RODÍZIO DE LÍNGUA

Meu amigo sino-galego



 

Sempre que a vida mo permite gosto de passar os meses de verão na aprazível Maianca, no concelho de Oleiros.

Maianca é freguesia de Mera, vila marinheira da antiga comarca das Marinhas. Tem Mera, perto da orla da praia, um bar de nome Naipai.

Durante muitos anos Naipai era para mim um enigmático vocábulo de sonoridade asiática. A hipótese chinesa foi a primeira que pairou pola minha mente. Depois de bazares e restaurantes, os chineses estám a abrir bares, pensei.

Porém, Naipai, acabou por nom ser um primo afastado de Pai Mei, aquele personagem chinês de Tarantino, senom umha simples aglutinaçom dos corriqueiros substantivos nai e pai, que é como neste lar atlántico das Marinhas, de cultura galego-portuguesa, som denominados os nossos progenitores.

Talvez fosse por isso que quando o professor Xoán Lagares ia visitar a Universidade Federal de Viçosa e foi confundido com um palestrante chinês pensei no Naipai de Mera e nas confusons que as línguas podem gerar por pequenas mudanças na maneira de serem grafadas.

-Xoán é um professor galego como eu –esclarecim à turma de alunos brasileiros.

-Mas como assim? Por que tem esse nome esquisito? –perguntárom.

Nem é tam esquisito –retorquim. O único que aconteceu foi um simples ensurdecimento da sibilante inicial, como acontece no nordeste com a expressom o xente e umha pronúncia arcaizante do sufixo final, própria de falas galegas e do norte de Portugal, como ainda é grafado nos paradigmas verbais do português. Daí João deu Xoán.

-Mas professor, por que não escreve João então?

-Sorrim, e pensei, mais umha turma de indesejáveis lusistas!

Em todo o caso, eu apenas queria dizer-vos que meu amigo e compatriota sino-galego, Xoán Lagares, acaba publicar no Brasil o livro Qual política linguística? Desafios glotopolíticos contemporâneos e estou com muita vontade de o ler.

qual-politica

Diego Bernal

Diego Bernal

Diego Bernal nasceu em Lugo em 1982. Licenciado em filologia galega pola Universidade da Corunha iniciou a sua carreira dando aulas de galego na EOI Jesus Maestro de Madrid, foi leitor da Junta da Galiza na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, professor de espanhol no ISEG da Universidade de Lisboa e professor de português nas EOI de Plasencia e de Montijo, na Estremadura. Atualmente mora no Brasil onde trabalha como professor na Universidade Federal de Viçosa.
Diego Bernal

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  • Joám Lopes Facal

    Diego —Diogo?— é bom isso de te confundirem com un chinês no Brasil.
    Esperamos com interesse o teu comentário do livro de Lagares, de tam estimulante título. Já agora, podes conjugar a tua marcada vocaçom filológica com a de cronista em Vilaviçosa? Agradeceriamos, amigo.

    • Diego Bernal

      Obrigado, Joám. Acabei de estar com o Xoán agora mesmo aqui no Rio e já tenho o livro nas minhas mãos. Diego e Diogo som variantes do mesmo nome e ambas registadas em galego-português 😉