RODÍZIO DE LÍNGUA

15 palavras brasileiras que atrapalham galegos e portugueses



1.-Bala

Rio de Janeiro tem fama de cidade perigosa. Devo dizer que foi lá onde por primeira vez me oferecêrom umha bala. Nom foi um narcotraficante de Cidade de Deus, nem um polícia do BOPE, senom umha amável velhinha que com voz cándida repetia, -tem certeza que você não quer umha bala? Eu, medonho e brincalhom, respondim -certeza absoluta! Bala é, na variedade brasileira, um doce que no português europeu é denominado rebuçado.

 

2.-Criado-mudo

Você precisa de um criado-mudo? Foi o anúncio esquisito que vim numha rua de Juiz de Fora. Nem mudo nem tagarela, pensei eu. Criado-mudo é em português americano mesa de cabeceira!

 

3.-Café da manhã

No Brasil, se alguém che perguntar de manhã se queres café aceita ainda que nom gostes. A primeira vez eu rejeitei o convite e fiquei em jejum até o meio-dia. Café da manhã, ou simplesmente café, é o que na Galiza chamamos almorço, em Portugal pequeno-almoço e em Moçambique mata-bicho.

 

4.-Jogar

Eu jogo limpo com BH, eu jogo o lixo aqui, é a mensagem que pode ser lida nos caixotes do lixo da capital de Minas Gerais. Jogar no português brasileiro tem também o sentido de deitar fora que usamos em galego.

 

5.-Beleza

Se alguém na rua dixer beleza! nom fique envergonhado, vaidoso ou convencido. Nom é louvança nem elogio, apenas umha saudaçom. É o cumprimento mais bonito e alegre da nossa língua. Eu sou firme partidário de importá-lo para o galego: E aí? Beleza? 

 

6.-Galego

É duro ser galego. Povo perdedor, que renuncia à sua identidade e nom se valoriza. Galego tornou-se em ocasions palavrom preconceituoso e xenofóbico. Mas estamos de sorte. O carinho e hospitalidade por que é conhecido o povo brasileiro também é connosco. Galego nom é nengum insulto. É alguém de pele muito branca, loiro ou ruivo, olhos claros. Este significado explica-se por os galegos terem emigrado sobretodo para Salvador onde a maioria da populaçom é negra. 3 curiosidades: galeguinha é umha bebida fabricada em São Paulo; Lula, o ex-presidente do Brasil, chamava a mulher, carinhosamente, de galega; existe um canal de tv do estado de Santa Catarina chamado TV Galega.

 

7.-Camisinha

Embora muitas pessoas saibam que camisinha é um preservativo nom deixa de ter a sua graça já que para nós seria um simples diminutivo de camisa. Contodo, o que é desconhecido por muitos é o verdadeiro nome: camisa-de-vénus. Existe recurso mais poético que designar este anticoncepcional camisa da deusa do amor?

 

8.-A gente

Na outra beira do Atlántico ouvirás pessoas dizer “a gente nom gosta disso” e pensarás, e a este que lhe importará o que diga a gente. Na verdade, um dos traços mais característicos do português do Brasil é a substituiçom do pronome nós por a gente. A gente, portanto, a diferença do galego, inclui a pessoa que fala.

 

9.-Safado

Safar é verbo corriqueiro em galego com o significado de livrar-se de algo. No Brasil, no entanto, safado tem vários sentidos entre eles sem-vergonha, libertino, vicioso, ainda que também esperto, brincalhom.

 

10.-Fantasia

O entruido, carnaval galego-português, diz que é o mais antigo do mundo, mas o mais famoso é o Carnaval do Rio de Janeiro. Como nom amar a língua e cultura de um país onde disfarce se di fantasia e disfarçar, fantasiar. É lindo o português do Brasil, nom é?

 

11.-Vitamina

Sucos e vitaminas som duas palavras que vamos encontrar com freqüência nas ruas brasileiras. Mas vitaminas nom som uns comprimidos para tomar com o sumo e ficar mais forte, vitamina é em português brasileiro um batido feito de leite e fruta. Umha vitamina bem diferente para nós é a vitamina de abacate. Eu sei, parece nojento mas acreditai, é umha delícia!

 

12.-Academia

A academia é um lugar para sofrer, porém, ao contrário do que poda parecer, nom vai ser um sofrimento intelectual. As academias no Brasil som para transpirar mesmo pois é assim que som chamados os nossos ginásios.

 

13.-Meia

Nom estou a falar de roupa. Meia é a forma mais comum para dizer em português brasileiro o numeral cardinal seis. A origem deste uso há que procura-lo na expressom meia dúzia. Números de telefone, números de ónibus, números de matrícula, de carteira de identidade… no Brasil ouviremos meia e nom seis. Nom obstante, para dizer as horas do dia aí sim ouviremos o nosso número seis.

 

14.-Gaita

Na Galiza, gaita nom é apenas um instrumento musical, é um dos nossos símbolos identitários que partilhamos com portugueses e outros povos atlánticos. Se derem com um gaiteiro no Brasil nom achem que vamos poder dançar umha moinheira pois gaita no hemisfério sul é a nossa harmónica.

 

15.-Cancro

Podemos afirmar que, em galego-português, cancro é umha doença. Todavia, nom é a mesma enfermidade para um médico brasileiro que para um galego ou português. Na Galiza e em Portugal, cancro é o que no Brasil é denominado câncer, quer dizer, um grupo de doenças que envolvem o crescimento anormal celular. Já cancro no Brasil é um tipo de sífilis.

 

Artigo originariamente publicado no Sermos Galiza

Diego Bernal

Diego Bernal

Diego Bernal nasceu em Lugo em 1982. Licenciado em filologia galega pola Universidade da Corunha iniciou a sua carreira dando aulas de galego na EOI Jesus Maestro de Madrid, foi leitor da Junta da Galiza na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, professor de espanhol no ISEG da Universidade de Lisboa e professor de português nas EOI de Plasencia e de Montijo, na Estremadura. Atualmente mora no Brasil onde trabalha como professor na Universidade Federal de Viçosa.
Diego Bernal

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  • Venâncio

    Muito bem feito, Diego.

    O único ponto que merece reparo é “a gente”. Também em Portugal é de uso geral como alternativa informal de “nós”. A única diferença é o grau de informalidade. No Brasil já penetra em contextos menos informais, assim adquirindo uma maior frequência, e dando mais nas vistas…

    • Diego Bernal

      Obrigado, Fernando. É verdade. Embora os usos em ambos os países, como dizes, sejam bem diferentes.

      No Brasil nunca sinto falta do pronome “nós”, para ser sincero posso viver sem ele de boa. Já em Portugal não poderia. É por isso que decidi incluir este pronome.

      Aliás, podemos afirmar que essas palavras vão atrapalhar mais falantes de galego, sem contacto habitual com falantes de Portugal e do Brasil, que falantes portugueses que consomem todos os dias produtos culturais brasileiros como músicas, novelas, filmes, livros… e portanto possuem um conhecimento muito maior da variedade brasileira.

      Simplesmente queria mostrar como o português do Brasil em muitos aspetos é tão afastado -ou quase- para um galego como para um português.

      Abraço!

      • Venâncio

        Exactamente. Nesse sentido, e só para valorizar a tua colecção com mais uma descoincidência triangular gramatical…, lembro o caso de “você”, que é uma coisa para os brasileiros, outra para os portugueses, e outra ainda para os galegos.

        • http://bagoasnachoiva.blogspot.co.uk/ Roi BêNaChoiva

          O uso de «você» que fam os lusistas é um decalque do «usted» castelám, pois eles nom compreendem as subtilezas do trato português em três níveis (informal «tu», meio-formal «você», formal «o senhor / a senhora / a menina / o João … ») Por outra banda, em galego adoitavámos usar o «Vos» de formalidade, que eu proponho como soluiçom reintegracionista. Já os lusistas radicais, deveriam deixar de decalcar do castelám «usted» e deprender o uso das formas portuguesas de cortesia ajeitadas …

          • Venâncio

            Isso de reproduzir “as formas portuguesas de cortesia” parece-me um autêntico “hiperlusismo”. 😉

    • http://bagoasnachoiva.blogspot.co.uk/ Roi BêNaChoiva

      já me aconteceu o caso de entrar todo desatrouxoado numha minha jeira de capoeira quando ouvindo «a gente está entrando» fiquei estantio a mirar pròs lados … ainda bem que era umha quenda de adestramento, ou seja, informal!

  • http://bagoasnachoiva.blogspot.co.uk/ Roi BêNaChoiva

    Boa, mais caía de chós um artigo sobre as mil e cincocentas verbas galegas que trabucam portugueses e brasileiros. Por exemplo: jantar, sentidinho, retranca, e logo, remontar-se, acordo, bicar, chegada, chichí, chispa, chope, choupada, achego, chupe, zuna, rufo, encornado, rifar, saída, rumbo, tolo, axe, cangar, chistar, meiga, mentes, labrego, petar, abeiro, abada, alegrias, aquele, daquela, doca, dengue, ela, galho, guiço … e bota-lhe um cam ao rabo!

    • Venâncio

      Outros exemplos de semântica galega: amolar, arrolar, canastro, enchente, esteira, feito, fraga, labrego, pataca, regueifa.

      • http://bagoasnachoiva.blogspot.co.uk/ Roi BêNaChoiva

        Todas essas verbas haverám se perder no tempo … coma bágoas na choiva … http://bagoasnachoiva.blogspot.co.uk/2015/10/bagoas-na-choiva.html

        • Venâncio

          O que de certeza não é solução é impingir aos galegos a semântica portuguesa. Tal como brasileiros e portugueses não impõem mutuamente as suas. Sim, existe um limite para a desordem programada.

  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Ótimo! 🙂

    Também o acordeão é chamado de gaita (e de sanfona). 🙂