As aldeias das leitoras (II): A Pontraga



A companheira Cristina Amor Faya, por sua parte, pergunta polos topónimos de Darefe, aldeia da freguesia de Ordes, e polo da Pontraga, esta na de Parada, ainda que veu denominando um espaço mais amplo. Quanto ao topónimo da primeira, é um desses para os quais ainda nom encontramos explicaçom satisfatória, polo que haverá que continuar a investigar, e verificar se alguém publicou algo sobre o mesmo.

Mapa da Pontraga
Mapa da Pontraga

No caso da Pontraga, o que se agocha tras umha alteraçom fonética é umha Ponte Agra: a que une as duas beiras do Lenguelhe, dum lado as terras de Numide e do outro as de Parada, coincidindo também com a fronteira entre os concelhos de Tordoia e Ordes. A Pontraga, aliás, resulta um lugar com umha história estreitamente ligada ao caminho-de-ferro, obra que propiciou os momentos de mais fervor da aldeia durante a II República. Nessa época, tal e como escreveu o republicano ordense Manuel García Gerpe: “En Parada trabajadores del FF.CC. en construcción de la línea Orense-Zamora, que venían de lejanas tierras y de liberales poblaciones, se agrupan y logran despertar el sentido societario de los vecinos”[1]. A concentraçom de operários do caminho-de-ferro foi um fortíssimo factor de politizaçom da populaçom local, fenómeno que Dionisio Pereira deteta em muitos outros pontos das obras do ferrocarril e ao que também atribui a implantaçom da CNT em Ardemil[2]. Lembremos que os trabalhadores do caminho-de-ferro, conhecidos popularmente como “carrilanos”, fôrom a vanguarda do movimento operário durante o período republicano, protagonizando várias proclamaçons da República Galega ao longo dos anos 1931 e 1932 como medida de protesto, e sendo os primeiros –sobretudo do Suleste do país- em pegarem nas armas contra os franquistas. Rafael Cid rememorou a vida destes trabalhadores, mortos de silicose a maioria dos que sobreviveram ao fascismo, no documentário Carrilanos. Aquelas proclamaçons independentistas de 1931 e 1932 fôrom lembradas pola primeira vez, precisamente, na Festa da República Galega que se celebrou vários anos na Pontraga, no primeiro dele com música de Mini e Mero, o Lei i Arremecághona, Xende Beat e a atuaçom estelar e improvisada de Felisa da Pontraga, mulher excecional.

Festa da República Galega na velha estaçom de comboio
Festa da República Galega na velha estaçom de comboio

Essa massa obreira da Pontraga, simbiotizada com o povo labrego, intentou ser orientada cara ao anarquismo pola CNT, cujo Sindicato de Peons da Corunha organizou um mitim em Ordes para tal missom em novembro de 1931, ato em que tomaram a palabra Manuel Rodríguez Matos, Genaro Pazos Maceira (forjado no sindicalismo na Marine Transport Workers, em Pennsylvania) e José Láuzara García. Segundo a crónica do Solidaridad Obrera da Corunha:

“A las dos de la tarde dio comienzo el acto, previa una arenga que el camarada Rodríguez Matos lanzó desde uno de los balcones del Salón Cine a los agricultores que merodeaban por aquel lugar, mirándonos con recelo y prevención injustificada, debido a la defecación que el caciquismo había lanzado sobre nosotros”.

Será de novo Matos quem retome a palabra em nome do Sindicato de Peons para rematar o ato, quando:

“Hizo un breve resumen de los expuesto por sus dos camaradas de tribunas y entró de lleno en el terreno de la lucha de clases. Expuso los fines bastardos que persiguen todos los partidos políticos y los ideales redentores de la organización obrera. Con trazos ligeros perfiló la estructura orgánica de la C.N.T. y la posición que deben ocupar en ella los Sindicatos agrarios.

Al concluir criticó acerbadamente al cacique máximo de aquella localidad, Concheiro Rodríguez, y a los curas párrocos de Tordoya, Oroso, Santay y Gorgullo [sic], dueños de vidas y hacienda bajo el pendón republicano[3]”.

Contudo, nom chegou a frutificar um sindicato de orientaçom libertária em Parada, onde o sindicato agrário estivo presidido por um militante da Izquierda Republicana e o Partido Galeguista estava a ganhar muito dinamismo. Tras o golpe fascista de 1936, remataram violentamente os pulos auto-organizativos da gente da Pontraga, ainda que também houvo quem se incorporou à resistência, caso de José Ríos Gómez, para quem, como di Rafael de Teo, nom importou a teima aristocrátic-burguesa dos apelidos, pois ele sempre foi conhecido como ‘Ríos da Pontraga’. Este enlace da guerrilha antifranquista trabalhou às ordens de Manuel Ponte, sendo detido em agosto de 1947, quando a Guarda Civil de Ordes o torturou brutalmente, rebentando-lhe as plantas dos pés, arrincando-lhe as unhas e malhando-o na cara e no tórax. Nom se sabe se porque nom resistiu mais o suplício ou porque os seus carrascos simulárom um suicídio, Ríos da Pontraga foi parar ao fundo do poço que havia no centro da casa-quartel. Foi-lhe praticada a autopsia na escola de Parada, e é Astray Rivas quem deixou crónica detalhada deste crime franquista[4].

Hoje em dia a Pontragha –como a grafam as Bouba– é umha referência na dança e música popular de toda a comarca pola autêntica “concelharia de cultura” que exercem na prática a gente de Brisas do Quenllo. Ainda, a mocidade de Montaos que organizava o festival de rock A Revoltosa tivo durante uns anos na Pontraga, à beira do Lenguelhe, umha casa que funcionou como centro social okupado, onde tanto se podia remar polo rio, pescar, comer em churrascadas selvagens com música ao vivo, como projetar documentários sobre os processos revolucionários latinoamericanos. Muita Pontragha!

[1] Manuel García Gerpe, “Como se forja un pueblo”, Órdenes. Revista-memoria Sociedad Unión del Partido Judicial de Órdenes, Buenos Aires, 1943, pp. 36-48, cita da p. 36.

[2] Dionisio Pereira, A CNT na Galicia 1922-1936, Santiago de Compostela, Laiovento, 1994, p. 150.

[3] Solidaridad Obrera nº 52, 5 de dezembro de 1931. Sobre os atos escreveu Carlos Pereira em A cultura en Culleredo na Segunda República, Corunha, Ateneu Libertário Ricardo Mella, 2001.

[4] Manuel Astray Rivas, “José Candal Bouzas y muerte de José Ríos Gómez de la Pontraga”, Síndrome del 36. La IV Agrupación del Ejército Guerrillero de Galicia, Sada, Ediciós do Castro, 1992, pp. 199-202. No mesmo livro o autor contra um trabalho para a guerrilha que ele mesmo protagonizou, levando um pacote no táxi que unia a estaçom da Pontraga com a vila.

Aldeia da Pontraga
Aldeia da Pontraga
Romaria da AC Brisas do Quenllo na Pontraga
Romaria da AC Brisas do Quenllo na Pontraga

 

Publicado em Aldeias de Ordes, 18,04,2018.

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
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  • Joám Lopes Facal

    Caro Carlos, acho umha “Chã de Arefe” ao sopé do “Monte de Arefe” na freguesia de Durrães (Durão/Durám?), Concelho de Barcelos, com importantes vestígios da Idade do Bronze. Mais umha prova da ancestral irmandade dos kallaikos.
    Um forte abraço através das ilegítimas grades, para o teu pensamento, quase transparentes.

  • Manuel Meixide Fernandes

    Que artigo mais bom. Não conhecia a República Galega de Ordes. Para além de considerações ideológicas, este deveria ser o nosso ideal, uma República da gente em cada comarca. Liberdade, igualdade e fraternidade, os valores humanos negados polo Estado e o capitalismo.