Para José Inácio Regueiro, “no brando azul” No início do verão o diretor da revista portuguesa Nova Águia pediu-me para escrever uma evocação de Eduardo Pondal no centenário da sua morte. Como sempre que me aventuro em um artigo para divulgar algum aspeto da cultura galega, procurei relacionar a obra de Pondal com vários […]

  • Espaço lusófono: para além da língua

    A estátua do rei D. José I na Praça do Comércio de Lisboa é o centro simbólico do plano de reconstrução do marquês de Pombal para a cidade após o terramoto de 1755. Conforme a conceção do escultor Machado de Castro, que lhe deu a forma definitiva, partindo da ideia da escultura como poesia muda, […]

  • Cavando

    “Under my window, a clean rasping sound when the spade sinks into gravelly ground” Seamus Heaney   Quando vim para Portugal há quase duas décadas tinha na mente a imagem da Galiza como um grande espelho quebrado. Entre as muitas demandas com que comecei a minha particular migração também estava a de juntar os troços […]

  • E tudo está no cântico primeiro

    Há dous motivos de conversa que me avisam de que estou entre galegos: os marcos e as genealogias. Se faço memória pessoal, reconheço que uma das aprendizagens mais difíceis da minha vida, já longe da Galiza, foi habituar-me a que dizer “sou neta de Carme a cotovia” ou “criei-me na Agra do Orçám” não tivesse […]

  • Abril

    A palavra “abril” tem uma etimologia obscura. A interpretação popular relaciona-a com o abrir, metáfora do agromar da vegetação no hemisfério norte nesta altura do ano. Alguns filólogos relacionam-na com a palavra grega aphós, espuma, também presente no nome da deusa Afrodita, que, segundo esta etimologia, seria a “nascida da espuma”, semelhante à Morgana céltica, […]