O 155 e outros erros de cálculo do capitalismo



O problema de pensar que tudo vale, quando (após considerar a utilidade da existência de um adversário) se toma a decisão que batê-lo ainda conviria mais aos próprios interesses é a complexa sequência de acontecimentos que se produzem e a incontrolada velocidade de ações e reações que dispara cada movimento de cada uma das peças do imenso xadrez.

Lembremos como a não aguardada aparição de Podemos apanhando o voto descontente numa eleições europeias, fez saltar todas as alarmes e obrigou a desenhar, magnis itineribus, com muitos dinheiros vindos de não sabemos onde e uma publicidade midiática impressionante, uma outra força de centro direita, para re-equilibrar preventivamente (e com sucesso) o espaço Parlamentar espanhol nas eleições a seguir.

Porém, as consequências de compor essa força reconvertendo um partido de ámbito catalão e discurso catalanófobo, juntando os restos dispersos de tentativas de Frente Nacional (UPyD, VOX, aznarismo), colocou de novo e no meio da política espanhola, essas guardadas obsessões nacionalistas e discurso identitário, que combinadas com a crise e os escándalos de corrupção, e ante a ameaça de perder o protagonismo como grupo referente nacionalista espanhol, lançaram o PP, com toda a sua maquinária ao centro da ação.

O surpreendente salto de posição de zero a cento de Podemos (e os grupos afins), que descolocara o PSOE e o sumira numa prolongada crise teatralizada, para que tudo continue na mesma, repete-se agora num PP que trata de assumir o crescimento do parvo útil de Ciudadanos, convertido em Frankenstein vociferante.

Pois, o PP foi apanhado, também às bravas, no decurso de uma mudança interna, profunda, mas discreta. Sob a batuta de M. Rajoy, um político da Restauração, émulo em discurso e lógica política de Eduardo Dato e verdadeiro homem de estado, começara no PP um processo de distanciamento da louca política nacionalista e internacional chefiada por J. M. Aznar tratando de volver ao rego e tranquilidade do Parlamentarismo rotativista, na procura da consolidação do turno governante conservador.

Por enquanto o grande capital é o mais nervoso e encirra todas as bestas, sem atender às consequências. A estratégia galega, tranquila, parlamentar, sobrevivente e com defesa clássica e desgaste de inimigos (externos e internos) de M. Rajoy não é compreendida, ou não é apreciada no seus ricos matizes. O Capital, no topo da oligarquia, assustado pelas mudanças de uma crise económica cíclica que curiosamente não compreende, procura na mudança política imediata voltar a tranquilidade anterior.

Por direita e centro-esquerda, pelos média e por contatos, o capital, quer forçar a PP e PSOE a virar cara uma política de concentração nacional; e sem compreender o problema estrutural do caciquismo (com que junto com o parlamentarismo compartilha tandem) identifica com o mal nacional as autonomias e a enredada questão das línguas. O pulso é intenso, porém a solução impossível, os interesses em jogo dos grandes partidos políticos, redes, estruturas para-administravas e os do caciquismo, garantem a solidez do sistema que os sustenta e se transforma nominalmente com ele.

No caminho o independentistmo da Catalunha, aproveitando o jogo revolto, entrou habilmente no campo. E num todos contra todos, no que os inimigos se definem e criam em função da sua utilidade, esta outra Restauração, sem guias e sem solução de problemas (que são a sua estrutura), entrou em crise, coincidindo com o centenário da anterior.

Repressão policial, censura, suspensão de garantias individuais, crimes de opinião, presos políticos e de consciência, nenhuma separação de poderes, imprensa partidária e intelectuais adscritos, exaltação neo-nacionalista e discursos ultra-espanholistas por toda a parte; o Rei, nos seus castelos de cristal, sonhando talvez com cirurgiões de ferro e ser protagonista. O modelo territorial e os pactos linguísticos – os explícitos e os implícitos – da transição perigosamente questionados por aqueles a quem mais interessa defender a estabilidade. O capital escumando e desbocado na sua carreira a nenhures, esmaga ao seu passo qualquer mínima discrepância com a exaltação do capitalismo.

Arrastados os líderes dos partidos rotativistas pelos sucessos, os efeitos, os discursos e a propaganda arredor do 155 e outros erros de cálculo do capitalismo, cada dia mais e mais sem agenda, fomos chegando até à reivindicação da supremacia da língua castelhana na Catalunha, à perseguição de gente pela opinião política, à censura pela sua obra, ou à acusação pelas discrepâncias ou pela originalidade no corte do cabelo. O abismo, ante os olhos cegos, e a sombra do fascismo rondando pelos cantinhos.

Re-make do Ruedo Ibérico, retábulo de maravilhas, esperpento. Por enquanto na Galiza, abrimos precavidamente os para-chuvas (made in Portugal), cautela, que na Espanha vão como tolos, e ainda hão de nos salpicar.

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza (Corunha, 1970). Formado como filólogo, publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. É sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa; atualmente é o Diretor do Portal Galego da Língua.
Ernesto V. Souza

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  • Joám Lopes Facal

    Forte recendo a final de ciclo, Ernesto.
    Quero crer que algo quer nascer, com boa estrela
    É isso o que contemplas em imagem?

    • Ernesto V. Souza

      Não contemplo nada… destruição unicamente. No future. No Way…

      Nem morrer em paz nos deixam.

      • Joám Lopes Facal

        E umha miragem fruto do isolamento, a gente que toma as ruas parece esperar algo mais.

        • Ernesto V. Souza

          Quem toma as ruas? Em Compostela?

  • abanhos

    Menos mal que o estado está na Europa, se não andariam a tiros.
    Castela/espanha no jogo da violência sente-se comoda e ajeitada. O nacionalismo supramacista espanhol, estava sempre aí, porém tirou a pantalha (máscara) e saiu a solta…o é plano é matar ou morrer matando.
    Para nascer algo como diria o Castelão sábio, antes teria-se que se romper castela/espanha.
    O progressismo alternativo e partidário de toda autoderminação que for longe ou en Marte, ficou no espelho retratado, e a sua neutralidade, que defendem nos processos, em realidade, é como em todos os casos de neutralidades, apoio aos que tem a aguilhada e o pau na mão, que ainda assim vai-te zorregar a esgalha