Antón Ruanova : “Estudando um ano português acho que aprendi mais galego que nos anos de colégio e instituto”

Associações como a AGAL são vitais para toda a sociedade galega



 

ruanova-01Antón Ruanova é um triatleta galego que adotou o Brasil como seu novo lar. Mesmo depois de apresentar o seu talento e esforço para estar entre os melhores com excelentes resultados, este atleta deparou-se com a falta de oportunidades que o levou a abrir mão de tentar o sonho olímpico há quatro anos. No labirinto da vida, uma das portas levou-o até o Brasil, onde o atleta não esqueceu o prazer de competir para finalmente voltar à elite e iniciar, sob bandeira brasileira, o caminho para os jogos olímpicos de Tóquio 2020.

Ora, salienta a importância de sairmos fora do país para tirar muitos preconceitos com a nossa língua, e acredita na utilidade de estudar português para melhorar o uso do galego.  

 

As pessoas pensam que a vida dum esportista profissional é fácil. O que provocou trocares o esporte de elite pelo trabalho no âmbito da economia?

É engraçado, eu falaria muitas palavras para definir a vida dum esportista profissional mas nunca fácil. É um sonho, um reto diário. É emocionante e dá grande satisfação, mas não é uma vida simples. Não existe salário em um esporte individual e pequeno como o triatlo. Eu faço minha vida com as premiações das provas e com uma bolsa de renovação anual após fazer um pódio em campeonato oficial internacional. A incerteza marca o dia a dia, uma lesão ou falta de saúde pode fazer que não entre dinheiro na tua conta durante vários meses. A decisão de trocar esporte profissional pelo trabalho no âmbito da economia teve a ver com a dificuldade para fazer minha vida com o triatlo em Espanha. O trabalho num escritório não é tão emocionante mas dá-te um salário seguro cada mês.

Porque tens escolhido o Brasil e como é na atualidade a vida dum galego lá? Quais são as principais diferenças e quais as parecenças? 

Eu cheguei no Brasil por trabalho. Podia ter escolhido quase qualquer lugar no mundo, mas a América Latina atraiu-me muito e mais ainda o Brasil por uma questão linguística. Todo galego deveria ter a chance de viajar a algum país da lusofonia e muitos preconceitos com o nosso idioma desapareceriam. Um galego sente-se à vontade desde o primeiro dia aqui. A maior diferença para mim é a enorme desigualdade social e econômica, difícil de compreender para um europeu.ruanova-02

 

É vontade o que precisamos para que mais pessoas possam sentir o galego como um tesouro.

 

Quando falas do triatlo no Brasil, não apenas assinalas a falta de provas da elite por equipas mas também a falta de mais escolinhas. Porquê? Que tens aprendido com o esporte? 

O caso do triatlo espanhol é paradigmático. Um país com escassos incentivos econômicos para os esportistas de elite que mesmo assim chega a ser um dos melhores do mundo. Esse sucesso acho que tem muito a ver com a estrutura de inúmeras equipas, escolinhas e grandes técnicos por todo o país. E isso foi atingido com a ajuda de dois referentes mundiais: Ivan Raña e Javier Gomez. No Brasil há condições econômicas, mas acho que falta desenvolver equipas, técnicos e escolinhas. Sem isso é muito difícil para o talento emergir. No esporte (e na vida), aprendi que dinheiro é importante, mas mesmo com poucos recursos há sempre possibilidades quando um plano é elaborado e se leva a cabo com fé. É preciso abrir a mente para estar disposto a melhorar.

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Depois de mais dois anos com apenas 10 horas de treino semanais ao priorizar os estudos e o trabalho, consegues atingir um 5º posto e 3 vitórias nas quatro primeiras competições no passado ano. Como é que foi isso possível? 

Acho que cheguei com muita força. Ficar fora quase três anos fez-me aprender muito, a saber realmente que é o eu queria, a fazer as coisas nas quais acredito e não me deixar simplesmente empurrar pela rotina sem mais. O começo foi muito brilhante mesmo sabendo que podia alcançar esse patamar, mas foi de aí para frente quando senti mais a minha inatividade e tive de remar rio acima.

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O que é que te faz superar os momentos de maior dificuldade, no que o sofrimento pode fazer duvidar a qualquer um de persistir na luta pelo objetivo? 

É importante não esquecer qual é nosso objetivo. Um alvo claro faz-nos poder desenvolver um plano para o atingir e as coisas ficam um pouco mais fáceis. Mesmo assim há dias duros logicamente, e é aí aonde a gratidão e a mentalidade positiva nos ajudam. Olhar os pequenos progressos, ser grato por eles e não esquecer aonde queremos chegar, ajuda-me muito.

Quando percebeste que o galego era uma vantagem para te comunicar nesse âmbito em relação aos teus parceiros da seleção espanhola? 

Simplesmente ao atravessar o Minho. Viajar é um ensinamento continuo e tiramos muitos preconceitos desde o primeiro minuto. Entrar em Portugal é tirar por terra tudo quanto ouvimos desde crianças de que o galego é menos que o castelhano, que não tem utilidade… Não acredito no conceito de utilidade econômica para definir uma língua (acho que vá muito além disso) mas para quem quer dados, o galego abre-nos a uma comunidade de 250 milhões de pessoas no mundo.

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Como te achegas ao mundo da lusofonia e porque é que decides estudar português? 

Sempre gostei do português, ainda mais após cada viagem ao país vizinho. Comecei a estudá-lo em 2013 na Escola Oficial de Idiomas em Compostela com o professor Maragoto. Cada aula supunha encontrar palavras que minha avô diz mas já não mais se ouvem nas ruas. Estudando um ano português acho que aprendi mais galego que nos anos de colégio e instituto.

O triatlo é um esporte no qual é preciso superar provas em diferentes meios. Quais achas tu que são as que precisamos superar para que o galego seja entendido na sua dimensão internacional e, como tu dizes, como um tesouro? 

A chave foi apontada por Carvalho Calero já no ano em que eu nasci e acho que hoje tem mais vigor do que nunca: “o galego ou é galego-português ou será galego-castelhano”. Os galegos temos duras provas na frente mas pequenas mudanças podem trocar a situação atual. A introdução de português nas escolas, uns médios públicos que nos achegassem ao mundo da lusofonia, a possibilidade de assistir canais de TV de Portugal… Como para quase tudo, é vontade o que precisamos para que mais pessoas possam sentir o galego como um tesouro.

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Cada pequena vitória da AGAL e uma vitória do galego, portanto de toda a sociedade galega.

Porque acreditas que associações como a AGAL são necessárias? O que podes dizer àqueles que fazem parte dela para encorajá-los na luta?

São vitais! Cada pequena vitória da AGAL e uma vitória do galego, portanto de toda a sociedade galega. Grandes passeios começam com um pequeno passo. A luta é grande pero há anos que ideias que pareciam difíceis de assumir vão entrando na sociedade até nos setores mais conservadores. Olhar os pequenos progressos, ser grato por eles e não esquecer aonde queremos chegar ajuda muito.

Tu dizes que és um sonhador confesso e o galego a língua na qual sonhas, o que é que tu aguardas para o futuro da nossa língua? 

Sou sonhador e otimista, e como tal imagino um futuro onde possa falar galego de manhã estudando matemáticas no colégio, à tarde em uma entrevista de emprego, a noite em uma balada… O problema não é que se fale mais ou menos, é um problema de prestígio e para corrigi-lo devemos envolver às referências da nossa sociedade. Sonho e aguardo um futuro aonde se possa ser realmente livre falando galego na nossa terra. Sem preconceito, com orgulho e com dignidade.

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Graciela Lois

Graciela Lois

Filha de emigrantes galegos em Buenos Aires. Sempre com Galiza como referente até que, graças a uma bolsa da Fundação Barrié, veio estudar à USC. Mais um Mestrado e um Doutorado depois, ficou em Santiago de Compostela até hoje. Psicóloga do Rendimento desportivo e profissional.
Graciela Lois


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  • Diego Bernal

    Magnífica entrevista! Parabéns!

    • Ernesto V. Souza

      Pois… Mais uma magnífica entrevista e de uma nova colaboradora…