Alejandro Dayán: “Há muito mais reintegracionismo latente nas zonas rurais do que se acredita”



alex-dayan-02Alejandro Dayán cresceu nos Cortelhos, no concelho de Jove, terra galego-falante por excelência, onde, na atualidade, as crianças podem acabar por brincar em castelhano se alguma delas não sabe galego.

Em adolescente, estudou em Viveiro onde a sua língua era uma marca social. Não é ortodoxo na escrita e tem apego polo pronome CHE. Trabalhou numa agência de comunicação onde gerou todo o tipo de projetos linguísticos e os da Lusofonia flutuaram sobre ele. A partir de setembro, irá ser doutorando na Universidade de Heriot-Watt. O futuro da língua está no neo-falantismo. Julga que o reintegracionismo deve ser transversal e que é precisa autocrítica por ainda haver certo elitismo.

Alejandro Dayán é natural de um pequeno concelho da Marinha luguesa, Jove. Como era, do ponto de vista linguístico, o concelho onde cresceste sendo criança e como é na atualidade?

Pois na minha infância e mocidade, Jove era um concelho quase monolingue em galego, semelhante a concelhos vizinhos como Burela, porém, as cousas têm mudado consideravelmente na última década. Levo perto de 10 anos fora da Galiza e vejo que há um aumento significativo de espanhol-falantes entre as crianças e a mocidade jovense, isto não é casualidade, faz parte do manifesto processo de substituição linguística, embora muitas pessoas o neguem.

Provenho duma zona de Jove, chamada ‘Os Cortelhos’ (sim, não estou a brincar, ‘é-che’ a exuberante toponímia galega!), onde há pouco mais que três casas. Hoje em dia, as crianças que saem d’Os Cortelhos, a nossa ‘semente’, outrora galego-falantes, já não o são em todos os âmbitos de socialização e ainda que alguma delas fale inicialmente em galego, ao socializarem, numa situação em que tão só uma não o fale, tenho observado que a comunicação termina por se fazer em espanhol.

Lembro que na minha infância, muitas das crianças da escola que tinham vindo das Astúrias ou do Pais Basco, pelo facto das suas famílias trabalharem na fábrica da Alumina,  interatuavam em galego num exercício de integração natural. Temo que já não é assim. Mudou o conto!

Alem disso, sendo a minha família galego-falante, percebo na distância e através do tempo como certas expressões genuinamente galegas já não estão presentes na sua fala. Minha avoa sempre dizia: “vou-me mudar”, ou “vou-me ‘ponher’ uma muda”, agora já diz “vou-me cambiar”; ou perguntava: “está a roupa enxoita?” ou “enxoitou a roupa?”, agora a “roupa está seca”…Como estes exemplos, centos! O avanço da hibridação do galego é inegável.

De uma ecologia galego-falante passas a estudar o bacharelato em Viveiro onde o habitat linguístico é diferente. E também ali onde decorre o teu primeiro contacto com o reintegracionismo.

É! No Vilar Ponte de Viveiro, uma vila, quase monolingue em espanhol (isso sim, um ‘espanhol’ sui generis!), onde tive a sorte de receber aulas de galego com Bernardo Penabade. Esse foi o meu primeiro encontro, muito subtil, com o reintegracionismo. Naquela altura, não percebi a estratégia reintegracionista na sua totalidade, mas aquelas insinuações do Bernardo ficaram em mim para anos depois ressurgirem. Foi sem duvida um ponto de inflexão na minha consciência linguística.

Por vez primeira, apercebo-me com claridade de que sou tratado de maneira diferente por falar galego, não só entre o professorado, mas também entre companheiros/as. Lembro uma professora de história em particular que se dirigia a nós, o grupo de Jove, como se tivéssemos qualquer compromisso intelectual. Quanto à interação com os meus iguais, havia uma certa atitude de condescendência por parte dos/as que eram naturais de Viveiro e falavam espanhol ‘de sempre’, o que vinha a ser mais uma manifestação da ideologia linguística que perpetua essa visão dicotómica de que o ‘cosmopolita’ e ‘aberto’ é o espanhol e o ‘rural’ e ‘fechado’ é o galego, com todos os preconceitos que isso implica. Porém, as aulas de Bernardo iriam reafirmar a minha visão da Galiza e da língua.

Estudaste Ciências Políticas na USC onde o contacto com o lado escuro da norma aumentou.

Assim foi. Durante a minha estadia na USC comecei a ler mais sobre as teses reintegracionistas além de que muita gente do meu ambiente utilizava já a norma da AGAL. Aliás, interessara-me pela linha de pesquisa do Xavier Vilhar Trilho e tive de professor Miguel Anxo Bastos Boubeta, conhecidos os dous pelo seu uso do galego reintegrado nas aulas.

Compostela é uma cidade em que o reintegracionismo tem uma presença relativamente constante, particularmente nos centros sociais, os movimentos estudantis e as organizações mais críticas, as quais foram objeto do meu interesse durante a minha etapa universitária na Galiza.

Quando me fui à França no ano 2007-8, abandonei um bocadinho a minha relação com o reintegracionismo por uns tempos. Quando escrevia em galego, fazia-o umas vezes na norma isolacionista e outras na minha própria norma reintegrada, também sui generis como o ‘espanhol’ de Viveiro. Cousa que ainda continuo a fazer!

O feito de apoiar o reintegracionismo não quer dizer que eu não vá escrever na norma ILG-RAG quando eu quiser ou fazer parte de movimentos ou organizações que a utilizam. Eu sou ateu confesso! Para mim, o reintegracionismo é simplesmente uma estratégia, havendo outras tão legitimas, que me semelha a mais adequada institucionalmente para a nossa língua no contexto em que vivemos, mas não compreendo nem partilho e mesmo me repulsa essa teima do purismo reintegracionista em desqualificar ao galego oficial. O mesmo acontece quando o galeguismo espanholista ou o galeguismo folclórico acusa ao reintegracionismo de se avergonhar da nossa ‘galeguidade’ ou ‘galeguia’ e de querer sermos algo que não somos, etc…É-che um sem-sentido. Basta!

Não che são pessoa amiga da ortodoxia. E sim, adoro o “che” galego! Suponho que como paleo-falante, há questões da língua oral que são, para mim, difíceis de deixar atrás mesmo tendo em consideração os benefícios que trazeria a escrita internacional do galego.

Moraste na França e levas desde 2009 no Reino Unido onde estudaste um Mestrado em Estudos de Tradução e Comunicação Intercultural na Universidade de Surrey (Guildford). Fala-nos da tua tese de mestrado.

Sim, fiz o ultimo ano de Licenciatura no Instituto de Estudos Políticos de Grenoble. Ao terminar, obtive uma bolsa do Ministério de Educação Espanhol para fazer um curso de inglês no Reino Unido e aqui fiquei. Ao ter trabalhado na industria da língua uns anos, cursei um Mestrado em Estudos de Tradução e Comunicação Intercultural na Universidade de Surrey (Guildford).

Na minha tese de Mestrado intitulada: “Traduzindo a identidade galega: considerações sobre a tradução da linguagem retórica e metafórica em textos político-persuasivos” analisei a tradução da retórica identitária galega para o inglês e a potencial comercialização de textos politico-persuasivos e identitários provenientes de contextos menorizados em mercados anglófonos com um estudo de caso em que utilizei a hipotética tradução para o inglês do Sempre em Galiza. Examinei os problemas desse processo tradutor e forneci soluções para: 1. transmitir o contexto periférico duma língua menorizada para uma língua hegemónica e; 2. transferir a essência dum texto altamente ideológico, metafórico e persuasivo — escrito num tempo de conflito — para os códigos culturais atuais.

 

Acredito que a única via factível para lhe dar vida ao galego é a coabitação das duas normas

 

Levas anos a trabalhar numa agência de comunicação onde geres todo o tipo de projetos linguísticos. Foi de alguma utilidade o facto de seres galego?

Foi! E muito! Levo na industria da língua desde o 2010 e desde o 2013 trabalho (até finais deste agosto) numa agência de comunicação que se encarrega da gestão de todo o tipo de projetos linguísticos, quer tradução, interpretação, localização, adaptação digital, validação linguística, etc.

Trabalhamos em mais de 300 línguas e com mais de 3,000 linguistas arredor do mundo. Eu sou Executivo Sénior em Controlo da Qualidade Linguística e Gestor de Projetos. As áreas em que tenho especialização são: a validação linguística para ensaios clínicos ou testes clínicos com projetos que são levados a cabo em mais de 100 países ao mesmo tempo e em mais de 150 línguas (o que implica processos muito complexos de dobre tradução, dobre retroversão, revisão, consultoria, etc.), a tradução de documentação a apresentar em litígios legais internacionais que decorrem em cortes judiciais britânicas e a adaptação digital de materiais de pesquisa para a sua utilização com aparelhos digitais em estudos de investigação que transcorrem durante anos.

O facto de ser galego tem-me situado numa posição privilegiada quanto à gestão de projetos que têm a ver com a lusofonia já que eles me são diretamente atribuídos. Tenho assim aprendido muito sobre a ‘obscura’ e arrevesada linguagem jurídica e administrativa da variedade brasileira do galego e a linguagem médica dos/as nossos/as parentes do sul. A minha experiência profissional tem-me reafirmado ainda muito mais nas minhas convicções reintegracionistas. O facto também de trabalhar habitualmente com línguas tão dispares como o Urdu, Bengali, Árabe, Trigina, e muitas mais, fez-me ciente de que realmente é tudo uma questão de vontade. A passagem da norma isolacionista à reintegracionista seria relativamente singela.

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Um aspeto que te interessa especialmente é o dos neo-falantes. Sendo um paleo-falante, de onde surge essa afeição?

Após uma temporada de desconexão com a realidade galega, acordei dessa pausa e senti necessidade de voltar às minhas ligações culturais e linguísticas com a Galiza. O estudo do neo-falantismo faz parte desse ressurgimento.

Do ponto de vista académico, o neo-falantismo é uma fonte de problematização de conceitos teóricos assentados e mesmo preconceitos sociolinguísticos. As neo-falantes são pessoas percebidas como divergentes, subversivas e suspeitas. Situam-se no eixo central das complexas dinâmicas linguísticas da Galiza e, ao mesmo tempo, em terra de ninguém. São deslegitimadas, quer por falantes tradicionais, quer por falantes que não tem preocupação alguma pela língua mais que para criar controvérsia. As pessoas neo-falantes mesmo se deslegitimam entre si por questões de ‘purismo linguístico’. No entanto, o futuro da língua, acredito eu, repousa subjacente no neo-falantismo. Eis a sua grandeza.

Nesse campo, tenho atualmente um projeto de doutoramento nas minhas mãos que começarei em setembro na Universidade de Heriot-Watt em Edimburgo baixo a supervisão da Professora Bernadette O’Rourke. Após me ter apresentado a uma competição internacional para uma bolsa de investigação nessa universidade, ofereceram-ma a semana passada e já foi aceite! A minha intenção é a de fazer um estudo etnográfico sobre as ideologias, as práticas linguísticas e a construção discursiva identitária da diáspora galega no Reino Unido, nomeadamente em ‘comunidades de prática’, redes sociais e plataformas em linha, tendo o neo-falantismo como foco do estudo.

O meu projeto visa avaliar a valorização que o galego adquiriu em contextos de migração económica urbana na diáspora galega em Londres após a crise financeira de 2008. Investigarei que tipos de capital, se os houver, implica essa valorização, utilizando a diáspora Londrina e o cenário da migração, assim mesmo, como estudo de caso para explorar as perceções linguísticas existentes entre falantes tradicionais, neo-falantes e membros em geral da comunidade galega no Reino Unido. Gostaria de devolver à diáspora o espaço que se lhe roubou nestas ultimas décadas quanto à construção discursiva do país, pois se calhar está a ser ignorada e, acredito, irá contribuir à expansão dos debates linguísticos e migratórios na Galiza e além. Em termos gerais, o projeto vem a encher um valeiro no estudo de comunidades com línguas, culturas e identidades menorizadas e um legado histórico de emigração que se assentam em países hegemónicos por raçoes económicas e estabelecem certas dinâmicas linguísticas, culturais e identitárias – a pergunta que eu me faço é: então, quais as dinâmicas?

Do teu ponto de vista, e com a equidistância que dá morar fora desde há uns tempos, quais as melhores estratégias para que a estratégia internacional da língua galega ganhe centralidade social?

Acho que, primeiramente, o reintegracionismo tem de perseverar em acrescentar não só a sua própria visibilidade no país e comunidades irmãs, mas também a visibilidade da lusofonia na Galiza. A prioridade número um é a de introduzir na agenda política a receção dos canais de televisão portuguesa na Galiza. Acho que este simples facto mudaria a perceção da língua radicalmente. É uma loucura que o governo galego, com a complacência do espanhol, nos tenha isolado deste jeito para evitar que não nos demos conta das similitudes culturais que partilhamos com outras nações e dê assim em aprofundar nas diferenças. Semelha que for um ato feito com aleivosia e premeditação, inaceitável!

Em segundo lugar, o reintegracionismo tem de captar adeptos fora da sua zona de conforto. Temo que o reintegracionismo está muito ligado no imaginário social a um quadro ideológico político-económico muito determinado. A praxe reintegracionista é altamente marcada em termos sociais, aliás, não é neutral. Na verdade, esta falta de neutralidade linguística ocorre com qualquer expressão da língua galega dentro da Galiza, seja qual for a casaca que se utilizar, mas é enfatizada, ao meu ver, nas práticas reintegradas.

O reintegracionismo tem de procurar apoios mais diversos: no tecido empresarial, na burguesia, no patronato, nas camadas populares, no rural, na juventude, e diria até mesmo na direita rançosa! Nem os maus são tão maus, nem os bons são tão bons. O objetivo tem de ser a transversalidade de classe, étnica, religião, nacionalidade, género, sexualidade, idade, o que quiseres.

Há muito mais reintegracionismo latente nas zonas rurais do que se acredita. Olhem, meu avô, José dos Cortelhos, que não teve oportunidade de estudar e não tinha conhecimento algum do conceito de conflito linguístico, disse um dia a respeito dum debate familiar sobre a norma oficial do galego: “o único ‘ghalhegho’ com jeito é o português!”. Nunca esquecerei aquelas palavras! O curioso é que, no momento da conversa de sobremesa, ninguém pareceu reparar na importância daquela asseveração, mas iria ficar gravada na minha cabeça.

Ainda sendo um cliché, acho que o reintegracionismo ainda se percebe como um movimento elitista e seria bom fazermos um bocadinho de autocrítica a este respeito. Como disse antes, tenho a impressão de que há muita ‘mente ilustrada’ e muito ‘purismo intelectual’ no nosso país — que diz fazer parte deste movimento — e que apresenta uma atitude agressiva e condescendente com o isolacionismo. Não faltam rações para discordarmos, mas nunca para o desrespeito ou a incitação à inimistade, pelas duas partes! Um pouco de humildade tampouco faz mal.

Em terceiro lugar, o reintegracionismo tem de superar o ‘minifundismo’ patológico deste país e apostar pela ‘união’ com os sectores mais recetivos do isolacionismo. Acredito que a única via factível para lhe dar vida ao galego é a coabitação das duas normas, um pouco ao estilo norueguês, ainda que tal caso não seja nem de longe semelhante ao galego. É crucial mantermos uma postura conciliadora e inclusiva, mesmo num contexto hostil em que o reintegracionismo é varrido do tecido institucional. Olhemos para o ‘pactismo’ catalão e não para a tão galega luta pelos ‘marcos das leiras’. Aprendamos disso, somemos sempre, não deixemos de adicionar partidários a esta causa.

A Galiza não se pode dar ao luxo de perpetuar mais divisões, sobram-nos! Unamo-nos e juntemo-nos com positividade!

Que te motivou a te enrolares na AGAL e que esperas da associação?

Gosto da linha programática e a visão da AGAL. Acredito que a Galiza seria um país imensamente mais pobre e aborrecido se a AGAL não estivesse presente. Acho que vai sendo hora de que eu contribua a esta causa tão necessária e enriquecedora.

Espero poder conhecer gente que partilha o amor pola terra e a língua para abrirmos juntas caminhos de união e dar assim ao galego e à AGAL infindas primaveras.

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Conhecendo Alejandro Dayán:

Dir-te-ei o primeiro que me passa pela cabeça…

Um sítio web: Wordreference!

Um invento: A imprensa.

Uma música: Tantas…“Tempestades de sal” da Sés – recolhe muito bem os imaginários que nos têm acougado como povo e que ainda nos impedem voar!

Um livro: Muitos… “Las venas abiertas de América Latina” do Galeano e “Animal Farm” do Orwell.

Um facto histórico: A declaração da efémera I República Galega.

Um prato na mesa: Comida do país, qualquer uma!

Um desporto: O ciclismo e a natação.

Um filme: “La vita è bella” do Benigni.

Uma maravilha: Edimburgo.

Além de galego/a: Um bocadinho britânico após tantos anos nesta ilha.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim

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  • Ernesto Vazquez Souza

    Fantástica entrevista 😉

  • http://pgl.gal Valentim R. Fagim

    Muito bem-vindo.

  • Galego da área mindoniense

    Quem che disse que o “che” nom forma parte da norma internacional do galego?

    • Galego da área mindoniense

      Além de que apresenta a vantagem da diferenciaçom CD/CI.

  • abanhos

    exelente entrevista, adorei