O FUTURO POSSÍVEL

A realidade invisível



Um posti (post-it) a dizer “Solo está permitida la ortografía oficial” preside desde há trinta anos o écrã dum computador num dos últimos gabinetes do mais remoto corredor das instalações administrativas da Xunta de Galicia. Os habitantes da caverna nunca se interrogaram se essa ordem corresponde a alguma lei ou se é capricho dalgum alto cargo em B ou em F. A única certeza é que esse posti, algo murcho já pela passagem do tempo, domina a realidade dos funcionários que dependem do governo autonómico galego.

O inegável poder do posti não fica recluído no escuro gabinete. Por vasos comunicantes traslada-se a todos os aspetos da vida na Galiza. Da caverna sai o deus omnisciente que nos ordena a visão das sombras: Primeiro, escutamos a sua Palavra nos meios de comunicação. Depois, aprendemos a sua Palavra na escola. Finalmente, assumimos a sua Palavra na regularização de toda a nossa vida. A caverna constrói, barulhenta, o seu altar de pessimismo crónico em cada uma das pessoas que domina. Assim de poderoso é o posti.

Por isso a realidade visível, palpável, audível da Palavra do posti esconde uma outra face da moeda, teimuda como uma menina camponesa. No meio do naufrágio geral há neofalantes, temos amigas com as que falamos do mal que estamos os galegos, damos aulas em galego, comunicamo-nos em galego no trabalho, nas compras somos atendidas em galego, organizamos concertos, gravamos discos, tocamos e cantamos em galego, não vemos televisão espanhola, aprendemos catalão, escrevemos e publicamos em galego, lemos livros em várias línguas, fundamos associações e academias, realizamos jornadas divulgativas, viajamos a Sul e Norte, a Leste e Oeste. Pensamos, sonhamos e vivemos em galego nas entretelas da oficialidade. A realidade do posti não pode contra toda a realidade.

posti

Algum leitor pode pensar que este texto é uma resenha do livro do espanhol Juan Ramón Jiménez, escritor com ortografia própria, ou um comentário sobre algum aspeto do espiritualismo na moda do Brasil. Mas não, é tão só uma fe de vida, a constatação de que a mentira oficial é mais nada do que uma escura parte do mundo que, com treino e dedicação, conseguimos colocar num espaço cómodo, como um vaso chinês sabe achar aquele lugar na sala onde acumulará pó e passará inadvertido durante décadas.

Ainda que as grandes leis divinas foram sempre escritas em pedra e pergaminho, não devemos desprezar o poder do posti. O posti é omnipotente e domina a vida dos funcionários da caverna. Porém, tampouco nos tomemos isso tão a sério. Que um dia a realidade invisível pega no esmarelido posti e o bota no lixo.

 

Isabel Rei Samartim

Isabel Rei Samartim

Mulher, música guitarrista, galega. Pensa que a amizade é uma das cousas mais importantes da vida. Aprendeu a sobreviver sem o imprescindível. Aguarda, sem muita esperança, o retorno do amor. Entanto isso não acontece, toca e escrevinha sob a chuva compostelana.
Isabel Rei Samartim

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  • Ernesto V. Souza

    Pois… ou que os leve o vento…

  • Maria Dovigo

    Zoupam em nós… mas a criatividade aparece por todo o lado, como as ervas a medrar entre as pedras das igrejas e dos paços. O dia que descobramos que as galegas existimos sem estado, sem instituições, sem outro suporte que nós próprias…

    • http://bagoasnachoiva.blogspot.co.uk/ Roi BêNaChoiva

      Nom acho necessariamente criativo a imitaçom por [email protected] da norma escrita lisboeta. Pola contra, a regeneraçom da norma galega – escrita e oral – dentro do dia-sistema comum galego-português sim requer umha grande criatividade …

  • http://bagoasnachoiva.blogspot.co.uk/ Roi BêNaChoiva

    Substituir o posti’ oficial por um outro (“o galego é português”)? Nom é tam simples. Tem que haver um mínimo de correspondência entre fala e escrita. Velaí a razom principal que segura o modelo de escrita (que nom é apenas ortografia) oficial nesses escuros gabinetes, e além. Velaí a realidade visível, e audível, que nom se pode apagar cum outro posti’ qualquer.