ALDEIAS DE ORDES

As aldeias das leitoras (V): Cernadas



 

20180712_204443

Conta María Martínez Candal que o seu pai é de Cernadas, em Buscás, topónimo este que muitos explicam pola teoria divulgada por Moralejo Lasso segundo a qual proviria do latim *cinerata, ‘terra queimada’, em referência às roças do monte para debroçar a terra e fertilizá-lo com as próprias cinsas antes de sementar nela. A minha avoa Valentina lembra este sistema agrário nas sementerias de trigo no monte comunal do Ingério, em Mercurim:

“Cavava-se terrom a terrom, com o ligom, depois havia que queimá-lo e, quando a roça nom ardia bem, havia que fazer montons e, na tilha dos montons, assavam-se patacas que estavam mui boas. Depois escangalhava-se a tilha (as brasas da roça). Cada ano ardia menos porque já nom havia louça (tojo, queiroas). Eram só camposas. O tempo também ia mudando, fazia menos sol. Afinal havia que mover terrom por terrom para que secara e ardera. Depois da queima havia que arar com o arado das vacas, para logo sementar o trigo em outubro. Adubava-se com “mineral” e gradava-se com a grade de ferro tirada polas vacas. A semente preparavam-na no chao da cozinha, e depois já no palhote; em água com sal diluia-se a pedra, um produto azul-averdado, primeiro em pedra e depois já em pó, e depois molhavam a semente o dia antes da sementeira”.

O português J. P. Machado propujo, porém, a teoria de que os topónimos galego-portugueses Cernada e Cernadas provenham da palabra indígena sénara/senara, que é da que procede Senra, mas parece pouco verosímil. Ferrín prefere pola sua parte derivar Cernadas do substantivo galego cerne/cerna ‘partes interiores das árvores’, e com o verbo cernar ‘demoucar, chapodar, cortar polas e troncos’, o qual se remonta,

“probabelmente, ao lat. circinus ‘campás, círculo’, de onde o verbo circinare ‘cortar en redondo, decepar, desmouchar’. Polo tanto é posíbel que as Cernadas da nosa paisaxe toponímica […] fosen un día terras boscosas que o home roturou, cernou ou tallou para constituír labradíos”[1].

Som significados, em todo caso, vinculados ao aproveitamento agrícola do monte e à extensom das terras de cultivo.

Mapa do Cernadas de Buscás
Mapa do Cernadas de Buscás

A ver se María nos conta mais do Cernadas de Buscás e das suas gentes. Um outro Cernadas importante, que hoje já nom pertence à comarca de Ordes mas há umhas décadas si, é o de Porto Mouro, no atual concelho do Val do Dubra. Ali há um bosque e umha casa importante, que se remonta ao século X quando era propriedade do mosteiro de Sam Martinho Pinário, passando mais tarde a maos da Condesa de Bugallal. Posteriormente funcionou de asilo é, desde 1990, é a sede do Proxecto Home. Muita história decorreu por esse Cernadas em que, segundo um Guía de Santiago de 1885, que recomendava a excursom, tinha “bosque y praderías que llenan una extensa área de cinco kilómetros”[2], aproveitadas para o recreio dos compostelanos.

Na sua viagem à Galiza de 1745, o Padre Sarmiento anda por Santiago já em vésperas do dia grande da Festa do Apóstolo, foi ver as chegas de bois, comeria o polvo e botaria uns vinhos. Repousa na cidade uns dias e, no 3 de agosto, retoma o caminho polo que atravessará a nossa comarca, parando primeiro por Cernadas:

“este día fui con nuestro Padre Abad a Cernadas, casa de recreación de San Martín, distante dos leguas, v.g.: Monte Pedroso, Fonte Coba, Ameixenda, una legua de Santiago, Roxido de Arriba, Cernadas.

Y a medio cuarto de legua, río Tambre abajo, está el puente sobre él, y llaman de Porto Mouro por estar en la feligresía de San Cristóbal de Portomouro. A distancia de un tiro de cañón hacia abajo [le] entra al Tambre por el norte un río pequeño, que llaman Dubra y allí hay un puente viejo. A media legua de Porto Mouro, Tambre arriba, está el lugar de Portomeiro. Cernadas es un bosque para leña, etc”[3].

Mais de um século depois, durante a Terceira Guerra Carlista (1869-1875) os ativistas de Santiago adestravam na carvalheira de Cernadas, e também se formou em 1875 umha facçom chamada de Cernadas por estar liderada por Silvestre Cernadas. Eram mui poucos homens e realizárom algum roubo por Messia. Eram, na realidade, umha cissom da façcom de Andrade, que se apresentara em público no 26 de setembro de 1874, apropriando-se em Ordes de 40.000 reais da recadaçom de Fazenda e dos Correios. Rematada a açom, o dirigente José Maria Andrade Portas dá descanso aos seus homens, fai o reparto e fica com umha boa talhada, polo que foi considerado como pouco menos que a vergonha dos carlistas. Eram os últimos estertores decadentes de um movimento que já começava a integrar-se no sistema e, de facto, nas eleiçons estatais de março de 1871 já concorreram polo distrito de Ordes aliados com moderanos e republicanos, obtendo ata de deputado Hernández Rodríguez[4].

Em tempos mais pacíficos, corria o ano 1892, celebrou-se o Banquete de Cernadas em homenagem de Manuel Murguía, acontecimento que o carvalhês Alfredo Brañas aproveitaria para anunciar a redaçom das Bases generales del Regionalismo y su aplicación a Galicia. Aquele festejo tivo muito de simbólico, posto que reunia à mesma mesa os dous principais líderes do primeiro galeguismo, enfrontados entre si polas suas ideologias antagónicas: Murguía, profundamente progressista; Brañas, profundamente conservador[5].

Para além do carlista Silvestre Cernadas, houvo outras figuras históricas que levaram o apelido, que hoje mantenhem umhas 2.000 galegas e galegos, como o polémico escritor do s. XVIII Diego Antonio Cernadas de Castro. Entre nós, Manuel Cernadas Ares era um labrego de 50 anos, vizinho de Cabrui, que por manter-se em pé foi julgado por “rebeliom” polos golpistas na Corunha, resultando condenado a doze anos e um dia de prisom.

[1] Xosé Luís Méndez Ferrín, Consultorio dos Nomes e dos Apelidos Galegos, Vigo, Xerais, 2007, p. 324.

[2] José María Fernández Sánchez e Francisco Freire Barreiro, Guía de Santiago, Santiago de Compostela, Imprenta del Seminario Conciliar, 1885.

[3] Fr. Martín Sarmiento, Viaje a Galicia (1745), ediçom e estudo de J. L. Pensado, Salamanca, Universidad de Salamanca, 1975, pp. 62-63.

[4] Xosé Ramón Barreiro Fernández, O carlismo galego, Bertamiráns, Laiovento, 2008, 2ª ed. corrigida e ampliada, pp. 195, n. 16, 218-220 e 247. Para mais informaçom sobre o roubo em Ordes: “Sumario en averiguación dos sucesos que tiveron lugar en Ordes. 26 de septembro de 1874, Arquivo Universitario de Santiago, Fundo C-BC, Procesos, 1874.

[5] Quique Alvarellos, “O banquete que xuntou a Murguía e Brañas”, La Voz de Galicia, ediçom Santiago 25 de junho de 2017, p. L11.

**

Publicado em Aldeias de Ordes,  

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
Carlos C. Varela

Latest posts by Carlos C. Varela (see all)


PUBLICIDADE

  • Joám Lopes Facal

    Prosa limpa, memória adestrada em fontes várias e umha imensa curiosidade que a monotonia do dia a dia nom consegue erodir

  • abanhos

    Este homem é um poço de sabedoria e será, bem seguro, um grande lider da nossa liberdade