Afonso X. Canosa cria sítio web para Georreferenciar toponímia da Peregrinação



Pucau, Pucau? ou como Georreferenciar a toponímia da Peregrinação de Mendes Pinto. Afonso Xavier Canosa, depois de um monumental trabalho de pesquisa documental e análise de dados, cria sítio web sobre a toponímia da Peregrinação.

Num novo intento de divulgar a obra de Mendes Pinto, dar maior visibilidade à análise crítica e contribuir a acrescentar o valor geográfico e histórico da Peregrinação, foi criado o sitio http://www.pucau.org. O sítio permite consultar todos os contextos (concordâncias) de cada um dos topónimos e gentílicos que aparecem no texto da primeira edição.

Os topónimos vão ordenados segundo uma entrada principal que recolhe todas as variantes gráficas ou derivados utilizados em 1614. As concordâncias recolhem a oração completa que vem acompanhada pelo número de capítulo em que aparece.

Além do contexto, oferece-se uma referência bibliográfica para os topónimos comentados em estudos de geografia histórica e uma análise crítica para os casos mais contraditórios. Todos os topónimos conhecidos vão ligados às coordenadas de latitude e longitude e ao referente toponímico contemporâneo. Se o topónimo não for conhecido, liga-se a uma outra entidade geográfica maior a que pertence, também recolhida no índice toponímico.

Na secção de recursos pode-se baixar a base de dados com as entidades referenciadas por coordenadas para trabalhar com um SIG, por exemplo o QGIS de software livre com que se elaboraram as imagens do site. Também há uma ligação para baixar o formato KML e poder assim mesmo percorrer o espaço da Peregrinação em 3D em aplicações como o Google Earth.

A ideia é que o site recolha o material elaborado para que possa ser utilizado em atividades educativas, divulgativas, de investigação. De momento leva o material mais importante. No futuro, o autor gostaria de ir acrescentado material com novas bases de dados, uma secção específica para a Tartária comparando a edição portuguesa e a inglesa, mapas locais e dicas de uso do material. Todo o material é gratuito e livre.

Esta monumental achega e fundamental contributo para o estudo da Peregrinação e da biografia de Mendes Pinto, está aberta a colaborações e muito especialmente com fins promocionais e educativos, para mostrar como melhor utilizar os materiais postos à livre disposição do público.

pucau

Visitar o Sítio: http://www.pucau.org.

O estudo da toponímia da Peregrinação

O estudo da toponímia da Peregrinação tem uma tradição quase tão antiga como a própria primeira edição de 1614. Ainda que seja uma publicação póstuma, a ampla geografia costeira, que percorre desde as costas mais ocidentais do Índico até o Japão, e a descrição de espaços que ficaram menos conhecidos durante séculos, como é o caso dos capítulos dos tártaros para a Ásia Central, fez com que especialistas e eruditos tentassem desde muito cedo aproveitar o trabalho de Fernão Mendes Pinto.

Interesses menos claros tentaram também tirar mérito a um trabalho que ficaria, com o tempo, mais valorizado na sua dimensão literária. Porém, o valor geográfico da Peregrinação foi aceite de imediato e pesaria nas primeiras leituras da obra. Em certo sentido, Pinto nunca deixou de ser reivindicado. No séc. XVII destacaram Purchas e os prólogos apologéticos das traduções, no séc. XVIII Francisco de Sousa diz que apenas o vulgo duvida da veracidade da Peregrinação, no séc. XIX Wescenlau de Moraes reconstrói as rotas do Japão, labor que terá continuação no séc. XX, e que destaca a tentativa de reconstrução de itinerários acometida por Mascarenhas e o glossário de topónimos que recolhe os conhecimentos até a data assinado por Reinaldo Flores.

Em 2010, antecipando o quarto centenário da primeira edição, Jorge Alves edita um volume que reúne especialistas de distintos países para de novo analisar criticamente a geografia e os relatos históricos que Pinto escreveu. É aproveitando este trabalho de séculos que em 2011 aparece um mapa online, da autoria de Afonso Xavier Canosa, para georreferenciar os topónimos cujas coordenadas são conhecidas ou foram propostas como prováveis nos trabalhos de geografia histórica.

O mapa virá seguido de um artigo na revista da Associação Internacional de Lusitanistas em 2013 em que se mostra como o trabalho de Pinto foi inicialmente recebido como um repertório ou crónica, de carácter descritivo, geográfico. Com data de 2015 um artigo no Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa (n. 8) anunciava a criação de um mapa com estudo crítico das entidades mais conhecidas. Em 2017, Fluxos e Riscos publica um artigo da mesma autoria em que se explica o método para ligar o corpus da Peregrinação com recursos geográficos, acompanhado de gráficos e notas que mostram como o texto de Pinto foi por vezes lido e traduzido erradamente, contribuindo para uma interpretação equivocada e pouco realista das passagens mais questionadas e uma leitura que dificulta a pronúncia de topónimos que, porém, Pinto tenta transcrever com fidelidade.

 

O Autor:

canosa01Afonso Xavier Canosa Rodrigues estudou filologia galego-portuguesa na Universidade de Santiago de Compostela onde se doutorou com uma tese sobre a toponímia da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Foi investigador do Projeto Mercator Media em Aberystwyth (País de Gales) onde colaborou nas obras coletivas Mercator Media sobre diversidade linguística na Europa. É autor da primeira tradução direta de uma parte do Mabinogi para o Galego-Português. Possui o certificado de proficiência em engenharia da linguagem da Universal Network Language em que participou em projectos para Galego-Português e Latim. Deu aulas de introdução à Linguística na Mongólia. Nos últimos meses trabalhou na elaboração de um programa de reconhecimento automático de entidades geográficas mencionadas para textos galego-portugueses medievais e participou nos congressos internacionais de linguística histórica celebrado em Lisboa e da Associação Internacional de Lusitanistas em Macau defendendo a validez geográfica da toponímia da Peregrinação. O website www.pucau.org pretende divulgar parte do trabalho da tese de doutoramento sobre a geografia na obra de Fernão Mendes Pinto.


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  • Miro Moman

    Parabéns Afonso por um imenso e rigoroso trabalho que evidencia que é o mundo galaico-português quem dá início ao fenómeno hoje conhecido como “globalização”. Claro que se lhe perguntas ao André dirá que isto era assim jś desde a pré-história 😉 Mas, já desde uma perspetiva moderna do grande comércio transoceânico foram pioneiros como o Mendes Pinto ou o galego João da Nova.

    • Ernesto V. Souza

      Pois é… XD

  • abanhos

    Que trabalhom

    Parabéns por um pruduto de tão bela fatura, e dos que nos inserem, ao percorrermos esses caminhos, no PortusCale dos descobrimentos e da expansão da nossa língua

  • Alberto Paz Félix

    Muito obrigado pelo recurso. Dentro de pouco vamos estudar a obra de Mendes Pinto “Peregrinação” nas aulas e penso utilizar esta ferramenta como referência (não sei outras pessoas, mas eu quando estou a ler um romance onde há viagens, preciso do marco espacial para saber onde está situada a ação). Acho também que estão a produzir um filme sobre o livro, como guia de leitura, mas só conheço este trailer do ano 2017:

    https://www.youtube.com/watch?v=MlIOB7X88CY

    Como curiosidade, quando li o titular eu pensei que era sobre Afonso X, e eu pensei em que relação tinha com o livro de “Peregrinação”. Mas agora que sei que o X era de Xavier, não há dúvida.

    Muito obrigado pelo lavor!