LÍNGUA NACIONAL

A Lei Valentín Paz Andrade e as Gallinas Pintaditas



A Galinha Pintadinha é um produto para miúdos com animações, personagens infantis e músicas populares. Nasceu no Brasil e o seu grande sucesso, em grande parte facilitado pola Internet, tem levado a versões em várias línguas.

Na Galiza, sem ter mediado nenhum tipo de promoção pública ou empresarial, está a ser utilizado por mães e pais, nem sempre galego-falantes. Afinal, é um produto de qualidade, com letras que a criançada entende, com coreografias que acompanha e que os pais podem cantar e dançar:

“Meu pintinho amarelinho, cabe aqui na minha mão, quando quer comer bichinhos, com os seus pezinhos ele cisca o chão”.

Recentemente soubem de uma mãe galega que passava para a sua filha La Gallina Pintadita, a versão em castelhano da tal série. Talvez por que ela não entendesse ou achasse que a sua filha não ia entender a versão original? Não creio nem que essa questão fosse levantada. Pode ser tão simples como que ela foi sociabilizada, como fomos todos nós, em que Portugal e o Brasil, e portanto as suas pessoas, as suas línguas e os seus produtos, são alheios a nós, são estrangeiros, não nos entendem, não os entendemos. Por outras palavras, somos educados para nos limitar, limitando a língua da Galiza.

Para além das nossas práticas ortográficas e das nossas estratégias para a língua da Galiza, o certo é que o aproveitamento do castelhano na Galiza está em 100%. O pessoal entende, usa, escuta, lê, navega… Ora, no caso do galego a percentagem e muito menos simpática. Para muitos galegos, sobretudo nas cidades da costa, perto de 0%. Talvez de aí derive parte do seu baixo estatuto social e o seu abandono, do não uso.

Acaba de ser aprovada a Lei Valentín Paz Andrade focada para o aproveitamento da língua portuguesa. Todos os grupos parlamentares votaram em seu favor o que indica que todos eles, alguns por primeira vez, acham que se deve abrir uma nova fase no relacionamento com os países de língua portuguesa.

Parece que a assunção de a nossa vantagem competitiva no quadro europeu, e até mundial, ser a língua, passa a ocupar um lugar central na esfera política. O dia 11 de março deveria ser o dia ZERO desta mudança de paradigma. Não vai ser um caminho rodado porque o peso da inércia é poderoso e vai precisar do impulso de todos e da pedagogia de muitos. Está sobre os nossos ombros a tarefa de que as gallinas pintaditas acabem por ser uma rara avis no nosso ecossistema. Isso depende de que os galegos e as galegas, falemos a língua que falarmos, podamos chegar a viver o galego nos seus 100%.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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