AGOSTINHO DA SILVA, FILÓSOFO, EDUCADOR E ENSAISTA LUSÓFONO

Agostinho da Silva: um pensamento vivo e outros documentários



 

Dentro da série que venho dedicando aos grandes vultos da humanidade, iniciada com Sócrates, temos os que pertencemos ao mundo lusófono um grande e excelente pensador, que ademais gostava muito da Galiza e morou em Portugal, e como exilado também no Brasil. Este foi Agostinho da Silva (1906-1994), de nome completo George Agostinho Baptista da Silva. Com ele completo o número 39 da série, e, pela grande variedade de temas que estudou e tratou, a sua figura serve também para apoiar nas aulas dos diferentes níveis educativos a celebração, com atividades educativas apropriadas, dos dias internacionais e jornadas da árvore, da primavera e da poesia, e a semana de luita contra o racismo, que se comemoram em muitos lugares do planeta em meados de março.

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Agostinho da Silva nasceu na cidade do Porto a 13 de fevereiro de 1906, e faleceu em Lisboa a 3 de abril de 1994 com 88 anos. Era filho de Francisco José Agostinho da Silva e de Georgina do Carmo Baptista da Silva. Aos poucos meses de nascer mudou-se com a família para Barca d´Alva (Figueira de Castelo Rodrigo), onde morou até os 6 anos de idade, e como já sabia ler e escrever, voltando depois para o Porto, a mãe inscreve-o para iniciar os estudos primários na Escola Primária de São Nicolau em 1912. Em 1913 faz o exame de primeiro grau e fica distinto, ingressando na Escola Industrial Mouzinho da Silveira no ano 1914, fazendo o exame da 4ª classe, e completando os estudos secundários no famoso Liceu Rodrigues de Freitas, entre os anos 1916 e 1924. Neste ano entra para a Faculdade de Letras do Porto com a intenção de cursar Românicas mas, transfere-se no mesmo ano letivo, para Filologia Clássica. Em 1928 termina a sua licenciatura e passa a colaborar na Revista Seara Nova. No seguinte ano de 1929 defende a sua dissertação de doutoramento intitulada «O sentido Histórico das Civilizações Clássicas». Em 1930 frequenta a Escola Normal Superior de Lisboa, e no seguinte ano de 1931 parte para Paris, como bolseiro, e estuda na Sorbonne e no Collége de France, regressando em 1933 a Portugal, onde passa a lecionar durante dous anos no Liceu de Aveiro. Porém, em 1935 é demitido do ensino oficial por não ter assinado a Lei Cabral, obrigatória para todos os funcionários públicos, de não pertencer a qualquer organização secreta. Com o governo da Segunda República no Estado Espanhol, em 1935 consegue uma bolsa do Ministério das Relações Exteriores para estudar e pesquisar no Centro de Estudos Históricos de Madrid, embora, devido ao iminente golpe de estado franquista, em 1936 volte para o seu país. Em 1938 abandona a Revista Seara Nova, e no seguinte ano cria o Núcleo Pedagógico «Antero de Quental». A partir de 1940 inicia um formoso projeto de difusão cultural sob o título de Iniciação-Cadernos de Informação Cultural, dentro do qual publica monográficos sobre os temas culturais mais variados e interessantes, como uma espécie de «Cadernos do Povo».

Em 1943 Agostinho da Silva é preso pela PIDE na prisão de Aljube. Pelo que em 1944 abandona Portugal e parte para a América do Sul. Entra pelo Rio de Janeiro e depois dirige-se para São Paulo. Em 1945 abandona o Brasil e instala-se no Uruguai, e em 1946 vive na Argentina, regressando em 1947 definitivamente ao Brasil, instalando-se num primeiro momento em São Paulo, mas, em seguida fixa-se na Serra de Itatiaia. Porém, em 1948 abandona a Serra e instala-se no Rio de Janeiro, cidade em que trabalha no Instituto Oswaldo Cruz, dedicando-se ao estudo da entomologia, e ensina na Faculdade Fluminense de Filosofia e colabora com Jaime Cortesão, na Biblioteca Nacional, no aprofundamento da obra de Alexandre Gusmão. Quatro anos mais tarde, em 1952, integra o corpo docente da Universidade da Paraíba na cidade de João Pessoa, e leciona também em Pernambuco. Dous anos mais tarde, em 1954, participa ao lado de Cortesão na organização da Exposição do 4º Centenário da Cidade de São Paulo. Em 1955 ajuda a fundar a Universidade de Santa Catarina, e em 1959 cria o Centro de estudos Afro-Orientais (CEAO) e ensina Filosofia do Teatro na Universidade da Bahia em Salvador.

No ano de 1961 torna-se assessor para a política exterior do presidente brasileiro Jânio Quadros, e colabora também com a Direção Geral do Ensino Superior do Ministério da Educação do Brasil. No mesmo ano regressa de forma fugaz ao Rio de Janeiro e a Santa Catarina, porém, ruma para Brasília. Em 1962 colabora na fundação da Universidade de Brasília e cria o centro de Estudos Portugueses da mesma universidade. Equiparado a bolseiro da Unesco, visita o Japão. Em Tóquio dá aulas de português e aproveita a sua ida ao Oriente para conhecer Macau e Timor Leste. No mesmo ano vai aos EUA e regressa posteriormente ao Senegal. Em 1964 assenta moradia entre Cachoeira, no recôncavo baiano, e Salvador, onde congemina a formação do Museu do Atlântico no Forte de S. Marcelo. Em Cachoeira funda a Casa Paulo Dias Adorno que, para além de ser um Centro de Estudos (extensão do Centro Brasileiro de Estudos Portugueses da Universidade de Brasília), é também uma escola. Já em 1969, avesso a ditaduras, sai do Brasil e regressa a Portugal, onde prossegue a sua atividade cultural, e também na Galiza.

Entre 1969 e 1994, num Portugal onde reina uma primavera marcelista, devota-se essencialmente à escrita. Mais tarde, e já depois da Revolução dos Cravos, regressará ao ensino, universitário por título honorífico, e particular e informal na sua casa do Príncipe Real. Nessa altura é reformado pelo Governo Brasileiro. Só uns tempos depois, o Governo de Portugal lhe restituirá os retroativos concernentes aos anos da Ditadura de Salazar. Contudo, e despreocupado com a questão financeira, viaja, escreve, recebe medalhas e títulos, participa em programas de televisão, é reconhecido filósofo popular, mas, na sua perspetiva, é o tempo em que se ocupa da sedimentação da futuridade da Era do Espírito Santo. E do lançamento da formosa ideia da Lusofonia. Que já pensara bastantes anos antes.

Agostinho da Silva é referenciado como um dos principais intelectuais portugueses e lusófonos do século XX, com uma produção ensaística impressionante, colaborando ademais com artigos em infinidade de publicações periódicas.

LISTAGEM DOS DOCUMENTÁRIOS A ELE DEDICADOS:

1. Agostinho da Silva: um pensamento vivo.

Diretor: João Rodrigo Mattos (Portugal, 2004, 82 min., cor).

Roteiro: Pedro Agostinho e João Rodrigo Mattos.

Voz de Luís Miguel Cintra. Produtora: Alfândega Filmes.

https://youtu.be/cRF9GcgivRE

Argumento: A 13 de Fevereiro de 2006, comemorou-se o centenário do nascimento de Agostinho da Silva. Para homenagear esta personagem fascinante e exemplar, este é um documentário inédito sobre a vida, a obra, o pensamento e o legado deste pensador português. Coproduzido pela RTP e ICAM, Agostinho da Silva, Um Pensamento Vivo, conta com depoimentos do próprio e de várias personalidades de Portugal e do Brasil que ajudam a desvendar este homem verdadeiramente multifacetado. Uma grande oportunidade de conhecer melhor a vida exemplar desta figura de pensamento fervilhante e atividade imparável: traduções, estudos clássicos, educação popular, insubmissão perante regimes ditatoriais, prisão, auto exílio no Brasil, fundação de Universidades e Centros de Estudos, domínio de 15 línguas, publicações sobre pedagogia, ciência, literatura, filosofia, etc.

2. Agostinho da Silva. Ele próprio. Duração: 102 minutos.

Realizado por António Escudeiro e patrocínio da Associação Agostinho da Silva.

Nota: Esta gravação encontra-se transcrita em livro com o mesmo título pelas Edições Zéfiro, 2006, no Centenário de Agostinho da Silva.

3. Conversas vadias (com Agostinho da Silva) (Ep. 1 – Maria Elisa). Duração: 25 minutos.

Conteúdo: Aqui se pode ver como o Prof. Agostinho da Silva responde às questões que lhe são colocadas por Maria Elisa.

4. Herman José entrevista Agostinho da Silva. Duração: 9 minutos.

5. Agostinho da Silva (Entrevista 1ª Parte – 1990). Duração: 10 minutos.

6. A intrigante filosofia de Agostinho da Silva. Duração: 15 minutos.

7. Evocação de Agostinho da Silva. Duração: 25 minutos.

Depoimento de Fernando da Costa (da Academia de Ciências de Lisboa), em sessão académica.

8. Eduardo Lourenço. Agostinho da Silva. Conferência na íntegra. Colóquio Internacional.

Tema: «Agostinho da Silva: Pensador Universal do tempo presente». Duração: 35 minutos.

Conferência de Encerramento: Eduardo Lourenço sobre Filosofia e Profetismo.

9. Agostinho da Silva e a Tradição Espiritual Portuguesa. Breve improviso. Duração: 28 minutos.

Tema: Pequeno ensaio de sintonização com os múltiplos veios ou inter-relações possíveis em tão vasto e maravilhoso tema. Realizado em 14-2-2016, três dias antes da participação no «Colóquio Internacional Agostinho da Silva».

10. Agostinho da Silva. Duração: 9 minutos. Com imagens do Brasil.

11. Agostinho da Silva sobre a situação internacional. Duração: 7 minutos. Na RTP o 12-02-1990.

12. Agostinho da Silva e a Cultura Portuguesa. Duração: 46 minutos.

Depoimento na FNAC do Chiado o 5-09-2013.

13. Alma Oceânica de Agostinho da Silva e a Idade do Espírito Santo. Duração: 24 minutos.

Conteúdo: Palestra proferida por José Santiago Naud, Professor Fundador da UnB, no 1º Seminário sobre o Imaginário Luso-Afro-Brasileiro, uma realização do Instituto Mukharajj Brasilan em conjunto com a UnB, Casa Agostinho da Silva, Instituto Espinhaço e Fundação Casa da Cultura.

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=0k54lWJbzik

14. Paulo Borges: Sobre Agostinho da Silva. Duração: 51 minutos.

Conteúdo: Apresentação: Bruno Béu. Paulo Borges fala da Espiritualidade, educação, política e lusofonia na mutação de paradigma civilizacional em Agostinho da Silva.

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=9102p5DqgJw

15. Conversas com Maria Elisa (episódio 8). Duração: 9 Minutos.

Agostinho da Silva responde às perguntas de Maria Elisa.

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=oqaAbch8yYI

16. Entrevista a Agostinho da Silva. Duração: 20 minutos.

Realizada o dia 29 de março de 1990 na sua residência.

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=TagDlzwME5M

17. Agostinho da Silva e Darcy Ribeiro. Final de «O Povo Brasileiro». Duração: 2 minutos.

Tema: O Professor Agostinho da Silva, falando sobre a rapidez de acontecimentos no final do século.

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=EJttGZQw9uw

18. Agostinho da Silva. Duração: 5 minutos.

Tema: Recortes de entrevistas do filósofo e professor Agostinho da Silva no programa de televisão «Conversas vadias».

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=8Nq9XhTtOVw

19. Agostinho da Silva, Liberdade, Destino, Genética, Defeitos. Duração: 9 minutos.

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=rB6GUlwD0uY

20. Agostinho da Silva (1906-1994): Professor, Poeta , Filosofo, Historiador. Duração: 6 minutos.

Tema: George Agostinho Baptista da Silva (Porto, 13 de Fevereiro de 1906-Lisboa, 3 de Abril de 1994), foi um filósofo, poeta e ensaísta português. O seu pensamento combina elementos de panteísmo, milenarismo e ética da renúncia, afirmando a Liberdade como a mais importante.

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=By1jY_F2ZpM

21. Agostinho da Silva: Portugal e a Europa. Duração: 8 minutos.

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=udBo21_o4mk

22. Agostinho da Silva: A Seara Nova e António Sérgio. Duração: 5 minutos.

Tema: Entrevista com Baptista Bastos sobre a Seara Nova e a relação com António Sérgio.

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=VoPDxKIWiG8

23. Agostinho da Silva: Pedagogia e Economia Competitiva. Duração: 10 minutos.

Tema: Da entrevista com Maria Elisa em «Conversas vadias».

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=lee6ndsGu6w

24. Agostinho da Silva: Instruir, Educar, Reformados, Camões e Pessoa. Duração: 9 minutos.

Tema: Da entrevista com Joaquim Letria em «Conversas vadias».

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=0_GYC7JHlK8

25. Agostinho da Silva: a 1ª República, a Ditadura e a Reinstalação. Duração: 5 minutos.

Tema: Da entrevista com Baptista Bastos em «Conversas vadias».

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=LMtPSyfO77E

26. Agostinho da Silva: Salazar, Capitalismo e CEE. Duração: 8 minutos.

Tema: Parte final da entrevista com Baptista Bastos em «Conversas vadias».

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=YMSnaP7oudw

27. Agostinho da Silva: Qual o seu legado? Duração: 9 minutos.

Tema: Filósofo, poeta, ensaísta, teólogo, fundador de universidades. Agostinho da Silva marcou o séc. XX português e o seu espírito livre continua a contagiar todos aqueles que se cruzam com a sua obra. Um colóquio sobre o seu legado que teve lugar em Lisboa.

Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=9lclU5jDmo4

GRANDE DINAMIZADOR DA EDUCAÇÃO E DA CULTURA:

Poucas pessoas existem no mundo que levassem a cabo um tão importante labor de dinamização cultural e educativa, como o que realizou Agostinho da Silva no Brasil, Portugal, Uruguai, Argentina e até no Japão. De 1933 a 1935 foi professor de ensino secundário no Liceu «José Estevão» de Aveiro, o seu primeiro trabalho como docente. Em 1948 começou a ensinar na Faculdade Fluminense de Filosofia e durante alguns anos de forma paralela ajudou a dinamizar o Instituto Oswaldo da Cruz de Rio de Janeiro, onde pesquisou sobre entomologia. Mais tarde, entre 1952 e 1954, deu aulas na Universidade Federal de Paraíba, tanto na cidade de João Pessoa, como em Pernambuco. Em 1959 explicou a matéria de Filosofia do Teatro na Universidade Federal da Bahia. Durante a sua pequena estadia no Uruguai e na Argentina ensinou em diferentes «Colégios Livres», e, em 1963 deu aulas de português em Tóquio. Por um tempo foi também docente das Universidades do Rio Grande do Sul, e as Federais do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina e Brasília, todas no Brasil, onde morou durante 22 anos, entre 1947 e 1969. Em Portugal, ao ter que deixar o ensino oficial, dedicou-se a dar aulas particulares, e já depois da Revolução dos Cravos, recuperou o status de docente universitário, sem deixar o ensino particular e informal na sua casa do Príncipe Real.

Como dinamizador cultural, e na defesa da língua e literatura portuguesa, foi extraordinário. Por si só, ou colaborando com outras importantes pessoas, foi o criador do Núcleo Pedagógico «Antero de Quental» (1939). Colaborou com Jaime Cortesão na organização da «Exposição do Quarto Centenário da Cidade de São Paulo» (1954). Foi o criador do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO) em 1959; do Centro Brasileiro de Estudos Portugueses na Universidade de Brasília (1962) e da Casa Paulo Dias Adorno em Cachoeira (1964). Para divulgar em Portugal o Centro Brasileiro de Estudos Portugueses da Universidade de Brasília chegou a vir ao seu país de nascimento, onde se encontrou mesmo com Franco Nogueira e Adriano Moreira. Depois de elaborar o seu projeto, criou no Forte de São Marcelo o Museu do Atlântico Sul em Salvador da Bahia (1964). Em 1961 ajudou a criar outros centros de estudos: o de Estudos Goianos na Universidade de Goiás, o de Estudos Ibéricos na Universidade do Mato Grosso, o de Estudos Europeus na Universidade do Paraná e o de Estudos Portugueses na Universidade de Brasília, na qual também promoveu o Centro de Estudos Clássicos. E, já à sua volta, em Portugal foi diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade Técnica de Lisboa, e consultor do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa (ICALP), antecedente do atual Instituto Camões. Em 1958 tinha criado o Instituto de Língua e Cultura Portuguesa de Tóquio, e, em 1959, até em Sófia (Bulgária), o Centro de Estudos Luso-Brasileiros, integrado na universidade da capital búlgara. E, no mesmo ano de 1958, na cidade de Díli, capital de Timor-Leste, criou dous centros culturais: o Centro de Estudos Ruy Cinatti e o Centro de Estudos Brasileiros.

Finalmente, não podemos deixar de mencionar a sua importante colaboração na criação da Universidade Federal de Santa Catarina em Florianópolis no ano 1955. E a de Brasília, capital do Brasil, em 1962. Como tampouco o seu domínio de mais de 14 idiomas, o que o ajudou muito no seu labor educativo-cultural.

PIONEIRO NA DEFESA DA LUSOFONIA:

Podemos considerar Agostinho da Silva como um dos primeiros em lançar a ideia da importância do mundo da Lusofonia, em que estamos integrados aqueles países que têm como oficial ou cooficial a língua portuguesa, com os seus diferentes sotaques. Que Fernando Pessoa explicitou tão bem com aquela sua formosa frase: «A minha Pátria é a Língua Portuguesa», que também podia perfeitamente assinar Agostinho da Silva.

Recomendamos aos nossos leitores a leitura do estupendo artigo de 12 páginas que, sobre Agostinho e o futuro da Lusofonia, escreveu em janeiro de 2017 o presidente do MIL (Movimento Internacional Lusófono) Renato Epifânio. Um excelente trabalho o seu, do que tiramos alguns comentários para este nosso depoimento.

Epifânio comenta acertadamente que «Se tivéssemos que escolher o filósofo português que mais profundamente pensou a situação concreta da nossa História e Cultura, escolheríamos, sem desprimor para todos os outros, Agostinho da Silva. Nessa medida, será com ele que iremos dialogar, para pensarmos a nossa situação histórico-cultural, em suma, para pensar Portugal e o que se deve entender por Lusofonia: a nosso ver, o nosso grande desígnio estratégico para o século XXI, por ser aquele que melhor faz justiça a toda a nossa História, a toda a nossa Cultura».

Na visão de Agostinho da Silva, Portugal só se pode pensar na complementaridade de dous espaços: o europeu e o lusófono. Na complementaridade, não na exclusão mútua, senão em ambos espaços. No europeu, porque Portugal é desde sempre um país europeu e, ademais, o que tem as mais antigas fronteiras definidas, e mais do que isso, pois é um país que sempre participou ativamente na construção da civilização europeia, e, por extensão, da civilização ocidental, que depois se alargou, sucessivamente, a África, às Américas e mesmo a algumas regiões do Próximo Extremo-Oriente. Mas não apenas no espaço europeu ao contrário do que, na ressaca da descolonização, se propôs, dado o amontoado de traumas e ressentimentos que então todos nós, direta ou indiretamente, vivemos, e que se vão superando, para chegar a um espaço lusófono, como um verdadeiro espaço cultural e civilizacional.

Agostinho da Silva é o grande teórico da que podemos chamar «via lusófona», pois em muitos textos seus, pelo menos desde os anos 50, antecipou, com efeito, a criação de uma verdadeira comunidade lusófona. De tal modo que, mesmo depois de falecer, tem sido recordado por isso. Quando se criou a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), realçou-se o seu contributo para esta criação, por via do seu pensamento e ação. No Diário de Notícias de Lisboa publica-se o facto, com a seguinte abertura da notícia: «A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, hoje instituída em Lisboa, foi premonitoriamente enunciada por Agostinho da Silva em 1956 como «modelo de vida» assente em tudo aquilo que Portugal heroicamente fez surgir do nada ou na América ou na África ou na Ásia». Na informação aparecem as fotos de Agostinho, ladeado pelas de Jaime Gama e José Aparecido de Oliveira, com a seguinte legenda: «Pioneiros da CPLP: Agostinho da Silva (enunciação original), Jaime Gama (primeiro texto diplomático único dos Sete na língua comum) e Aparecido de Oliveira (formalização política da proposta)».

No seu livro Vida conversável, Agostinho escreve: «Comunidade luso-afro-brasileira, com o centro de coordenação em África, de maneira que não fosse uma renovação do imperialismo português, nem um começo do imperialismo brasileiro. O foco central poderia ser em Angola, no planalto, deixando Luanda à borda do mar e subir, tal como se fizera no Brasil em que se deixou a terra baixa e se foi estabelecer a nova capital num planalto com mil metros de altitude. Fizessem a mesma coisa em Angola, e essa nova cidade entraria em correspondência com Brasília e com Lisboa para se começar a formar uma comunidade luso-afro-brasileira».

Já na obra Conversa com Agostinho da Silva, estabelece a sua perspetiva de Comunidade Lusófona como futura «Pátria de todos nós», e diz: «Do retângulo da Europa passámos para algo totalmente diferente. Agora, Portugal é todo o território de língua portuguesa. Os brasileiros poderão chamar-lhe Brasil e os moçambicanos poderão chamar-lhe Moçambique. É uma Pátria estendida a todos os homens, aquilo que Fernando Pessoa julgou ser a sua Pátria: a língua portuguesa. Agora, é essa Pátria de todos nós». Finalmente, no livro Dispersos, escreve: «Trata-se, atualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa, política essa que tem uma vertente cultural e uma outra, muito importante, económica». Prefigurando até, com esse horizonte em vista, o «sacrifício de Portugal como Nação». Que no livro Um Fernando Pessoa, explicita da seguinte forma: «Esse Império, que só poderá surgir quando Portugal, sacrificando-se como Nação, apenas for um dos elementos de uma comunidade de língua portuguesa».

Para isto, no século XXI, para pensarmos a Lusofonia, é necessário superar os paradigmas colonialistas e mesmo pós-colonialistas. Pois estes estão ainda reféns de um olhar enviesado por uma série de complexos históricos que há que transcender de vez, de modo a podermos realizar essa visão futurante do que pode ser a Lusofonia. E, para que a CPLP tenha um bom sucesso.

UM ENSAISTA EXCECIONAL:

A produção ensaística de Agostinho da Silva é imensa e espetacular. É impossível resenhá-la toda no presente depoimento. Pelo que faremos uma escolha antológica daqueles títulos mais representativos. Os seus livros de ensaios no seu momento tiveram como editoras a Seara Nova, a Inquérito, a Assírio & Alvim, a Guimarães Editora, a Portugália, a Relógio d´Água e a Ulmeiro de Lisboa, as Gráficas Minerva de Vila Nova de Famalicão e, já, com motivo do seu centenário, a editora Notícias, a Livros Cotovia e a Âncora, com o Circulo de Leitores, editoras estas duas últimas que tiveram o grande acerto de reeditar em grossos e vários volumes as suas monografias de textos pedagógicos e filosóficos e das suas excelentes biografias dedicadas a mais de vinte grandes pensadores de diferentes lugares do planeta.

Em 1942 o seu livro O Cristianismo causou uma grande polémica, tendo-o levado à prisão. Depois, no seu exílio brasileiro escreve três interessantes livros: Parábola da Mulher de Loth, Conversação com Diotima e Sete cartas a um Jovem Filósofo. Mais tarde escreve um livro muito interessante: Um Fernando Pessoa. Antes de falecer num domingo de Páscoa, dá à luz a sua obra Ir à Índia sem abandonar Portugal, com a qual demonstra que a «verdadeira viagem» se cumpre no interior de nós, de cada um de nós.

Porém, pela nossa especialidade profissional pedagógica, são de grande interesse os seus ensaios educativos e biográficos de alguns pedagogos, com várias edições, recolhidos em edição do ano 2000, em 2 volumes, sob o título de Textos Pedagógicos, pela Âncora e o Círculo de Leitores de Lisboa. As monografias pedagógicas por ele escritas são as que a seguir resenhamos (entre parêntese colocamos o ano da sua 1ª edição): Miguel de Montaigne (1933), Vida de Pestalozzi (1938), O método Montessori (1939), As Escolas de Winnetka (1940), Vida de Robert Owen (1941), Sanderson e a escola de Oundle (1941), O Plano Dalton (1942), Baden Powell, Pedagogia e Personalidade, em 2 volumes (1961) e Educação de Portugal (1989).

Pelo grande sucesso que tiveram as suas biografias de pensadores, religiosos, cientistas, escritores, filósofos, artistas e mesmo políticos, com variadas edições, temos que mencionar as dedicadas às vidas de: Francisco de Assis (1938), Moisés (1938), Lincoln (1938), Pasteur (1938), Washington, em 2 volumes (1939), Zola (1942), Miguel Ângelo (1942), Franklin (1942), Lamennais (1943), Leopardi (1944), Leonardo da Vinci (1944), William Penn (1946) e O sábio Confúcio (1943). São também muito interessantes as últimas edições das suas reflexões, aforismos e paradoxos, em 1999, as suas antologias e o Caderno de lembranças, em 2006; assim como os Textos vários e dispersos (2003), as Considerações e outros textos (1988), e, para conhecer melhor a sua grande figura a obra A última conversa, publicada pela editorial Notícias em 2001.

FORMOSAS FRASES E PALAVRAS DE AGOSTINHO:

Colocamos a seguir uma pequena antologia das suas formosas frases, com as quais podemos conhecer melhor o seu pensar:

«Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence».

– «Mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não seus».

– «Um dia nada será de ninguém, pois todos acharão, por criadores, que têm tudo».

– «Só existe governo exterior a nós porque temos preguiça de nos governarmos a nós mesmos».

– «A solidão é uma ocasião extraordinária de diálogo consigo próprio».

– «Se a pessoa não fez consigo tudo o que achava necessário para se esquecer de si mesmo, está errada».

– «A pessoa deve encontrar-se a si própria e fazer todo o possível para que não haja uma discórdia consigo mesma».

– «Tolerar é já marcar uma superioridade. Aceitar os outros como eles são é outra coisa. Aceitar vem da palavra capturar; aceitar é tomar para si e tolerar, não é dar licença, com desprezo que o Outro seja assim».

– Mensagem aos portugueses:

«O que quero de todos os portugueses é o seguinte: sejam curiosos; e que a organização em sociedade possa ser de tal maneira que eles possam satisfazer essa curiosidade completamente. E não para ganhar dinheiro, não para fazer figura, nem para ganhar cargo, mas para ser plenamente aquilo que é. Alguma coisa que ele sinta que o está desenvolvendo na mensagem única que tem que dar do mundo, de maneira que a minha mensagem para qualquer aluno de qualquer escola é: faça favor de cuidar da sua mensagem e não da minha. A minha foi, e só para dizer «cuide da sua», porque essa é que tem importância. E a mensagem será vossa na medida em que for o mais diferente possível da minha, ou de qualquer outra. Senão, para quê duplicados no mundo? Não é preciso. Para isso é que inventaram os carimbos. Eu não sou um carimbo de ninguém».

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Vemos todos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar a forma (linguagem fílmica) e o fundo (conteúdos e mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Agostinho da Silva, o seu pensamento, as suas ideias, a sua vida e a sua obra. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias. Seria interessante dedicar um espaço nesta amostra à sua visão tão pioneira da Lusofonia.

Podemos levar a cabo um Livro-fórum lendo entre todos, estudantes e docentes, alguns dos livros escritos por Agostinho da Silva, como, por exemplo, os Textos Pedagógicos, livro publicado no ano 2000 por Âncora e Círculo de Leitores de Lisboa, em que se recolhem em 2 volumes os seus livros relacionados com a educação e os grandes pedagogos, publicados em finais dos anos trinta e no início dos anos quarenta.

 

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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  • Pedro Lopes

    Um dos maiores vultos da cultura portuguesa e difusor da lusofonia no mundo a par do Padre António Vieira, uma pessoa simples, um génio.

  • Joám Lopes Facal

    Obrigado José, umha descoberta!

  • Venâncio

    A “Lusofonia” é um conceito discutível e discutido. Importa não entrar em êxtase quando dela se fala.

    A narrativa oficial é conhecida. Menos conhecidos são os importantes estudos que desmistificam a “Lusofonia”. Indico três aqui abaixo. A nostalgia da glória colonial perdida continua a inspirar bastantes portugueses.

    Aos amigos galegos, uma sugestão: que a “Lusofonia” não seja o refúgio do vosso (aliás, justíssimo) desafecto pelo Estado Español. Até por uma razão: não poucos dos grandes propagandistas da Lusofonia são também grandes amigos de Espanha.

    *

    Alfredo Margarido, A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses

    Eduardo Lourenço, A Nau de Ícaro, Imagem e Miragem da Lusofonia

    Tania Martuscelli, [Des]Conexões entre Portugal e o Brasil

    • Pedro Lopes

      Discordo, o conceito de “Lusofonia” não é de facto um conceito vão ou que leve a equívocos, está ligado naturalmente à língua e cultura emanada de Portugal e que existe nos países e regiões de fala portuguesa, já o conceito de ibérico ou de hispanidade não é explícito e leva a algumas confusões, por exemplo eu não me considero hispano e muito menos ibérico.
      Não me considero hispano no sentido que a Espanha quer dar a essa palavra, até porque como sabemos Roma não criou uma Hispania unificada, criou diversas províncias hispanas romanas independentes entre si e com as suas capitais próprias, a Hispania que Espanha sempre quis vender é de conceito visigótico, os bárbaros germânicos estrangeiros que vieram depois dos romanos tentaram fazer aquilo que uma civilização muito superior em todos os aspectos não conseguiu, a unificação peninsular política e administrativa.
      A própria palavra Hispania nunca teve a conotação política que sempre a Espanha quis dar, a palavra em latim quer dizer apenas e só terra do metal, ou seja esta península para os romanos tinha apenas importância pela exploração mineira e para travar o recrutamento para os exércitos de Cartago, inimigo de Roma de então.
      Não me considero ibérico, porque o termo ibérico é uma redundância criada pelos gregos dada à península por vias dos primeiros povos que conheceram e que viviam nas margens de um rio a que chamaram Ebro, de Ebro a Ibero e de Ibero a Ibérico.
      Portanto a ilusão da nobreza visigótica introduziu sim grandes equívocos naturalmente porque eram um povo estranho e que não entenderam as diversidades culturais e étnicas existentes no período pré e pós romano, essa ilusão germânica ainda hoje rege o conceito político castelhano emanado de Toledo da dinastia real visigótica.
      Quando muito considero que faço parte da identidade atlântica peninsular que é constituída por Portugal, a região da Galiza, Astúrias, Cantábria e País Basco.

      • Venâncio

        O Pedro Lopes escreve: «O conceito de “Lusofonia” não é de facto um conceito vão ou que leve a equívocos».

        Pergunto: pode fornecer-nos, então, uma ‘inequívoca’ definição de Lusofonia?

        Pergunto também: conhece alguma das três obras que acima referi?

        Obrigado.