ALDEIAS DE ORDES

As aldeias das leitoras (III): O corpo do lobo



Aldeia de Cabeça do Lobo, em Ardemil

Aldeia de Cabeça do Lobo, em Ardemil

“Muy frecuentemente” – explica Otero Pedrayo na sua Guía de Galicia-, “el antiguo centro aparece decapitado, y la estructura radiada de la parroquia sustituida por la lineal. A lo largo de la carretera se alinean las casas nuevas. El grupo antiguo va quedando olvidado alrededor de la iglesia, en los más de los casos establecida en el castro o en la inmediación de los castros, o en los cruces de los caminos estrictamente campesinos”[1].

Cabeça do Lobo, topónimo poderoso onde os haja, ilustra bastante bem este fenómeno, pois foi, como quem di, a capital histórica de Ardemil até que com o influxo da nova estrada da Corunha de 1766 o Mesom do Vento medrou até ser o núcleo mais povoado da freguesia. Ainda assim, em Cabeça do Lobo permanece a velha igreja paroquial e o cruzeiro, recordatórios da velha centralidade.

Almeida Fernandes cita um documento português do ano 1304 que fala de “hu chamam as cabeças dos perros”, descriçom de um lugar através das suas caraterísticas topográficas (“cabeça”, lugar alto) e mineralógicas (“perros” viria de pétreos). Se quadra originariamente este lugar de Ardemil atende-se a um topónimo parecido, que simplemente descrevia a orografia do terreno, aproveitado polos Moscoso para imprimirem na geografia as suas alegorias e símbolos de poder. E é que a linhagem dos Moscoso, que desde tempo antigo tiveram soar neste lugar e nas suas armas, levavam como emblema umha mui simbólica cabeça de lobo sangrante (veja-se “A longa derrota do lobo”), mais tarde incorporadas à heráldica do Condado de Altamira[2].

No citado livro, Otero Pedrayo lembra que na santiaguesa praça de Cervantes (antes do Pam, do Campo ou da Lenha), onde estivo situada a casa do concelho com o seu pelourinho e se realizárom brutais autos de fé com queima de bruxas incluidas, também se achava a Casa dos Condes de Altamira, com as suas sangrantes cabeças de lobo, derrubada no ano de 1889[3].

Em Bardaos, praticamente na outra ponta da comarca, está o lugar do Rabo do Lobo, que resulta tentador entendê-lo como a estremeira –em algum tempo histórico- do território dos Moscoso, do corpo do lobo, ainda que mais razonavelmente deve ser umha metáfora toponímica, como explica Cabeza Quiles, alusiva a terras alongadas e com forma de ponta, que o inconsciente popular baptizou com este tipo de nome, como no caso do Rabo de Égoa, em Ons, cabo marítimo que semelha um gigantesco rabo animal[4].

[1] Ramón Otero Pedrayo, Guía de Galicia, Vigo, Galaxia, 1991, p. 69.

[2] Victorino Cores Liste, Órdenes 1752. Según el catastro del Marqués de la Ensenada, Ordes, ediçom do autor, 2005, p. 30.

[3] Ramón Otero Pedrayo, op. cit., p. 521.

[4] Fernando Cabeza Quiles, Toponimia de Galicia, Vigo, Xerais, 2008, pp. 527-528; Fernando Cabeza Quiles, Os nomes da Terra, Nóia, Toxosoutos, 2000, p. 347.

Lugar de Rabo do Lobo, em Bardaos, Tordoia

Lugar de Rabo do Lobo, em Bardaos, Tordoia

Publicado em Aldeias de Ordes,  

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
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