Antom Pombo: “a capacidade de sedução do Caminho é tal que a maior parte dos utentes, prescindindo da sua motivação inicial, caso a tivessem, acabam por se sentir peregrinos”



pombo01Em junho de 2018 a Através Editora editou o Guia do Caminho Português, da autoria de Antón Pombo.

O PGL conversou ele, um dos maiores especialistas e investigadores sobre as rotas jacobeias a Santiago de Compostela, autor ou co-autor de 12 livros relacionados com o Caminho e um ativista da sua recuperação.

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Para as pessoas leigas no Caminho de Santiago, o trajeto francês e o próprio Caminho são uma única realidade. No entanto, são vários os percursos que, com maior ou menor tradição, fazem parte deste facto cultural. Que lugar ocupa o Caminho Português nesta constelação?

Pois já há anos que o Caminho Francês, apesar de manter a primazia (são 60% dos peregrinos que recolhem a Compostela, o documento que acredita ter concluída a peregrinação e que é expedido pela catedral de Santiago), não é o único que atingiu umas cifras consideráveis de utentes. Precisamente o Português, com as suas variantes, é o segundo em número, ao redor de 60.000 peregrinos ao ano, e, além disso, o que mais está a crescer ultimamente. Para mim é uma boa notícia, pois embora o Caminho Francês seja a rota jacobeia por antonomásia, a que mais testemunhos históricos possui, e também a melhor dotada de serviços, há outros grandes itinerários históricos bem documentados na Península Ibérica, entre eles as rotas do Norte, a Via da Prata e, de certeza, o Caminho Português, todos eles reconhecidos sem nenhum género de dúvidas.

O autor de um dos prólogos, José Antonio de la Riera, fala-nos do “Caminho do Trovadores”. Em que medida julga esta denominação acertada para descrever o Caminho Português?

José Antonio, durante muitos anos presidente da Associación Galega de Amigos do Camiño de Santiago, é uma pessoa fundamental nos trabalhos de recuperação do itinerário, tanto pelas gestões realizadas em Portugal como polos esforços realizados para atingir a sua completa sinalização a partir de Lisboa, com a posterior abertura de albergues hospitaleiros como o do convento de Ervão. Desde o começo ele criou esta denominação ou marca, precisamente em contraposição ao Caminho da épica, que seria o Francês com Rolando e o Cide, porque poucos elementos do Medievo revelam-se mais definitórios da realidade luso-galaica e, como é bem sabido, os jograis moviam-se polos caminhos, de castelo a castelo, de vila a vila, ao lado dos peregrinos, compondo e interpretando as suas cantigas.

Tendo em conta a origem das pessoas que transitam de Portugal para a Galiza, em que medida este caminho é significativo no relacionamento galego-português? O Guia vai ser útil para mostrar o que ambas as comunidades têm em comum?

Na atualidade, por fortuna, os nossos irmãos de além o Minho já participam da grande peregrinação jacobeia como faziam os seus antepassados, desde os reis e a nobreza até aos mais humildes lavradores e artesãos. Os portugueses têm recuperado e posto em valor o seu rico património jacobeu que, do mesmo modo que noutros lugares da Europa, nos transfere a um tempo em que havia um sentido fraternal entre os peregrinos que percorriam os caminhos em direção a Compostela. E com certeza, mais ainda pelos grandes vínculos que existem entre portugueses e galegos, reforçados agora pelo trânsito de uns e de outros para Santiago na verdade, mas também para Fátima, com os mesmos itinerários balizados com as setas azuis. O guia não pretende mais que contribuir a este esperançoso movimento, que permite um conhecimento a câmara lenta, reflexivo e intenso, todo o contrário do que acontece com as abordagens turísticas em moda percebidas como experiências de consumo rápido.

Se fizermos uma fotografia da saúde deste percurso, por exemplo no que diz respeito às infraestruturas, na atualidade e nos anos 90, que peso têm as instituições públicas e o associativismo na sua recuperação?

É bem sabido o esforço da administração galega por recuperar e manter em perfeito estado os caminhos de Santiago. Portugal chegou mais tarde a este processo, mas agora está a apostar decididamente pelo Caminho de Santiago, que já não é percebido como um benefício para a Galiza, onde se localiza a meta, mas também, de certeza, para todos e cada uma das câmaras municipais e localidades atravessados por ele.

A saúde do Caminho Português, atendo aos dados quantitativos, é excelente, mas não se pode dizer o mesmo das suas infraestruturas, mais fracas à medida que nos deslocamos para o sul. Se falamos do Caminho Central, sem dúvida pode-se homologar com qualquer um dos itinerários jacobeios maiores da Espanha ou da França, mas está muito necessitado de intervenções de urgência, sobretudo para levarem os caminhantes fora das estradas, em ocasiões, muito perigosas. Também faltam albergues, mesmo que a iniciativa privada esteja a resolver, ano após ano, este problema.

A edição da Através recolhe a variante de Braga entre o Porto e Ponte da Lima. Qual a saúde mesma desta variante numa perspetiva histórica?

A variante de Braga gozou da sua época culminante nos primeiros tempos da peregrinação, mas depois ficou um bocado relegada, como ocorreu com outras variantes, a favor do Caminho Central. Porém, recuperada com o esforço das associações jacobeias da zona, acabará por atrair cada vez mais peregrinos, já que o seu principal valor é a própria cidade de Braga, a histórica capital espiritual do país com a sua catedral e conjunto histórico, o impressionante Sacro monte do Bom Jesus, o santuário mariano de Monte Sameiro… Na atualidade, para além disso, será ponto de partida de uma inovadora Via Mariana que, em paralelo com a via jacobeia, percorrerá o Norte de Portugal e da Galiza até o santuário da Virgem da Barca, em Mugia.

Há quem julgue que o Caminho de Santiago é uma experiência apenas para pessoas de uma dada fé. Concorda com esta perspetiva?

A peregrinação por fé continua a ter presença como outrora, e sempre haverá uma percentagem de peregrinos “canónicos”. No entanto, a realidade atual do Caminho de Santiago nada tem de exclusividade, e a experiência foi-se abrindo a todo o tipo de pessoas, desde as motivadas pela religiosidade, ou uma mais ambígua espiritualidade, até outras experiências mais próprias da sociedade secularizada, assim a reflexão, a procura pessoal, o enriquecimento cultural, a aventura e mesmo aspetos desportivos ou em volta das relações sociais. Por fortuna, a capacidade de sedução do Caminho é tal que a maior parte dos utentes, prescindindo da sua motivação inicial, caso a tivessem, acabam por se sentir “peregrinos”; eis a grandeza de uma rota alicerçada na história e na tradição que, na sua origem, e também na sua recuperação nos anos 90 do século passado, nada tinha que ver com processos turísticos de marketing.

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Vamos acabar com uma pitada de ficção histórica. Como será o Caminho Português em 2050?

2050 fica muito longe ainda, e as tentativas de fazer ficção científica a longo termo, como sabemos por meio da literatura e do cinema, costumam concluir em visões apocalípticas que nos provocam desassossego. O meu desejo, desde já, é que naquela altura seja um Caminho maduro, capaz de aproveitar o tempo das vacas gordas, a curva ascendente em que se encontra agora, não para abafar e pôr doente a galinha dos ovos de ouro, mas para melhorar as suas infraestruturas e dotar-se de um sentido perdurável, a tão cacarejada sustentabilidade.

Com certeza, como teimam as autoridades portuguesas, não estaria nada mal que muito antes dessa data tivesse sido reconhecido como Património Mundial pela Unesco, mas para além deste tipo de distinções, o fundamental é que a gente que vive ao pé da rota sinta o Caminho como algo próprio, uma riqueza em primeiro lugar cultural, e que tentemos tratar os peregrinos com essa cálida hospitalidade que distingue portugueses e galegos. Se for de outro modo, em 2050 pode que o Caminho Português, e os demais, acabem por vir a sofrer a sorte ligada às modas, sempre passageiras.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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