ALDEIAS DE ORDES

Amores ei



 

Para o exíguo grupo de vilegos que podia compor a começos do século XX umha sorte de burguesia ordense, Parada parece ser que serviu de zona de retiro estival. Juntam-se nesta paróquia três topónimos em que ressoam com força os tópicos amorosos da lírica medieval, conformando um peculiar locus amoenus: O Pinar da Torre, Fontefria e Fonte Cervo evocam o mundo poético do Pero Meogo: “Tardei, mia madre, na fontana fria / cervos do monte e auga volvian / os amores ei”. Esta simbologia erótica do cervo na fonte foi analisada por Ferrín[1], e o antropólogo X. R. Mariño Ferro –com raízes em Poulo- estudou-na em profundidade também no romanceiro popular.

Paróquia de Parada, em Ordes

Paróquia de Parada, em Ordes

Fontefria é topónimo que nom precisa explicaçom, entanto que Fonte Cervo é junto com a próxima Revolta do Cervo, em Gorgulhos, o único rasto toponímico deste emblemático animal que conseguim achar na comarca de Ordes. Da torre à que pertence o Pinar [2] (há também um Moinho da Torre) nom sei se ficam ruínas evidentes como sucede na Agra da Torre, de Buscás, onde se podem ver com claridade os cimentos de um prédio do qual nom se conhece mençom documental. Seja como for, oxalá pudêssemos deleitar-nos imaginando no Pinar da Torre o rei Dom Dinis a compor poesias aos pinheiros desde as almeias, mas como advertia Walter Benjamin, há “sonhos de felicidade que dormem no fracasso”, açons privadas de vida “que pedem ser realizadas e redimidas”. E é que no Pinar da Torre o que se ouvem som os berros reclamando justiça de Francisco Barreiro Permuy e Germán López Pérez, “passeados” na noite de 23 de outubro de 1936 e cujos corpos foram abandonados no ponto quilométrico 1’9 da estrada a Malpica, justo na altura do Pinar da Torre. Germán era obreiro e membro da UGT, e Francisco, vizinho de Betanços, militava nas Juventudes do Partido Comunista.

Quem tenha na casa algum desses retratos antigos que se faziam antes nas festas e feiras, como essas fotografias tam formosas dos avôs moceando no Sam Paio de Buscás, que saibam que mui bem pudo tê-las feito Antonio Barreiro Belmonte, o pai de Francisco. Instalara-se em Ordes para enterrar o filho, e durante anos ganhou o pam como fotógrafo ambulante e arranjando guarda-chuvas[3].

Notas:

[1] X. L. Méndez Ferrín, O cancioneiro de Pero Meogo, Vigo, Galaxia, 1966.

[2] Mais bem devia ser o Pinar o que pertencia, talvez, à Torre de Gorgulhos.

[3] M. Pazos Gómez, A Guerra Silenciada, Ordes, A. C. Obradoiro da História, 2011, págs. 36-38; e X. Torres Regueiro, As vítimas betanceiras da represión 1936-1939, separata do Anuario Brigantino nº 49, 2006.

 

Os avôs moceando no Sam Paio de Buscás

 

* Publicado em Aldeias de Ordes, 05,03,2018.

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
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  • abanhos

    Mais um formoso texto que nos fornece a wkipédia Vareliana do Carlos.
    Só um apontamento questão:
    Acho que Buscás, deveria se redigir Buscãs, há aí o eco da nasalização dum Buscans- Buscãs… Isso sim, salvo parecer mais ´sábido e sábio