ALDEIAS DE ORDES

As aldeias das leitoras (V): Cernadas



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Conta María Martínez Candal que o seu pai é de Cernadas, em Buscás, topónimo este que muitos explicam pola teoria divulgada por Moralejo Lasso segundo a qual proviria do latim *cinerata, ‘terra queimada’, em referência às roças do monte para debroçar a terra e fertilizá-lo com as próprias cinsas antes de sementar nela. A minha avoa Valentina lembra este sistema agrário nas sementerias de trigo no monte comunal do Ingério, em Mercurim:

“Cavava-se terrom a terrom, com o ligom, depois havia que queimá-lo e, quando a roça nom ardia bem, havia que fazer montons e, na tilha dos montons, assavam-se patacas que estavam mui boas. Depois escangalhava-se a tilha (as brasas da roça). Cada ano ardia menos porque já nom havia louça (tojo, queiroas). Eram só camposas. O tempo também ia mudando, fazia menos sol. Afinal havia que mover terrom por terrom para que secara e ardera. Depois da queima havia que arar com o arado das vacas, para logo sementar o trigo em outubro. Adubava-se com “mineral” e gradava-se com a grade de ferro tirada polas vacas. A semente preparavam-na no chao da cozinha, e depois já no palhote; em água com sal diluia-se a pedra, um produto azul-averdado, primeiro em pedra e depois já em pó, e depois molhavam a semente o dia antes da sementeira”.

O português J. P. Machado propujo, porém, a teoria de que os topónimos galego-portugueses Cernada e Cernadas provenham da palabra indígena sénara/senara, que é da que procede Senra, mas parece pouco verosímil. Ferrín prefere pola sua parte derivar Cernadas do substantivo galego cerne/cerna ‘partes interiores das árvores’, e com o verbo cernar ‘demoucar, chapodar, cortar polas e troncos’, o qual se remonta,

“probabelmente, ao lat. circinus ‘campás, círculo’, de onde o verbo circinare ‘cortar en redondo, decepar, desmouchar’. Polo tanto é posíbel que as Cernadas da nosa paisaxe toponímica […] fosen un día terras boscosas que o home roturou, cernou ou tallou para constituír labradíos”[1].

Som significados, em todo caso, vinculados ao aproveitamento agrícola do monte e à extensom das terras de cultivo.

Mapa do Cernadas de Buscás

Mapa do Cernadas de Buscás

A ver se María nos conta mais do Cernadas de Buscás e das suas gentes. Um outro Cernadas importante, que hoje já nom pertence à comarca de Ordes mas há umhas décadas si, é o de Porto Mouro, no atual concelho do Val do Dubra. Ali há um bosque e umha casa importante, que se remonta ao século X quando era propriedade do mosteiro de Sam Martinho Pinário, passando mais tarde a maos da Condesa de Bugallal. Posteriormente funcionou de asilo é, desde 1990, é a sede do Proxecto Home. Muita história decorreu por esse Cernadas em que, segundo um Guía de Santiago de 1885, que recomendava a excursom, tinha “bosque y praderías que llenan una extensa área de cinco kilómetros”[2], aproveitadas para o recreio dos compostelanos.

Na sua viagem à Galiza de 1745, o Padre Sarmiento anda por Santiago já em vésperas do dia grande da Festa do Apóstolo, foi ver as chegas de bois, comeria o polvo e botaria uns vinhos. Repousa na cidade uns dias e, no 3 de agosto, retoma o caminho polo que atravessará a nossa comarca, parando primeiro por Cernadas:

“este día fui con nuestro Padre Abad a Cernadas, casa de recreación de San Martín, distante dos leguas, v.g.: Monte Pedroso, Fonte Coba, Ameixenda, una legua de Santiago, Roxido de Arriba, Cernadas.

Y a medio cuarto de legua, río Tambre abajo, está el puente sobre él, y llaman de Porto Mouro por estar en la feligresía de San Cristóbal de Portomouro. A distancia de un tiro de cañón hacia abajo [le] entra al Tambre por el norte un río pequeño, que llaman Dubra y allí hay un puente viejo. A media legua de Porto Mouro, Tambre arriba, está el lugar de Portomeiro. Cernadas es un bosque para leña, etc”[3].

Mais de um século depois, durante a Terceira Guerra Carlista (1869-1875) os ativistas de Santiago adestravam na carvalheira de Cernadas, e também se formou em 1875 umha facçom chamada de Cernadas por estar liderada por Silvestre Cernadas. Eram mui poucos homens e realizárom algum roubo por Messia. Eram, na realidade, umha cissom da façcom de Andrade, que se apresentara em público no 26 de setembro de 1874, apropriando-se em Ordes de 40.000 reais da recadaçom de Fazenda e dos Correios. Rematada a açom, o dirigente José Maria Andrade Portas dá descanso aos seus homens, fai o reparto e fica com umha boa talhada, polo que foi considerado como pouco menos que a vergonha dos carlistas. Eram os últimos estertores decadentes de um movimento que já começava a integrar-se no sistema e, de facto, nas eleiçons estatais de março de 1871 já concorreram polo distrito de Ordes aliados com moderanos e republicanos, obtendo ata de deputado Hernández Rodríguez[4].

Em tempos mais pacíficos, corria o ano 1892, celebrou-se o Banquete de Cernadas em homenagem de Manuel Murguía, acontecimento que o carvalhês Alfredo Brañas aproveitaria para anunciar a redaçom das Bases generales del Regionalismo y su aplicación a Galicia. Aquele festejo tivo muito de simbólico, posto que reunia à mesma mesa os dous principais líderes do primeiro galeguismo, enfrontados entre si polas suas ideologias antagónicas: Murguía, profundamente progressista; Brañas, profundamente conservador[5].

Para além do carlista Silvestre Cernadas, houvo outras figuras históricas que levaram o apelido, que hoje mantenhem umhas 2.000 galegas e galegos, como o polémico escritor do s. XVIII Diego Antonio Cernadas de Castro. Entre nós, Manuel Cernadas Ares era um labrego de 50 anos, vizinho de Cabrui, que por manter-se em pé foi julgado por “rebeliom” polos golpistas na Corunha, resultando condenado a doze anos e um dia de prisom.

Notas:

[1] Xosé Luís Méndez Ferrín, Consultorio dos Nomes e dos Apelidos Galegos, Vigo, Xerais, 2007, p. 324.

[2] José María Fernández Sánchez e Francisco Freire Barreiro, Guía de Santiago, Santiago de Compostela, Imprenta del Seminario Conciliar, 1885.

[3] Fr. Martín Sarmiento, Viaje a Galicia (1745), ediçom e estudo de J. L. Pensado, Salamanca, Universidad de Salamanca, 1975, pp. 62-63.

[4] Xosé Ramón Barreiro Fernández, O carlismo galego, Bertamiráns, Laiovento, 2008, 2ª ed. corrigida e ampliada, pp. 195, n. 16, 218-220 e 247. Para mais informaçom sobre o roubo em Ordes: “Sumario en averiguación dos sucesos que tiveron lugar en Ordes. 26 de septembro de 1874, Arquivo Universitario de Santiago, Fundo C-BC, Procesos, 1874.

[5] Quique Alvarellos, “O banquete que xuntou a Murguía e Brañas”, La Voz de Galicia, ediçom Santiago 25 de junho de 2017, p. L11.

 

Publicado em Aldeias de Ordes, 16, 07, 2018.

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
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