AS AULAS NO CINEMA

A arte fílmica animada de Norman McLaren

Filmografia básica



Tal como acontece com o checo Jirí Trnka, é difícil compreender como está tão esquecido um cineasta especialista em cinema de animação enormemente importante, como é o canadiano de origem escocesa Norman McLaren, com filmes experimentais realmente inovadores. Para os que amamos a infância e o cinema é muito importante recuperar esta figura, que tinha que estar muito mais divulgada do que está. Norman McLaren é um realizador fílmico a recuperar quanto antes, pensando especialmente em crianças e jovens, e no ensino do «abc» do cinema aos estudantes de todos os níveis do ensino, mesmo do universitário. Das formosas curta-metragens de McLaren, que nós saibamos, só existem cópias na Cinemateca da Embaixada do Canadá em Madrid. Embora, felizmente, com o apoio do NFB do Canadá, nos anos 2005-2006 tenham sido remasterizadas a maioria das suas curta-metragens, realizando mais tarde edições de caixas com DVDs com estes filmes, no Canadá, Reino Unido, França e Brasil. Na edição do Brasil, a cargo da Magnus Opus, a caixa editada inclui 3 DVDs, que recolhem um total de 30 curta-metragens, e uma duração de 235 minutos.

norman-mclaren-foto0 Norman McLaren nasceu em Stirling (Escócia) a 11 de abril de 1914, e faleceu em Montreal (Canadá) em 26 de janeiro de 1987. Foi um dos mais importantes animadores escoceses voltados para a animação artística. A maioria dos seus trabalhos foram patrocinados pela “Secretaria Nacional de Cinema do Canadá”, onde realizou grandes obras. Uma das técnicas pela qual ficou consagrado foi a de fazer animação direta no celuloide, riscando e desenhando, tudo isso ao som de jazz, do qual era muito fã. Nascido na Escócia, entrou na faculdade de Belas Artes de Glasgow em 1932 e rapidamente desenvolveu uma paixão pela sétima arte.

Começou a sua carreira de diretor de filmes em 1934, e já no ano seguinte dous de seus filmes ganharam prémios no festival amador de cinema da Escócia, e pela grande qualidade impressionou um dos membros do júri que o chamou para trabalhar na General Post Office Film Unit em Londres, local onde Len Lye (animador que usou técnicas semelhantes) trabalhou também, mas os dous não chegaram a se conhecer.

Durante a guerra civil espanhola, em 1936, McLaren trabalhou como cameraman na Espanha. Tal experiência o assombrou e, percebendo a iminência da guerra mundial, mudou-se para os Estados Unidos em 1939.

Em 1941 McLaren juntou-se ao NFB do Canadá criando suas obras mais famosas. Sua obra-prima foi Neighbours (Vizinhos), de 1952, que mostra a irracionalidade do homem através de uma mensagem política, contra a violência. Foi premiado com o Óscar de melhor curta-metragem em “live action” de 1953.

O dia 11 de abril de 2014 marcou o centenário de um dos maiores animadores da história. Com meio século de carreira, Norman McLaren deixou como legado 59 filmes de animação. Ainda hoje seu nome é lembrado por qualquer animador no mundo pelas suas técnicas revolucionárias, fruto de uma vida inteira de experimentos dentro de estúdios e laboratórios. No Brasil suas ideias inovadoras foram combustível para criação do Anima Mundi, em 1993. É que os realizadores brasileiros participaram de um projeto da National Film Board of Canadá, em parceria com a extinta Embrafilme, para a formação profissional de animadores entre 1985 e 1987. O próprio McLaren acompanhou o projeto e analisou os curtas produzidos. Daí em diante a história do festival estaria atrelada para sempre ao trabalho do animador. Em 2007, ano de comemoração dos 15 anos do Anima Mundi, a NFB disponibilizou cópias em 35 mm. dos filmes de McLaren para uma sessão especial de sua obra. Mas isso já é o final da história. Vamos ao início dela…

Stars and Stripes

Stars and Stripes

 

Quem foi Norman McLaren?

Norman McLaren estudou na Escola de Belas Artes de Glasgow, onde cursava Desenho de Interiores. Foi lá que conheceu John Grierson, futuro fundador do National Film Board de Canadá. Ainda estudante, participou do núcleo de cinema da faculdade, a Kine Society, onde produzia filmes experimentais inspirados nos trabalhos dos russos Eisenstein e Pudovkin. Apesar das deficiências dos equipamentos da universidade, ignorou todos os obstáculos e começou a desenhar diretamente na fita de celuloide. É assim que os gênios encaram os problemas. Ainda na universidade embarcou em temáticas sociais, uma marca que estaria presente em toda a sua carreira. É o caso de “Hell Unlimited” de 1936, um manifesto contra a guerra, onde ele misturou filmagens de ação direta, desenhos, esculturas e “stop motion”. No mesmo ano McLaren foi para a Espanha em plena guerra civil, onde trabalhou como cinegrafista para “Defence of Madrid”, do cineasta britânico Ivor Montagu. A experiência deixou uma marca social inegável em seu trabalho, consolidando sua posição de artista pacifista.

O cenário de guerra o incentivou a partir para os Estados Unidos poucos anos depois. Antes, porém, McLaren trabalhou no General Post Office Film Unit, em Londres, a convite de Grierson, tal como antes sinalamos. Foi lá que realizou seu primeiro filme profissional, “Love on the Wing“, produzido pelo cineasta brasileiro Alberto Cavalcanti, de quem McLaren era grande admirador. Em 1939 desembarcou em Nova York, onde realizou alguns filmes para o Museu Guggenheim, como “Dots” e “Loops“. Já em 1941 o animador imigrou para o Canadá, reencontrando Grierson e ingressando na NFB. Os anos de guerra que sucederam incentivaram McLaren a criar cinco filmes sobre o tema. Com “V for Victory“, “Five for Four“, “Hen Hop” e “Dollar Dance”, ele aperfeiçoou sua técnica de desenho à mão. Finalmente “ancorado”, McLaren fez da NFB seu laboratório de animação. Em 1951, “Around is Around” foi o primeiro filme da história do cinema a apresentar efeitos 3D. Os desenhos bidimensionais eram fotografados e para a obtenção do efeito estereoscópio (3D) McLaren utilizava dous projetores que exibiam frames separados. Já em “X-Rays”, o animador fez desenhos sobre raios-x de sua própria cabeça. Ao longo da carreira, realizou diversas experiências com luzes e profundidade, sempre sincronizando música e imagem, criando dimensões únicas. Consagrado, além do Óscar de Melhor Animação por “Vizinhos”, em 1953, o animador recebeu uma Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes por seu curta “Blinkity Blank”, em 1955. Norman McLaren morreu no dia 26 de janeiro de 1987, mas sua arte continua presente, mantendo-se atual e influenciando animadores no mundo inteiro.

FILMOGRAFIA BÁSICA:

  1. Boogie-Doodle (Canadá, 1940, 4 min., cor, estreia em 1948). Roteiro: Norman McLaren.

Música: Albert Ammons. Produtora: National Film Board of Canada (NFB).

Nota: Pode ver-se entrando em:  https://www.youtube.com/watch?v=TgJ-yOhpYIM

Argumento: Realizado sem o uso da câmara, desenhando as formas diretamente sobre o celuloide com tinta comum. “Boogie”, que é a música, foi interpretada por Albert Ammons, pianista afroamericano de jazz e “Doodle” são os desenhos, elaborados por McLaren, que combinados logram com grande sucesso o experimento rítmico, brilhante e colorido que é este filme.

  1. C´est l´aviron (Canadá, 1944, 3 min., preto e branco).

Produtora: National Film Board of Canada (NFB).

Roteiro: Norman McLaren.

Nota: Pode ver-se entrando em: https://www.youtube.com/watch?v=H3qmo4xQjGE

Argumento: Este filme é uma ilustração de uma canção popular franco-canadiana, em forma de colagens progressivas e imagens estáticas que passam para adiante do ecrã, dando um efeito rudimentar de 3D. A fita representa uma mudança bastante notória no estilo artístico de McLaren a respeito dos seus trabalhos anteriores.

  1. Vizinhos (Neighbours) (Canadá, 1952, 8 min., cor).

Roteiro e música: Norman McLaren. Fotografia: Wolf Koenig.

Produtora: National Film Board of Canada (NFB) / Office National do Film do Canada (ONF).

Nota: Pode ver-se entrando em: https://www.youtube.com/watch?v=xIEkXQ1wW3I

Argumento: Dous vizinhos pelejam por uma flor. O filme é um dos apelos antibélicos mais descarnados que se realizaram no cinema. Teve um grande sucesso a nível internacional, causando um grande impacto. McLaren rodou este filme com só dous atores, sendo Grant Munro um dos protagonistas e também grande animador, manipulando depois a fita de modo que parecem caricaturas. A inovadora técnica com que contribui McLaren chama-se “pixillation”, à qual incorpora um som sintético que ele mesmo criou a base de riscar com um punção o som real da fita.

  1. Blinkity Blank (Canadá, 1953, 5 min., cor). Produtora: National Film Board of Canada (NFB).

Roteiro: Norman McLaren. Música: Maurice Blackburn.

Nota: Pode ver-se entrando em: https://www.youtube.com/watch?v=vRBVWCs1KW4

Argumento: Este filme ganhou o prémio à melhor curta-metragem no Festival de Cannes de 1953. Para McLaren, a técnica de desenhar diretamente sobre o celuloide conduz à liberdade absoluta do criador. Em agosto de 1960 na revista Tempo de Cinema McLaren comentava: “Tentei manter na minha relação com o filme a mesma solidão e intimidade que existe entre o pintor e a sua tela… Nos filmes, uma elaborada série de processos mecânicos, químicos e óticos atuam. O qual se torna um perfeito terreno de cultivo para a ausência de intimidade, as frustrações, os sentimentos doentios e a hostilidade entre o artista e a obra terminada. Trabalhar com um pincel numa tela é um simples e direto prazer. Trabalhar num filme deve ser igual”.

  1. A cadeira (A Chairy Tale) (Canadá, 1957, 10 min., preto e branco). Roteiro: Claude Jutra.

Música: Maurice Blackburn, Chatur Lal e Ravi Shankar.

Produtora: National Film Board of Canada (NFB) / Office National do Film do Canada (ONF).

Nota: Pode ver-se entrando em: https://www.youtube.com/watch?v=5XIiWOuDuxc

Argumento: Uma cadeira que não quer que se sentem nela e um homem que interpreta um “pas de deux”. Divertidíssima obra em que um jovem pretende fazer uso de uma cadeira que se lhe nega a cada momento. A música é de Robi Shonkor, um dos melhores músicos de sitar do século XX, descoberto para o público ocidental por McLaren, muito antes de que o fizessem os Beatles. A relação entre a matéria e o homem põe-se em questão.

  1. Fantasia (A Phantasy) (Canadá, 1957, 7 min., cor). Roteiro: Norman MacLaren.

Música: Maurice Blackburn. Produtora: National Film Board of Canada (NFB).

Nota: Pode ver-se entrando em: https://www.youtube.com/watch?v=d6zXDC56g5Y

Argumento: Uma viagem surrealista feita em técnica de pastel, “metamorfose de imagens”, como a chama o realizador. Neste filme a trilha sonora foi composta posteriormente por sons sintéticos criados por McLaren e fundo musical de Maurice Blackburn, que mereceu 2 prémios internacionais. As imagens surrealistas lembram a Salvador Dalí, Yves Tanguy ou René Magritte, e vão mudando de forma sincronizada ao ritmo do som sintético e de uma interpretação de jazz por um saxofone.

  1. O melro (Le Merle / The Blackbird) (Canadá, 1958, 4 min., cor). Roteiro: Norman MacLaren.

Fotografia: Douglas Poulter. Música: Maurice Blackburn.

Produtora: National Film Board of Canada (NFB).

Nota: Pode ver-se entrando em: https://www.youtube.com/watch?v=mc1DlBU18Fw

Argumento: Animação de recortes, ilustrando uma popular canção franco-canadiana. Apresentam-se colagens brancas sobre fundos de pastel, para animar a canção, em que um pássaro vai perdendo partes do seu corpo à medida que avançam os versos da cantiga e os volta a recuperar depois.

  1. Mosaic (Canadá, 1965, 5 min., cor). Roteiro: Norman McLaren e Evelyn Lambart.

Música: Norman McLaren. Produtora: National Film Board of Canada (NFB).

     Nota: Pode ver-se entrando em: https://www.youtube.com/watch?v=IwA_L9otKm8

Argumento: Um jogo na retina do olho. A base deste filme é um só quadrado pequeno que se divide para formar um mosaico colorido. Obteve 5 prémios internacionais.

  1. Duo (Pas de deux) (Canadá, 1967, 13 min., preto e branco). Roteiro: Norman MacLaren.

Fotografia: Jacques Fogel.  Produtora: National Film Board of Canada (NFB).

Nota: Pode ver-se entrando em: https://www.youtube.com/watch?v=H-uwuH_Qix4

Argumento: Múltiplas imagens em movimento de dous dançarinos de ballet, Margaret Mercier e Vincent Warren, criadas mediante a técnica de voltar a revelar os mesmos quadros do filme. Linda curta-metragem em que McLaren procura captar cada movimento de um ballet sinuoso e lento. Há momentos em que as imagens filmadas representam semelhante fluidez que um há de agudizar a visão para não confundir braços e pernas em movimento com a água.

  1. Synchromy (Canadá, 1971, 7 min., cor). Roteiro e música: Norman McLaren.

Produtora: National Film Board of Canada (NFB).

Nota: Pode ver-se entrando em: https://www.youtube.com/watch?v=UmSzc8mBJCM

Argumento: Animação experimental que flerta com o potencial do computador e as novas técnicas óticas para compor ritmos; e que sincroniza música e imagem, numa espécie de representação abstrata de cromatismos pontuados por ruídos eletrónicos. Para realizar este filme McLaren empregou inovadoras técnicas para compor os ritmos do piano. Depois dispôs as cousas de forma tal que se veja o que se escuita. É a sincronização de imagem e som em todo o sentido da palavra.

  1. Ballet Adágio (Canadá, 1972, 10 min., cor). Produtora: National Film Board of Canada (NFB).

Fotografia: Jacques Fogel, Douglas Kiefer. Música: Tommaso Albinoni.

Nota: Pode ver-se entrando em: https://www.youtube.com/watch?v=EoSU7M7MH8g

Argumento: Um par, David e Anne Marie Holmes, baila em pas de deux um adágio de Albinoni, uma das danças mais exigentes do ballet clássico. O filme está realizado à câmara lenta para apreciar a estética do ballet e a técnica dos movimentos.

  1. Narcissus (Canadá, 1983, 22 min., cor). Produtora: National Film Board of Canada (NFB).

Fotografia: David De Volpi. Música: Maurice Blackburn.

Nota: Pode ver-se entrando em: https://www.youtube.com/watch?v=meQm-uH8cI8

Argumento: Um ballet do mito grego do formoso jovem que se condena a uma existência encerrada pelo amor a si mesmo. Visualmente deslumbrante, o filme é um compêndio das técnicas desenvolvidas por McLaren através de toda uma vida de experimentação fílmica. Filme, dança e música combinam-se magistralmente para celebrar o ancestral mito e o seu eterno significado. Os dançantes apresentam a tragédia grega de Narciso, o formoso jovem cujo excessivo amor-próprio o condenou a uma existência cativa. Cinema, dança e música foram fusionadas de forma maravilhosa neste filme, um dos últimos realizados por McLaren.

ANTOLOGIA FÍLMICA EM DVD: FICHAS TÉCNICAS:

    A Magnus Opus do Brasil editou nos anos 2006-2007 uma caixa com três DVDs, que recolhem uma antologia de curta-metragens, sob as epígrafes Espaço e Luzes, Surrealismo e Dança e Movimentos. Os três volumes apresentam um total de 30 filmes de McLaren.

  1. Vol. I: DVD “Espaço e Luzes”. Canadá, 80 min., preto e branco e cor. Produtora: NFB do Canadá.norman-mclaren-capa-dvd-espaco-e-luzes

Conteúdo: 8 curta-metragens: 7 Till 5 (1933), Love on the Wing (1938), C´est L´aviron (1944), A Little Phantasy on a 19th Century Painting (1946), La Poulette Grise (1947), A Phantasy (1952), Blinkity Blank (1955) e Spheres (1969).

Comentário: os filmes que se incluem neste volume apresentam as suas principais experiências com luzes e profundidades, sempre tendo a música sincronizada com as imagens, criando dimensões belíssimas de pura obra de arte. Alguns filmes são originalmente sem som. Nos extras deste DVD aparecem 3 registos de testes que McLaren fez antes de iniciar as filmagens.

  1. Vol. II: DVD “Surrealismo”. Canadá, 80 min., preto e branco e cor. Produtora: NFB do Canadá.norman-mclaren-capa-dvd-surrealismo-0

Conteúdo: 15 curta-metragens: Boogie Doodle (1940), Dots (1940), Loops (1940), Stars and Stripes (1940), Hen Hop (1942), Mail Early (1942), Hoppity Pop (1946), Fiddle-de-Dee (1947), Begone Dull Care (1949), Mail Early for Christmas (1959), Serenal (1959), Short and Suite (1959), Lines Horizontal (1960), Lines Vertical (1960) e Mosaic (1965).

Comentário: Influenciado pelo surrealismo, desde seus primeiros filmes na Escócia, na década dos 30, até os seus últimos trabalhos no NFB do Canadá, no início dos anos 80. Este volume é uma compilação incrível de 15 curta-metragens, que aborda de forma abstrata toda a influência surrealista e dadaísta que McLaren teve. Alguns filmes são originalmente sem som.

  1. Vol. III: DVD “Dança e Movimentos”. Canadá, 75 min., preto e branco e cor. NFB do Canadá.

norman-mclaren-capa-dvd-danca-e-movimentoConteúdo: 7 curta-metragens: Polychrome Fantasy (1935), Spook Sport (1939), A Chairy Tale (1957), Six and Seven Eighths (1961), Pas de Deux (1967), Ballet Adágio (1972) e Narcissus (1983).

Comentário: Nas 7 curta-metragens deste DVD, a dança e os movimentos do corpo são tratados quase como experiências para novas técnicas de filmagem. McLaren uniu sua paixão pela dança e seu virtuosismo incansável no desenvolvimento do cinema.

Nota: Em 2006, sob o título de Norman McLaren: The Master´s Edition, foi editada no Reino Unido, com o apoio do NFB do Canadá, uma caixa com 7 DVDs, em que se incluem remasterizados 38 curta-metragens de McLaren, das 59 que chegou a realizar durante a sua vida. O total da duração dos 7 DVDs é de 420 minutos.

McLAREN, O POETA DO CINEMA DE ANIMAÇÃO:

    McLaren foi um dos grandes precursores da animação experimental, e teve a capacidade de unir o cinema experimental e de vanguarda com a tradição ilusionista dos espetáculos de animação cinematográfica. Podemos definir MacLaren como o grande poeta do cinema animado, não só pela qualidade da sua filmografia, como também pela forma em que se relacionou com a imagem, a cor e o som, os quais explorou em toda a sua gama e magnitude. Dedicou toda a sua vida à experimentação na arte da imagem animada. Muitos truques, efeitos e estilos de animação que hoje estamos habituados a ver, tanto no cinema como na televisão, foram o resultado dos experimentos que realizou este grande artista ao longo de toda a sua vida.

Blinkity Blank

Pela sua grande experiência fímica, em 1949-1950, foi convidado pela Unesco para participar de um programa de ensino de métodos audiovisuais de divulgação, morando um ano na China ensinando artistas locais a utilizar a técnica de desenho direto no celuloide. E em 1953 outra vez a Unesco financiou uma sua viagem à Índia, onde fez o mesmo labor que na China e permaneceu muitos meses, ficando vivamente impressionado pela música indiana, conforme suas próprias declarações. Em 1954 esteve também em São Paulo para participar no festival de cinema e fez conferência no Rio de Janeiro.

Dots

Dots

De forma sintética resenho a seguir os factos mais importantes no labor cinematográfico de McLaren:

– Depois de trabalhar como camarógrafo em 1936 na guerra civil espanhola, que o impressionou muito negativamente, emigrou para os EUA, e na cidade de Nova Iorque, onde morava, foi convidado para trabalhar no departamento de animação do NFB do Canadá, onde foi uma figura fundamental e realizou a maioria das suas obras, experimentando infinidade de técnicas.

 

 

No Canadá criou novas técnicas de filmagem, nas quais a música jogava um grande papel. Foi ele um dos primeiros em explorar a técnica da animação direta sobre o celuloide, forjando uma obra desenfadada e inocente, em que as formas, cores e animações singelas de personagens esquemáticas, se moviam ao som da música tanto ou mais naïf. norman-mclaren-filme-vizinhos

Nos seus experimentos aplicava linhas e manchas de cores sobre o mesmo suporte fílmico (a animação de personagens reais, filmados fotograma a fotograma), o trabalho de laboratório até chegar a propostas como a combinação sintética entre cores (dispostos geometricamente) e sons. Experimentou também com o som sintético e desenvolveu um grande número de “efeitos semimusicais”. O mesmo fez com o som animado, uma forma de som “visível” feito sinteticamente e desenhado à mão diretamente sobre a pista de som da fita de celuloide. Contudo, uma das suas técnicas mais destacadas é a denominada “Pixilação”, espécie de “Stop Motion” realizada com corpos humanos, em que os atores reais são filmados fotograma a fotograma, ou suprimindo fotogramas do total do movimento, de forma que o resultado final oferece movimentos espasmódicos e impossíveis.

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– O seu compromisso com a paz: a criatividade, o humor e a técnica são os seus traços distintivos da sua obra, mas na sua vida pessoal foi conhecido pela sua clara vontade pacifista que o levou a participar em projetos audiovisuais educativos promovidos pela Unesco, como antes comentámos.

– O amor pela dança, outro elemento muito importante na sua procura constante, realizando nos últimos anos curta-metragens com a participação de destacados dançarinos, que resultaram ser verdadeiros poemas.

– Chegou a realizar também, com a ajuda do seu mais estreito colaborador, Grant Munro, uma série de cinco filmes denominados “Animated Motion”, que constituem um autêntico Curso de Cinema de animação, nos quais se analisam os conceitos de tempo e espaço nas filmações quadro a quadro.norman-mclaren-imagem-de-um-filme

– Ao longo da sua vida de realizador fílmico, recebeu infinidade de prémios em festivais de todo o mundo. Em 1966 o Conselho do Canadá entregou-lhe uma medalha de reconhecimento pelo conjunto da sua obra. No mesmo ano, o Inter Film de Edimburgo concedeu-lhe o Troféu de Prata, e nomeou-o com o título de “Diretor do Ano” por toda a sua obra.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

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    Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma (linguagem cinematográfica: planos, contraplanos, panorâmicas, movimentos de câmara, jogo com o tempo e o espaço, truques cinematográficos, etc.) e o fundo dos filmes antes resenhados. Depois de organizar um ciclo composto de quinze curta-metragens realizadas por Norman McLaren.

Organizamos no nosso estabelecimento de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a McLaren. Na mesma incluímos cartazes e murais, com fotos, desenhos, esquemas das suas técnicas, filmografia, etc. A mesma pode ser completada com textos sobre a sua figura e obra, procurados na internet e também com livros e revistas, se pudermos consegui-los.

Utilizando alguma das técnicas fílmicas de McLaren, podemos tentar realizar na nossa escola, com a ajuda de todos (alunos e docentes) uma curta-metragem sobre um tema selecionado por consenso.

    

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José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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